“Eu tenho tanto pra lhe falar. Mas com palavras não sei dizer. Como é grande o meu amor por você”

No dia 2 de novembro fez dois anos que meu avô Lino faleceu. Ele foi o avô com quem eu tive mais contato, foi um dos meus maiores exemplos e um dos meus melhores amigos. Por coincidência do destino ou não, ele partiu um mês antes da minha mudança. Naquela época, as emoções se misturaram muito e em alguns momentos eu até pensei em desistir de sair do Brasil, pois sabia que seria muito difícil lidar com situações como essa à distância.

Mas quando meu avô ainda estava no hospital, ele disse que estava muito feliz por mim e que eu deveria aproveitar esta oportunidade única da vida. Ao mesmo tempo, meu pai dizia que não podemos mudar o percurso da vida das pessoas que a gente ama, nem mesmo estando perto delas. E foi com essa força passada pelos dois, que eu consegui enfrentar os primeiros meses de distância da minha família.

Há um ano atrás, eu escrevi o texto que segue abaixo, mas só agora tive coragem de publicá-lo. A dor da saudade ainda segue muito grande, e provavelmente nunca irá passar, mas hoje já consigo lidar melhor com ela. Então, se você está pensando em morar em outro lugar (seja outra cidade, estado ou país), tente se preparar emocionalmente para todas as possibilidades que podem acontecer. Sinto dizer, mas você enfrentará muitas perdas.

E quando digo muitas, estou me referindo também a não participação de eventos felizes, como casamentos, aniversários, festas, encontros de família e dos amigos, nascimentos dos filhos dos amigos ou de algum afilhado, festas de final de ano, etc. E claro, você também irá sentir por estar longe quando um amigo seu precisar de ajuda ou de um abraço, ou quando algum familiar estiver doente e você não puder estar presente para fazer o que for preciso, ou ainda quando alguém partir. Em alguns desses momentos você certamente irá se perguntar se realmente está valendo a pena estar tão longe.

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Eu tenho tanto pra lhe falar….

Acredito que a palavra saudade traz consigo um sentimento tão forte, que é quase impossível não compará-la com a equivalência da força da palavra amor. Sempre usei com frequência essa palavra, pois sinto falta de muitas pessoas e momentos. Mas foi no dia 01 de novembro de 2014 que eu realmente pude entender – e sentir – o tamanho da sua magnitude.

Naquela semana, eu estava em São Paulo à trabalho.  Como era final de semana, resolvi conhecer o Museu da Língua Portuguesa com dois colegas. Eu não queria sair, pois meu coração estava apertado de dor. Porém, meus colegas insistiram e eu fui lá realizar um sonho, já que há muito tempo queria conhecer o museu. Eu estava totalmente encantada com toda aquela poesia ao meu redor. Ao final daquele momento mágico, a ligação chegou. Meu avô tão querido tinha partido. Guardo até hoje as palavras do meu pai “o vozinho descansou”.

O desespero tomou conta de mim. Eu não sabia o que fazer, para onde correr. Já tínhamos nos despedido naquela semana no hospital, porém é incrível como o ser humano sempre carrega consigo a esperança de que um milagre aconteça (ainda bem que somos assim, pois é a esperança que nos move). E foi com a música “Como é grande o meu amor por você”, do Roberto Carlos, que eu disse o meu adeus pra ele. Foi essa a música que eu cantei no último momeno que estivemos juntos. Confesso que até hoje não consigo mais cantá-lá ou escutá-la. É como se um nó se formasse na minha garganta e, ao mesmo tempo, um turbilhão de lembranças toma conta da minha mente.

Antes da chegada daquela notícia, eu já tinha sofrido e chorado muito, pois a hora dele estava chegando, era algo inevitável. Contudo, a minha maior dor naquele dia foi estar longe da minha família, dos meus tios, da minha avó, dos meus primos e, principalmente, do meu pai.

O amor que sinto pelos meus pais ultrapassa qualquer palavra que tenha significado de grandeza. Mas meu pai é meu herói, meu exemplo, meu melhor amigo e um grande parceiro. E ele sentia exatamente isso pelo meu avô. Eles sempre estavam juntos fazendo todo tipo de indiada: construindo um galinheiro ou um galpão, podando uma árvore, indo ao supermercado, pescando, passeando, jogando carta…

Naquele dia, ele estava perdendo o seu pai e o seu melhor amigo, e eu não estava lá. E eu estava perdendo meu avô mais querido, meu xodó, e eu não estava lá. Foi a partir desses acontecimentos que eu pude entender a mistura de sentimentos entre dor e saudade.

Dói chegar na casa dele e não ver a sua moto estacionada na garagem. Dói sentar no sofá da área e não encontrar ele no lugar cativo servindo o chimarrão para toda a família. Dói não poder abraçá-lo e dançar alguns passos de música gauchesca, o cumprimento que sempre fazíamos. Dói não escutar as risadas dele e sentir aquelas mãos ásperas fazendo carinho no meu braço. Dói não escutar pela centésima vez as histórias de antigamente e rir como se fosse a primeira vez que elas estivessem sendo retidas do baú. Dói não ganhar de presente umas folhas de couve ou alface, ou um saco de bergamotas ou jabuticabas. Dói olhar para os passarinhos que sempre estão na árvore em frente ao sofá da área e não escutar as artes que eles aprontaram naquela semana.

Dói olhar para o fogão a lenha que ele fez e não ver fogo, pinhão, quentão ou mocotó. Dói olhar para a churrasqueira e não ver ele ali com o avental do Internacional e um sorriso largo no rosto. Dói entrar na sua marcenaria e encontrar apenas um vazio gigantesco. Dói olhar para as fotos que estão na cristaleira e ver todos os momentos que ele passou ao lado da família, e saber que a partir de agora ele não estará mais nos novos acontecimentos. Dói entrar no quarto e não encontrar ele lá tirando um cochilo depois do almoço. Dói olhar para uma vara de pesca e saber que não faremos mais nenhuma competição de quem pega o maior peixe do dia. Dói fazer qualquer evento na casa da vó e não ter ele por perto sendo o centro da organização da festa e da bagunça. Dói olhar para o balde de milho das galinhas e saber que ele não vai mais dizer para eu não atirar comida escondida para elas. Dói olhar para a minha vó e não ver ele chamando ela dos mais doces apelidos e correndo para agradá-la. Dói não ver os dois expressando todo aquele amor na frente de todos, mesmo depois de 60 anos de casados.

Acredito que o maior legado que ele deixou foi ser um exemplo para toda família e mostrar que podemos mudar a vida dos outros apenas sendo nós mesmos. Ele nunca teve muito dinheiro, mas nem por isso negava ajuda. Ele sempre mostrou que existem outras formas de fazer uma pessoa seguir em frente. Ele escutava, dava conselhos, incentivava. Não teve uma vez que não perguntou como estava o meu trabalho e, enquanto eu respondia, ele já dizia que eu seria um sucesso. Ele fazia isso com todo mundo.

Ele nunca deixava de contar uma história, uma piada, de dar uma risada, de abraçar, de olhar no olho, mostrar o quanto se importava e o quanto estava feliz por nos ver. Ele era um ser tão iluminado, que quando partiu, deixou um vazio do tamanho de uma cratera em vários corações. Ainda é impossível acreditar que ele não está mais entre nós, pois a sua presença continua sendo constante. Ele fez o bem pra tanta gente, que esta onda de coisas boas continua a se propagar. Até na cama do hospital, quando ele ainda estava lúcido, não deixou de fazer planos. Continuou elogiando, cantando, contando piadas.

Ele foi enterrado no dia que completaria 84 anos. Não por coincidência, seu aniversário era no Dia dos Finados, dia no qual o cemitério sempre está cheio de gente e de novas flores. Ele escolheu partir num dia de festa. Ele era uma festa em pessoa. Uma festa de amor, de compaixão, de amizade e de carinho.

Dói tanto lembrar, mas doeria mais ainda se não tivéssemos vivido tantos momentos juntos. Ainda nos encontramos nos meus sonhos e isso ajuda a matar um pouco da saudade. Serei eternamente grata por ele ter me ensinado o significado da palavra saudade e por saber o quanto ela pode ser intensamente sentida a cada dia.

Saudade é o amor que fica. E o amor por ti, vô Lino, será eterno ❤

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