Furacão Irma

Você só passa a entender o significado e as consequências de um desastre natural quando vive esta triste experiência (ou chega bem perto de experienciá-la, como foi o meu caso).

Segunda-feira cheguei em Orlando para participar de uma feira que supostamente iria ocorrer até sábado. Poucas horas após desembarcar do avião, a CNN divulgou que haveria chances do furacão Irma passar pela Flórida. A confirmação chegou na terça-feira e com ela já não encontrávamos mais água nos supermercados maiores, como o Wallmart. Conversei com um dos funcionários e disse que precisava de água para beber naquele dia e não para estocar. Tivemos até que rir da situação, mas ele disse que eles não tinham previsão de quando receberiam mais água. Tive a sorte de achar algumas garrafas em um pequeno supermercado (elas estavam em uma prateleira bem longe do local das bebidas, acho que alguém desistiu de comprar no último minuto) e, para garantir, peguei as últimas garrafinhas que ainda restavam em uma vending machine na frente da loja. Também já era possível ver fila em todos caixas eletrônicos.

Ainda na terça-feira tentamos adiantar a nossa passagem, agendada para o domingo, mas não tivemos sucesso, pois as companhias aéreas estavam cobrando mais caro para reagendar um voo do que comprar novas passagens. Por garantia, resolvermos comprar novas passagens para sábado à noite.

Na quarta-feira as coisas começaram a ficar bem sérias. Foi confirmado que o furacão seria de categoria 5 e estava se movendo mais rápido que o esperado indo em direção à Flórida. Com isso, a organização da feira mandou um e-mail informando que iria cancelar o último dia do evento (sábado). Na quinta-feira de manhã começaram os rumores de que a feira não aconteceria na sexta e que o aeroporto fecharia no sábado. Sem pensar, ligamos para a Alaska Airlines e eles muito rapidamente conseguiram adiantar nosso voo para sexta-feira à noite sem custo adicional. Pois bem, quinta-feira à tarde a organização da feira confirmou que o evento seria cancelado na sexta.

Aqui vale uma observação muito importante sobre como o governo age rápido para resolver problemas relacionados a desastres naturais por aqui. Na terça-feira algumas companhias aéreas estavam cobrando até $2.000 por uma passagem para sair de Orlando. Postos de combustíveis também haviam aumentado em $0.20 o litro da gasolina. Alguns supermercados estavam vendendo um fardinho de garrafas de água por $32! Com a confirmação do eminente desastre, o governo anunciou que o preço das passagens e da gasolina passariam a ser tabelados, e que hotéis e empresas como o Airbnb ajudariam a conseguir acomodações de última hora pra quem não conseguisse sair da Flórida. Além disso, a polícia passou a escoltar os caminhões de gasolina para garantir que o combustível chegasse às zonas que deveriam ser evacuadas. Os pedágios abriram todas as cancelas e já tinham diversos abrigos prontos pra começar a receber as pessoas que não tinham pra onde ir.

Nesse meio tempo, recebi e-mail do Airbnb (pois alugamos nossas acomodações por ali), dizendo que eles fariam o possível para garantir o reembolso daqueles que iriam viajar para a Flórida e cancelaram a viagem ou estavam voltando mais cedo para casa devido ao furacão. Também recebi e-mail do dono do apartamento com todas as instruções do que fazer antes, durante e depois do furacão. O storage que alugamos em Orlando também mandou e-mail dizendo que o local seria fechado, pois eles prezavam pela segurança dos seus funcionários. Todas as rádios, canais de televisão e sites de notícias estavam dando atualizações do furacão a cada minuto.

Minha família e amigos próximos mandavam mensagens todos os dias querendo saber como eu estava. Eu confesso que estava muito assustada nos primeiros dias, mas depois comecei a me acalmar vendo que as outras pessoas estavam calmas, pois o estado está preparado para enfrentar situações como essas. Existem rotas de fuga, abrigos, kits de emergência, equipes de resgate, voluntários, etc.

Depois de tudo isso, finalmente era chegada a hora de voltar pra casa. Essa tarde chegamos ao aeroporto e encontramos MUITA gente! É a terceira vez que venho pra Orlando (e uma delas foi no meio das férias de verão, então o aeroporto estava lotado de pessoas que estavam indo ou vindo da Disney World), mas nem chegou perto do que vi hoje. Mesmo assim, as filas estavam andando rápido e os funcionários estavam fazendo de tudo pra acelerar as coisas. Como esperado, a maioria dos voos atrasou. E toda vez que um voo era confirmado, as pessoas começavam a bater palmas e comemorar.

Felizmente, não presenciei situações de desespero, mas na CNN saiu uma matéria mostrando pessoas brigando por água ou tentando conseguir um voo a todo custo no aeroporto de Miami.

Agora, estou escrevendo relato dentro do avião, voltando sã e salva pra casa. Porém, parto com dois corações. Estou muito feliz por voltar pra San Diego, mas ao mesmo tempo muito triste com o que pode acontecer com quem ficou. Já vimos a destruição que o furacão Irma causou em Porto Rico e em diversas pequenas ilhas do Atlântico. Milhões de pessoas estão sem energia, milhares sem água e sem perspectiva de voltar para casa ou para o que sobrou dela. E tem o furacão José chegando… O pior é que nós temos grande culpa nisso tudo. As drásticas mudanças climáticas são nossa culpa e não da Mãe Natureza.

Não consigo descrever o alívio que é estar dentro deste avião. Confesso que em alguns momentos me senti no meio de filmes como The book of Eli ou 2012.

Passado o susto, vamos torcer para que esses furacões percam força, voltem para o meio do oceano e ali acabem. E para quem ficou: stay safe!

Obs.: Este relato também foi publicado no Jornal NH.

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“A minha alma tá armada e apontada para a cara do sossego”

Pois é, se passaram três meses desde o meu último post. O trabalho, os estudos e a tentativa de ter uma vida mais saudável acabam consumindo quase todo meu tempo. Mesmo assim, nunca deixo de pensar nos posts que podem ajudar quem está procuando saber um pouco mais sobre San Diego.

Infelizmente, a Califónria não é feita apenas de paisagens deslumbrantes e pessoas acolhedoras. Na semana passada, sete passoas foram baleadas e uma mulher morreu após um homem armado decidir acabar com uma festa de aniversário que estava acontecendo na piscina de um condomínio localizado aqui em San Diego.

Uma amiga muito próxima mora nesse condomínio e estava no parquinho do prédio com as duas filhas e os dois sobrinhos na hora do tiroteiro. Detalhe: o parquinho fica ao lado da piscina. Por sorte, eles coseguiram abrigo no apartamento de um vizinho até a polícia chegar e matar o atirador.

O motivo do crime: supostamente ódio. O atirador era branco e todas as vítimas eram negras. Além disso, o criminoso havia terminado um relacionamento e, segundo relatos de algumas testemunhas, ele estava deprimido e até ligou para a ex-namorada enquanto estava atirando nas vítimas.

Às vezes eu falo com a vida
Às vezes é ela quem diz
Qual a paz que eu não quero
Conservar
Para tentar ser feliz

Eu nunca senti medo aqui nos Estados Unidos como eu sentia no Brasil. Como eu já disse outras vezes, caminhamos por aqui à noite, vamos a parques correr sem preocupação alguma, estacionamos o carro na rua com a certeza de que vamos encontrá-lo no lugar quando voltarmos, andamos com o celular na mão sabendo que ninguém irá roubá-lo, etc. O único medo que eu sinto aqui é dessas pessoas loucas e descontroladas que atiram em lugares públicos. Confesso que tinha medo de ir na escola de inglês logo que cheguei aqui. Toda vez que caminhava pelo corredo do segundo andar, parecia que a qualquer momento iria encontrar algum lunático atirando.

Meu medo cresceu depois de descobrir que qualquer cidadão americano, desde que passe pela análise de antecedentes criminais, pode possuir e portar uma arma fogo.Os homicídios com armas de fogo são uma causa comum de morte nos Estados Unidos, matando tantas pessoas quanto acidentes de carro. E é muito fácil comprar uma arma, é como se fosse mais um artigo à venda nas prateleiras do supermercado. Para vocês terem uma ideia, existem mais de 50 mil lojas licenciadas em todo país, entra elas o Walmart. São mais de 283 milhões de armas portadas apenas por civis ao redor do país! (Para mais informações, leia este post do blog Brasileiras Pelo Mundo).

Toda vez que acontece algum massacre por aqui, como já vimos casos em cinemas, escolas, universidades, igrejas e boates, recomeça a discussão sobre o assunto. Porém, portar e manter uma arma de fogo é um direito garantido na constituição americana e todo cidadão é livre para fazer esta escolha. Além disso, a indústria armamentícia gera um lucro estrondoso todos os anos e ela é responsável por patrocinar diversas campanhas políticas. Ou seja, esse tópico ainda será discutido durante muitos e muitos anos….

Polêmicas à parte (e eu não vou entrar na discussão sobre o que eu acho certo e errado sobre o assunto), o fato é que essa é uma realidade do país. O acontecimento de domingo passado fez eu acordar e perceber que, infelizmente, esse trágico inciente pode acontecer em qualquer lugar e a qualquer momento. E o pior: os atentados são motivadaos principalmente por ódio, racismo e homofobia.

As grades do condomínio
São para trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que está nessa prisão

Acabamos nos distanciando tanto da violência que acontece diariamente no Brasil, que esquecemos de estar alerta o tempo todo. Claro que aqui também acontecem diversos crimes, porém em uma proporção bem menor e isto nos faz acreditar que estamos seguros. Mas o fato é que não estamos seguros em nenum lugar.

No meio de tanta violência e tristeza, encontrei uma luz que me deu certa esperança. A escola na qual as filhas da minha amiga estudam, está fazendo um tabalho maravilhoso para acolher as crianças que passaram pelo trauma de estar no condomínio no momento do crime. Todas elas foram recebidas no dia seguinte ao tiroteio pela diretora da escola e encaminhadas para um psicólogo, além de estarem sendo acompanhadas diariamente por este profissional. Os pais também estão participando de reuniões de orientação e acompanhamento psicológico.

Afinal, a vida precisa continuar e a educação e o suporte às crianças sempre foram e serão a melhor forma de construirmos um futuro melhor. Um futuro que não resolve os problemas com guerra e violência, mas sim com amor, respeito e paz.

“É dia de feira quarta-feira, sexta-feira, não importa a feira.”

Dois anos se passaram desde que chegamos. E o que dá para dizer desse tempo? Que ele é muito longo quando pensamos na distância daqueles que ficaram, e muito curto para realizar todos os planos que foram colocados no papel. Mas dizem que o tempo é o nosso melhor amigo. Ele ensina, ameniza, cura e reconstrói. E isso é a mais pura verdade!

Em 2016, recebi diversos e-mails de brasileiros que estão planejando sair do Brasil ou que chegaram há poucos meses nos Estados Unidos e gostariam de algumas dicas, principalmente em relação ao custo de vida. Admiro muito a coragem de cada um. Eles estão saindo do seu porto seguro para arriscar, errar, acertar, aprender e evoluir. Assim como nós temos feito todos os dias desde que chegamos.

Então, resolvi listar e responder aqui as perguntas mais frequentes para tentar ajudar outras pessoas que também estão passando pelo mesmo processo de mudança. Muitas dessas perguntas já foram respondidas ou abordadas de forma mais profunda em outros posts, mas agora elas estão organizadas em um único lugar.

Vale lembrar que este é o meu ponto de vista. Sempre recomendo pesquisar muito e falar com outras pessoas para que você tire suas próprias conclusões e faça o planejamento de mudança mais adequado a sua realidade.

Nível de inglês

Se você não fala inglês e vai passar um tempo aqui, minha sugestão é começar a aprender a nova língua o quanto antes. A melhor opção é encontrar uma boa escola de idiomas ou ter aulas particulares. Nas horas vagas, é importante seguir estudando. Recomendo o aplicativo Duolingo, que é gratuito e muito didático, para aprender gramática. Além disso, sugiro escutar rádios como a KPBS (rádio pública de San Diego) e podcasts (como os diversos oferecidos gratuitamente no Google Play e no Spotify). Eu escuto diariamente podcasts de notícias e entretenimento, e posso garantr que eles ajudam muito.

Em San Diego, eu fiz um curso de inglês em uma das escolas da rede San Diego Continuing Education. As escolas são ótimas, possuem ótimos professores e oferecem diversos cursos técnicos gratuitos. A escola não pede nenhuma informação sobre o seu visto! Porém, ela não fornece nenhum tipo de visto, como acontece nas escolas pagas. Então, é um plus nos estudos. No site da escola tem todas as informações sobre agendamento de testes de nivelamento e a lista de cursos de cada unidade.

Aluguel

O valor do aluguel vai depender muito da região que você quer morar. Quanto mais perto da praia, mais caro. Muitos estudantes brasileiros moram em Pacific Beach, que é umas das praias mais bonitas e “mais badaladas” da cidade, com diversas opções de bares e festas. Porém, o aluguel é mais caro que outras regiões. Por isso, muita gente acaba dividindo o apartamento/quarto com outros estudantes.

Muitos estudantes e famílias também acabam optando por La Jolla, que é uma região mais cara justamente por ser uma área nobre e por ser a praia mais famosa de San Diego. Em La Jolla ficam as melhores escolas para as crianças e está localizada também a melhor universidade da cidade, que é a UCSD. Se você vem com sua família, recomendo seguir a página Família nos EUA. Ela possui diversas informações relevantes sobre todos os assuntos que envolvem a mudança de uma família com crianças pequenas para os Estados Unidos.

Se você for dividir apartamento, a média do aluguel varia de $350 a $1300, dependendo da localização, dos serviços que o condomínio oferece, se o quarto será dividido com alguém ou será privado, se as contas serão ou ou não inclusas, etc. Neste grupo de brasileiros no Facebook sempre são divulgandas vagas de moradia, especialmente para estudantes. Se você não for dividir apartamento, o aluguel começa em $1200.

As opções de bairros que são próximos à praia e um pouco mais baratos que os citados acima são: Point Loma, North Park e Hillcrest. Se você não se importa em ficar longe da praia, os bairros mais baratos são El Cajon, Miramar, Mira Cesa, Chula Vista, etc.

Você também consegue saber mais detalhes sobre os valores dos aluguéis pesquisando em sites como:

https://sandiego.craigslist.org/

Caso você decida não dividir o apartamento com alguém que já está aqui, um ponto importante a ser levando em consideração é que você precisa comprovar renda e ter social security (o CPF daqui) na hora da aplicação para a vaga. Alguns locais aceitam fechar negócio caso você apresente um sponsor (fiador), que precisa morar aqui, comprovar renda e ter o social security.

Você também pode tentar morar na casa de alguma família america (e isto certamente fará uma grande diferença no seu inglês!).

Comida

Sobre o valor da alimentação, aqui a comida não é muito cara. Quer dizer, depende do tipo de comida. Fast food e comidas industrializadas em geral são bem baratas. Mas têm vários supermercados com preços bons para comprar frutas, verduras e carnes.

Eu geralmente vou em três supermercados fazer as compras da semana, pois cada lugar oferece um preço bem diferente para cada tipo de coisa. Em média, se gasta entre $50 e $70 por semana para cada pessoa. Já falei com outros amigos e esse valor pode ser um pouco maior, dependendo do quanto você come, do quanto você cozinha em casa e do tipo de comida que você compra (orgânica, sem antibióticos, sem lactose, sem glúten…).

Os supermercados mais em conta são: Food4Less, Smart&Final, Walmart, Grocery Outlet e Costco (é preciso ser sócio para comprar). Fique atento ao encartes que são entregues semanalmente no seu correio e também aos sites e aplicativos desses supermercados. A maioria oferece cupons de desconto.

Lavanderia

Acrescente no seu orçamento uma média de $2,50 a $10 de lavanderia por semana (obviamente o valor aumenta dependendo de quanta roupa você for lavar). A maioria dos apartamentos têm lavanderia coletiva e você precisa pagar por cada lavada/secada de roupa. A média é de $1,5o por cada ciclo na máquina de lavar e $1,00 por cada ciclo para secar. Existem também diversas lavanderias fora dos condomínios, mas geralmente elas são mais caras.

Carro/Transporte público

O transporte público de San Diego é bastante limitado. Geralmente é preciso pegar mais de um ônibus para chegar ao destino final. O passe mensal de ônibus/trem é $72 ou $5 a passagem por dia para usar quantas vezes quiser cada um (isso se você já tiver o cartão, que custa $2 e vale por mais de um ano). No site da MTS você encontra todas as informações sobre intinerários e valores.

Devido a essa limitacão, muitas pessoas acabam comprando um carro para se locomover pela cidade. Você consegue achar carros usados no mesmo grupo de brasileiros no Facebook que citei acima, no Craigslist https://sandiego.craigslist.org/ e em diversos outros sites listados no Google.

Caso você não tenha o social security e não pode comprovar renda por ser estudante, não conseguirá comprar um carro parcelado nas revendas. Por isso, terá que optar por comprar o carro à vista. Então, já se planeje para esse gasto.

Trabalho

Como já disse em outros posts, eu tenho a sorte de ter permissão de trabalho. Em geral, estudantes não podem trabalhar, a não ser que tenham algum documento ou façam um curso que permita. Contudo, muitos precisam se manter por aqui e acabam trabalhando como babá de criança; cuidador de cachorro/gato; garçon/garçonete/cozinheiro/lavador de prato/barista, etc., em restaurantes, bares, cafés e lancherias; com limpeza de casas; como entregador de comida, etc.

Mas atenção! Leve em consideração que se você for estudante e optar por trabalhar sem ter nenhum documento que o permita fazer isso, você estará trabalhando na ilegalidade e poderá ser penalizado se for pego!

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Espero ter ajudado!

Caso você tenha alguma dúvida, envie um e-mail para derepentesandiego@gmail.com. Prometo responder assim que possível 😉

“Quero lhe contar como eu vivi. E tudo o que aconteceu comigo. Viver é melhor que sonhar”

Nunca imaginei que outro ano fosse superar o número de desafios que 2015 me trouxe. Mas aí 2016 entrou com os dois pés na porta e mostrou que a vida é como andar em uma montanha russa de olhos vendados.

Foi em 2016 que consegui um emprego na área por aqui. Mas não foi qualquer vaga. Estou num cargo que nunca tinha trabalhado antes e isso faz com que eu me desafie a aprender coisas novas todos os dias. E o mercado no qual estou inserida é predominantemete masculino, e por isso sou testada constantemente. Além disso, tem o adicional da língua e da cultura, o que faz eu reaprender o jeito de trabalhar com comunicação a cada novo briefing que chega.

Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração…

Foi em 2016 que eu deixei o medo de dirigir de lado. Hoje, ando todos os dias pela cidade com um carrinho velho que tem sido o meu melhor amigo.

Neste ano, decidi cuidar mais de mim. Corri mais de 200km, voltei a fazer Pilates e andei muito de bike. Aprendi que a alimentação muda tudo e, por isso, deixei muitas coisas de lado e passei a ser bem mais regrada. O resultado: não fiquei mais doente e me sinto bem mais disposta.

Aprendi a julgar menos, a respeitar mais, a lidar melhor com a saudade e a distância. Perdi o medo de viajar sozinha de avião e a falar em público em outro idioma. Participei de feiras internacionais e conheci muita gente bacana de todos os lugares do mundo. Até apareci na televisão dando entrevista!

Aprendi a fazer malas pequenas e a manter uma alimentação saudável mesmo longe de casa. Aprendi a ter menos apego por coisas materiais e a optar cada vez mais por coisas usadas.

Descobri que por aqui o machismo também existe e, infelizmente, ele é bem forte. Aprendi muito sobre política americana e acompanhei de pertinho uma eleição. Assisti aos debates, li muitas notícias e escutei diversos podcasts pra ter uma opinião e um entendimento mais consistente das coisas.

Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando…

Deixe as redes sociais um pouco de lado e resolvi guardar pra mim muitas das minhas opiniões. Deixei de seguir muita gente que insiste em ter opiniões radicais e expressa violência em suas palavras. Comecei a fazer menos coisas por obrigação e a tentar agradar menos os outros.

Recebemos muitos amigos queridos e tivemos a honra de mostrar lugares incríveis pra eles. Desafiei meus pais a viajarem sozinhos e a conhecerem um mundo completamente novo. Eles aceitaram a ideia maluca e dizem que vão voltar no próximo ano.

Participei de dois festivais no meio do deserto, fui a diversos shows e trips malucas. Estou cada vez mais deixando de lado as diversas horas de programação e decidindo me entregar mais para as experiências de última hora.

Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem…

Este ano foi teimoso, difícil e desafiador. Ele quebrou muitos paradigmas, acabou com medos e fez com que eu descobrisse uma coragem que nem sabia que existia dentro de mim. Ele também machucou e foi bem cruel em alguns momentos. Ao mesmo tempo, ele se mostrou incrivelmente surpreendente e cheio de coisas boas.

A intensidade de 2016 vai me ajudar a ser alguém bem mais forte, e espero que melhor, em 2017. Já começo uma virada cheia de planos, sonhos e sem medo.

Que 2017 seja leve, cheio de aventuras, desafios, descobertas e aprendizados. E que não falte amor no coração e coragem para encarar todos os novos desafios que vão chegar.

“Eu tenho tanto pra lhe falar. Mas com palavras não sei dizer. Como é grande o meu amor por você”

No dia 2 de novembro fez dois anos que meu avô Lino faleceu. Ele foi o avô com quem eu tive mais contato, foi um dos meus maiores exemplos e um dos meus melhores amigos. Por coincidência do destino ou não, ele partiu um mês antes da minha mudança. Naquela época, as emoções se misturaram muito e em alguns momentos eu até pensei em desistir de sair do Brasil, pois sabia que seria muito difícil lidar com situações como essa à distância.

Mas quando meu avô ainda estava no hospital, ele disse que estava muito feliz por mim e que eu deveria aproveitar esta oportunidade única da vida. Ao mesmo tempo, meu pai dizia que não podemos mudar o percurso da vida das pessoas que a gente ama, nem mesmo estando perto delas. E foi com essa força passada pelos dois, que eu consegui enfrentar os primeiros meses de distância da minha família.

Há um ano atrás, eu escrevi o texto que segue abaixo, mas só agora tive coragem de publicá-lo. A dor da saudade ainda segue muito grande, e provavelmente nunca irá passar, mas hoje já consigo lidar melhor com ela. Então, se você está pensando em morar em outro lugar (seja outra cidade, estado ou país), tente se preparar emocionalmente para todas as possibilidades que podem acontecer. Sinto dizer, mas você enfrentará muitas perdas.

E quando digo muitas, estou me referindo também a não participação de eventos felizes, como casamentos, aniversários, festas, encontros de família e dos amigos, nascimentos dos filhos dos amigos ou de algum afilhado, festas de final de ano, etc. E claro, você também irá sentir por estar longe quando um amigo seu precisar de ajuda ou de um abraço, ou quando algum familiar estiver doente e você não puder estar presente para fazer o que for preciso, ou ainda quando alguém partir. Em alguns desses momentos você certamente irá se perguntar se realmente está valendo a pena estar tão longe.

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Eu tenho tanto pra lhe falar….

Acredito que a palavra saudade traz consigo um sentimento tão forte, que é quase impossível não compará-la com a equivalência da força da palavra amor. Sempre usei com frequência essa palavra, pois sinto falta de muitas pessoas e momentos. Mas foi no dia 01 de novembro de 2014 que eu realmente pude entender – e sentir – o tamanho da sua magnitude.

Naquela semana, eu estava em São Paulo à trabalho.  Como era final de semana, resolvi conhecer o Museu da Língua Portuguesa com dois colegas. Eu não queria sair, pois meu coração estava apertado de dor. Porém, meus colegas insistiram e eu fui lá realizar um sonho, já que há muito tempo queria conhecer o museu. Eu estava totalmente encantada com toda aquela poesia ao meu redor. Ao final daquele momento mágico, a ligação chegou. Meu avô tão querido tinha partido. Guardo até hoje as palavras do meu pai “o vozinho descansou”.

O desespero tomou conta de mim. Eu não sabia o que fazer, para onde correr. Já tínhamos nos despedido naquela semana no hospital, porém é incrível como o ser humano sempre carrega consigo a esperança de que um milagre aconteça (ainda bem que somos assim, pois é a esperança que nos move). E foi com a música “Como é grande o meu amor por você”, do Roberto Carlos, que eu disse o meu adeus pra ele. Foi essa a música que eu cantei no último momeno que estivemos juntos. Confesso que até hoje não consigo mais cantá-lá ou escutá-la. É como se um nó se formasse na minha garganta e, ao mesmo tempo, um turbilhão de lembranças toma conta da minha mente.

Antes da chegada daquela notícia, eu já tinha sofrido e chorado muito, pois a hora dele estava chegando, era algo inevitável. Contudo, a minha maior dor naquele dia foi estar longe da minha família, dos meus tios, da minha avó, dos meus primos e, principalmente, do meu pai.

O amor que sinto pelos meus pais ultrapassa qualquer palavra que tenha significado de grandeza. Mas meu pai é meu herói, meu exemplo, meu melhor amigo e um grande parceiro. E ele sentia exatamente isso pelo meu avô. Eles sempre estavam juntos fazendo todo tipo de indiada: construindo um galinheiro ou um galpão, podando uma árvore, indo ao supermercado, pescando, passeando, jogando carta…

Naquele dia, ele estava perdendo o seu pai e o seu melhor amigo, e eu não estava lá. E eu estava perdendo meu avô mais querido, meu xodó, e eu não estava lá. Foi a partir desses acontecimentos que eu pude entender a mistura de sentimentos entre dor e saudade.

Dói chegar na casa dele e não ver a sua moto estacionada na garagem. Dói sentar no sofá da área e não encontrar ele no lugar cativo servindo o chimarrão para toda a família. Dói não poder abraçá-lo e dançar alguns passos de música gauchesca, o cumprimento que sempre fazíamos. Dói não escutar as risadas dele e sentir aquelas mãos ásperas fazendo carinho no meu braço. Dói não escutar pela centésima vez as histórias de antigamente e rir como se fosse a primeira vez que elas estivessem sendo retidas do baú. Dói não ganhar de presente umas folhas de couve ou alface, ou um saco de bergamotas ou jabuticabas. Dói olhar para os passarinhos que sempre estão na árvore em frente ao sofá da área e não escutar as artes que eles aprontaram naquela semana.

Dói olhar para o fogão a lenha que ele fez e não ver fogo, pinhão, quentão ou mocotó. Dói olhar para a churrasqueira e não ver ele ali com o avental do Internacional e um sorriso largo no rosto. Dói entrar na sua marcenaria e encontrar apenas um vazio gigantesco. Dói olhar para as fotos que estão na cristaleira e ver todos os momentos que ele passou ao lado da família, e saber que a partir de agora ele não estará mais nos novos acontecimentos. Dói entrar no quarto e não encontrar ele lá tirando um cochilo depois do almoço. Dói olhar para uma vara de pesca e saber que não faremos mais nenhuma competição de quem pega o maior peixe do dia. Dói fazer qualquer evento na casa da vó e não ter ele por perto sendo o centro da organização da festa e da bagunça. Dói olhar para o balde de milho das galinhas e saber que ele não vai mais dizer para eu não atirar comida escondida para elas. Dói olhar para a minha vó e não ver ele chamando ela dos mais doces apelidos e correndo para agradá-la. Dói não ver os dois expressando todo aquele amor na frente de todos, mesmo depois de 60 anos de casados.

Acredito que o maior legado que ele deixou foi ser um exemplo para toda família e mostrar que podemos mudar a vida dos outros apenas sendo nós mesmos. Ele nunca teve muito dinheiro, mas nem por isso negava ajuda. Ele sempre mostrou que existem outras formas de fazer uma pessoa seguir em frente. Ele escutava, dava conselhos, incentivava. Não teve uma vez que não perguntou como estava o meu trabalho e, enquanto eu respondia, ele já dizia que eu seria um sucesso. Ele fazia isso com todo mundo.

Ele nunca deixava de contar uma história, uma piada, de dar uma risada, de abraçar, de olhar no olho, mostrar o quanto se importava e o quanto estava feliz por nos ver. Ele era um ser tão iluminado, que quando partiu, deixou um vazio do tamanho de uma cratera em vários corações. Ainda é impossível acreditar que ele não está mais entre nós, pois a sua presença continua sendo constante. Ele fez o bem pra tanta gente, que esta onda de coisas boas continua a se propagar. Até na cama do hospital, quando ele ainda estava lúcido, não deixou de fazer planos. Continuou elogiando, cantando, contando piadas.

Ele foi enterrado no dia que completaria 84 anos. Não por coincidência, seu aniversário era no Dia dos Finados, dia no qual o cemitério sempre está cheio de gente e de novas flores. Ele escolheu partir num dia de festa. Ele era uma festa em pessoa. Uma festa de amor, de compaixão, de amizade e de carinho.

Dói tanto lembrar, mas doeria mais ainda se não tivéssemos vivido tantos momentos juntos. Ainda nos encontramos nos meus sonhos e isso ajuda a matar um pouco da saudade. Serei eternamente grata por ele ter me ensinado o significado da palavra saudade e por saber o quanto ela pode ser intensamente sentida a cada dia.

Saudade é o amor que fica. E o amor por ti, vô Lino, será eterno ❤

“Já na garagem o pé no breque, o Cadillac ao lado do meu Calhambeque”

Este certamente é um dos posts mais difíceis que já escrevi, pois ele me faz relembrar um grande trauma que eu tinha: o de dirigir.

Aos 18 anos, assim como a maioria dos jovens, eu fui ao CFC fazer a minha carteira de motorista. Eu nunca tinha dirigido na vida, mas adorava pegar a estrada e imaginar aquela sensação de liberdade sentida pelo motorista. Passei de primeira na prova teória. Na primeira aula prática, eu já fui bem e, a cada dia, me sentia mais confiante. Tudo parecia se encaminhar como manda o roteiro, até chegar o dia da prova. Eu fiquei tão apavorada, que nem saí da primeira parte, a do estacionamento, aquela mesma parte que há uma semana atrás eu tirava de letra.

O pânico da prova seguiu por mais três tentativas. Meu pé tremia tanto, que mal parava na embreagem. Assim, eu apagava o carro e já perdia pontos, o que me deixava ainda mais nervosa e com maiores chances de errar de novo. Na última vez, eu aceitei a derrota e decidi dar um tempo. Nessa época, eu já estava com 19 anos, fazia faculdade e trabalhava em dois lugares.

Quando percebi, não tinha mais tempo de encaixar as aulas e provas de direção na minha rotina. No fim, eu já nem me importava com o fato de não dirigir, pois tinha à disposição transporte público para todos os lugares que eu precisava ir. Além disso, eu sempre estava lendo e estudando durante um percurso e outro, então era bom eu ter esse tempo “livre”. Eu também contava com a sorte de ganhar algumas caronas do meu pai quando perdia o ônibus na saída da faculdade, ou quando precisava começar a trabalhar às 7h15 na escola perto da nossa casa.

A única coisa que realmente me incomodava eram as pessoas, muitas vezes amigos próximos, que cobram isso de mim. Eu preferia ficar só escutando e não dizer nada, do que contar todo o meu trauma; explicar o quanto os avaliadores eram rígidos e pareciam fazer isso de propósito pra você errar e pagar de novo pra fazer a prova; do quanto era frustrante pra mim escutar que a prova prática era fácil e era ridículo as pessoas rodarem tanto; do quanto era vergonhoso eu ter que apresentar minha identidade e não minha carteira de motorista na entrada das festas; do quanto eu tinha que explicar e explicar que realmente dava pra se virar pegando ônibus, trem e táxi. E cada vez que uma coisa dessas acontecia, eu alimentava ainda mais aquele trauma de não dirigir. Eu me sentia um ET no meio de todo mundo. Não sabia como explicar que cada pessoa tem um processo de aprendizagem diferente e que eu não era inferior a ninguém por não ter uma carteira de motorista.

E assim se passaram 8 anos até eu começar a sentir a necessidade de ter um carro. Nessa época, eu morava em Porto Alegre e depender de ônibus ou táxi estava ficando cava vez mais perigoso. Eu também estava fazendo terapia e esse era um dos tópicos trabalhados durante os encontros. Foi então que comecei a repensar sobre tudo e pesquisar CFC’s perto de casa. Já estava tomando coragem para ir lá e encarar todo o pesadelo de novo, quando surgiu a oportunidade de morarmos em San Diego.

Quando cheguei aqui, o primeiro projeto pessoal que eu tinha era tirar a minha carteira de motorista. Mas eu não imaginava que o processo seria tão simples e que o trauma seria muito fácil de ser superado. Aqui na Califórnia, o processo de aquisição da driver license é bem simples: você paga $30 e faz a prova teória e a prova prática. Simples assim mesmo. Sem aulas, sem meses de preparacão, sem tanta burocracia.

O mais difícil do processo é separar os papéis solicitados, principalmente no caso do motorista ser um imigrante, e à espera da carteira, que pode demorar até dois meses pra chegar na sua casa. As provas são feitas em dias separados e você pode fazer o agendamento online ou por telefone.

Não existe aula teórica. Você pega a cartilha com as leis de trânsito da Califórnia (sim, porque cada estado tem leis diferentes e, se você for morar em outro lugar, vai precisar fazer a carteira de motorista naquele local) gratuitamente em qualquer DMV ou comprar um livro com as regras de trânsito e estudar de casa. A prova teórica não precisa ser feita em inglês, você pode perguntar se o DVM têm a versão na sua língua. Para a nossa sorte tinha, mas era português de Portugal.

A prova prática é a mesma coisa. Você pode pagar para ter aulas de direção se quiser, mas a maioria das pessoas aprende a dirigir aqui com algum conhecido. E é totalmente legal isso, até porque você ganha a carteira provisória assim que passa na prova teórica. Você pode praticar à vontade, desde que sempre esteja acompanhado por uma pessoa que já tenha a carteira de motorista daquele estado.

Antes de fazer a prova prática, o próprio DVM recomenda ao motorista assistir aos vídeos disponíveis no YouTube para ver as dicas e saber mais sobre as regras. Para quem não tem carteira e está fazendo o processo pela primeira vez na vida, eles recomendam que a pessoa tenha pelo menos 100h de “aula” prática antes de fazer a prova. E para quem já tem carteira, assim que passa na prova teórica, já pode agendar a prática.

A prova prática é bem mais simples do que no Brasil. Pra começar, você faz a prova no seu próprio carro. Se você não tem carro, pode alugar um em qualquer lugar. O DVM não disponibiliza carros para fazer a prova e você precisa estar com a documentação em dia, pois todos os papéis são verificados no dia.

Depois que os papéis são checados, você é enviado para uma fila específica ao lado do prédio do DMV, onde deve esperar o examinador. Antes de entrar no carro, o examinador verifica se as setas, luzes de freio, buzina e demais itens básicos do carro estão funcionando. Estando tudo certo, é hora de dar uma volta na quadra. O percurso dura em torno de 15 minutos e o avaliador examina se você troca de pista corretamente, dá sinal, segue o limite de velocidade, sabe estacionar o carro e dar ré, sabe como fazer uma conversão levando em consideração a ciclovia, respeita os sinais de trânsito, a faixa de segurança, etc. É bem simples mesmo.

Para quem quiser mais informações, aqui está o link do site oficial do DMV californiano.

Resumindo a história, depois de chegar aqui, em três meses eu já tinha a minha carteira provisória e comecei a dirigir, sempre acompanhada do meu marido, que já tinha a carteira da Califórnia. Quando eu estava quase completando um ano de carteira provisória, fui fazer a prova prática, até porque a data de validade dela é de um ano. Não preciso nem dizer que nem dormi na semana anteiror. Fui pra prova tremendo, cometi alguns pequenos deslizes (a maioria por ser cuidadosa demais), mas passei. Quando a avaliadora disse que eu tinha passado, eu quase dei um abraço nela. Assim que ela saiu do carro, comecei a chorar de emoção. Eu finalmente tinha conseguido tirar a carteira de motorista depois de 11 anos!

O processo também se tornou menos traumático, pois os motoristas de San Diego são muito educados. Claro que sempre tem gente que não liga a seta ou faz alguma bizarrice, mas é difícil alguém buzinar, não dar passagem ou brigar. O número de acidentes também é bem menor. O único lugar que é mais assustador de dirigir é nas hayways (freeways daqui), pois os americanos passam fácil dos 100km/h e você precisa estar bem atento às saídas que precisa tomar, se não é preciso fazer um retorno bem grande até conseguir voltar para o mesmo lugar.

Pra completar, há três meses atrás comprei meu primeiro carro. Ele é pequeno, bem usadinho, mas tem sido um grande companheiro. Agora, vou para todos os lugares que preciso sem depender de ninguém. Confesso que nas primeiras duas semanas que eu estava dirigindo ele sozinha, ficava muito nervosa.

Ainda bem que tudo na vida é questão de costume. Ainda fico apreensiva quando tenho que ir para um lugar mais distante e que não conheço, mas é mais aquela tensão de ter que ficar sempre atenta a todos os movimentos que estão acontecendo ao seu redor e usar o GPS (ainda estamos tentando nos acertar).

Tenho sido constantemente a motorista da rodada, pois eu mesma disse que de agora em diante é a minha vez de não beber e levar meus amigos (ou minhas cobaias hahaha) para os bares, jantinhas, festas, etc., e depois para casa em segurança. Nos finais de semana, meu marido quase não está mais dirigindo, pois prefere passar a vez pra mim.

E assim vou seguindo, dia após dia, tentando superar os meus medos e provando pra mim mesma que nunca é tarde para realizar um projeto de vida e de dar a volta por cima.

“Imagine there’s no countries. It isn’t hard to do”

Não vou expressar minha opinião política sobre o Impeachment da Dilma, mas o tópico deste post está ligado a isso. Hoje, li muitos posts no Facebook que me deixaram chateada, porém um deles me abalou profundamente. Ele dizia mais ou menos o seguinte: “A pessoa fica fazendo mimimi, mas mora nos EUA, na Alemanha, na Austrália…”. Eu reli umas duas vezes pra ver se não era coisa da minha imaginação. Infelizmente, era a realidade, e os comentários que se seguiram foram ainda piores.

Só porque uma pessoa não mora mais no seu país de origem, não significa que ela é menos cidadã, que tem menos direitos e que não pode expressar a sua opinião sobre um assunto que afeta a vida dela direta ou indiretamente.

Eu moro nos Estados Unidos sim, mas continuo pagando impostos no Brasil, justificando meu voto e fazendo declaração do imposto de renda. Eu não moro mais no Brasil, mas toda minha família e meus amigos seguem lá e eu me preocupo com o futuro deles. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileira, falo português todos os dias, mantenho minhas tradições e tenho muito orgulho disso. Eu não moro no Brasil, mas a maioria dos meus melhores amigos em San Diego são brasileiros e eles também carregam toda essa bagagem com eles. Eu não moro no Brasil, mas acompanho todos os dias as notícias do país pra saber o que está acontecendo. Eu não moro no Brasil, mas sigo defendendo o meu país e tentando explicar para as pessoas de outras nacionalidades como temos muito mais coisas para oferecer do que apenas Carnaval e caipirinha. Eu não moro no Brasil, mas torço todos os dias para que as coisas melhorem. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileira e sei exatamente o que está se passando e o sentimento que tudo isso causa. Eu não moro no Brasil, mas vivi 27 anos da minha vida nesse país repleto de encantos mil e, ao mesmo tempo, cheio de desigualdades sociais. Eu não moro no Brasil, mas posso voltar a qualquer momento, porque se tudo der errado, é lá que eu sempre serei acolhida, é lá que o meu sotaque não faz a mínima diferença, é lá que as minhas experiências profissionais valem de verdade, é lá que eu conquistei um monte de coisas boas que pra sempre vou me orgulhar.

E eu poderia não fazer nada disso. Poderia apenas ignorar a existência do Brasil e seguir com a minha vida aqui, e mesmo assim eu ainda teria o direito de opinar sobre o cenário político e econômico do meu país. Eu não abandonei o Brasil, eu não fugi, eu não mandei tudo para o espaço por causa do cenário atual. Eu mudei, porque tive uma grande oportunidade na minha vida e agradeço todos os dias por ela ter acontecido. E mesmo se tivesse abandonado tudo por não aguentar mais, ainda assim teria o direito de opinar.

Acredite, não é porque você mora em outro continente que não sofre junto, que não torce junto, que não entende o que está se passando, que só serve pra falar mal do seu país de origem e exaltar o seu local de moradia atual. Eu sempre vou estar presente, mesmo de longe, em cada mudança que acontecer. Eu mando mensagem pra minha família e pros amigos mais próximos quando vejo que tem um temporal na cidade, então me diz como eu não vou me preocupar e estar por dentro de um processo de mudança política? Eu sei que olhar de fora não é a mesma coisa que estar experienciando na pele o que está acontecendo. Mas isso não diminiu o meu direito de ser brasileira seja onde for.

Eu sonho com o dia em que todas as pessoas tenham a oportunidade de conseguir olhar para os outros sem preconceito, inveja, intolerância e pré-julgamentos. Eu sonho com o dia em que o ódio das pessoas seja transformado em sentiments bons e que gerem ações que façam a vida de alguém melhor. Já falei isto aqui uma vez e vou repetir. Você não precisa mudar de cidade, estado, país ou continente para enxergar o mundo de outra forma e respeitar a opinião do outro. Enquanto isso, sigo acreditando e torcendo pelo meu país e excluindo todos aqueles que não conseguem entender o que isso significa.