“Não me deixe só. Eu tenho medo do escuro. Eu tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha voz.”

Na louca rotina que vivemos, muitas vezes esquecemos de dedicar tempo para nós mesmos. Há quatro meses atrás, confesso que não conseguia organizar o tempo que sobrava do meu dia para fazer coisas para mim. Acabava trabalhando até mais tarde, ou cuidava das coisas da casa, ou ainda estava tão cansada, que só queria chegar em casa, tomar banho e ir dormir. Mal sobrava tempo para ler algumas páginas de um livro, acabava fazendo isto no ônibus (quando conseguia lugar para sentar). Fazia exercícios no máximo duas vezes por semana e minha dieta não era das melhores.

Porém, quando a vida dá para você a chance de ter tempo, você acaba se reencontrando consigo mesmo e reaprendendo a fazer o que já havia esquecido há muito tempo. Não estou falando de ser egoísta e pensar apenas em si, mas sim de hobbies que você tem, que fazem de você uma pessoa mais feliz e melhor. Seja tocar um instrumento, ler, desenhar, pintar (agora várias pessoa voltaram a fazer este grande passa tempo que eu amo após lançarem livros voltados para adultos), cantar, praticar algum esporte, olhar televisão, ou simplesmente não fazer nada. Ou seja, simplesmente passar um tempo consigo mesmo fazendo algo prazeroso.

Não me deixe só
Que o meu destino é raro
Eu não preciso que seja caro
Quero gosto sincero de amor

A música “Não me deixe só”, de Vanessa da Mata, define muito bem meu momento atual. Terei que ficar três semanas totalmente sozinha aqui em San Diego. Para a minha sorte, sete dias já se passaram. Ao mesmo tempo que está sendo difícil conviver com a casa vazia, passei a cuidar mais de mim. Agora, após meu curso, pego minha bike e ando ao menos 10 km. Optei pela bike, pois não gosto de academia e, como não estou trabalhando no momento, não tenho como pagar aulas de Pilates, Yoga ou Ginástica. Além disso, a cidade tem tantos lugares incríveis, tanta natureza e paisagens maravilhosas, que fica muito mais fácil fazer exercícios ao ar livre. Sem contar que existem ciclovias por todos os lados e, quando não têm, placas sinalizam que por aquela rodovia passam ciclistas.

San Diego é uma cidade com muitos ciclistas, pra falar a verdade. Existem diversas lojas de bikes e acessórios, ciclistas profissionais, famílias inteiras que optam por passear de bike aos finais de semana, além de passeios guiados pelos pontos turísticos da cidade, tudo de bike. Você só precisa escolher por quanto tempo está disposto a pedalar.

Além da bike, vejo muitas pessoas por aqui andando de skate, correndo, caminhando ou fazendo ginástica. Sempre lembro do Rio de Janeiro e de todas aquelas pessoas lindas fazendo exercícios ao ar livre, desfrutando da sorte que têm de morar em uma cidade praiana, cheia de inspiração.

Quando chego ao meu destino, paro pelo menos 30 minutos para ler. Estou intercalando leituras em inglês e em português, pois ainda não consegui aderir totalmente só ao inglês. Ler sempre foi uma das minhas paixões e agora estou conseguindo colocar em dia a pilha de livros que eu havia comprado no Brasil, mas não tinha tempo para ler.

Também passei a fazer uma dieta acompanhada por uma nutricionista brasileira e acabo dedicando bastante tempo preparando cada refeição. Além disso, assim como no Brasil, aqui as frutas, verduras e alimentos naturais são mais caros. Por isso, é preciso fazer uma boa pesquisa nos supermercados antes de comprar qualquer item.

Resumindo, estou tentando ter uma vida mais saudável, sem deixar de comer as coisas que eu gosto (como chocolate!), e aproveitando ainda mais a cidade, já que todo dia acabo descobrindo um novo lugar ou tendo uma nova experiência pelo caminho. Após algum tempo, você ganha mais confiança e começa a desbravar a cidade por caminhos que não são tão populares sem ter medo de se perder (e quando isso acontece, uso o Google Maps).

No início, ia sempre para a mesma praia, Ocean Beach, pelo único caminho que conhecia. Depois, descobri que existia uma ciclovia que costeava um rio até chegar na mesma praia. E agora, segui outras rotas propostas pela ciclovia e conheci meu novo lugar favorito: Mission Beach. Para intercalar, por vezes sigo outros caminhos e vou para Pacific Beach ou ainda para o lado oposto à praia. Contudo, pesquisei novas rotas e vou começar a desbravar novos percursos.

Não me deixe só
Que eu saio na capoeira
Sou perigosa, sou macumbeira
Eu sou de paz, eu sou de bem, mas

Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz

Estar sozinha em outro país é algo assustador e, ao mesmo tempo, muito desafiador. Você precisa ser forte para suportar a solidão e corajoso para sair todos os dias de casa sabendo que precisará lidar com diferentes tipos de situações sem ter ninguém conhecido por perto para ajudá-lo. Falar sozinho, rir de si mesmo e, por vezes, sentir medo, é algo totalmente natural. Contudo, você acaba falando muito mais a segunda língua, fazendo ainda mais amigos ou reforçando a amizade com aqueles que já conquistou na nova terra.

Acho incrível como os imigrantes ajudam um ao outro por aqui. Quando a professora me perguntou como tinham sido minhas férias de primavera, respondi que não muito boas, pois meu marido estava viajando e não gostava de ficar sozinha. Depois disso, colegas brasileiros que eu acabo só cumprimentando na aula, vieram oferecer ajuda, caso fosse necessário. Uma senhora inclusive me passou seu telefone, dizendo que eu poderia ligar a qualquer hora. Meu amigo mexicano já me acolheu na sua casa esta semana com uma janta e minha amiga suíça também combinou um encontrinho.

E assim, dia após dia, San Diego está sendo um aprendizado muito maior do que eu esperava. Ao mesmo tempo que traz saudade, traz conhecimento interior, paz, amizade, coragem e muita sabedoria. Que venham os próximos desafios 🙂

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2 opiniões sobre ““Não me deixe só. Eu tenho medo do escuro. Eu tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha voz.”

  1. Li este post hoje de manhã cedo, antes de sair de casa. Fiquei indo e vindo, repensando, re-analisando, te imaginando. Eu tenho muito orgulho de ti, espero que tu nunca se esqueças disto. Fico feliz em te ver desbravando o novo, seguindo novos rumos, procurando novos caminhos. Mesmo que para chegar num mesmo lugar. Porque a gente não olha para si antes? Porque nos deixamos tomar por este fluxo e verdades incontestáveis que assolam nosso dia, nossa saúde, nossos relacionamentos?
    Lembro de ti aqui, as vezes que ficou sozinha e a forma como tentamos te acolher. Te imagino por ai e fico feliz que tenhas aí outras frentes de carinho que tentam te acolher do seu próprio jeito, cultura, costumes. Abre o coração, se tu não expor o que sente, as pessoas não poderão chegar.
    E continua andando. Os próximos 14 dias vão voar, vão sim :*
    te amo

    Curtido por 1 pessoa

    • Aprendi muito nas vezes que fiquei sozinha em Porto Alegre, mas eu tinha vocês para me acolher. Era uma situação diferente. Foi muito bom que isso tenha acontecido, pois foi essencial para que eu conseguisse ficar totalmente sozinha aqui hoje. É muito diferente estar sozinha no seu país, na cidade que você conhece desde sempre, em que trabalha, tem amigos, família… Obrigada por ter feito parte desse meu aprendizado e ter me ensinado que, na verdade, nunca estou só. Sei que sempre posso contar contigo, em qualquer lugar deste mundão.
      Estou tentando fazer novas amizades, mas não é fácil, ainda mais quando você sabe que elas logo poderão partir para suas cidades ou países de origem. É uma nova forma de ver o mundo.
      Te amo muito ❤

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