“Já na garagem o pé no breque, o Cadillac ao lado do meu Calhambeque”

Este certamente é um dos posts mais difíceis que já escrevi, pois ele me faz relembrar um grande trauma que eu tinha: o de dirigir.

Aos 18 anos, assim como a maioria dos jovens, eu fui ao CFC fazer a minha carteira de motorista. Eu nunca tinha dirigido na vida, mas adorava pegar a estrada e imaginar aquela sensação de liberdade sentida pelo motorista. Passei de primeira na prova teória. Na primeira aula prática, eu já fui bem e, a cada dia, me sentia mais confiante. Tudo parecia se encaminhar como manda o roteiro, até chegar o dia da prova. Eu fiquei tão apavorada, que nem saí da primeira parte, a do estacionamento, aquela mesma parte que há uma semana atrás eu tirava de letra.

O pânico da prova seguiu por mais três tentativas. Meu pé tremia tanto, que mal parava na embreagem. Assim, eu apagava o carro e já perdia pontos, o que me deixava ainda mais nervosa e com maiores chances de errar de novo. Na última vez, eu aceitei a derrota e decidi dar um tempo. Nessa época, eu já estava com 19 anos, fazia faculdade e trabalhava em dois lugares.

Quando percebi, não tinha mais tempo de encaixar as aulas e provas de direção na minha rotina. No fim, eu já nem me importava com o fato de não dirigir, pois tinha à disposição transporte público para todos os lugares que eu precisava ir. Além disso, eu sempre estava lendo e estudando durante um percurso e outro, então era bom eu ter esse tempo “livre”. Eu também contava com a sorte de ganhar algumas caronas do meu pai quando perdia o ônibus na saída da faculdade, ou quando precisava começar a trabalhar às 7h15 na escola perto da nossa casa.

A única coisa que realmente me incomodava eram as pessoas, muitas vezes amigos próximos, que cobram isso de mim. Eu preferia ficar só escutando e não dizer nada, do que contar todo o meu trauma; explicar o quanto os avaliadores eram rígidos e pareciam fazer isso de propósito pra você errar e pagar de novo pra fazer a prova; do quanto era frustrante pra mim escutar que a prova prática era fácil e era ridículo as pessoas rodarem tanto; do quanto era vergonhoso eu ter que apresentar minha identidade e não minha carteira de motorista na entrada das festas; do quanto eu tinha que explicar e explicar que realmente dava pra se virar pegando ônibus, trem e táxi. E cada vez que uma coisa dessas acontecia, eu alimentava ainda mais aquele trauma de não dirigir. Eu me sentia um ET no meio de todo mundo. Não sabia como explicar que cada pessoa tem um processo de aprendizagem diferente e que eu não era inferior a ninguém por não ter uma carteira de motorista.

E assim se passaram 8 anos até eu começar a sentir a necessidade de ter um carro. Nessa época, eu morava em Porto Alegre e depender de ônibus ou táxi estava ficando cava vez mais perigoso. Eu também estava fazendo terapia e esse era um dos tópicos trabalhados durante os encontros. Foi então que comecei a repensar sobre tudo e pesquisar CFC’s perto de casa. Já estava tomando coragem para ir lá e encarar todo o pesadelo de novo, quando surgiu a oportunidade de morarmos em San Diego.

Quando cheguei aqui, o primeiro projeto pessoal que eu tinha era tirar a minha carteira de motorista. Mas eu não imaginava que o processo seria tão simples e que o trauma seria muito fácil de ser superado. Aqui na Califórnia, o processo de aquisição da driver license é bem simples: você paga $30 e faz a prova teória e a prova prática. Simples assim mesmo. Sem aulas, sem meses de preparacão, sem tanta burocracia.

O mais difícil do processo é separar os papéis solicitados, principalmente no caso do motorista ser um imigrante, e à espera da carteira, que pode demorar até dois meses pra chegar na sua casa. As provas são feitas em dias separados e você pode fazer o agendamento online ou por telefone.

Não existe aula teórica. Você pega a cartilha com as leis de trânsito da Califórnia (sim, porque cada estado tem leis diferentes e, se você for morar em outro lugar, vai precisar fazer a carteira de motorista naquele local) gratuitamente em qualquer DMV ou comprar um livro com as regras de trânsito e estudar de casa. A prova teórica não precisa ser feita em inglês, você pode perguntar se o DVM têm a versão na sua língua. Para a nossa sorte tinha, mas era português de Portugal.

A prova prática é a mesma coisa. Você pode pagar para ter aulas de direção se quiser, mas a maioria das pessoas aprende a dirigir aqui com algum conhecido. E é totalmente legal isso, até porque você ganha a carteira provisória assim que passa na prova teórica. Você pode praticar à vontade, desde que sempre esteja acompanhado por uma pessoa que já tenha a carteira de motorista daquele estado.

Antes de fazer a prova prática, o próprio DVM recomenda ao motorista assistir aos vídeos disponíveis no YouTube para ver as dicas e saber mais sobre as regras. Para quem não tem carteira e está fazendo o processo pela primeira vez na vida, eles recomendam que a pessoa tenha pelo menos 100h de “aula” prática antes de fazer a prova. E para quem já tem carteira, assim que passa na prova teórica, já pode agendar a prática.

A prova prática é bem mais simples do que no Brasil. Pra começar, você faz a prova no seu próprio carro. Se você não tem carro, pode alugar um em qualquer lugar. O DVM não disponibiliza carros para fazer a prova e você precisa estar com a documentação em dia, pois todos os papéis são verificados no dia.

Depois que os papéis são checados, você é enviado para uma fila específica ao lado do prédio do DMV, onde deve esperar o examinador. Antes de entrar no carro, o examinador verifica se as setas, luzes de freio, buzina e demais itens básicos do carro estão funcionando. Estando tudo certo, é hora de dar uma volta na quadra. O percurso dura em torno de 15 minutos e o avaliador examina se você troca de pista corretamente, dá sinal, segue o limite de velocidade, sabe estacionar o carro e dar ré, sabe como fazer uma conversão levando em consideração a ciclovia, respeita os sinais de trânsito, a faixa de segurança, etc. É bem simples mesmo.

Para quem quiser mais informações, aqui está o link do site oficial do DMV californiano.

Resumindo a história, depois de chegar aqui, em três meses eu já tinha a minha carteira provisória e comecei a dirigir, sempre acompanhada do meu marido, que já tinha a carteira da Califórnia. Quando eu estava quase completando um ano de carteira provisória, fui fazer a prova prática, até porque a data de validade dela é de um ano. Não preciso nem dizer que nem dormi na semana anteiror. Fui pra prova tremendo, cometi alguns pequenos deslizes (a maioria por ser cuidadosa demais), mas passei. Quando a avaliadora disse que eu tinha passado, eu quase dei um abraço nela. Assim que ela saiu do carro, comecei a chorar de emoção. Eu finalmente tinha conseguido tirar a carteira de motorista depois de 11 anos!

O processo também se tornou menos traumático, pois os motoristas de San Diego são muito educados. Claro que sempre tem gente que não liga a seta ou faz alguma bizarrice, mas é difícil alguém buzinar, não dar passagem ou brigar. O número de acidentes também é bem menor. O único lugar que é mais assustador de dirigir é nas hayways (freeways daqui), pois os americanos passam fácil dos 100km/h e você precisa estar bem atento às saídas que precisa tomar, se não é preciso fazer um retorno bem grande até conseguir voltar para o mesmo lugar.

Pra completar, há três meses atrás comprei meu primeiro carro. Ele é pequeno, bem usadinho, mas tem sido um grande companheiro. Agora, vou para todos os lugares que preciso sem depender de ninguém. Confesso que nas primeiras duas semanas que eu estava dirigindo ele sozinha, ficava muito nervosa.

Ainda bem que tudo na vida é questão de costume. Ainda fico apreensiva quando tenho que ir para um lugar mais distante e que não conheço, mas é mais aquela tensão de ter que ficar sempre atenta a todos os movimentos que estão acontecendo ao seu redor e usar o GPS (ainda estamos tentando nos acertar).

Tenho sido constantemente a motorista da rodada, pois eu mesma disse que de agora em diante é a minha vez de não beber e levar meus amigos (ou minhas cobaias hahaha) para os bares, jantinhas, festas, etc., e depois para casa em segurança. Nos finais de semana, meu marido quase não está mais dirigindo, pois prefere passar a vez pra mim.

E assim vou seguindo, dia após dia, tentando superar os meus medos e provando pra mim mesma que nunca é tarde para realizar um projeto de vida e de dar a volta por cima.

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