Mar doce lar, vasto e profundo, mais vasto é o meu coração, que não cabe nesse mundo e precisa transbordar

Este ano de 2015 certamente foi o mais fascinante de toda a minha vida. Dia 7 de dezembro completamos um ano de San Diego, de aprendizados e muita saudade. É incrível como a experiência de morar em outro país transforma uma pessoa. Você passa por tantos momentos incríveis, embaraçosos, trabalhosos, alegres e tristes; conhece gente de todo o canto do mundo; começa a dar ainda mais valor para as pequenas coisas da vida (como cheiros, gostos, lembranças…); e faz muitas descobertas.

Olhei pro mar, pra não me perder de vista
E vi uma onda solitária, correndo sem quebrar
Como se fosse ela uma surfista
A onda olhou pra mim, me convidou jogando a sua crista
Abrindo os braços como ninguém abre
E eu que não sou Cristo, mas entendo de milagre
Fui andando sobre as águas do jeito que só quem conhece sabe
Acorde num domingo, tome seu café
Pegue a sua prancha, tome a benção à mãe
Reze com fé e vai pro mar
Solitário surfista…

Entre tantas descobertas, destaco as que mais mudaram minha visão sobre o mundo e sobre mim mesma:

– Os amigos na verdade são a família que você escolhe;

– Não é fácil recomeçar, mas é possível;

– Temos muito preconceito guardado dentro de nós sobre os EUA e muitos “achismos” vão por terra já na primeira semana que você está aqui;

– A comida brasileira é a melhor (claro que o maior destaque é para o feijão, o pudim, o pão, a polenta, etc., da mãe);

– O cheiro da minha mãe e o abraço do meu pai são os melhores presentes que a vida me deu e dói muito todos os dias não ter este tesouro por perto;

– Você é muito corajoso e só descobre isso quando está bem longe de casa, sem ter nenhum conhecido por perto, falando outra língua e tendo que encarar uma nova cultura;

– A Califórnia é um dos lugares mais loucos e incríveis que existe, mas nem por isso significa que a vida nela é um eterno pôr do sol no Pacífico.

Mar doce lar, vasto e profundo, mais vasto é o meu coração
Que não cabe nesse mundo e precisa transbordar
Navegar não é preciso, é preciso surfar
Nada parado, tudo em movimento
O chão é a parede e é o teto ao mesmo tempo
A parede desabando e eu lá dentro, acelero e acelera o batimento
Tanto bate até que fura, água mole em pedra dura
Cada louco tem a sua loucura
Eu viajo por isso, quase sempre sem visto
A sereia me chama, eu não resisto
Sei que cada feiticeira tem a sua maneira de transformar
Uma laje de pedra em ouro maciço, parece feitiço
A sereia me chama, eu viajo por isso

Ando trabalhando muito, mas não na minha área; ganhando pouco, mas o suficiente para pagar os pequenos prazeres da vida; viajando muito, mas gastando pouco; estudando inglês menos do que deveria, mas garantindo um certificado de Project Manager no início do ano; escrevendo de menos, mas passando mais tempo com os novos amigos; fazendo exercício de menos, mas comendo melhor; conhecendo novas bandas, mas não deixando de curtir os clássicos; recebendo muitos amigos em casa, mas para mim o tempo com eles nunca é o suficiente; dando muita risada, mas não deixando de chorar nas datas que todo mundo passa com a família, ou naqueles dias que tudo dá errado e o que você quer é apenas um colo de “mainha” ou um abraço da sua melhor amiga.

As trips que fizemos não foram muitas, mais aqui por perto mesmo, porém foram intensas. Tivemos a chance de conhecer Big Bear, Mammoth, Temecula,Los Angeles, Santa Barbara, Malibu, Venice, Oceanside, San Clemente e tantas outras praias do litoral californiano. Vamos passar o ano novo em San Francisco e, antes de vir pra cá, fizemos uma trip de um dia no México, na qual conhecemos as praias de Rosarito e Ensenada.

Não posso deixar de citar as bandas que tivemos a oportunidade de ver ao vivo por aqui como Foo Fighters, John Butler Trio, Alabama Shakes, The Wailers, Sublime e Madonna. Os ingressos aqui são muito mais baratos que no Brasil, por isso nossa ideia é aumentar a lista para o próximo ano.

Cheguei na praia, olhei pro mar, entrei no mar
Entrei no mar, olhei pra onda, entrei na onda
Entrei na onda e fiz a onda até a areia
Entrei na onda que corre na minha aldeia
A minha onda não é uma onda qualquer
Da minha onda eu saio de cabeça feita
E na areia uma sereia com pernas de mulher
Mais perfeita do que a onda mais perfeita
Adivinhava o meu futuro com os seus óculos escuros
Me filmando nas esquerdas e direitas
Cheguei na areia e a sereia entrou no mar
E só de onda eu me deitei onde ela deita
Tubarão em pele de cordeiro, um ataque de surpresa
Predador virando presa, uma sereia com pernas de mulher
Perfeição ou perversão da natureza?

Termino 2015 com a certeza de que quem faz o ano ser bom ou ruim é você, e que 365 dias não são mais o suficiente para realizar meus sonhos. Ainda não trabalho naquilo que amo, mas continuo buscando algo que me faça feliz.

Lembro que, quando cheguei aqui, já não sabia quais eram meus objetivos de vida, pois tudo estava de pernas para o ar. Agora, a minha lista está gigante e eu vou precisar correr muito para não perder a próxima parada.

Posso continuar sendo uma solitária surfista, porém quando chego na areia tenho a certeza de que sempre terá alguém me esperando.

Que a onda de 2016 venha com tudo! Feliz Ano Novo 😉

“Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo. Quem acredita sempre alcança.”

Lembro que a letra de “Mais uma vez”, do Legião Urbana, foi a escolhida para fazer parte da epígrafe do meu TCC. Naquele momento, ela fez todo o sentido ao ilustrar o fechamento de um ciclo. Hoje, ao escutá-la, ela também conseguiu dar significado para o meu recomeço.

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem

Após a publicação do último post, recebi várias mensagens de apoio e também relatos de amigos que passaram ou estão passando pela difícil tarefa de recomeçar sua carreira em outro país. Muitos disseram para eu manter a calma e acreditar que um dia as coisas vão acontecer.

Sim, eu acredito. Desistir nunca foi uma opção. Mas o ponto que quero esclarecer melhor, é o misto de esforço e sentimento que estão envolvidos na tarefa de reconstruir. Faz um mês que estou na busca de um emprego, pois foi uma opção minha não começar antes. Primeiro, porque queria estudar inglês, fazer trabalho voluntário e me sentir mais confiante ao tentar algo na minha área. Segundo, porque não quis aceitar trabalhar ilegalmente em um restaurante ou como babá. Muitos imigrantes por aqui não possuem outra opção, já que precisam pagar as contas, e dedicam grande parte do seu dia, finais de semana e feriados para a primeira oportunidade que aparece. Tenho muita sorte de ter um marido que pode nos manter enquanto eu me qualifico. Ao mesmo tempo, como tenho permissão de trabalho, tenho mais oportunidades para encontrar vagas na área de prestação de serviços, por exemplo.

Porém, outro ponto que dificulta a recolocação, é a falta de conhecidos que possam indicar você. Aqui fica muito mais difícil contar com amigos que possuem contatos em empresas que você gostaria de trabalhar. No Brasil, depois do meu primeiro estágio, não precisei mais sair enviando currículo e fazendo mil entrevistas, as oportunidades surgiam e eu sempre tinha algum contato que podia me indicar. Agora, é preciso recomeçar o ciclo de contatos, é preciso dedicar tempo para criar um novo networking.

Por isso, enquanto sigo na luta por conseguir algum voluntariado, estágio ou emprego em uma agência digital, também estou aplicando para vagas de vendedora em lojas. Como agora já estamos próximos do final do ano, surgem várias vagas temporárias. E foi em uma dessas oportunidades que uma estrela brilhou e eu consegui um trabalho temporário em uma loja. Semana passada fiz meu treinamento e devo começar na próxima semana!!!

Estou muito feliz por ter essa oportunidade, mesmo não sendo na minha área, pois agora vou poder contar com a indicação de um empregador americano, vou entender como funciona o sistema de trabalho por aqui, além de estar o dia todo falando inglês. Contudo, não desisti de achar o recomeço na minha profissão. Continuo pesquisando vagas, enviando currículos e fazendo contatos.

Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar

Recomeçar em outra área é algo muito enriquecedor. Tenho certeza que vou aprender muito e estou extremamente agradecida por isso. Ao mesmo tempo, já escutei algumas pessoas julgando o fato de que é inaceitável estudar durante tanto tempo para ser vendedora, garçonete, babá. Tenho uma amiga aqui com Doutorado em Psicologia que é nanny, outra que é Nutricionista e trabalha em um parque de diversões. E qual o problema nisso? O problema é que muitos de nós encara o emprego como sinônimo de status e pensa que todos os prestadores de serviços são classificados como uma categoria mais baixa da sociedade. É realmente revoltante estar em 2015 e ter que lidar com mais esse preconceito. Mais revoltante ainda é entender que esse pensamento é cultural, está enraizando na nossa sociedade e nos é ensinado desde que somos crianças. O que posso dizer é  que o prestador de serviço aqui nos Estados Unidos recebe por hora e, principalmente garçons/garçonetes, ganham mais por mês do que muita gente com cargo de gerente no Brasil.

Claro que é difícil dar passos para trás depois de estudar tanto e trabalhar mais ainda. É complicado saber que você vai ganhar bem menos no final do mês e que vai levar um bom tempo até chegar ao salário que você tinha quando deixou sua carreira no seu país de origem. Mas você optou por isso e agora precisa encarar as consequências. Não é vergonhoso trabalhar em outro lugar, todo trabalho é digno. Porém, infelizmente, lá no fundo, temos aquela cobrança de que poderia ser diferente. Nesse ponto, recomendo um texto maravilhoso indicado pela minha melhor amiga: A Alemanha e o trabalho. Vender colchão. Por que não? Uma das passagens que mais me marcou no texto foi: “Trabalho é só trabalho. Não tem nada a ver com status, com quem você é, não diz tanto sobre você. Tento repetir isso para mim milhões de vezes até tentar me convencer.” 

Para quem não acredita ou imagina que o preconceito com prestadores de serviço no Brasil é algo raro, recomendo esta outra leitura: Por que comemos embaixo da escada?.

Tem gente enganando a gente
Veja a nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!

A semana que passou me ensinou que mais difícil que recomeçar é mostrar para si mesmo que será preciso descer alguns degraus, deixar o orgulho de lado e encarar os comentários nem sempre positivos. “Trabalho é só trabalho” e nada mal recomeçar em um lugar tão maravilhoso quanto a California. Por aqui, o trabalhador pode iniciar ou terminar o dia surfando, voltar para casa a pé de noite sem ter medo de ser assaltado ou morto no caminho. Por aqui, o trabalhador é respeitado pelo simples fato de estar ganhando sua vida honestamente, seja qual for a sua profissão.

Confiar em si mesmo é o primeiro passo para qualquer processo de mudança. Toda dificuldade é temporária, você só precisa acreditar e batalhar para que as coisas aconteçam. Uma hora o sol vai brilhar no seu caminho, esteja você na Califórnia, em Dublin, em Berlim, em Abu Dhabi, em Sydney, em Shanghai, ou em qualquer lugar do mundo que você escolheu recomeçar. Você já é um vencedor pelo simples fato de ter tido a coragem de mudar.