Furacão Irma

Você só passa a entender o significado e as consequências de um desastre natural quando vive esta triste experiência (ou chega bem perto de experienciá-la, como foi o meu caso).

Segunda-feira cheguei em Orlando para participar de uma feira que supostamente iria ocorrer até sábado. Poucas horas após desembarcar do avião, a CNN divulgou que haveria chances do furacão Irma passar pela Flórida. A confirmação chegou na terça-feira e com ela já não encontrávamos mais água nos supermercados maiores, como o Wallmart. Conversei com um dos funcionários e disse que precisava de água para beber naquele dia e não para estocar. Tivemos até que rir da situação, mas ele disse que eles não tinham previsão de quando receberiam mais água. Tive a sorte de achar algumas garrafas em um pequeno supermercado (elas estavam em uma prateleira bem longe do local das bebidas, acho que alguém desistiu de comprar no último minuto) e, para garantir, peguei as últimas garrafinhas que ainda restavam em uma vending machine na frente da loja. Também já era possível ver fila em todos caixas eletrônicos.

Ainda na terça-feira tentamos adiantar a nossa passagem, agendada para o domingo, mas não tivemos sucesso, pois as companhias aéreas estavam cobrando mais caro para reagendar um voo do que comprar novas passagens. Por garantia, resolvermos comprar novas passagens para sábado à noite.

Na quarta-feira as coisas começaram a ficar bem sérias. Foi confirmado que o furacão seria de categoria 5 e estava se movendo mais rápido que o esperado indo em direção à Flórida. Com isso, a organização da feira mandou um e-mail informando que iria cancelar o último dia do evento (sábado). Na quinta-feira de manhã começaram os rumores de que a feira não aconteceria na sexta e que o aeroporto fecharia no sábado. Sem pensar, ligamos para a Alaska Airlines e eles muito rapidamente conseguiram adiantar nosso voo para sexta-feira à noite sem custo adicional. Pois bem, quinta-feira à tarde a organização da feira confirmou que o evento seria cancelado na sexta.

Aqui vale uma observação muito importante sobre como o governo age rápido para resolver problemas relacionados a desastres naturais por aqui. Na terça-feira algumas companhias aéreas estavam cobrando até $2.000 por uma passagem para sair de Orlando. Postos de combustíveis também haviam aumentado em $0.20 o litro da gasolina. Alguns supermercados estavam vendendo um fardinho de garrafas de água por $32! Com a confirmação do eminente desastre, o governo anunciou que o preço das passagens e da gasolina passariam a ser tabelados, e que hotéis e empresas como o Airbnb ajudariam a conseguir acomodações de última hora pra quem não conseguisse sair da Flórida. Além disso, a polícia passou a escoltar os caminhões de gasolina para garantir que o combustível chegasse às zonas que deveriam ser evacuadas. Os pedágios abriram todas as cancelas e já tinham diversos abrigos prontos pra começar a receber as pessoas que não tinham pra onde ir.

Nesse meio tempo, recebi e-mail do Airbnb (pois alugamos nossas acomodações por ali), dizendo que eles fariam o possível para garantir o reembolso daqueles que iriam viajar para a Flórida e cancelaram a viagem ou estavam voltando mais cedo para casa devido ao furacão. Também recebi e-mail do dono do apartamento com todas as instruções do que fazer antes, durante e depois do furacão. O storage que alugamos em Orlando também mandou e-mail dizendo que o local seria fechado, pois eles prezavam pela segurança dos seus funcionários. Todas as rádios, canais de televisão e sites de notícias estavam dando atualizações do furacão a cada minuto.

Minha família e amigos próximos mandavam mensagens todos os dias querendo saber como eu estava. Eu confesso que estava muito assustada nos primeiros dias, mas depois comecei a me acalmar vendo que as outras pessoas estavam calmas, pois o estado está preparado para enfrentar situações como essas. Existem rotas de fuga, abrigos, kits de emergência, equipes de resgate, voluntários, etc.

Depois de tudo isso, finalmente era chegada a hora de voltar pra casa. Essa tarde chegamos ao aeroporto e encontramos MUITA gente! É a terceira vez que venho pra Orlando (e uma delas foi no meio das férias de verão, então o aeroporto estava lotado de pessoas que estavam indo ou vindo da Disney World), mas nem chegou perto do que vi hoje. Mesmo assim, as filas estavam andando rápido e os funcionários estavam fazendo de tudo pra acelerar as coisas. Como esperado, a maioria dos voos atrasou. E toda vez que um voo era confirmado, as pessoas começavam a bater palmas e comemorar.

Felizmente, não presenciei situações de desespero, mas na CNN saiu uma matéria mostrando pessoas brigando por água ou tentando conseguir um voo a todo custo no aeroporto de Miami.

Agora, estou escrevendo relato dentro do avião, voltando sã e salva pra casa. Porém, parto com dois corações. Estou muito feliz por voltar pra San Diego, mas ao mesmo tempo muito triste com o que pode acontecer com quem ficou. Já vimos a destruição que o furacão Irma causou em Porto Rico e em diversas pequenas ilhas do Atlântico. Milhões de pessoas estão sem energia, milhares sem água e sem perspectiva de voltar para casa ou para o que sobrou dela. E tem o furacão José chegando… O pior é que nós temos grande culpa nisso tudo. As drásticas mudanças climáticas são nossa culpa e não da Mãe Natureza.

Não consigo descrever o alívio que é estar dentro deste avião. Confesso que em alguns momentos me senti no meio de filmes como The book of Eli ou 2012.

Passado o susto, vamos torcer para que esses furacões percam força, voltem para o meio do oceano e ali acabem. E para quem ficou: stay safe!

Obs.: Este relato também foi publicado no Jornal NH.

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