“Mas não precisamos saber pra onde vamos, nós só precisamos ir.”

Já me perdi em muitas curvas da Infinita Highway cantada pelo Humberto Guessinger. A complexidade do ir é muito maior do que se imagina. Você já parou pra pensar sobre o verdadeiro significado da liberdade? Sempre imaginava a liberdade como um ato, a ação de poder sair sem destino, sem lista de atividades para fazer, sem ter com o que se preocupar. Na verdade tenho até uma cena na minha cabeça do que ela representa: estar sentada na carona de um carro antigo, que está andando em uma estrada deserta e reta; o sol está se pondo no horizonte enquanto a sua cabeça está para fora da janela; sua blusa e seu cabelo balançam ao vento; seus braços estão esticados e sentem todo aquele vento gelado de alívio entrando pelos poros; você está cantando com toda a força da voz a sua música preferida; não existe medo, não existe arrependimento, não existe passado ou futuro, apenas o agora.

Contudo, meu conceito de liberdade começou a mudar nesses últimos dias e não está mais conseguindo ser representado por essa cena de filme hollywoodiano. Agora, vejo ela como um estado de espírito. Você pode “estar preso” à rotina, às obrigações, mas se você sente-se livre de espírito, então você, meu caro, é realmente livre de corpo e alma.

“Eu não tinha nada, nada a temer. Mas eu tinha medo, medo desta estrada. Olhe só! Veja você.” Pois é, a estrada toda a nossa frente dá medo, pois não sabemos o que surgirá no caminho, não sabemos até que ponto ela é reta, em que momento vira ladeira ou curva. A única certeza que temos é de que ela existe e nos chama para percorrê-la.

Têm dias que me sinto presa em algum ponto da estrada. É como se eu parasse numa encruzilhada e por ali ficasse horas tentando decidir no cara ou coroa qual rumo tomar. Nunca tinha imaginado que sentiria tanta falta da minha rotina e só agora vejo que o trabalho tomava bem mais do que metade do meu tempo. Não estou dizendo que você não deve ser responsável com suas obrigações, afinal você têm contas a pagar, filhos para sustentar, um cargo a cuidar. O grande ponto que quero chegar é que tudo isso pode ser cobrado de si mesmo de uma forma muito mais leve (obrigada pela lição, Lu Maria <3).

Você já parou pra pensar o quanto é refém de si mesmo, das suas próprias cobranças? Hoje eu posso afirmar que isso é um vício, já que estou vivendo na pele os efeitos de sua abstinência. Nessa última tarde fiquei trancada em casa, estava chovendo e não tinha como sair. Minhas atividades estavam resumidas a fazer as tarefas da casa e procurar apartamentos em alguns links que um amigo havia passado. Adivinhem se não resolvi tudo em meio turno? E o que me restou? Ficar de um lado para o outro da sala agoniada, perguntando o que estava fazendo de bom da minha vida.

No ápice do desespero, sentei em frente ao computador e comecei, enlouquecidamente, a atualizar meu LinkedIn, contatar amigos pelo Facebook, entrar em sites de freelas, mandar mensagens. Ahhhhhhh! Quando vi passaram-se horas, mas estava tão mergulhada no meu inconsciente que gritava por “ser útil”, que não percebi que na verdade não precisava ter feito isso dessa forma.

Eu posso aproveitar estes meses pra descansar e pensar com calma nos próximos passos, mas então por que não o faço? Tanta gente gostaria de estar aproveitando este ócio criativo. O problema é que eu nunca tive tempo livre e não sei MESMO como lidar com ele. É como domar um animal selvagem.

Eu amo trabalhar e amo o que faço, é muito difícil se afastar dessa paixão. Ela era a minha segurança, era aquilo que me motivava a sair da cama todos os dias e encarar a vida, era aquilo que me dava orgulho e me fazia sentir bem comigo mesma, era aquela sensação de dar e receber, de fazer alguma coisa para o outro. Só que agora preciso achar outra paixão para preencher todos esses requisitos.

Mas a vida é uma caixinha de surpresas. Não bastou eu ter trabalhado exaustivamente esse assunto na terapia, eu tive que ganhar de presente do destino um momento REAL de “desintoxicação”. Eu, por algum motivo, estou aqui suando frio por ter que descobrir o que fazer com essa tal de liberdade e eu TENHO que ser amiga dela.

“Eu vejo um horizonte trêmulo
Eu tenho os olhos úmidos
Eu posso estar completamente enganado
Posso estar correndo pro lado errado
Mas a dúvida é o preço da pureza
E é inútil ter certeza
Eu vejo as placas dizendo “Não corra”, “Não morra”, “Não fume”
Eu vejo as placas cortando o horizonte
Elas parecem facas de dois gumes”

Como diz o grande Humberto, as placas estão aí, nos dando ordens e alertando sobre os perigos que estão nos esperando a cada quilômetro da estrada. As placas são nossos pais, nossos amigos e até nossos inimigos. Mas quantas vezes deixamos de dar atenção a elas? Quantas vezes ignoramos os seus alertas? Quantas vezes cometemos erros que poderiam ter sido evitados se tivéssemos pensado antes? Quantas vezes adoecemos por atingir o nível máximo da exaustão? Quantas vezes achamos que as placas são caretas e não sabem de nada sobre a vida?

Então, meu amigo, o que posso dizer pra você é: leia as placas e não ignore aquela luzinha que está dentro de você piscando e pedindo para tirar um sonho do papel, ou aquele plano esquecido, aquela vontade reprimida. Sei que você deve achar, muitas vezes, que suas vontades são ridículas.

Se a sua vontade é aprender algo que você deveria ter feito quando criança ou adolescente e nunca fez, vai lá. Aprenda a andar de bicicleta, dê um beijo na chuva, toque uma campainha e saia correndo, dê um sorriso para um estranho e fique envergonhado, compre um sonho na padaria e suje até o nariz de açúcar. Entregue-se, nem que seja de vez em quando, para essas vontades bobas. Elas são a sua liberdade. Elas são a sua felicidade.

 

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2 opiniões sobre ““Mas não precisamos saber pra onde vamos, nós só precisamos ir.”

  1. estou aqui na sala de embarque do aeroporto depois de dois dias muito cansativos.
    depois de reunioes de 4h cada uma e um esgotamento psíquico maior do que eu gostaria de admitir.
    depois de muito esforço, dias bem corridos, alguns puxões de orelhas e duas frases pingadas pelo cliente em meio a conversas aleatórias que inflaram meu peito e brilharam meus olhos na direçao daquilo que venho construindo e me dedicando para tal.
    tu sabe bem que eu precisei passar do fundo do poço para encontrar meus limites. e que mesmo assim hj eu preciso ficar me policiando o tempo todo, para não cair nas armadilhas de mim mesma e entrar no loop de que o que faço nao é o suficiente.
    assim inclui na minha rotina pequeninas coisas que me ajudam a construir uma vida que seja minha. ir com o boy no cinema, rolar com os sobrinhos no chao, comprar algo que eu ache que queira muito, ler meus livros, etc.
    me dói imaginar a dor que estas passando, mas me enche de orgulho saber o quanto isto vai te fazer crescer e te trazer novos horizontes e uma historia única de vida.
    espero que tu encontre um meio termo logo, que consiga achar coisas novas para ocupar o teu tempo e que o trabalho se ponha em seu lugar. que este balanço continue servindo para quando o trabalho chegar. e que tu lembre, sempre, que nos momentos de incerteza os amigos estão bem aqui.
    amo o trabalho, com a mesma força que te vi amar o trabalho por tantas e tantas vezes. mas nao somos apenas isto. somos também tudo o que construimos em todas as outras esferas da vida.
    continua escrevendo meu anjo, é lindo. te amo.

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    • Você sempre tem o melhor conselho para dar, minha amiga. Eu me inspiro em você e toda essa garra para sair dos momentos mais escuros que a vida colocou no seu caminho. Obrigada mais uma vez por compartilhar esses ensinamentos e mostrar que a vida pode ser maravilhosa. Te amo!

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