“Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia. Eu não encho mais a casa de alegria. Eu não vou me adaptar.”

Esta semana o tema das aulas de inglês foi sobre “cultural shock”, ou seja, o choque cultural pelo qual passamos quando mudamos de país. O interessante foi notar que TODOS os quarenta colegas ( a turma é composta por pessoas de 26 nacionalidades diferentes) identificaram-se com os sintomas causados por esse processo de mudança. Segundo os estudos feitos sobre o assunto, passamos por cinco estágios de adaptação quando não somos mais apenas turistas. São eles: período de lua de mel, choque cultural, adaptação inicial, isolamento mental, e aceitação e integração.

1. Período de lua de mel: inicialmente, muitas pessoas ficam fascinadas e excitadas com tudo que vão conhecendo da nova cultura. Cada descoberta é uma experiência que será guardada em sua memória para sempre. Porém, esta fase só acontece uma vez, por isso é preciso aproveitá-la ao máximo. 

Quanto a esta fase, posso dizer que a vivi apenas na primeira semana, já que o choque cultural acontece muito rápido quando você tem a certeza de que vai ficar por um longo tempo em um novo país. Nos primeiros dias em San Diego, fiquei encantada com a educação das pessoas no trânsito e nos espaços públicos em geral, com o valor baixo de itens que pagamos uma verdadeira fortuna no Brasil (carros, maquiagem, cosméticos, roupas de marca, comidas…), com a pouca burocracia necessária para resolver questões complexas como alugar um carro ou uma casa, com o grande número de ciclovias na cidade, com a beleza natural, entre tantas outras coisas boas.

2. Coque cultural: as pessoas começam a ficar imersas em novos problemas como moradia, transporte, emprego, compras do dia a dia e a língua. A fatiga mental é um dos resultados do contínuo estranhamento e tentativa de entendimento da nova língua e cultura.

Acredito que esta fase é uma das mais demoradas a passar. Não tive dificuldades para me adaptar com o transporte público, com as idas ao supermercado e lojas em geral, com a procura da casa e todo o envolvimento exigido para mantê-la. Mas a língua, esta sim prega peças em você todos os dias. Nem é preciso sair de casa, pois você vai ter que lidar com ela na televisão, no rádio e na porta da sua casa (algumas vezes é o carteiro trazendo alguma entrega, o seu vizinho pedindo alguma coisa ou o síndico do prédio explicando uma nova regra) e você precisa aprender a lidar com todas estas questões.

Algumas coisas causarão por muito tempo – ou para sempre – estranhamento. A comida é a principal delas. Em San Diego é muito comum você ver restaurantes de comida mexicana (principalmente tacos) e hamburguerias. Os americanos usam muito mais o drive-thru do que as dependências do restaurante. Até as farmácias possuem drive-thru! Por isso, o almoço resume-se basicamente a lanches rápidos, muitas vezes feitos no escritório ou no carro. Esse foi um dos motivos que me fez optar por comer sempre em casa no almoço, já que não dispenso feijão, arroz e carne, ou uma massa com molho, arroz com legumes, enfim, comida de verdade! Além disso, a comida daqui não tem o mesmo sabor da comida brasileira, falta aquele gosto de comida “fresquinha”, de tempero (não estou contando pimenta, pois aqui tudo tem pimenta!), parece que as coisas são muito artificiais.

Outro choque cultural que tive aqui foi com o tamanho das coisas. Nunca se pode pedir alguma coisa grande, pois o grande é gigante (claro que, se você estiver com MUITA fome ou MUITA sede, vá em frente!). Por exemplo, um balde de pipoca grande no cinema dá para três pessoas comerem com muita tranquilidade. Acredito que esse seja um dos motivos que faça com que muitos americanos sejam obesos. Além disso, como carro é um item barato, as pessoas quase não andam a pé. Sinto-me uma estranha quando dou meus passeios de camelo ou de bike.

Ao mesmo tempo, por aqui tudo é muito correto. Você precisa seguir as regras, não dá para aplicar o “jeitinho brasileiro”. Essa diferença eu considero extremamente positiva, pois faz com que a cidade seja um local seguro para se viver. Sem contar que as pessoas são muito simpáticas e solícitas. Posso contar nos dedos os americanos que foram grosseiros comigo. Sempre que precisei, recebi ajuda e fui muito bem recebida e atendida nos lugares pelos quais passei. Ah, os americanos são muito politizados, eles discutem muito sobre os assuntos que estão acontecendo na atualidade e possuem um vasto conhecimento acerca da história do seu país. Eles realmente conhecem a sua origem e se orgulham disso.

3. Adaptação inicial: com o passar do tempo os problemas de moradia e compras, por exemplo, vão se resolvendo. A pessoa ainda não fala fluentemente a nova língua, mas já consegue expressar ideias e sentimentos básicos. 

Acredito que estou entre esta fase e a fase do choque cultural. Como tudo ainda é muito novo, o choque é grande, mas o aprendizado diário da língua faz com que você vá ganhando confiança aos poucos e passe a sentir-se um pouco melhor a cada dia.

Ainda não tenho como descrever as fases abaixo, pois não cheguei lá. Mas acho interessante compartilhar mesmo assim o que elas significam.

4. Isolamento mental: algumas pessoas ficam um longo tempo ser ver sua família e amigos e acabam sentindo-se sozinhas. Muitas vezes não conseguem expressar seus sentimentos a não ser na sua língua nativa. Isso causa frustração e perda da autoconfiança. Algumas pessoas permanecem nesta fase por um longo tempo, principalmente se não têm um emprego. 

5. Aceitação e integração: a rotina já está estabelecida. As pessoas já estão acostumadas com os hábitos, costumes, comidas e características do povo e da nova cultura. Já sentem-se confortáveis com a língua e fazem novos amigos. 

Na música “Não vou me adaptar”, de Nando Reis, o choque caudado por uma mudança é descrito de forma brilhante.

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia,
Eu não encho mais a casa de alegria.
Os anos se passaram enquanto eu dormia,
E quem eu queria bem me esquecia

Com o passar dos meses, você vai percebendo que as coisas estão mudando no seu interior. Como cada dia exige um esforço maior, mesmo que já tenha estabelecido uma rotina, você amadurece de forma mais rápida do que se estivesse no seu país, na sua zona de conforto. Existem pessoas que passam muitos anos da sua vida longe do seu país de origem e não conseguem se adaptar aos novos costumes que precisam enfrentar no seu cotidiano. Assim como tudo na vida, algumas pessoas possuem mais facilidade do que outras para enfrentar as mudanças da vida.

Confesso que alguns dias são bem sofridos para mim, pois sinto muita saudade da minha família, dos meus amigos e do meu trabalho. Nessas horas, o sentimentalismo não ajuda muito, mas é preciso absorver as novidades da forma que você é, afinal, nada vai mudar a sua essência (ainda bem!).

Eu não tenho mais a cara que eu tinha,
No espelho essa cara já não é minha.
Mas é que quando eu me toquei, achei tão estranho,
A minha barba estava desse tamanho.

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou me adaptar!
Me adaptar!

Com o tempo, tenho certeza de que um dia vou acordar, olhar no espelho e ver uma nova pessoa. Você é feito das suas escolhas e das suas experiências. Toda a sua bagagem cultural irá afetar a sua opinião sobre os mais diversos assuntos do mundo. Por mais que eu diga muitas vezes que não vou me adaptar, em alguns dias sinto-me quase como uma nativa. E assim a vida vai seguindo o seu curso natural.

Assim como existe um estranhamento do novo país, certamente terei um estranhamento quando for visitar o Brasil, o inverso também irá acontecer. As coisas por aqui são muito diferentes. Chegou um ponto que eu decidi não comparar mais. Se a língua é diferente, a moeda é diferente, a comida é diferente, ou seja, é uma cultura totalmente diferente, por que comparar?

Vejo muitos brasileiros idolatrando a nova cultura e repudiando seu país. Fico triste com isso. Todos sabemos que o Brasil possui diversos problemas e está enfrentando uma séria crise política. Mas temos tantas coisas boas para se orgulhar! Muitos americanos, assim como muitos colegas de outros países, já me disseram que querem muito conhecer o Brasil. E os que já foram para nossa terra, dizem ter adorado. Então, por que precisamos cuspir no prato que comemos? Parte do que sou devo a minha pátria amada. E não existe choque cultural que irá apagar a minha origem. Se a situação está ruim, também cabe a nós fazermos alguma coisa para ajudar o país a mudar (mas este assunto é tema para outro post).

Obs.: o texto completo sobre cultural shock que estudei em aula está disponível online (em inglês): http://anh-tourguide.blogspot.com/2011/11/unit-2-cross-cultural-conflict.html

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