“Eu não tenho data pra comemorar. Às vezes os meus dias são de par em par. Procurando agulha num palheiro.”

Andei afastada do blog, mas não foi por falta de tempo para escrever, e sim porque precisava resolver questões comigo mesma antes de externar minhas opinões e meus sentimentos. Nesse tempo, estudei, trabalhei bastante no voluntariado (agora são novamente duas vezes fixas por semana), fiz novos amigos e viajei. No próximo post vou relatar minha primeira trip pela Califa e trazer uma visão diferente sobre os lugares pelos quais passei. Porém, este post é para falar de um recomeço.

Recomeçar significa reencontrar ideias, projetos e uma pessoa que você havia perdido pelo caminho há algum tempo: você mesmo. Aquela pessoa que tinha sido engolida pelo stress da rotina maluca e pela zona de conforto. Ao reencontrar você mesmo, acontece um choque de mundos, quase um Big Bang. O “você antigo”, cheio de cicatrizes, manias e medos, descobre o “você novo”, completamente entusiasmado, cheio de planos e coragem. No primeiro momento, eles se estranham e até ficam emburrados um com o outro. Mas depois, eles descobrem que podem ser grandes amigos e ensinar um ao outro tudo o que sabem, criando um “você melhor”.

Acredito que uma boa viagem faz você alçar novos voos, descobrir novos horizontes, conhecer novas pessoas, aprender mais sobre o mundo e sobre si mesmo. Essa viagem não precisa ser para outro país, como foi meu caso, pode ser para a cidade vizinha, para a casa de paia de um amigo ou para o bairro mais bacana da sua cidade.

Viajar é ir além do seu portão. É dar passos para fora daquelas quatro paredes que tanto protegem e escondem você. Viajar é mais que pegar um carro ou um avião. Viajar é olhar para os lados e ver cores, amores e emoções. É sentir cheiros e sabores. É escutar barulhos, sorrisos, choros, lamentos e sonhos. Viajar é desenvolver cada um dos seus sentidos e descobrir que todos eles podem ir muito mais além. Viajar é fechar a porta e não olha para trás, é ter a coragem de um adulto e a alegria de uma criança. Viajar é descobrir o sabor da liberdade, entender o significado de responsabilidade e sentir na pele o significado da palavra experiência.

As músicas do Cazuza sempre me fizerem, de certa forma, viajar. Em “O tempo não para” é possível identificar um turbilhão de sentimentos, experiências e aprendizados. Dá para viajar apenas aumentando o volume e fechando os olhos.

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Já comentei por aqui que o sentimento inicial de um imigrante é ser só mais um na multidão, “só mais um cara”. Durante muitos dias que passam, você acredita que “está correndo na direção contrária” e sabe que isso não vai te levar a lugar algum. Não terá “pódio ou beijo de namorada” esperando na chegada. Você terá muitas pessoas perguntando por que você está triste ou nem sempre está feliz, se tem uma oportunidade de ouro nas mãos.

Muita gente tem a ilusão de que mudar de país irá resolver todos os problemas da vida, inclusive os de relacionamento. Só que você encontra muito mais espinhos nas flores pelas quais sonhava encontrar e é difícil aceitar e aprender a desviar deles. Não adianta escapar, em algum momento você irá espetar o seu dedo e isso irá doer. E mais uma coisa: os seus defeitos acabam se exaltando em momentos de grande mudança. Isso significa que você entrará em um número de conflitos maior consigo mesmo e com as pessoas mais próximas.

Claro que existem pessoas que encaram as mudanças da vida com mais facilidade. Infelizmente – ou felizmente – eu sou diferente. Toda mudança sempre foi difícil pra mim. Sofro demasiadamente por tudo. Sou ansiosa, sou apegada à pessoas e lugares, sinto saudade de tudo.

Começar do zero em um novo país é desafiador e também um pouco frustrante. Se você não sabe falar a nova língua fluentemente, você não é nada. E aí você precisa fazer novos cursos, aprender mais do mesmo (só que no novo idioma), aceitar que é preciso voltar a fazer estágio ou voluntariado, pois não têm experiência na sua área dentro da nova cultura.

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Contudo, você descobre que é muito mais forte do que pensa. Apesar de se sentir como uma criança aprendendo a falar um novo idioma e como um adolescente tentando ser aceito em um novo grupo de colegas/amigos, você descobre que é adulto e maduro, e prova para si mesmo que consegue encarar erros, desafios e possibilidades. “Você não está derrotado enquanto os dados ainda estiverem rolando”.

O grande degrau para se sentir aceito em uma nova cultura é não ter medo de errar. Não ter medo de escorregar na pronúncia, não ter medo de se perder pelas ruas, não ter medo de tentar conseguir um voluntariado ou um emprego, não ter medo de falar com as pessoas, não ter medo de pedir algum prato diferente no restaurante só porque você não entende quais são os ingredientes. Aí você vai aprendendo a sobreviver, por mais que alguns arranhões vão aparecendo no seu corpo. Machucar-se faz parte do processo.

Aprendi a assumir para as pessoas o que eu não sei. Quando alguém fala alguma coisa que eu não entendo, digo: “por favor, pode repetir?” e se ainda assim não entendo, digo “por favor, você pode me explicar? Estou aprendendo a falar inglês e em alguns momentos não entendo o que é dito”.

Aprendi a pedir ajuda. Peço para meus colegas de aula, para meus amigos, meu marido, meus clientes e meu chefe corrigirem minha pronúncia e a me ensinarem novas palavras. Não tenho mais vergonha de falar, pois a necessidade de expressar minha opinião é muito maior que a cobrança perfeccionista que existe dentro de mim. Não tenho vergonha de assumir que meus melhores amigos aqui são: o Google Maps, o Google Translater e minha bike.

Tomei vergonha na cara e comecei a cuidar mais da minha saúde. Há dois meses mudei minha alimentação, estou tentando ser mais natureba, consumir mais frutas e verduras, menos carne vermelha, farinha branca e glúten. Aprendi a fazer pão vegano, cookies integrais, a cozinhar diferentes receitas e a usar mais temperos naturais.

Fiz as pazes com os exercícios físicos e passei a correr. Imaginem que eu corria no máximo três minutos na esteira da academia e quase morria. Agora, já consigo correr 30 minutos sem parar ao ar livre. Claro que corro bem devagarinho, em um ritmo de iniciante, porém é preciso começar de algum lugar, não? Ao menos três vezes por semana eu dedico uma hora por dia ao exercício, seja correndo, andando de bike ou caminhando. E assim eu aprendi a dormir melhor, a me sentir mais disposta e descobri uma nova melhor amiga: a atividade física.

Não existe mágica. Viajar não irá mudar a sua vida, a não ser que você vá com a cabeça e o coração abertos. O primeiro passo é aceitar que mudar é errar, só a partir daí você irá começar a acertar. O tempo nunca para, então siga com ele.

O tempo não para
Não para, não, não pára

“Valeu a pena. Êh! Êh! Sou pescador de ilusões.”

Morar em outro país exige que você faça planos. Sim, a palavra exigir é forte, mas você precisa planejar seu futuro para não cair no esquecimento e na necessidade. Nas últimas semanas, estamos discutindo em aula o tema plano de carreira americano e uma coisa ficou nítida: por mais que você tivesse uma boa colocação no seu emprego anterior e experiência para pôr no currículo, ou seja, fosse alguém na sua área em seu país; ou tenha estudado longos anos, fale mais de um idioma e tenha feitos vários cursos; se você está aqui aprendendo inglês e tentando uma oportunidade de trabalho (ou seja, não tenha sido transferido da sua empresa do Brasil para cá ou não tenha chegado já com um emprego garantido), você não é ninguém. Na verdade você é só mais um na multidão de imigrantes.

Essa constatação é um soco no estômago – e no ego. No início, você fica pensando em looping e é difícil não desanimar. Por exemplo, tenho uma amiga brasileira que está cursando MBA aqui (ela tinha uma boa carreira no Brasil) e como proposta curricular precisa fazer x horas de estágio em uma empresa americana. Porém, no estágio é delegado para ela atividades extremamente simples, que estão muito abaixo das suas qualificações. Atividades essas que deveriam ser dadas para quem está iniciando na área e não para quem já tem longos anos de experiência. Ela está sofrendo com isso, assim como seus colegas. O problema não é ser estagiário, afinal quem nunca foi? O problema é ter mais de 30 anos e ter que começar do zero.

Mas não importa. Quando você muda para os EUA e não tem suporte de uma empresa, você precisa entender que a corrida está apenas começando. Claro que sua carga de experiência é importante, porém ela só vai valer realmente depois de longos meses em uma empresa, quando o seu chefe tiver confiança em você e conseguir ver o seu trabalho dando resultados.

Aqui sou apenas uma estudante de inglês e uma voluntária. Ponto. E todos os anos da Graduação e da Pós-Graduação? E os Cursos Complementares? E o vários anos de experiência de trabalho? Tudo isso ficou no Brasil. É hora de virar a página e começar uma nova história.

O sonho americano não é tão lindo assim se você realmente quer continuar a ter uma carreira. Conheço várias pessoas que são formadas na faculdade e executavam cargos importantes no seu país, contudo aqui são garçons/garçonetes e babás. E para quem não tem Graduação, que é o básico, o cenário é ainda pior. É necessário trabalhar em dois ou três empregos para conseguir se sustentar e garantir o valor mínimo por hora na Califónia, que é de $9. Vale lembrar que San Diego não é uma cidade barata. Mesmo assim, o valor do aluguel e da alimentação ainda saem mais em conta se comparados com San Francisco ou Los Angles. New York está em outro patamar, não cabe nem comparar o custo de vida por lá ( é como querer comparar Porto Alegre com Rio de Janeiro).

Se meus joelhos
Não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé
Que me traga fé

Se por alguns
Segundos eu observar
E só observar
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol

Aí você começa a questionar o quanto vale a pena para essas pessoas saírem do seu país para tentar uma nova vida, se elas não conseguem desfrutar das belezas que San Diego tem para oferecer. E você começa a se perguntar: o que eu estou fazendo aqui? Mas aí você precisa pensar que a cultura, a situação econômica, a violência e a educação têm um impacto gigantesco para o futuro das pessoas, ainda mais quando elas têm filhos. Escutar e tentar entender a história de vida de quem o rodeia faz com que você amplie seu campo de visão e comece a agradecer mais por tudo que tem.

Tenho colegas com realidades bem difíceis por aqui. Prefiro não citar seus nomes ou seus países de origem para preservá-los, só posso dizer que não são brasileiros.

Uma colega largou seu emprego e vendeu sua casa no seu país, o único bem que tinha, para dar ao seu filho adolescente a chance de ter um futuro melhor que o seu aqui nos EUA. Como em seu país a violência está aumentando cada vez mais e o número de empregos só baixa, ela temia por seu filho, ainda mais sendo mãe solteira e não tendo outra fonte de renda. Aqui, ele está terminando o Ensino Médio e no próximo ano inicia a faculdade. Já fez amigos, está aprendendo uma segunda língua e, principalmente, está em um lugar seguro. Enquanto isso, ela está estudando inglês para conseguir um emprego, pois as suas economias acabarão e ela precisa continuar sustentando o futuro de sua família.

Além disso, uma outra colega vive aqui há anos, mas só tem o Ensino Médio. Ela trabalha em dois restaurantes todos os dias, tem apenas uma folga por semana e ganha o suficiente para viver, mas não o bastante para aproveitar. Porém, um colega na mesma situação, está finalizando o curso de inglês e no próximo mês irá começar a faculdade. Ele tem mais de 30 anos, nenhum final de semana livre, dois filhos e o sonho de ser educador físico.

Somado aos problemas de colocação no mercado de trabalho, também tenho colegas que possuem tempo para estudar, uma condição de vida boa, porém sua religião não permite que desfrutem do tempo livre. Por exemplo, uma colega mora aqui há dois anos com seu marido e um de seus irmãos e, paralelo ao curso de inglês, faz um curso técnico em informática. Seu objetivo é conseguir um emprego em San Diego. Até aí tudo bem, mas ela não aproveita nada da cidade. Ela não dirige e nem sabe andar de bicicleta por puro medo. Tampouco sai para passear sozinha, pois ela só pode sair para a rua acompanhada de um familiar ou do seu marido.

Enfim, dificuldades à parte, o importante é não deixar se abater pelo desânimo. Penso no seguinte: já que devo começar do zero, então vou organizar minha trajetória para que ela seja certeira e traga o retorno esperado. Agora, já não tenho mais todas aquelas dúvidas do que quero ser ou fazer como quando tinha aos 17 anos. Já consigo decidir com clareza minhas expectativas. Isso não significa que eu não vá escolher outro rumo quando for mais velha, mas por enquanto preciso ter foco no presente, na atual situação que estou encarando.

Ainda assim estarei
Pronto pra comemorar
Se eu me tornar
Menos faminto
E curioso
Curioso

O mar escuro
Trará o medo
Lado a lado
Com os corais
Mais coloridos

Como diz a música Pescador de Ilusões do Rappa, quando você se torna menos faminto e mais curioso para descobrir o mundo e a si próprio, mesmo que o medo apareça de um lado (e tenha certeza de que ele estará lá), do outro você terá a visão dos mais lindos corais. Esses corais são sua família, seus amigos, sua fé.

Contudo, só falar não adianta, é preciso fazer. Por isso, o primeiro passo é criar um plano para chegar até o seu grande objetivo de vida. Vale lembra que não precisa ser um adulto para fazer isso, você pode ser um adolescente, um jovem ou estar na melhor idade.

Segue o esquema que estamos trabalhando na aula e que acredito que é um bom começo para qualquer pessoa:

My long-term goal is:…….

1. First, I need to:….
2. Then, I need to:…
3. Next, I need to:…
4. After that, I need to:….
5. Finally, I will reach my long-term goal of:…..

Ainda não vou compartilhar minhas respostas, pois estou construindo os steps em aula, mas o primeiro passo já foi dado: estudar inglês. Os próximos passos serão uma consequência. Será fácil? Não. Será rápido? Não. Vai exigir paciência. Sim (e muita!). Vou desanimar em algum momento? Sim. Vou desistir? Jamais!

Uma característica muito interessante dos EUA é que aqui existem escolas públicas que são muito boas. Por exemplo, eu faço inglês na San Diego Continuing Education totalmente free. Além do curso de inglês como segundo idioma, a escola oferece alguns cursos profissionalizantes, também gratuitos, como moda e nutrição.

Existem muitos outros cursos totalmente sem custos, ou que você precisa pagar apenas o material didático ou ainda que são bem mais baratos que uma escola regular. Para conhecer todas as oportunidades da instituição San Diego Community College District, basta acessar http://sdccd.edu/.

Você também pode participar de trabalhos voluntários para melhorar seu novo idioma e aumentar sua rede de contatos. No LinkedIn é fácil de encontrar oportunidades em qualquer cidade, basta usar os filtros do próprio site. Ou você ainda pode buscar por um voluntariado em diferentes cidades dos EUA neste site http://www.volunteermatch.org/.

Se eu ousar catar
Na superfície
De qualquer manhã
As palavras
De um livro
Sem final, sem final
Sem final, sem final
Final

Nenhuma jornada é fácil. Você colocará muitas vezes seu anzol na água, irá esperar por horas e será enganado, iludido pelo peixe. Porém, às vezes, você conseguirá ser mais rápido, ousado e espero, e enfim conseguirá tirá-lo da água. Pescar ilusões faz parte da longa jornada que é viver. Pescar exige paciência e persistência. Só assim você conseguirá trazer para a superfície todos os seus sonhos e escrever o livro da sua vida.

“Não me deixe só. Eu tenho medo do escuro. Eu tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha voz.”

Na louca rotina que vivemos, muitas vezes esquecemos de dedicar tempo para nós mesmos. Há quatro meses atrás, confesso que não conseguia organizar o tempo que sobrava do meu dia para fazer coisas para mim. Acabava trabalhando até mais tarde, ou cuidava das coisas da casa, ou ainda estava tão cansada, que só queria chegar em casa, tomar banho e ir dormir. Mal sobrava tempo para ler algumas páginas de um livro, acabava fazendo isto no ônibus (quando conseguia lugar para sentar). Fazia exercícios no máximo duas vezes por semana e minha dieta não era das melhores.

Porém, quando a vida dá para você a chance de ter tempo, você acaba se reencontrando consigo mesmo e reaprendendo a fazer o que já havia esquecido há muito tempo. Não estou falando de ser egoísta e pensar apenas em si, mas sim de hobbies que você tem, que fazem de você uma pessoa mais feliz e melhor. Seja tocar um instrumento, ler, desenhar, pintar (agora várias pessoa voltaram a fazer este grande passa tempo que eu amo após lançarem livros voltados para adultos), cantar, praticar algum esporte, olhar televisão, ou simplesmente não fazer nada. Ou seja, simplesmente passar um tempo consigo mesmo fazendo algo prazeroso.

Não me deixe só
Que o meu destino é raro
Eu não preciso que seja caro
Quero gosto sincero de amor

A música “Não me deixe só”, de Vanessa da Mata, define muito bem meu momento atual. Terei que ficar três semanas totalmente sozinha aqui em San Diego. Para a minha sorte, sete dias já se passaram. Ao mesmo tempo que está sendo difícil conviver com a casa vazia, passei a cuidar mais de mim. Agora, após meu curso, pego minha bike e ando ao menos 10 km. Optei pela bike, pois não gosto de academia e, como não estou trabalhando no momento, não tenho como pagar aulas de Pilates, Yoga ou Ginástica. Além disso, a cidade tem tantos lugares incríveis, tanta natureza e paisagens maravilhosas, que fica muito mais fácil fazer exercícios ao ar livre. Sem contar que existem ciclovias por todos os lados e, quando não têm, placas sinalizam que por aquela rodovia passam ciclistas.

San Diego é uma cidade com muitos ciclistas, pra falar a verdade. Existem diversas lojas de bikes e acessórios, ciclistas profissionais, famílias inteiras que optam por passear de bike aos finais de semana, além de passeios guiados pelos pontos turísticos da cidade, tudo de bike. Você só precisa escolher por quanto tempo está disposto a pedalar.

Além da bike, vejo muitas pessoas por aqui andando de skate, correndo, caminhando ou fazendo ginástica. Sempre lembro do Rio de Janeiro e de todas aquelas pessoas lindas fazendo exercícios ao ar livre, desfrutando da sorte que têm de morar em uma cidade praiana, cheia de inspiração.

Quando chego ao meu destino, paro pelo menos 30 minutos para ler. Estou intercalando leituras em inglês e em português, pois ainda não consegui aderir totalmente só ao inglês. Ler sempre foi uma das minhas paixões e agora estou conseguindo colocar em dia a pilha de livros que eu havia comprado no Brasil, mas não tinha tempo para ler.

Também passei a fazer uma dieta acompanhada por uma nutricionista brasileira e acabo dedicando bastante tempo preparando cada refeição. Além disso, assim como no Brasil, aqui as frutas, verduras e alimentos naturais são mais caros. Por isso, é preciso fazer uma boa pesquisa nos supermercados antes de comprar qualquer item.

Resumindo, estou tentando ter uma vida mais saudável, sem deixar de comer as coisas que eu gosto (como chocolate!), e aproveitando ainda mais a cidade, já que todo dia acabo descobrindo um novo lugar ou tendo uma nova experiência pelo caminho. Após algum tempo, você ganha mais confiança e começa a desbravar a cidade por caminhos que não são tão populares sem ter medo de se perder (e quando isso acontece, uso o Google Maps).

No início, ia sempre para a mesma praia, Ocean Beach, pelo único caminho que conhecia. Depois, descobri que existia uma ciclovia que costeava um rio até chegar na mesma praia. E agora, segui outras rotas propostas pela ciclovia e conheci meu novo lugar favorito: Mission Beach. Para intercalar, por vezes sigo outros caminhos e vou para Pacific Beach ou ainda para o lado oposto à praia. Contudo, pesquisei novas rotas e vou começar a desbravar novos percursos.

Não me deixe só
Que eu saio na capoeira
Sou perigosa, sou macumbeira
Eu sou de paz, eu sou de bem, mas

Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz

Estar sozinha em outro país é algo assustador e, ao mesmo tempo, muito desafiador. Você precisa ser forte para suportar a solidão e corajoso para sair todos os dias de casa sabendo que precisará lidar com diferentes tipos de situações sem ter ninguém conhecido por perto para ajudá-lo. Falar sozinho, rir de si mesmo e, por vezes, sentir medo, é algo totalmente natural. Contudo, você acaba falando muito mais a segunda língua, fazendo ainda mais amigos ou reforçando a amizade com aqueles que já conquistou na nova terra.

Acho incrível como os imigrantes ajudam um ao outro por aqui. Quando a professora me perguntou como tinham sido minhas férias de primavera, respondi que não muito boas, pois meu marido estava viajando e não gostava de ficar sozinha. Depois disso, colegas brasileiros que eu acabo só cumprimentando na aula, vieram oferecer ajuda, caso fosse necessário. Uma senhora inclusive me passou seu telefone, dizendo que eu poderia ligar a qualquer hora. Meu amigo mexicano já me acolheu na sua casa esta semana com uma janta e minha amiga suíça também combinou um encontrinho.

E assim, dia após dia, San Diego está sendo um aprendizado muito maior do que eu esperava. Ao mesmo tempo que traz saudade, traz conhecimento interior, paz, amizade, coragem e muita sabedoria. Que venham os próximos desafios 🙂

“A vida vem em ondas como um mar. Num indo e vindo infinito.”

Planejar. Esse verbo por muito tempo guiou os meus dias. Todas as manhãs, levantava da cama sabendo exatamente o que faria, em qual horário e com quem. Perdi muitas noites de sono repassando os fatos do dia, culpando-me por ter esquecido de fazer alguma tarefa no trabalho (não respondi o e-mail x, preciso ligar para fulano, tenho que cobrar ciclano…) e tentando dizer para mim mesma que precisava priorizar alguns compromissos pessoais (esqueci de marcar minha mão pela terceira vez na semana, não mandei mensagem para a fulana, preciso confirmar presença no aniversário do ciclano…). E assim os dias passavam e eu naquela roda gigante maluca que não saia do lugar, e que cada vez mais consumia meu sono e minha saúde.

Saber planejar é crucial para a sua carreira, ainda mais quando você trabalha como gerente de projetos. Planejar é essencial para você aprender a priorizar o que realmente é importante. O problema é quando você quer planejar e controlar tudo que acontece ao seu redor.

Este novo momento da vida está me ensinando a não fazer muitos planos para o meu dia. Confesso que no início é extremamente complicado, mas com o tempo você descobre que pode ter um dia maravilho que não teria se tivesse planejado.

Esta semana era “Spring Breack” na minha escola. Semana passada estava preocupada pensando que teria minha rotina interrompida, mais uma vez. Aproveitei as manhãs para estudar, mas na quarta-feira decidi ir à biblioteca do meu bairro, afinal é sempre bom mudar de ares. No fim, ela estava fechada devido a um feriado específico. Decidi mandar mensagem para um colega que mora ali perto e fomos tomar banho de piscina, jantar e ele acabou aqui em casa à noite tomando um drink comigo e com o meu marido. Em outra tarde, decidi que me dedicaria a fazer novas receitas e passei o dia em função de pães e geléias.

Como Lulu Santos muito bem disse, a vida é como uma onda. Cada momento é composto por uma onda específica. Por vezes, ela é grande, bonita e perfeita, e você consegue surfar sobre ela; já em outros momentos, ela é traiçoeira e arrasta você para o fundo do mar, mas você precisa ter coragem para vencê-la e recomeçar tudo outra vez; por outras, ela é tão tranquila que você mal a percebe. Mas não importa a sua intensidade, cada momento está ali, acontecendo e convidando você para desfrutá-lo. Mas se você perder uma dessas ondas, não adianta chorar, pois ela não voltará. O mar não vai parar para você recuperá-la. É preciso erguer a cabeça e seguir adiante, buscando novas oportunidades, novas ondas que poderão trazer aquilo que você espera.

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará

A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito

Tenho uma lista de tarefas que preciso fazer toda semana e em dias específicos, mas como tenho tempo livre nesses espaços, procuro deixa a vida levar. Os finais de semana são os mais incríveis. Dificilmente marcamos compromissos, os eventos vão acontecendo com o desenrolar do dia. Sábado passado começamos o dia na praia, encontramos alguns amigos, fomos parar numa raive, depois pegamos uma jacuzzi na casa de um casal de amigos e terminamos a noite comendo o melhor hambúrguer das redondezas em um restaurante muito bacana. Resumindo, conhecemos pessoas novas, degustamos novos sabores, demos muitas risadas, aproveitamos cada minuto do dia e tudo isso sem fazer nenhum planejamento prévio.

Sempre me cobrei muito para que cada coisa fosse feita com perfeição. E, quando dava errado, senti-me a pessoa mais frustrada do mundo. Porém, nunca me dei tempo para melhorar. Agora, e com ajuda da terapia feita no ano passado, passei a entender que todos os acontecimentos intensos da nossa vida precisam de maturação, assim com um bom vinho.

Após passar por um momento triste, como a perda de uma pessoa querida, por exemplo, você precisa se dar um tempo para chora e sofrer. Depois, você precisa refletir sobre esse luto e entender o quanto ele significa na sua vida, retirando todos os pontos que possam ajudá-lo a ser uma pessoa melhor. Só depois disso você segue adiante. O mesmo ciclo acontece com as coisas boas, como uma promoção no trabalho, por exemplo. Você deve ter o tempo de comemorar e de sorrir, mas depois deve processar a novidade, entender o que fez chegar até ali e como esses pontos positivos podem ser aplicados em outros aspectos da sua vida.

Estamos mudando o tempo todo, o mundo muda o tempo todo. Nunca vamos conseguir acompanhar tudo na mesma velocidade, mas precisamos desacelerar para poder conseguir seguir na maratona com a cabeça e o coração em ordem. Quando os dois estão em conflito, a vida vira um caos!

Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo

Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre

Como uma onda no mar

Mas não se engane, não é fácil. Todo processo de mudança e amadurecimento é doloroso, muito doloroso. Tem momentos que você tem vontade de sair correndo para o colo da sua mãe como uma criança assustada e desprotegida. Contudo, você não pode. Sua mãe mora longe, ou está viajando, ou infelizmente ela já não está mais aqui.

Claro que você pode se dar a esse luxo de vez em quando, mas não sempre. Você é um adulto e precisa aprender a controlar suas birras internas, seu conflitos, seus momentos de decepção, de perdas, de erros. Ser adulto exige tomadas de decisões, escolhas que nem sempre serão as certas, mas quando são podem abrir um novo mundo para você. Porém, o mais importante de tudo é saber que: ser adulto é aprender a entender a emoções e senti-las, desfrutando a sua intensidade. Esconder sentimentos é para os fracos, os verdadeiros corajosos são aqueles que admitem sentir.

A vida vai e vem como uma onda no mar. Aproveite a brisa, a areia, o sal, a água e tudo mais que ela pode lhe dar, assim como o mar. Faça planos, mas não exagere. Nunca sabemos se o dia de amanhã chegará para perdermos tempo levando uma vida tão certinha e regrada. Toda pitada de loucura faz bem para a alma.

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz.”

O tempo passa muito rápido. Hoje completamos três meses na terra do Tio Sam. Foram tantos aprendizados, alegrias, saudades, frustrações e superações, que parece ter passado mais de um ano. Cada dia é tão intenso, que equivale, muitas vezes, a uma semana. Como Gonzaguinha divinamente disse na música “O que é o que é”, não devemos ter vergonha da felicidade e devemos ser humildes para aceitar que somos eternos aprendizes nesta vida. Aprender certamente foi o que mais fiz nesses últimos tempos. Por isso, para cada dia que passamos aqui, listei um hábito da cultura dos americanos que vivem em San Diego e que me fizeram ter uma nova visão das coisas.

Eu fico com a pureza das respostas das crianças:
É a vida! É bonita e é bonita!
Viver e não ter a vergonha de ser feliz,
Cantar,
A beleza de ser um eterno aprendiz
Eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será,
Mas isso não impede que eu repita:
É bonita, é bonita e é bonita!

  1. Os carros param para os pedestres que atravessam na faixa de segurança.
  2. Não atravesse fora da faixa de segurança. Você pode levar uma advertência da polícia ou até uma multa.
  3. Existem faixas para pedestres em todos os lugares.
  4. O trânsito em San Diego não é caótico (se você for pra Los Angeles certamente vai se sentir em São Paulo). Os motoristas só buzinam quando realmente é necessário.
  5. Existe cordialidade no trânsito. Os outros motoristas deixam você passar na frente quando necessário.
  6. Na freeway, se você estiver com um passageiro no carro, pode andar na via expressa, a qual possui menos fluxo que as demais. Ou seja, você “ganha” essa vantagem se estiver fazendo rodízio com seus colegas de trabalho, por exemplo.
  7. Os pedágios são muito diferentes. Os carros não precisam parar, existe uma câmera que registra sua placa e dentro de alguns dias você recebe em casa o boleto para pagar a taxa.
  8. Carros são muito baratos e fáceis de serem comprados por aqui.
  9. Os americanos usam o carro pra TUDO. Dificilmente você vê americanos caminhando. Eles realmente dirigem de uma quadra a outra se for preciso.
  10. Como o carro é praticamente a sua casa, é muito comum você ver americanos almoçando no carro, se maquiando, tomando café, etc. Inclusive, já vi várias pessoas que carregam MUITAS coisas dentro do carro.
  11. A gasolina é muito barata.
  12. Não existem guardadores de carro por aqui.
  13. É muito comum encontrar carros com chave na iguinição, com os vidros abertos ou com as portas destrancadas.
  14. Existem vários estacionamentos públicos em que você estacionada e por conta própria paga o seu ticket. Claro que, se você não pagar e passar a fiscalização, seu carro será guinchado. O mesmo vale para os paquímetros.
  15. Têm calçadas em todos os lugares, ou seja, você pode caminhar ou andar de bicicleta sem medo.
  16. Se você está de bike, os motoristas respeitam a sua opção. Inclusive existem pistas em que o ciclista tem a preferência.
  17. O transporte público é muito bom, porém restrito já que a maioria das pessoas têm carro.
  18. Tudo é self-service: posto de gasolina, trolley, supermercado e lojas de materiais de construção ou móveis (nesses três últimos casos existem alguns caixas com pessoas atendendo).
  19. Em lojas de materiais de construção, como Home Depot, ou de móveis, como Ikea, você mesmo que passa pelas prateleiras pegando o que precisa e leva pra casa. A maioria das lojas não faz entrega e, quando faz, cobra caro por isso.
  20. Como é caro o serviço de entrega, existem empresas que alugam mini caminhões de mudança para as pessoas carregarem seus móveis/materiais de construção da loja para a sua casa.
  21. Quando você compra móveis em lojas mais baratas, você mesmo que deve montá-los em sua casa. Isso é muito comum por aqui.
  22. A burocracia para alugar um carro ou um apartamento é mínima. Nada comparado com o Brasil.
  23. Buffet não é uma coisa comum, mas é um dos únicos lugares que você não precisa pagar gorjeta.
  24. Comprar “bobagens” (salgadinho, bolacha recheada, chocolate, bolos, etc.) no supermercado é MUITO mais barato do que comprar alimentos saudáveis (frutas, legumes, sucos, pães integrais, etc.).
  25. Ao mesmo tempo, existem diversos supermercados que vendem alimentos mais saudáveis e não possuem preço muito superior aos supermercados comuns.
  26. A maioria dos cardápios possui opções de pratos para vegetarianos e veganos.
  27. A comida é barata. Claro que existem restaurantes caros, mas em geral os preços são bem acessíveis. Porém, mesmo assim os americanos acham caro.
  28. No cinema você que serve a sua bebida e coloca manteiga na sua pipoca.
  29. O almoço é reduzido a lanches, principalmente hamburgues e tacos. Se você quer comida de verdade, precisa procurar bastante ou fazer em casa.
  30. Inclusive é muito comum os americanos levarem comida feita em casa para o trabalho (a famosa marmita).

E a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão?
Ela é a batida de um coração?
Ela é uma doce ilusão?
Mas e a vida? Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é, meu irmão?

  1. Os restaurantes não cobram água caso você peça.
  2. O drive-thru é muito comum aqui. Todos os fast-foods com drive-thru têm mais movimento que o interior do restaurante. Até algumas farmácias têm drive-thru.
  3. A palavra grande significa gigante. Ex.: se você for na Starbucks e pedir um café grande, virá praticamente um balde de café.
  4. A pimenta é muito comum em todos os cardápios e existem molhos apimentados de todos os tipos.
  5. Na maioria das vezes você não precisa pedir a conta, ela vem logo depois que você termina sua refeição.
  6. Os americanos gostam de jantar cedo. Por isso, muitos restaurantes fecham às 9h.
  7. Você que calcula a gorjeta nos restaurantes e escolhe se quer pagar junto no cartão ou separadamente em dinheiro.
  8. Você não encontra massa de pastel nos supermercados.
  9. Leite condensado, creme de leite, batata palha e requeijão são itens não muito comuns e possuem diferentes aspectos por aqui.
  10. Muitas lojas oferecem cupons de desconto em todas as compras. Como a concorrência é grande, os programas de fidelidade são muito comuns.
  11. A maioria das lojas abre no domingo.
  12. Os atendentes perguntam se você precisa de ajuda logo que você entra na loja e depois dão todo espaço do mundo para você olhar as coisas.
  13. Dificilmente você vai encontrar um item sem preço. Seja no supermercado, em uma loja de roupas, na farmácia, no site do salão de beleza, enfim, tudo é precificado.
  14. O preço que está na etiqueta é o valor final e ponto. Americanos não ficam negociando desconto como no Brasil. Ou você tem um cupom de desconto ou vai pagar o valor da etiqueta. Ponto final.
  15. Se você não gostou de um produto, você tem uma semana para ir na loja e pedir seu dinheiro de volta sem dar muitas explicações.
  16. Quando você troca um produto, você pode escolher entre seu dinheiro de volta ou ganhar um vale para comprar outros itens na loja.
  17. É comum você receber seu dinheiro de volta através de cheques que são enviados pelos correios.
  18. Se você fez alguma compra on-line, geralmente em menos de uma semana recebe o produto em casa.
  19. As entregas das compras on-line geralmente são deixadas na frente da porta da sua casa, mesmo se você não estiver em casa.
  20. Os shoppings não cobram estacionamento.
  21. Tudo é muito prático. Dificilmente você encontra balde ou pano de chão. Aqui se usa o mop, que é um rodo com um pano descartável.
  22. Os americanos não se preocupam muito com limpeza, geralmente fazem apenas a limpeza básica da casa usando seus produtos e acessórios automáticos. Tanto é que as faxineiras brasileiras ganham muito dinheiro por aqui, pois são conhecidas por realmente colocarem uma casa abaixo e deixar tudo tinindo de limpo.
  23. Por todo serviço prestado é preciso pagar gorjeta de 10% a 15%, inclusive no salão de beleza.
  24. Todo tipo de serviço é caro. Desde um encanador até uma manicure.
  25. Como o serviço é caro, muitas mulheres acabam fazendo em casa coisas como unhas, hidratação no cabelo e depilação. Por esse mesmo motivo, existe muitos bons produtos à venda e com preços acessíveis.
  26. Do mesmo modo, muitas americanas não têm empregadas e fazem elas mesmas a limpeza da casa (lembrando que esse serviço também é caro). Por isso, existem produtos de limpeza milagrosos e baratos, assim como robôs que limpam a casa.
  27. Aqui as pessoas andam bem à vontade. Não existe a preocupação de estar arrumado para ir ao shopping, ao cinema ou à praia. Se você ver uma mulher muito bem arrumada, na maioria das vezes ela é oriental, européia (geralmente francesas e espanholas) ou brasileira.
  28. Os americanos são muito amigáveis. Eles adoram conversar.
  29. Muitos americanos têm animais de estimação, principalmente cachorros.
  30. Os pets são praticamente filhos para os americanos. É muito comum ver cachorros nas praias, nos supermercados, em restaurantes e até em serviços públicos.

Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo,
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo,
Há quem fale que é um divino mistério profundo,
É o sopro do criador numa atitude repleta de amor.
Você diz que é luta e prazer,
Ele diz que a vida é viver

  1. A maioria dos apartamentos alugados cobram uma taxa extra mensal para quem tem pet.
  2. Existem muitos mendigos em San Diego devido ao clima.
  3. Os mendigos são muito educados. Dificilmente eles abordam você. A maioria usa um pedaço de papelão dizendo que precisa de dinheiro.
  4. O voluntariado é muito comum por aqui. Existem muitas vagas de voluntariado em escolas, bibliotecas, parques e ONGs.
  5. É proibido beber bebidas alcóolicas em locais públicos, como na praia, por exemplo.
  6. Na beira da praia é comum encontrar diversas quadras de vôlei gratuitas paras as pessoas jogarem.
  7. Existem diversas pistas de skates e elas são muito bem conservadas.
  8. As festas acabam cedo. Às 2h as luzes são acessas e as pessoas são mandadas embora.
  9. É permitido vender bebidas alcóolicas em estádios, espetáculos e shows.
  10. Sempre que você compra bebida alcóolica, precisa mostrar sua identidade.
  11. As festas americanas nas casas das pessoas geralmente são muito práticas: você leva uma coisa para comer e beber e a dona da casa também serve comidas prontas, geralmente legumes com algum molho ou tortas prontas.
  12. Os americanos não perdem horas na cozinha pra fazer uma janta pros seus convidados.
  13. Quando os americanos dão tchau, eles realmente vão embora.
  14. Ao expressar suas opiniões, você precisa ser bastante direto. Os americanos são muito objetivos.
  15. Não existe jeitinho pra nada. É tudo preto no branco. Aceite e siga as regas. Esqueça o jeitinho brasileiro.
  16. Horários devem ser respeitados. Se você chegou 1 minuto depois do que foi marcado, você está realmente atrasado.
  17. Os americanos não gostam de falar muito perto das pessoas, tampouco que sejam tocados durante a conversa.
  18. Respeite o espaço alheio. Se você está no elevador e existe espaço vago, mantenha uma certa distância das pessoas.
  19. Para os americanos é importante saber de onde você é e o que você faz. Mesmo que você seja “só” estudante, para eles isso é muito valorizado, pois significa que você está se qualificando para o mercado de trabalho.
  20. Os americanos comprimentam você e continuam andando. Eles estão sempre correndo.
  21. Todas as filas são respeitadas.
  22. Lojas de usados são muito comuns. Aqui as pessoas não se importam muito em ter em casa móveis e roupas usadas.
  23. Existem containers em algumas calçadas para você fazer doação das coisas que não usa mais ou você simplesmente pode colocá-las na frente da sua casa.
  24. Inclusive existem sites para você publicar os objetos que está doando e anunciar para as pessoas.
  25. É muito comum encontrar bazar no jardim das casas, principalmente nos finais de semana.
  26. Viajar dentro do país é barato.
  27. É bastante comum as pessoas fazerem trip de carro ou alugar um motor room e viajar com a família.
  28. Os americanos são extremamente educados. Eles pedem com licença, desculpa e obrigado para tudo.
  29. Existem muitos programas de auditório e de debate na televisão.
  30. 60% dos comerciais são de comida, 20% de carros, 10% de produtos para emagrecer e 10% sobre outros assuntos.

Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser,
Sempre desejada por mais que esteja errada,
Ninguém quer a morte, só saúde e sorte,
E a pergunta roda, e a cabeça agita.

Agora, aguado os próximos 90 dias. Certamente muitos novos aprendizados virão 🙂

“Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia. Eu não encho mais a casa de alegria. Eu não vou me adaptar.”

Esta semana o tema das aulas de inglês foi sobre “cultural shock”, ou seja, o choque cultural pelo qual passamos quando mudamos de país. O interessante foi notar que TODOS os quarenta colegas ( a turma é composta por pessoas de 26 nacionalidades diferentes) identificaram-se com os sintomas causados por esse processo de mudança. Segundo os estudos feitos sobre o assunto, passamos por cinco estágios de adaptação quando não somos mais apenas turistas. São eles: período de lua de mel, choque cultural, adaptação inicial, isolamento mental, e aceitação e integração.

1. Período de lua de mel: inicialmente, muitas pessoas ficam fascinadas e excitadas com tudo que vão conhecendo da nova cultura. Cada descoberta é uma experiência que será guardada em sua memória para sempre. Porém, esta fase só acontece uma vez, por isso é preciso aproveitá-la ao máximo. 

Quanto a esta fase, posso dizer que a vivi apenas na primeira semana, já que o choque cultural acontece muito rápido quando você tem a certeza de que vai ficar por um longo tempo em um novo país. Nos primeiros dias em San Diego, fiquei encantada com a educação das pessoas no trânsito e nos espaços públicos em geral, com o valor baixo de itens que pagamos uma verdadeira fortuna no Brasil (carros, maquiagem, cosméticos, roupas de marca, comidas…), com a pouca burocracia necessária para resolver questões complexas como alugar um carro ou uma casa, com o grande número de ciclovias na cidade, com a beleza natural, entre tantas outras coisas boas.

2. Coque cultural: as pessoas começam a ficar imersas em novos problemas como moradia, transporte, emprego, compras do dia a dia e a língua. A fatiga mental é um dos resultados do contínuo estranhamento e tentativa de entendimento da nova língua e cultura.

Acredito que esta fase é uma das mais demoradas a passar. Não tive dificuldades para me adaptar com o transporte público, com as idas ao supermercado e lojas em geral, com a procura da casa e todo o envolvimento exigido para mantê-la. Mas a língua, esta sim prega peças em você todos os dias. Nem é preciso sair de casa, pois você vai ter que lidar com ela na televisão, no rádio e na porta da sua casa (algumas vezes é o carteiro trazendo alguma entrega, o seu vizinho pedindo alguma coisa ou o síndico do prédio explicando uma nova regra) e você precisa aprender a lidar com todas estas questões.

Algumas coisas causarão por muito tempo – ou para sempre – estranhamento. A comida é a principal delas. Em San Diego é muito comum você ver restaurantes de comida mexicana (principalmente tacos) e hamburguerias. Os americanos usam muito mais o drive-thru do que as dependências do restaurante. Até as farmácias possuem drive-thru! Por isso, o almoço resume-se basicamente a lanches rápidos, muitas vezes feitos no escritório ou no carro. Esse foi um dos motivos que me fez optar por comer sempre em casa no almoço, já que não dispenso feijão, arroz e carne, ou uma massa com molho, arroz com legumes, enfim, comida de verdade! Além disso, a comida daqui não tem o mesmo sabor da comida brasileira, falta aquele gosto de comida “fresquinha”, de tempero (não estou contando pimenta, pois aqui tudo tem pimenta!), parece que as coisas são muito artificiais.

Outro choque cultural que tive aqui foi com o tamanho das coisas. Nunca se pode pedir alguma coisa grande, pois o grande é gigante (claro que, se você estiver com MUITA fome ou MUITA sede, vá em frente!). Por exemplo, um balde de pipoca grande no cinema dá para três pessoas comerem com muita tranquilidade. Acredito que esse seja um dos motivos que faça com que muitos americanos sejam obesos. Além disso, como carro é um item barato, as pessoas quase não andam a pé. Sinto-me uma estranha quando dou meus passeios de camelo ou de bike.

Ao mesmo tempo, por aqui tudo é muito correto. Você precisa seguir as regras, não dá para aplicar o “jeitinho brasileiro”. Essa diferença eu considero extremamente positiva, pois faz com que a cidade seja um local seguro para se viver. Sem contar que as pessoas são muito simpáticas e solícitas. Posso contar nos dedos os americanos que foram grosseiros comigo. Sempre que precisei, recebi ajuda e fui muito bem recebida e atendida nos lugares pelos quais passei. Ah, os americanos são muito politizados, eles discutem muito sobre os assuntos que estão acontecendo na atualidade e possuem um vasto conhecimento acerca da história do seu país. Eles realmente conhecem a sua origem e se orgulham disso.

3. Adaptação inicial: com o passar do tempo os problemas de moradia e compras, por exemplo, vão se resolvendo. A pessoa ainda não fala fluentemente a nova língua, mas já consegue expressar ideias e sentimentos básicos. 

Acredito que estou entre esta fase e a fase do choque cultural. Como tudo ainda é muito novo, o choque é grande, mas o aprendizado diário da língua faz com que você vá ganhando confiança aos poucos e passe a sentir-se um pouco melhor a cada dia.

Ainda não tenho como descrever as fases abaixo, pois não cheguei lá. Mas acho interessante compartilhar mesmo assim o que elas significam.

4. Isolamento mental: algumas pessoas ficam um longo tempo ser ver sua família e amigos e acabam sentindo-se sozinhas. Muitas vezes não conseguem expressar seus sentimentos a não ser na sua língua nativa. Isso causa frustração e perda da autoconfiança. Algumas pessoas permanecem nesta fase por um longo tempo, principalmente se não têm um emprego. 

5. Aceitação e integração: a rotina já está estabelecida. As pessoas já estão acostumadas com os hábitos, costumes, comidas e características do povo e da nova cultura. Já sentem-se confortáveis com a língua e fazem novos amigos. 

Na música “Não vou me adaptar”, de Nando Reis, o choque caudado por uma mudança é descrito de forma brilhante.

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia,
Eu não encho mais a casa de alegria.
Os anos se passaram enquanto eu dormia,
E quem eu queria bem me esquecia

Com o passar dos meses, você vai percebendo que as coisas estão mudando no seu interior. Como cada dia exige um esforço maior, mesmo que já tenha estabelecido uma rotina, você amadurece de forma mais rápida do que se estivesse no seu país, na sua zona de conforto. Existem pessoas que passam muitos anos da sua vida longe do seu país de origem e não conseguem se adaptar aos novos costumes que precisam enfrentar no seu cotidiano. Assim como tudo na vida, algumas pessoas possuem mais facilidade do que outras para enfrentar as mudanças da vida.

Confesso que alguns dias são bem sofridos para mim, pois sinto muita saudade da minha família, dos meus amigos e do meu trabalho. Nessas horas, o sentimentalismo não ajuda muito, mas é preciso absorver as novidades da forma que você é, afinal, nada vai mudar a sua essência (ainda bem!).

Eu não tenho mais a cara que eu tinha,
No espelho essa cara já não é minha.
Mas é que quando eu me toquei, achei tão estranho,
A minha barba estava desse tamanho.

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou me adaptar!
Me adaptar!

Com o tempo, tenho certeza de que um dia vou acordar, olhar no espelho e ver uma nova pessoa. Você é feito das suas escolhas e das suas experiências. Toda a sua bagagem cultural irá afetar a sua opinião sobre os mais diversos assuntos do mundo. Por mais que eu diga muitas vezes que não vou me adaptar, em alguns dias sinto-me quase como uma nativa. E assim a vida vai seguindo o seu curso natural.

Assim como existe um estranhamento do novo país, certamente terei um estranhamento quando for visitar o Brasil, o inverso também irá acontecer. As coisas por aqui são muito diferentes. Chegou um ponto que eu decidi não comparar mais. Se a língua é diferente, a moeda é diferente, a comida é diferente, ou seja, é uma cultura totalmente diferente, por que comparar?

Vejo muitos brasileiros idolatrando a nova cultura e repudiando seu país. Fico triste com isso. Todos sabemos que o Brasil possui diversos problemas e está enfrentando uma séria crise política. Mas temos tantas coisas boas para se orgulhar! Muitos americanos, assim como muitos colegas de outros países, já me disseram que querem muito conhecer o Brasil. E os que já foram para nossa terra, dizem ter adorado. Então, por que precisamos cuspir no prato que comemos? Parte do que sou devo a minha pátria amada. E não existe choque cultural que irá apagar a minha origem. Se a situação está ruim, também cabe a nós fazermos alguma coisa para ajudar o país a mudar (mas este assunto é tema para outro post).

Obs.: o texto completo sobre cultural shock que estudei em aula está disponível online (em inglês): http://anh-tourguide.blogspot.com/2011/11/unit-2-cross-cultural-conflict.html

“Caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento. No sol de quase dezembro, eu vou.”

Dois meses passaram, mas parece que foram doze. Todos os dias a vida é tão cheia de descobertas, que você aproveita muito mais cada minuto e tenta absorver ao máximo a experiência, pois sabe que ela passa rápido e escorre pelas mãos. Ah quem dera poder viver para sempre assim!

Ao mesmo tempo, você despende mais energia por pensar potencialmente em tudo, em cada escolha e em cada saudade. Os sentimentos ficam muito intensos. Por vezes você está muito feliz, como se fosse a pessoa mais abençoada do mundo. Por vezes você está tão triste, que as lágrimas chegam sem avisar, molham o rosto e lavam a alma.

Você caminha sentindo-se nu, como diria Caetano: “sem lenço e sem documento”. Você não consegue esconder aquilo que está estampado no seu rosto. Você está sedento por amor e por carinho. Você está sentido-se o ser mais frágil do mundo. Contudo, você está sozinho e precisa ser forte. O sol e a lua são seus mais fiéis companheiros. Quem muito caminha por aí sabe do que estou falando.

Quando você está longe, por mais que esteja cercado de pessoas, sente-se só. Mas você precisa ter em sua vida um momentos para ser só, pois é assim que se consegue crescer e sobreviver ao novo. Você está longe, mas queria estar perto e também queria estar onde está. Será que a vida é assim tão bipolar? Ou será que você faz dela este caos?

Mesmo longe, você não deixa de acompanhar as notícias e saber sobre tudo que está acontecendo por lá, por mais que não possa fazer muita coisa daqui. A maioria das notícias se repetem todos os dias: violência, corrupção, futilidades, milagres e curiosidades. O mundo vai seguindo, as pessoas vão sobrevivendo, fazendo suas festas, comemorando suas conquistas, chorando suas decepções, mas você não está lá. Você não pode fazer nada além de mandar uma mensagem ou dizer algumas palavras. Você não pode dar um abraço ou simplesmente mostrar que se importa através do brilho do olhar.  Mas você sente, você sofre, você torce, você se preocupa e você se orgulha.

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou

As fotos enviadas pelos entes queridos acalmam o coração e mostram que eles seguem vivendo um dia por vez, assim como você. Eles continuam enchendo a vida de cores, de amores, de sabores e de canções. E você segue buscando ser forte e criando a sua nova rotina, conhecendo novas personalidades e espaços. As pessoas seguem casando e acreditando no amor. As pessoas seguem estudando e acreditando na sabedoria. As pessoas seguem trabalhando e acreditando que podem fazer alguma diferença no mundo. E você segue acreditando que está, de alguma forma, presente.

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não

Descobri que praticar hiking é uma forma de estar perto da natureza e ao mesmo tempo em contato com o seu eu. Caminhar por trilhas desconhecidas sem saber onde se vai chegar dá medo sim. Ao mesmo tempo, você sabe que alguém já passou por ali, pois vê as pegadas, e isso dá segurança e esperança de que pode seguir. San Diego oferece paisagens cheias de montanhas, pedras, plantas rasteiras, muito sol e algum vento. Todo final de semana você pode escolher uma nova trilha, pois a cidade é abençoada com muita natureza a ser desbravada.

Você sente que cada passo trilhado é um a menos e que cada metro de subida é uma vitória. A recompensa está logo ali, mas parece nunca chegar. Porém, você não desiste. Por mais que as pedras façam você tropeçar ou resvalar, por mais que a boca fique seca e implore por mais água, por mais que suas pernas digam chega, você segue, pois sabe que seus olhos precisam daquela recompensa. E quando você chega ao cume, seu coração se enche de alegria. Você sente como nunca que quer seguir vivendo para ver mais, aprender mais e aproveitar mais.

Momentos como esses são inesquecíveis. Durante todo o tempo de caminhada você vai pensando em tudo e em nada. Você fala consigo mesmo e, por vezes, até com um ser superior. Você incentiva a si mesmo, você precisa acreditar em si mesmo. Corpo e mente trabalham juntos, já que um depende do outro, um dá força para o outro. E assim, passo a passo, você vai chegando ao seu destino final.

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou

A volta é bem mais tranquila, você já conhece o caminho e os obstáculos, e então passa a apreciar com calma a paisagem e tenta gravar os detalhes em sua memória. O ponto de chegada, aquele mesmo da partida que causava tanto entusiamo e incertezas no início, agora é a mais pura sensação de dever cumprido e relaxamento.

A ida sempre é mais difícil, ela é incerta, ela prega armadilhas, ela é, por vezes, traiçoeira. Mas a volta traz outro vigor. Os calos nos pés podem doer mais, mas mesmo assim você sabe que está no caminho certo e que a chegada reserva a recompensa que faz você querer repetir a dose.

Claro que nem todo caminho que você traça tem o mesmo trajeto na volta. Ainda não sei se a vida aqui será permanente, se traçaremos novas trilhas ou voltaremos para o início. Por enquanto só sei que eu vou vivendo passo a passo, minuto a minuto, dia a dia, sem nenhum lenço e com apenas um documento. Estou aproveitando cada brisa. Não me importo com os grãos de areia que ficam dentro do sapato, tampouco com os outros que vão passando correndo por mim. Cada um tem o seu ritmo. Cada um tem o seu objetivo de vida. Cada um tem o seu limite.

Por enquanto eu sigo contra o vento e assim eu vou.

“Por isso hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado. De bater na porta do vizinho e desejar bom dia.”

Quando você está na sua cidade natal, passa o dia sendo inundado por paisagens conhecidas e acolhedoras, de afeto dos mais próximos, pelos sabores que tanto gosta, pela música local que faz seu coração bater mais forte e por cheiros que remetem à lembranças boas. Infelizmente, por muitas vezes, nem percebe o quanto isso é acolhedor. Mas quando você está longe, qualquer som, odor ou gesto que lembrem a sua origem, viram quase um evento. Zeca Baleiro compara muito bem a tristeza e a solidão com os personagens do nosso cotidiano na música “Telegrama”, o que faz a saudade bater ainda mais forte.

Eu tava triste, tristinho
Mais sem graça que a top-model magrela
Na passarela
Eu tava só, sozinho!
Mais solitário que um paulistano
Que um canastrão na hora que cai o pano

Para compensar esses sentimentos, muitas vezes escuto músicas de artistas brasileiros, faço comidas que minha mãe me ensinou e, claro, leio livros em português. É incrível como em alguns momentos você sente uma vontade louca de entrar num restaurante que sirva uma “à lá minuta” com feijão ou de escutar um artista de rua cantando Roberto Carlos. Mas por aqui tudo é diferente e você precisa adaptar suas vontades ao que a cidade oferece.

Mas ontem eu recebi um telegrama
Era você de Aracaju ou do Alabama
Dizendo: Nêgo, sinta-se feliz
Porque no mundo tem alguém que diz
Que muito te ama!
Que tanto te ama!
Que muito, muito te ama
Que tanto te ama!

Contudo, esses dias recebi um presente. Fui a um restaurante que, no meio de sua playlist, tocou um samba. Apesar dos hamburgers, dos papos em alto e bom som em inglês que estavam rolando nas mesas ao lado e da bandeira americana tremulando na porta, por três minutos me senti em casa e fiquei realizada. Confesso que até deu vontade de levantar da mesa e começar a dançar de alegria, mas me contive e apenas expressei a gratidão através de um sorriso.

Por isso hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria

Dia 28 de janeiro comecei a estudar inglês na San Diego Continuing Education – SDCE, localizada em Point Loma. Tenho aula todos os dias pela manhã com mais de 30 colegas de diferentes nacionalidades. É muito interessante escutar suas histórias, pois você conhece pessoas que estão na mesma situação que a sua e, mesmo sendo de uma cultura totalmente diferente, sentem as mesmas coisas: as mesmas saudades e guardam as mesmas lembranças da sua terra na memória.

Apesar das pequenas alegrias que é possível encontrar aqui através de uma feijoada típica brasileira ou de um jogo de futebol, quando você abre espaço para conhecer pessoas novas e deixa elas fazerem parte da sua vida, este sentimento de pertença fora do seu país começa a se construir.

Na última sexta-feira resolvi abrir mais meu coração durante o trabalho voluntário e vejam só o que aconteceu: aprendi a dançar salsa com uma cliente, assisti o pôr do sol com outra, aprendi mais sobre história da arte com um professor aposentado e ajudei duas crianças a escolherem seus livros. Sai de lá no final do dia com vontade de sorrir para o mundo, de bater na porta do vizinho e dizer “good night!” e de cantar rap com o atendente da 7-Eleven. Tudo isso e muito mais apenas por deixar cair todas as barreiras da insegurança e ser apenas eu mesma. Foi tão recompensador, que agora quero exercitar isso sempre.

“O que foi escondido é o que se escondeu. E o que foi prometido, ninguém prometeu. Nem foi tempo perdido.”

Em “Tempo Perdido” Renato Russo deixou um recado bem claro: estamos perdendo tempo com coisas supérfluas ao invés de viver para aquilo que realmente nos faz feliz. Ao nos darmos conta disso e despertarmos para a vida, vemos que estávamos presos à ilusões e tantos outros objetivos sem sentido. Mas, ainda assim, nunca é tarde para erguer a cabeça e recomeçar, pois temos todo o tempo do mundo pela frente. Ou acreditamos que temos.

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo

Em alguns dias é preciso fazer um esforço colossal para levantar da cama e traçar o roteiro do dia. Quando você está acostumando a uma rotina e já tem um tempo estabelecido para tudo, é muito difícil entender como funciona a lógica do autogerenciamento dele. Aquele tempo que você tanto reivindicava quando estava correndo sem parar no trabalho, na sua louca rotina, agora está totalmente a sua disposição e você não sabe o que fazer com ele. Na verdade você até sabe, pois tem mil itens na fila, o problema é descobrir o que é prioridade, o que é realmente importante, o que pode ser deixado de lado, o que é apenas perca de tempo…

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Mesmo quando você descobre ao menos uma das prioridades e foca nela, alguns fantasmas ficam assombrando os seus pensamentos. Não é fácil esquecer o que se passou e seguir em frente, tampouco tudo que você deixou para trás. Viver o momento, depois refletir sobre ele e seguir adiante para o próximo desafio, é algo que exige muita maturidade. Quantas vezes você já não perdeu tempo ruminando algo que fez ou falou e fica por dias, meses ou até anos se martirizando por isso?

Desde que vim morar em San Diego, muitas são as noites que acordo e não consigo dormir pensando em absolutamente tudo. Meus próprios sonhos me pregam armadilhas ao recuperar momentos passados, pessoas que seguiram outros rumos ou parentes queridos que já se foram. Acho que, quanto maior a distância, maior fica a memória e mais seguido ela insiste em abrir o seu baú e relembrar o passado. Talvez para se sentir mais segura com os novos acontecimentos, ou talvez para tentar encontrar o lugar das novas peças do quebra cabeça que não estão sendo fáceis de encaixar, já que não seguem mais a mesma lógica das outras.

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos

E sim, alguns dias são cinzas e trazem consigo uma tempestade. Ou talvez somos nós que fazemos com que um simples ato vire uma tormenta. Esses dias, durante o trabalho na biblioteca, uma homem pediu uma informação que eu não soube interpretar, pois ainda estou aprendendo a falar inglês. Ele ficou extremamente bravo quando eu disse isso e foi embora falando para o vento, e para quem mais quisesse escutar, que era um absurdo ter uma pessoa atendendo ali que não falasse inglês. Por mais que uma mulher tenha dito que ele era um idiota e me explicado depois com calma o que queria, isso me deixou magoada.

Sei que estou começando a estudar em uma escola, que estudo todos os dias por conta própria e que faço trabalho voluntário para treinar a língua, mas ainda assim isso não é satisfatório. E sabe por quê? Porque tudo na vida precisa de tempo. Como se o próprio Sr. Tempo quisesse me mostrar isso, no restante do dia três pessoas vieram me agradecer pelo serviço prestado à biblioteca e disseram que meu inglês é muito bom. Mesmo assim, sei que ainda preciso de tempo para aprender e conseguir estar 100% adaptada. Afinal, só se passou um mês e meio da mudança de vida (mas que parece que já foi ano!).

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora

Assim como existem pessoas que vão incentivar suas escolhas, também vão ter outras que tentarão derrubar você. Talvez elas sejam necessárias para que possamos avaliar nosso nível de coragem e de preparo para encarar os desafios da vida. Ou talvez elas só sejam mal amadas mesmo.

Mas afinal o que é o tempo? Como medimos ele? Qual a sua importância? Só sei que o tempo está passando e trazendo consigo memórias, desafios e aprendizados. Para conseguir seguir o seu ritmo, é importante deixar as luzes da nossa vida sempre acessas. Essa luzes são os amigos e a família. São eles que nos dão coragem para não desistirmos ou acabarmos nos perdendo na escuridão da insegurança e do medo. Não podemos deixar pessoas negativas roubarem o nosso precioso tempo, afinal “somos tão jovens” e precisamos aproveitar a vida da melhor forma possível.

“Vida louca vida, vida breve. Já que eu não posso te levar, quero que você me leve.”

A vida é louca por si só ou será que nós fazemos dela uma loucura? Será que ela não desejaria ser menos louca? Ou será que ela quer ser louca mesmo? Por que a vida é tão breve? Será que a loucura não a faz ser breve? Ou será que devemos fazer dela uma loucura por ser tão breve? Será que não podemos levar a vida ao nosso jeito? Ou será que nos acomodamos e esperamos ela nos levar para algum lugar? Será que ela foi feita para nos levar ou nós que devemos levá-la? Tantas perguntas curtas para tantas respostas complexas. Cazuza sempre nos fez refletir sobre a loucura que é viver em suas letras tão sinceras.

Algumas pessoas dizem que estou tendo sorte por aqui neste primeiro mês. A verdade é que não é sorte, é atitude e um pouco de loucura. Acredito na teoria de que as coisas não acontecem na sua vida do nada, você, de alguma forma, criou uma situação ou gerou uma ação que resultou naquele fato. Claro que não é nada fácil ter coragem e agir, isso exige um esforço gigante. Mas se você ficar parado, a vida passa.

Por exemplo, há duas semanas atrás conheci dois árabes, da Arábia Saudita, na Starbucks que tem perto da biblioteca em que faço trabalho voluntário. Estava lá fazendo minhas planilhas de comparação de preços dos itens que precisaria comprar para a casa nova e, no meio disso, acabei falando no Skype com meus dois melhores amigos. Como não tinha fone de ouvido na mochila, acabei pedindo emprestado para um dos árabes e depois, ao devolvê-lo, comecei a puxar papo. No fim, acabei conversando com Aymin e Mohammed por quase duas horas.

Conversa vai e conversa vem, um deles comentou que outro colega, Salim, estava de mudança para Chicago e precisava vender todas as suas coisas da casa. Devido à urgência, estava liquidando tudo. Disse que tinha interesse e liguei para o meu marido. Ele veio até nós e combinou uma visita à casa de Salim naquela mesma noite. Fomos até lá e adoramos! Todos os móveis tinham menos de um ano de uso e estavam muito bem cuidados. Fechamos negócio e na semana seguinte fomos lá buscar todas as coisas. Salim não quis nem conferir o dinheiro que combinamos e colocamos dentro de um envelope, pois disse que confiava em nós.

Conto esta história, pois ela me fez pensar em muitas coisas. Os árabes são, muitas vezes, discriminados e taxados de terroristas, quando na verdade existe sim um grupo de muçulmanos fanáticos que espalham terror pelo mundo com seus atentados bárbaros, mas, ao mesmo tempo, a grande maioria deles são pessoas do bem, apegadas a seus valores e sua família, e que também estão estudando e trabalhando para conquistar um lugar ao sol. Julgar o próximo é uma eterna falta de ter o que falar. É falta de respeito com o outro e consigo mesmo.

Tô cansado de tanta babaquice, tanta caretice
Desta eterna falta do que falar

Depois de tudo, mandei mensagem para Mohammed agradecendo a indicação e dizendo que havíamos fechado negócio. Ele se colocou à disposição para ajudar no que mais fosse preciso para nossa mudança. Aymin mandou mensagem perguntando como estavam as coisas para mim e para o meu marido. E assim conhecemos três pessoas que nos ajudaram a facilitar nossa instalação em San Diego e viraram nossas amigas.

Se eu tivesse me deixado levar pelo preconceito e pelo medo, certamente não teria pedido o fone emprestado à Aymin, pois antes disso tudo já tinha visto qual era sua origem ao ouví-lo falar ao telefone com alguém. Tampouco teria iniciado uma conversa com ele. Simplesmente poderia ter ido para casa. Não foi sorte conhecer os dois, foi ter a mente e o coração abertos para aceitar o outro do jeito que ele é.

Se ninguém olha quando você passa
Você logo acha que a vida voltou ao normal
Aquela vida sem sentido, volta sem perigo
É a mesma vida sempre igual

Se não tivéssemos sido um pouco loucos e ido até a casa de uma pessoa estranha, teríamos gastado o triplo do valor para mobiliarmos nossa casa, além de ter perdido muito tempo com isso. Se não tivéssemos sido um pouco loucos, não teríamos vindo morar em San Diego. Se não tivéssemos sido um pouco loucos, não teríamos saído da casa de nossos pais. Se não tivéssemos sido um pouco loucos, não teríamos conquistado nada na vida.

Todos somos iguais, independente do cargo que ocupamos, do sobrenome da nossa família, do quanto dinheiro temos, de onde viemos e para onde vamos. No fundo, todos temos medos, angústias, erros, vergonhas e esperanças. No fundo, somos todos loucos.

E a vida precisa ser louca, pois ela não espera você enxugar suas lágrimas ou curar os seus machucados. A vida precisa ser louca, pois ela corre todos os dias uma maratona e não nos espera nem para tomar um gole de água. A vida precisa ser louca, porque estamos tendo uma oportunidade de dar um sentido a ela. A vida precisa ser louca, para que possamos ser felizes. A vida precisa ser louca, para que tenhamos coragem de acompanhá-la até o fim.