“Por isso hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado. De bater na porta do vizinho e desejar bom dia.”

Quando você está na sua cidade natal, passa o dia sendo inundado por paisagens conhecidas e acolhedoras, de afeto dos mais próximos, pelos sabores que tanto gosta, pela música local que faz seu coração bater mais forte e por cheiros que remetem à lembranças boas. Infelizmente, por muitas vezes, nem percebe o quanto isso é acolhedor. Mas quando você está longe, qualquer som, odor ou gesto que lembrem a sua origem, viram quase um evento. Zeca Baleiro compara muito bem a tristeza e a solidão com os personagens do nosso cotidiano na música “Telegrama”, o que faz a saudade bater ainda mais forte.

Eu tava triste, tristinho
Mais sem graça que a top-model magrela
Na passarela
Eu tava só, sozinho!
Mais solitário que um paulistano
Que um canastrão na hora que cai o pano

Para compensar esses sentimentos, muitas vezes escuto músicas de artistas brasileiros, faço comidas que minha mãe me ensinou e, claro, leio livros em português. É incrível como em alguns momentos você sente uma vontade louca de entrar num restaurante que sirva uma “à lá minuta” com feijão ou de escutar um artista de rua cantando Roberto Carlos. Mas por aqui tudo é diferente e você precisa adaptar suas vontades ao que a cidade oferece.

Mas ontem eu recebi um telegrama
Era você de Aracaju ou do Alabama
Dizendo: Nêgo, sinta-se feliz
Porque no mundo tem alguém que diz
Que muito te ama!
Que tanto te ama!
Que muito, muito te ama
Que tanto te ama!

Contudo, esses dias recebi um presente. Fui a um restaurante que, no meio de sua playlist, tocou um samba. Apesar dos hamburgers, dos papos em alto e bom som em inglês que estavam rolando nas mesas ao lado e da bandeira americana tremulando na porta, por três minutos me senti em casa e fiquei realizada. Confesso que até deu vontade de levantar da mesa e começar a dançar de alegria, mas me contive e apenas expressei a gratidão através de um sorriso.

Por isso hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria

Dia 28 de janeiro comecei a estudar inglês na San Diego Continuing Education – SDCE, localizada em Point Loma. Tenho aula todos os dias pela manhã com mais de 30 colegas de diferentes nacionalidades. É muito interessante escutar suas histórias, pois você conhece pessoas que estão na mesma situação que a sua e, mesmo sendo de uma cultura totalmente diferente, sentem as mesmas coisas: as mesmas saudades e guardam as mesmas lembranças da sua terra na memória.

Apesar das pequenas alegrias que é possível encontrar aqui através de uma feijoada típica brasileira ou de um jogo de futebol, quando você abre espaço para conhecer pessoas novas e deixa elas fazerem parte da sua vida, este sentimento de pertença fora do seu país começa a se construir.

Na última sexta-feira resolvi abrir mais meu coração durante o trabalho voluntário e vejam só o que aconteceu: aprendi a dançar salsa com uma cliente, assisti o pôr do sol com outra, aprendi mais sobre história da arte com um professor aposentado e ajudei duas crianças a escolherem seus livros. Sai de lá no final do dia com vontade de sorrir para o mundo, de bater na porta do vizinho e dizer “good night!” e de cantar rap com o atendente da 7-Eleven. Tudo isso e muito mais apenas por deixar cair todas as barreiras da insegurança e ser apenas eu mesma. Foi tão recompensador, que agora quero exercitar isso sempre.

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