“É chato chegar a um objetivo num instante. Eu quero viver nessa metamorfose ambulante”

Ando pensando muito e escrevendo pouco, eu sei, mas um dos encontros que a minha imaginação proporcionou nesses últimos dias foi entre Raul Seixas e Cecília Meireles. Sim, parece algo estranho em um primeiro momento, porém, se você parar pra refletir, eles têm muito em comum. Os dois eram grandes poetas que faziam das palavras mágicas combinações. Toda vez que escuto Raul ou leio Cecília, sinto-me em paz, sinto-me reflexiva.  Eles nos fazem pensar sobre a vida, sobre o amor, sobre a dor e sobre todas as possibilidades.

O último livro de Cecília Meireles que li foi “Escolha seus sonhos”, que não por acaso acabou nas minhas mãos em uma biblioteca aqui de San Diego. Devorei cada crônica em menos de dois dias. Virei a última página com uma vontade louca de desbravar o mundo com um caderno e uma caneta embaixo do braço anotando cada detalhe que meus olhos pudessem ver.

Entre uma das crônicas descobri a “A arte de ser feliz”, que é uma descrição linda de todas as vistas que a autora já teve através das janelas pelas quais passou. Não é um olhar simplista descrevendo o cenário a sua frente, mas sim uma visão profunda de cada detalhe visto pelo seu coração. Aprender a olhar em profundidade é algo que leva tempo, mas Cecília sempre soube fazer isso como ninguém.

Inspirada na “Metamorfose ambulante do Raul” e no olhar para além das aparências de Cecília, gostaria de compartilhar as janelas pelas quais vi o mundo sob diferentes ângulos.

A primeira janela que tenho lembrança dava para um quintal. Eu era criança e certamente esse era o meu lugar preferido. Ali, no meio daquele gramado verde repleto de sombras projetados por um pé de Ingá, eu me sentia livre para brincar e construir o meu próprio mundo. Nessa época, existia por ali uma casinha de madeira feita pelo meu avô. Minha única reocupação era acordar pela manhã e averiguar se tinha sol para poder desfrutar do meu paraíso.

Minha segunda janela era localizada nos fundos da casa dos meus pais. Como era no segundo andar, tinha uma vista privilegiada da cidade. Gostava de sentar nela e ler meus livros ou observar o mundo acontecendo, as luzes brilhando, os pássaros seguindo o seu percurso e as árvores balançando conforme a música do vento. Ali naquela janela passei minha adolescência e comecei a ver tudo de forma diferente. Por vezes rebelde, por vezes cheia de planos, ou só relembrando os fatos passados.

Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Nesse meio tempo, surgiram outras janelas, essas eram em prédios, não tão altos assim, mas no meio de uma capital. Por elas, eu via o caótico trânsito, o correr apressado das pessoas, o sol sendo ignorado e a chuva chegando para trazer mais caos em momentos que deveria ser considerada uma benção. Por muitas vezes, eu não tinha tempo para olhar pela janela. Foram tantos os dias que não disse bom dia para o sol ou para as nuvens, e foram tantas as noites que tive como companhia a lua e as estrelas, mas estava tão compenetrada trabalhando, que não as notava.

No meio do caos, passei por duas novas janelas em duas novas casas. Numa, a qual tinha grades, eu conseguia admirar flores, folhas e gotas que lavavam a alma. Assim como também via muitos mendigos tentando encontrar um pedaço de marquise para se proteger da noite e daquele mundo sem sentido. Na outra, eu via prédios e mais prédios, porém através de uma pequena fresta entre eles, admirava o pôr do sol nos finais de semana.

Agora, minha janela é longe de tudo que já tinha visto ou imagina ver. Agora, minha janela é grande, mas a primeira vista dela é outra janela. Mesmo assim, se olhar para os lados, consigo ver o sol, os aviões e vida tranquila que por aqui acontece. Essa nova janela me proporcionou uma visão completamente diferente do mundo que eu tinha. Ela abriu novas possibilidades e mostrou que é possível sonhar com novas perspectivas, por mais difícil que seja deixar as outras janelas para trás.

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

Eu não sei quantas janelas mais vão passar pelas minhas manhãs e noites, tampouco o que elas irão me mostrar. O que eu sei, é que independente de onde ela esteja, vou aprender algo novo. Sei que posso contar com ela para todos os momentos. Sei que, ao abri-la, serei recebida com a brisa que estiver passando e escutarei os sons que por ela são abafados. Sei que, só de saber que ela está ali, eu já não estarei só.

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2 opiniões sobre ““É chato chegar a um objetivo num instante. Eu quero viver nessa metamorfose ambulante”

  1. As janelas da vida na verdade estão sempre abertas mas é preciso saber ou observar para que não passe despercebido achando que elas nunca se abre para nós .Uma janela que acho que foi uma das muitas que se abrirão pra você esta aqui no teu quarto esperando a tua chegada para você dar um espiadinha e matar a saudades para seguir em frente.

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  2. O bom de tudo é saber que quanto mais estreita for a porta ou janela, melhor vai ser a recompensa.
    Mateus 7:13-14 >
    “Entrai pela porta estreita. Pois larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que a encontram.”

    Curtido por 1 pessoa

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