“Pois seja o que vier, venha o que vier. Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar.”

Não preciso de uma data comercial para falar de amizades. Tampouco de um assunto importante para iniciar uma conversa com meus amigos. Quando se é amigo de verdade, QUALQUER tópico é motivo para se trocar dezenas de mensagens no WhatshApp, passar vários minutos ao telefone ou de se arrumar uma desculpa para transformar o happy hour em janta, estender a jantar para um bar ou para a casa do amigo, e por lá acabar ficando até o outro dia de manhã. Afinal, é preciso muito tempo para colocar o papo em dia.

Quando eu descobri que partiria do Brasil, a distância dos pessoas que amo foi o que mais me fez sofrer. Por mais que escutava “Você fará novos amigos por lá”, sentia que não seria a mesma coisa. Bom, passaram-se três meses e meio e agora posso dizer que tenho amigos nos EUA. Claro que ainda está longe de ser como no Brasil, mas agora já tenho um começo.

Por mais estranho que pareça, nenhum dos meus novos amigos é americano. Fiz três grandes amizades na aula de inglês: com uma espanhola, com uma suíça e com um mexicano. Além disso, fiz amizade com um casal paulista e um colega de trabalho do meu marido, também paulista. Esse seleto grupo de pessoas maravilhosas faz com que me sinta mais acolhida por aqui. Nossos programas são basicamente ir um na casa do outro, pegar uma piscina, comer, tomar uns drinks, conversar e ir à praia. Por vezes, vamos a algum restaurante ou barzinho, mas é mais raro. O que importa mesmo é estar em um lugar confortável que dê para conversar e dar boas risadas.

Milton Nascimento resumiu o significado de uma amizade verdadeira na “Canção da América”. Amigo chora quando o outro parte. Amigo mora no coração e entende sua alma. Amigo guarda lembranças, chora e sorri com você por perto ou lembrando de você quando está longe. Amigo supera tudo e ajuda você a empurrar todas as pedras que aparecem pelo caminho.

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir

Mas três meses e meio é um tempo grande se você pensar que, quando está vivendo há muitos anos em um mesmo lugar ou trabalhando há muito tempo em uma empresa, todo tipo de relacionamento acontece de forma mais fácil e natural. Não é preciso meses de convívio para iniciar uma amizade.

Pode ser que seja uma sensação minha, mas enquanto ainda se está construindo o sentimento de pertença a um lugar, você fica mais desconfiando de tudo e leva mais tempo para abrir seus sentimentos e falar abertamente dos seus problemas. Os primeiros encontros com os outros são sempre mais superficiais. Demora um tempo até você falar dos seus medos, das suas preocupações, dos perrengues pelos quais passou, das suas manias e das dúvidas que você tem sobre os próximos passos.

Além disso, também acredito que os brasileiros são muito mais abertos para relacionamentos. Confesso que é difícil fazer amizade com americanos, por exemplo. Para começar, eles demoram semanas até encostar em você. Essa história de dar dois beijinhos quando você conhece a pessoa, não acontece aqui. Eles também são mais individualistas. Sinto que nós brasileiros temos mais esta necessidade de ter os outros por perto sempre, de mandar mensagens, e-mails, dar presentes, ligar. Enfim, de acolher o amigo como se fosse parte da nossa família e mostrar o quanto você realmente se importa com eles. Um amigo brasileiro que namorou uma americana, disse que sentia o mesmo individualismo com ela. Então, se com o namorado existe isso, imagina com um amigo.

Mas cada cultura tem suas características e seu histórico. Sabemos que os adolescentes americanos saem de casa assim que se formam no Ensino Médio e que precisam aprender a se virar sozinhos muito cedo. Tudo isso faz com que eles sejam mais individualistas e façam as coisas por si mesmos, sem precisar contar muito com os demais. Acredito que também deve ser por isso que acabam consumindo tantos livros de autoajuda (e isto eu posso comprovar, pois vejo na biblioteca a absurda quantidade de “self-help” que são vendidos). Os americanos preferem resolver sozinhos os problemas.

Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

E é aí que entra a importância de nunca deixar seus amigos “de raiz”. O contato com meus melhores amigos do Brasil faz com que eu me sinta mais segura. Na última semana acompanhei à distância a superação de grandes desafios de dois dos meus melhores amigos. Por mais que tenha o delay do fuso, estava ali, sentindo eles perto de mim, sofrendo junto com os seus problemas e vibrando com as conquistas.

Meus amigos são o meu suporte, a família que eu tive o privilégio de escolher para fazer parte da minha vida. Aqueles que eu sei que posso apenas olhar no olho para saber se estão bem ou mal. Aqueles que eu sei quais são seus medos, seus sonhos, suas dores, suas crises e suas crenças. Aqueles que apontam o dedo na minha cara quando eu estou errada e que choram junto comigo quando estou desesperada. Ou que caem no chão de tanto rir comigo com uma piada que só nós achamos engraçada ou por lembrar de uma experiência idiota que tivemos juntos.

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam “não”
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Em cada fase da nossa vida ganhamos novos amigos. Por vezes, conhecemos um amigo na infância e vivemos até os últimos dias de nossas vidas ao lado deles. Por vezes, as circunstâncias os levam para longe e acabam nos afastando, mesmo que você more a uma quadra da casa dele. Outras vezes, a distância não é motivo para afastamento, pelo contrário, ela fortalece a união.

Acredito que ninguém consegue ser feliz sozinho. Claro que você consegue ter uma boa vida se estiver bem consigo mesmo. Mas de que adianta ter grandes feitos e se não pode compartilhar com ninguém? De que adianta ter uma boa casa se ela não pode receber pessoas do bem para espalhar sorrisos pelos cômodos? De que adianta ter dinheiro se ele não compra amor verdadeiro? Amigo de verdade gosta de você pelo que você é por dentro.

E é por isso que eu digo, meus amigos, que ainda vamos nos encontrar. Pode ser que leve meses ou até anos, mas eu amo muito vocês e não tem um dia em que não envie boas energias para a sua jornada. Seja no Brasil ou em San Diego, ainda vamos nos ver e passar horas conversando sobre a teoria de tudo.

Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar

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Uma opinião sobre ““Pois seja o que vier, venha o que vier. Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar.”

  1. Eu sinto muito a tua falta. diversas vezes, todos os dias. as palavras amigas, os puxoes de orelha, o compartilhamento do caos, as bebedeirinhas, os almocos…
    sou grata por tudo o que a internet nos possibilita e por poder estar um pouco perto. mas a saudade existe e ela esta sempre bem aqui agarradinha comigo.
    tu faz muuuitas falta em todos meus segundos. te amo

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