“Imagine there’s no countries. It isn’t hard to do”

Não vou expressar minha opinião política sobre o Impeachment da Dilma, mas o tópico deste post está ligado a isso. Hoje, li muitos posts no Facebook que me deixaram chateada, porém um deles me abalou profundamente. Ele dizia mais ou menos o seguinte: “A pessoa fica fazendo mimimi, mas mora nos EUA, na Alemanha, na Austrália…”. Eu reli umas duas vezes pra ver se não era coisa da minha imaginação. Infelizmente, era a realidade, e os comentários que se seguiram foram ainda piores.

Só porque uma pessoa não mora mais no seu país de origem, não significa que ela é menos cidadã, que tem menos direitos e que não pode expressar a sua opinião sobre um assunto que afeta a vida dela direta ou indiretamente.

Eu moro nos Estados Unidos sim, mas continuo pagando impostos no Brasil, justificando meu voto e fazendo declaração do imposto de renda. Eu não moro mais no Brasil, mas toda minha família e meus amigos seguem lá e eu me preocupo com o futuro deles. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileira, falo português todos os dias, mantenho minhas tradições e tenho muito orgulho disso. Eu não moro no Brasil, mas a maioria dos meus melhores amigos em San Diego são brasileiros e eles também carregam toda essa bagagem com eles. Eu não moro no Brasil, mas acompanho todos os dias as notícias do país pra saber o que está acontecendo. Eu não moro no Brasil, mas sigo defendendo o meu país e tentando explicar para as pessoas de outras nacionalidades como temos muito mais coisas para oferecer do que apenas Carnaval e caipirinha. Eu não moro no Brasil, mas torço todos os dias para que as coisas melhorem. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileira e sei exatamente o que está se passando e o sentimento que tudo isso causa. Eu não moro no Brasil, mas vivi 27 anos da minha vida nesse país repleto de encantos mil e, ao mesmo tempo, cheio de desigualdades sociais. Eu não moro no Brasil, mas posso voltar a qualquer momento, porque se tudo der errado, é lá que eu sempre serei acolhida, é lá que o meu sotaque não faz a mínima diferença, é lá que as minhas experiências profissionais valem de verdade, é lá que eu conquistei um monte de coisas boas que pra sempre vou me orgulhar.

E eu poderia não fazer nada disso. Poderia apenas ignorar a existência do Brasil e seguir com a minha vida aqui, e mesmo assim eu ainda teria o direito de opinar sobre o cenário político e econômico do meu país. Eu não abandonei o Brasil, eu não fugi, eu não mandei tudo para o espaço por causa do cenário atual. Eu mudei, porque tive uma grande oportunidade na minha vida e agradeço todos os dias por ela ter acontecido. E mesmo se tivesse abandonado tudo por não aguentar mais, ainda assim teria o direito de opinar.

Acredite, não é porque você mora em outro continente que não sofre junto, que não torce junto, que não entende o que está se passando, que só serve pra falar mal do seu país de origem e exaltar o seu local de moradia atual. Eu sempre vou estar presente, mesmo de longe, em cada mudança que acontecer. Eu mando mensagem pra minha família e pros amigos mais próximos quando vejo que tem um temporal na cidade, então me diz como eu não vou me preocupar e estar por dentro de um processo de mudança política? Eu sei que olhar de fora não é a mesma coisa que estar experienciando na pele o que está acontecendo. Mas isso não diminiu o meu direito de ser brasileira seja onde for.

Eu sonho com o dia em que todas as pessoas tenham a oportunidade de conseguir olhar para os outros sem preconceito, inveja, intolerância e pré-julgamentos. Eu sonho com o dia em que o ódio das pessoas seja transformado em sentiments bons e que gerem ações que façam a vida de alguém melhor. Já falei isto aqui uma vez e vou repetir. Você não precisa mudar de cidade, estado, país ou continente para enxergar o mundo de outra forma e respeitar a opinião do outro. Enquanto isso, sigo acreditando e torcendo pelo meu país e excluindo todos aqueles que não conseguem entender o que isso significa.

 

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“Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer”

 

Eu penso em tantas coisas diariamente para escrever aqui e tentar ajudar quem está passando por esta fase constante de aprendizados e transformações, mas fico criando mil desculpas para não publicar. A principal delas é:”o que as pessoas vão pensar?”. E depois vêm os acompanhamentos: “o que elas vão dizer? será que vou conseguir transmitir o que quero? será que elas vão achar interessante? será que não estou sendo chata?”

Motivada por esse complexo de perfeição, que tanto faziam parte das minhas crises de ansiedade, vou começar a publicar aqui mais informações sobre as cenas cotidianas, independente de quem ache interessante ou não. Desde o início deixei claro que este blog não era para falar sobre roteiros de passeios, dar dicas de restaurantes ou de festas, até porque existem dezenas de blogs que fazem isto e tenho um projeto paralelo relacionado à dicas específicas de San Diego. Este espaço é para falar de impressões, de sentimentos, de observações e vivências de alguém que deixou tudo para trás e resolveu começar de novo. Aqui é a vida real, sem máscaras, sem maquiagem e sem filtros.

Esses dias estava trocando mensagens com as minhas melhores amigas sobre rotina e uma delas comentou “Como é engraçado, se tem rotina aí também!”. Eu dei risada e depois comecei a pensar sobre esse tópico.

Sim, sou uma privilegiada por morar perto de uma praia, na Califórnia, mas aqui temos também que trabalhar, pagar contas, estudar, fazer supermercado, ir ao médico, resolver problemas burocráticos no banco e no DMV (Detran daqui), lavar roupa, levar o lixo pra rua, fazer comida, limpar a casa…. Enfim, tarefas padrões que devem ser feitas em qualquer lugar do mundo e que criam, querendo ou não, uma rotina, já que você precisa se organizar para fazer tudo o que precisa e sem deixar as coisas acumularem.

E em tudo que eu faço
Existe um porquê
Eu sei que eu nasci
Eu sei que eu nasci pra saber

Confesso que tem um lado meu que gosta de rotina, pois ela é sinônimo de segurança. Porém, aqui eu aprendi a diversificá-la. Agora que é inverno, não consigo ir muitas vezes para a praia. Mesmo assim, pelo menos a cada 15 dias tento ver o mar, seja num passeio de final de semana, seja nos dias de pedalada. Quando vejo o mar, bate um sentimento de que estou de férias, livre de qualquer problema ou compromisso, aberta para receber energias boas e deixar ir embora aqueles pensamentos ruins.

Como o meu trabalho tem variações constantes de horários, toda semana eu preciso reorganizar minhas tarefas rotineiras e isto já me ajuda a tentar escapar da rotina enjessada, aquela na qual você faz sempre as mesmas coisas nos mesmo horários, encontra sempre as mesmas pessoas no ônibus, no trabalho, na hora do exercício. Estou sempre pegando o ônibus em horários diferentes, pedalando em momentos diferentes, trabalhando com pessoas diferentes (como a escala muda para todo mundo, nem sempre são os mesmos colegas que estão ao meu lado). A única coisa que não muda são os horários das aulas de inglês. Contudo, toda semana entra algum colega novo na escola e este pequeno detalhe já muda tudo, pois sempre se aprende algo interesante com quem é de outro país.

Todos os finais de semana também tentamos fazer coisas diferentes, com grupos de amigos diferentes, e decidimos no máximo com um dia de antecedência a programação. Praticar o desapego de agendas fechadas e repetição de atividades consideradas de lazar também é  uma forma sair da rotina.

Porém, por aqui parece que se entregar para a rotina é perder um tempo precioso, pois existe uma cobrança própria de aproveitar ao máximo cada segundo neste lugar incrível. Infelizmente, não dá pra passar o dia na praia tomando sol, pegando onda, lendo um livro, tirando fotos, cantando com os artistas de rua, fazendo novos amigos. Por isso mesmo, tento fazer logo o que é preciso para conseguir ter um tempo de folga e curtir San Diego. Mas quando dá para deixar de lado as obrigações, eu deixo e vou lá viver a Califórnia. Afinal, a gente nunca sabe quando terá esta oportunidade novamente.

E fui andando sem pensar em voltar
E sem ligar pro que me aconteceu
Um belo dia vou lhe telefonar
Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu

Quando paramos para pensar, a rotina nada mais é do que a repetição constante de ações que nos são conhecidas e, por isso, parecem seguras. Mas não significa que elas são de fato seguras. Em um belo dia, algo pode acontecer e acabar, ou reinventar, o processo daquela ação que era tão conhecida.

Pode ser que a sua empresa mude de endereço e você precise rever todos os trajetos para chegar ao novo local (além de onde estacionar o carro, ou qual ônibus pegar, ou ainda ver quais restaurantes próximos aceitam o vale-refeição). Pode ser que os horários da sua aula de box/yoga/pilates/dança mudem e você precise reorganizar sua agenda. Pode ser que você quebre um braço e precise reaprender a fazer coisas simples da vida até tirar o gesso. Pode ser que…

A infinidade de “pode ser que” é tamanha, que o ser humano acaba criando uma rotina para não enlouquecer pensando em todas as possibilidades de mudança que a vida pode proporcionar. E hoje estou falando apenas de mudanças simples de rotina, nem vou entrar no mérito de mudancas que incluem grandes perdas.

No ar que eu respiro, uu
Eu sinto prazer
De ser quem eu sou
De estar onde estou

Então, independente do lugar do mundo que você esteja, vai existir rotina, cabe a você tentar fazer com ela seja boa – ou menos pior. E também cabe a você, e somente a você, tentar diversificar as formas de encarar as atividades repetitivas que precisam ser feitas.

Você pode começar, assim como eu, trocando a cozinha da sua casa por um café na hora de fazer algum freela, homework ou homeoffice. Sempre dá pra fazer uma amizade ou ao menos descobrir um novo café. Quando for ao supermercado, tente trocar algum item que você sempre compra por algo que nunca provou (claro que seguindo a mesma faixa de preço). Esses tempos comprei um chips de batata doce (pra matar a vontade do chips tradicional) e amei! Experimentar novos sabores, na maioria das vezes, é algo muito prazeroso. Quando estiver indo para o trabalho, coloque uma playlist que nunca escutou para rodar. O Spotify é gratuito e oferece uma lista enorme de opções (além de funcionar em qualquer celular)! Dê uma chance para um título alternativo de filme ao invés de assistir sempre aos mesmos estilos. Tenho certeza que você vai se surpreender com o cinema “Lado B”.

Poderia passar o dia listando sugestões de coisas que podem ser feitas de forma diferente, mas basta dizer que é preciso abrir os olhos e o coração todos os dias para ver o mundo sob outro ângulo. Não é preciso morar do outro lado do mundo para experimentar, todos os dias, algo diferente.

Toda mudança começa com simples ações 🙂

 

 

Mar doce lar, vasto e profundo, mais vasto é o meu coração, que não cabe nesse mundo e precisa transbordar

Este ano de 2015 certamente foi o mais fascinante de toda a minha vida. Dia 7 de dezembro completamos um ano de San Diego, de aprendizados e muita saudade. É incrível como a experiência de morar em outro país transforma uma pessoa. Você passa por tantos momentos incríveis, embaraçosos, trabalhosos, alegres e tristes; conhece gente de todo o canto do mundo; começa a dar ainda mais valor para as pequenas coisas da vida (como cheiros, gostos, lembranças…); e faz muitas descobertas.

Olhei pro mar, pra não me perder de vista
E vi uma onda solitária, correndo sem quebrar
Como se fosse ela uma surfista
A onda olhou pra mim, me convidou jogando a sua crista
Abrindo os braços como ninguém abre
E eu que não sou Cristo, mas entendo de milagre
Fui andando sobre as águas do jeito que só quem conhece sabe
Acorde num domingo, tome seu café
Pegue a sua prancha, tome a benção à mãe
Reze com fé e vai pro mar
Solitário surfista…

Entre tantas descobertas, destaco as que mais mudaram minha visão sobre o mundo e sobre mim mesma:

– Os amigos na verdade são a família que você escolhe;

– Não é fácil recomeçar, mas é possível;

– Temos muito preconceito guardado dentro de nós sobre os EUA e muitos “achismos” vão por terra já na primeira semana que você está aqui;

– A comida brasileira é a melhor (claro que o maior destaque é para o feijão, o pudim, o pão, a polenta, etc., da mãe);

– O cheiro da minha mãe e o abraço do meu pai são os melhores presentes que a vida me deu e dói muito todos os dias não ter este tesouro por perto;

– Você é muito corajoso e só descobre isso quando está bem longe de casa, sem ter nenhum conhecido por perto, falando outra língua e tendo que encarar uma nova cultura;

– A Califórnia é um dos lugares mais loucos e incríveis que existe, mas nem por isso significa que a vida nela é um eterno pôr do sol no Pacífico.

Mar doce lar, vasto e profundo, mais vasto é o meu coração
Que não cabe nesse mundo e precisa transbordar
Navegar não é preciso, é preciso surfar
Nada parado, tudo em movimento
O chão é a parede e é o teto ao mesmo tempo
A parede desabando e eu lá dentro, acelero e acelera o batimento
Tanto bate até que fura, água mole em pedra dura
Cada louco tem a sua loucura
Eu viajo por isso, quase sempre sem visto
A sereia me chama, eu não resisto
Sei que cada feiticeira tem a sua maneira de transformar
Uma laje de pedra em ouro maciço, parece feitiço
A sereia me chama, eu viajo por isso

Ando trabalhando muito, mas não na minha área; ganhando pouco, mas o suficiente para pagar os pequenos prazeres da vida; viajando muito, mas gastando pouco; estudando inglês menos do que deveria, mas garantindo um certificado de Project Manager no início do ano; escrevendo de menos, mas passando mais tempo com os novos amigos; fazendo exercício de menos, mas comendo melhor; conhecendo novas bandas, mas não deixando de curtir os clássicos; recebendo muitos amigos em casa, mas para mim o tempo com eles nunca é o suficiente; dando muita risada, mas não deixando de chorar nas datas que todo mundo passa com a família, ou naqueles dias que tudo dá errado e o que você quer é apenas um colo de “mainha” ou um abraço da sua melhor amiga.

As trips que fizemos não foram muitas, mais aqui por perto mesmo, porém foram intensas. Tivemos a chance de conhecer Big Bear, Mammoth, Temecula,Los Angeles, Santa Barbara, Malibu, Venice, Oceanside, San Clemente e tantas outras praias do litoral californiano. Vamos passar o ano novo em San Francisco e, antes de vir pra cá, fizemos uma trip de um dia no México, na qual conhecemos as praias de Rosarito e Ensenada.

Não posso deixar de citar as bandas que tivemos a oportunidade de ver ao vivo por aqui como Foo Fighters, John Butler Trio, Alabama Shakes, The Wailers, Sublime e Madonna. Os ingressos aqui são muito mais baratos que no Brasil, por isso nossa ideia é aumentar a lista para o próximo ano.

Cheguei na praia, olhei pro mar, entrei no mar
Entrei no mar, olhei pra onda, entrei na onda
Entrei na onda e fiz a onda até a areia
Entrei na onda que corre na minha aldeia
A minha onda não é uma onda qualquer
Da minha onda eu saio de cabeça feita
E na areia uma sereia com pernas de mulher
Mais perfeita do que a onda mais perfeita
Adivinhava o meu futuro com os seus óculos escuros
Me filmando nas esquerdas e direitas
Cheguei na areia e a sereia entrou no mar
E só de onda eu me deitei onde ela deita
Tubarão em pele de cordeiro, um ataque de surpresa
Predador virando presa, uma sereia com pernas de mulher
Perfeição ou perversão da natureza?

Termino 2015 com a certeza de que quem faz o ano ser bom ou ruim é você, e que 365 dias não são mais o suficiente para realizar meus sonhos. Ainda não trabalho naquilo que amo, mas continuo buscando algo que me faça feliz.

Lembro que, quando cheguei aqui, já não sabia quais eram meus objetivos de vida, pois tudo estava de pernas para o ar. Agora, a minha lista está gigante e eu vou precisar correr muito para não perder a próxima parada.

Posso continuar sendo uma solitária surfista, porém quando chego na areia tenho a certeza de que sempre terá alguém me esperando.

Que a onda de 2016 venha com tudo! Feliz Ano Novo 😉

“Eu não tenho data pra comemorar. Às vezes os meus dias são de par em par. Procurando agulha num palheiro.”

Andei afastada do blog, mas não foi por falta de tempo para escrever, e sim porque precisava resolver questões comigo mesma antes de externar minhas opinões e meus sentimentos. Nesse tempo, estudei, trabalhei bastante no voluntariado (agora são novamente duas vezes fixas por semana), fiz novos amigos e viajei. No próximo post vou relatar minha primeira trip pela Califa e trazer uma visão diferente sobre os lugares pelos quais passei. Porém, este post é para falar de um recomeço.

Recomeçar significa reencontrar ideias, projetos e uma pessoa que você havia perdido pelo caminho há algum tempo: você mesmo. Aquela pessoa que tinha sido engolida pelo stress da rotina maluca e pela zona de conforto. Ao reencontrar você mesmo, acontece um choque de mundos, quase um Big Bang. O “você antigo”, cheio de cicatrizes, manias e medos, descobre o “você novo”, completamente entusiasmado, cheio de planos e coragem. No primeiro momento, eles se estranham e até ficam emburrados um com o outro. Mas depois, eles descobrem que podem ser grandes amigos e ensinar um ao outro tudo o que sabem, criando um “você melhor”.

Acredito que uma boa viagem faz você alçar novos voos, descobrir novos horizontes, conhecer novas pessoas, aprender mais sobre o mundo e sobre si mesmo. Essa viagem não precisa ser para outro país, como foi meu caso, pode ser para a cidade vizinha, para a casa de paia de um amigo ou para o bairro mais bacana da sua cidade.

Viajar é ir além do seu portão. É dar passos para fora daquelas quatro paredes que tanto protegem e escondem você. Viajar é mais que pegar um carro ou um avião. Viajar é olhar para os lados e ver cores, amores e emoções. É sentir cheiros e sabores. É escutar barulhos, sorrisos, choros, lamentos e sonhos. Viajar é desenvolver cada um dos seus sentidos e descobrir que todos eles podem ir muito mais além. Viajar é fechar a porta e não olha para trás, é ter a coragem de um adulto e a alegria de uma criança. Viajar é descobrir o sabor da liberdade, entender o significado de responsabilidade e sentir na pele o significado da palavra experiência.

As músicas do Cazuza sempre me fizerem, de certa forma, viajar. Em “O tempo não para” é possível identificar um turbilhão de sentimentos, experiências e aprendizados. Dá para viajar apenas aumentando o volume e fechando os olhos.

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Já comentei por aqui que o sentimento inicial de um imigrante é ser só mais um na multidão, “só mais um cara”. Durante muitos dias que passam, você acredita que “está correndo na direção contrária” e sabe que isso não vai te levar a lugar algum. Não terá “pódio ou beijo de namorada” esperando na chegada. Você terá muitas pessoas perguntando por que você está triste ou nem sempre está feliz, se tem uma oportunidade de ouro nas mãos.

Muita gente tem a ilusão de que mudar de país irá resolver todos os problemas da vida, inclusive os de relacionamento. Só que você encontra muito mais espinhos nas flores pelas quais sonhava encontrar e é difícil aceitar e aprender a desviar deles. Não adianta escapar, em algum momento você irá espetar o seu dedo e isso irá doer. E mais uma coisa: os seus defeitos acabam se exaltando em momentos de grande mudança. Isso significa que você entrará em um número de conflitos maior consigo mesmo e com as pessoas mais próximas.

Claro que existem pessoas que encaram as mudanças da vida com mais facilidade. Infelizmente – ou felizmente – eu sou diferente. Toda mudança sempre foi difícil pra mim. Sofro demasiadamente por tudo. Sou ansiosa, sou apegada à pessoas e lugares, sinto saudade de tudo.

Começar do zero em um novo país é desafiador e também um pouco frustrante. Se você não sabe falar a nova língua fluentemente, você não é nada. E aí você precisa fazer novos cursos, aprender mais do mesmo (só que no novo idioma), aceitar que é preciso voltar a fazer estágio ou voluntariado, pois não têm experiência na sua área dentro da nova cultura.

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Contudo, você descobre que é muito mais forte do que pensa. Apesar de se sentir como uma criança aprendendo a falar um novo idioma e como um adolescente tentando ser aceito em um novo grupo de colegas/amigos, você descobre que é adulto e maduro, e prova para si mesmo que consegue encarar erros, desafios e possibilidades. “Você não está derrotado enquanto os dados ainda estiverem rolando”.

O grande degrau para se sentir aceito em uma nova cultura é não ter medo de errar. Não ter medo de escorregar na pronúncia, não ter medo de se perder pelas ruas, não ter medo de tentar conseguir um voluntariado ou um emprego, não ter medo de falar com as pessoas, não ter medo de pedir algum prato diferente no restaurante só porque você não entende quais são os ingredientes. Aí você vai aprendendo a sobreviver, por mais que alguns arranhões vão aparecendo no seu corpo. Machucar-se faz parte do processo.

Aprendi a assumir para as pessoas o que eu não sei. Quando alguém fala alguma coisa que eu não entendo, digo: “por favor, pode repetir?” e se ainda assim não entendo, digo “por favor, você pode me explicar? Estou aprendendo a falar inglês e em alguns momentos não entendo o que é dito”.

Aprendi a pedir ajuda. Peço para meus colegas de aula, para meus amigos, meu marido, meus clientes e meu chefe corrigirem minha pronúncia e a me ensinarem novas palavras. Não tenho mais vergonha de falar, pois a necessidade de expressar minha opinião é muito maior que a cobrança perfeccionista que existe dentro de mim. Não tenho vergonha de assumir que meus melhores amigos aqui são: o Google Maps, o Google Translater e minha bike.

Tomei vergonha na cara e comecei a cuidar mais da minha saúde. Há dois meses mudei minha alimentação, estou tentando ser mais natureba, consumir mais frutas e verduras, menos carne vermelha, farinha branca e glúten. Aprendi a fazer pão vegano, cookies integrais, a cozinhar diferentes receitas e a usar mais temperos naturais.

Fiz as pazes com os exercícios físicos e passei a correr. Imaginem que eu corria no máximo três minutos na esteira da academia e quase morria. Agora, já consigo correr 30 minutos sem parar ao ar livre. Claro que corro bem devagarinho, em um ritmo de iniciante, porém é preciso começar de algum lugar, não? Ao menos três vezes por semana eu dedico uma hora por dia ao exercício, seja correndo, andando de bike ou caminhando. E assim eu aprendi a dormir melhor, a me sentir mais disposta e descobri uma nova melhor amiga: a atividade física.

Não existe mágica. Viajar não irá mudar a sua vida, a não ser que você vá com a cabeça e o coração abertos. O primeiro passo é aceitar que mudar é errar, só a partir daí você irá começar a acertar. O tempo nunca para, então siga com ele.

O tempo não para
Não para, não, não pára

“Valeu a pena. Êh! Êh! Sou pescador de ilusões.”

Morar em outro país exige que você faça planos. Sim, a palavra exigir é forte, mas você precisa planejar seu futuro para não cair no esquecimento e na necessidade. Nas últimas semanas, estamos discutindo em aula o tema plano de carreira americano e uma coisa ficou nítida: por mais que você tivesse uma boa colocação no seu emprego anterior e experiência para pôr no currículo, ou seja, fosse alguém na sua área em seu país; ou tenha estudado longos anos, fale mais de um idioma e tenha feitos vários cursos; se você está aqui aprendendo inglês e tentando uma oportunidade de trabalho (ou seja, não tenha sido transferido da sua empresa do Brasil para cá ou não tenha chegado já com um emprego garantido), você não é ninguém. Na verdade você é só mais um na multidão de imigrantes.

Essa constatação é um soco no estômago – e no ego. No início, você fica pensando em looping e é difícil não desanimar. Por exemplo, tenho uma amiga brasileira que está cursando MBA aqui (ela tinha uma boa carreira no Brasil) e como proposta curricular precisa fazer x horas de estágio em uma empresa americana. Porém, no estágio é delegado para ela atividades extremamente simples, que estão muito abaixo das suas qualificações. Atividades essas que deveriam ser dadas para quem está iniciando na área e não para quem já tem longos anos de experiência. Ela está sofrendo com isso, assim como seus colegas. O problema não é ser estagiário, afinal quem nunca foi? O problema é ter mais de 30 anos e ter que começar do zero.

Mas não importa. Quando você muda para os EUA e não tem suporte de uma empresa, você precisa entender que a corrida está apenas começando. Claro que sua carga de experiência é importante, porém ela só vai valer realmente depois de longos meses em uma empresa, quando o seu chefe tiver confiança em você e conseguir ver o seu trabalho dando resultados.

Aqui sou apenas uma estudante de inglês e uma voluntária. Ponto. E todos os anos da Graduação e da Pós-Graduação? E os Cursos Complementares? E o vários anos de experiência de trabalho? Tudo isso ficou no Brasil. É hora de virar a página e começar uma nova história.

O sonho americano não é tão lindo assim se você realmente quer continuar a ter uma carreira. Conheço várias pessoas que são formadas na faculdade e executavam cargos importantes no seu país, contudo aqui são garçons/garçonetes e babás. E para quem não tem Graduação, que é o básico, o cenário é ainda pior. É necessário trabalhar em dois ou três empregos para conseguir se sustentar e garantir o valor mínimo por hora na Califónia, que é de $9. Vale lembrar que San Diego não é uma cidade barata. Mesmo assim, o valor do aluguel e da alimentação ainda saem mais em conta se comparados com San Francisco ou Los Angles. New York está em outro patamar, não cabe nem comparar o custo de vida por lá ( é como querer comparar Porto Alegre com Rio de Janeiro).

Se meus joelhos
Não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé
Que me traga fé

Se por alguns
Segundos eu observar
E só observar
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol

Aí você começa a questionar o quanto vale a pena para essas pessoas saírem do seu país para tentar uma nova vida, se elas não conseguem desfrutar das belezas que San Diego tem para oferecer. E você começa a se perguntar: o que eu estou fazendo aqui? Mas aí você precisa pensar que a cultura, a situação econômica, a violência e a educação têm um impacto gigantesco para o futuro das pessoas, ainda mais quando elas têm filhos. Escutar e tentar entender a história de vida de quem o rodeia faz com que você amplie seu campo de visão e comece a agradecer mais por tudo que tem.

Tenho colegas com realidades bem difíceis por aqui. Prefiro não citar seus nomes ou seus países de origem para preservá-los, só posso dizer que não são brasileiros.

Uma colega largou seu emprego e vendeu sua casa no seu país, o único bem que tinha, para dar ao seu filho adolescente a chance de ter um futuro melhor que o seu aqui nos EUA. Como em seu país a violência está aumentando cada vez mais e o número de empregos só baixa, ela temia por seu filho, ainda mais sendo mãe solteira e não tendo outra fonte de renda. Aqui, ele está terminando o Ensino Médio e no próximo ano inicia a faculdade. Já fez amigos, está aprendendo uma segunda língua e, principalmente, está em um lugar seguro. Enquanto isso, ela está estudando inglês para conseguir um emprego, pois as suas economias acabarão e ela precisa continuar sustentando o futuro de sua família.

Além disso, uma outra colega vive aqui há anos, mas só tem o Ensino Médio. Ela trabalha em dois restaurantes todos os dias, tem apenas uma folga por semana e ganha o suficiente para viver, mas não o bastante para aproveitar. Porém, um colega na mesma situação, está finalizando o curso de inglês e no próximo mês irá começar a faculdade. Ele tem mais de 30 anos, nenhum final de semana livre, dois filhos e o sonho de ser educador físico.

Somado aos problemas de colocação no mercado de trabalho, também tenho colegas que possuem tempo para estudar, uma condição de vida boa, porém sua religião não permite que desfrutem do tempo livre. Por exemplo, uma colega mora aqui há dois anos com seu marido e um de seus irmãos e, paralelo ao curso de inglês, faz um curso técnico em informática. Seu objetivo é conseguir um emprego em San Diego. Até aí tudo bem, mas ela não aproveita nada da cidade. Ela não dirige e nem sabe andar de bicicleta por puro medo. Tampouco sai para passear sozinha, pois ela só pode sair para a rua acompanhada de um familiar ou do seu marido.

Enfim, dificuldades à parte, o importante é não deixar se abater pelo desânimo. Penso no seguinte: já que devo começar do zero, então vou organizar minha trajetória para que ela seja certeira e traga o retorno esperado. Agora, já não tenho mais todas aquelas dúvidas do que quero ser ou fazer como quando tinha aos 17 anos. Já consigo decidir com clareza minhas expectativas. Isso não significa que eu não vá escolher outro rumo quando for mais velha, mas por enquanto preciso ter foco no presente, na atual situação que estou encarando.

Ainda assim estarei
Pronto pra comemorar
Se eu me tornar
Menos faminto
E curioso
Curioso

O mar escuro
Trará o medo
Lado a lado
Com os corais
Mais coloridos

Como diz a música Pescador de Ilusões do Rappa, quando você se torna menos faminto e mais curioso para descobrir o mundo e a si próprio, mesmo que o medo apareça de um lado (e tenha certeza de que ele estará lá), do outro você terá a visão dos mais lindos corais. Esses corais são sua família, seus amigos, sua fé.

Contudo, só falar não adianta, é preciso fazer. Por isso, o primeiro passo é criar um plano para chegar até o seu grande objetivo de vida. Vale lembra que não precisa ser um adulto para fazer isso, você pode ser um adolescente, um jovem ou estar na melhor idade.

Segue o esquema que estamos trabalhando na aula e que acredito que é um bom começo para qualquer pessoa:

My long-term goal is:…….

1. First, I need to:….
2. Then, I need to:…
3. Next, I need to:…
4. After that, I need to:….
5. Finally, I will reach my long-term goal of:…..

Ainda não vou compartilhar minhas respostas, pois estou construindo os steps em aula, mas o primeiro passo já foi dado: estudar inglês. Os próximos passos serão uma consequência. Será fácil? Não. Será rápido? Não. Vai exigir paciência. Sim (e muita!). Vou desanimar em algum momento? Sim. Vou desistir? Jamais!

Uma característica muito interessante dos EUA é que aqui existem escolas públicas que são muito boas. Por exemplo, eu faço inglês na San Diego Continuing Education totalmente free. Além do curso de inglês como segundo idioma, a escola oferece alguns cursos profissionalizantes, também gratuitos, como moda e nutrição.

Existem muitos outros cursos totalmente sem custos, ou que você precisa pagar apenas o material didático ou ainda que são bem mais baratos que uma escola regular. Para conhecer todas as oportunidades da instituição San Diego Community College District, basta acessar http://sdccd.edu/.

Você também pode participar de trabalhos voluntários para melhorar seu novo idioma e aumentar sua rede de contatos. No LinkedIn é fácil de encontrar oportunidades em qualquer cidade, basta usar os filtros do próprio site. Ou você ainda pode buscar por um voluntariado em diferentes cidades dos EUA neste site http://www.volunteermatch.org/.

Se eu ousar catar
Na superfície
De qualquer manhã
As palavras
De um livro
Sem final, sem final
Sem final, sem final
Final

Nenhuma jornada é fácil. Você colocará muitas vezes seu anzol na água, irá esperar por horas e será enganado, iludido pelo peixe. Porém, às vezes, você conseguirá ser mais rápido, ousado e espero, e enfim conseguirá tirá-lo da água. Pescar ilusões faz parte da longa jornada que é viver. Pescar exige paciência e persistência. Só assim você conseguirá trazer para a superfície todos os seus sonhos e escrever o livro da sua vida.

“Não me deixe só. Eu tenho medo do escuro. Eu tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha voz.”

Na louca rotina que vivemos, muitas vezes esquecemos de dedicar tempo para nós mesmos. Há quatro meses atrás, confesso que não conseguia organizar o tempo que sobrava do meu dia para fazer coisas para mim. Acabava trabalhando até mais tarde, ou cuidava das coisas da casa, ou ainda estava tão cansada, que só queria chegar em casa, tomar banho e ir dormir. Mal sobrava tempo para ler algumas páginas de um livro, acabava fazendo isto no ônibus (quando conseguia lugar para sentar). Fazia exercícios no máximo duas vezes por semana e minha dieta não era das melhores.

Porém, quando a vida dá para você a chance de ter tempo, você acaba se reencontrando consigo mesmo e reaprendendo a fazer o que já havia esquecido há muito tempo. Não estou falando de ser egoísta e pensar apenas em si, mas sim de hobbies que você tem, que fazem de você uma pessoa mais feliz e melhor. Seja tocar um instrumento, ler, desenhar, pintar (agora várias pessoa voltaram a fazer este grande passa tempo que eu amo após lançarem livros voltados para adultos), cantar, praticar algum esporte, olhar televisão, ou simplesmente não fazer nada. Ou seja, simplesmente passar um tempo consigo mesmo fazendo algo prazeroso.

Não me deixe só
Que o meu destino é raro
Eu não preciso que seja caro
Quero gosto sincero de amor

A música “Não me deixe só”, de Vanessa da Mata, define muito bem meu momento atual. Terei que ficar três semanas totalmente sozinha aqui em San Diego. Para a minha sorte, sete dias já se passaram. Ao mesmo tempo que está sendo difícil conviver com a casa vazia, passei a cuidar mais de mim. Agora, após meu curso, pego minha bike e ando ao menos 10 km. Optei pela bike, pois não gosto de academia e, como não estou trabalhando no momento, não tenho como pagar aulas de Pilates, Yoga ou Ginástica. Além disso, a cidade tem tantos lugares incríveis, tanta natureza e paisagens maravilhosas, que fica muito mais fácil fazer exercícios ao ar livre. Sem contar que existem ciclovias por todos os lados e, quando não têm, placas sinalizam que por aquela rodovia passam ciclistas.

San Diego é uma cidade com muitos ciclistas, pra falar a verdade. Existem diversas lojas de bikes e acessórios, ciclistas profissionais, famílias inteiras que optam por passear de bike aos finais de semana, além de passeios guiados pelos pontos turísticos da cidade, tudo de bike. Você só precisa escolher por quanto tempo está disposto a pedalar.

Além da bike, vejo muitas pessoas por aqui andando de skate, correndo, caminhando ou fazendo ginástica. Sempre lembro do Rio de Janeiro e de todas aquelas pessoas lindas fazendo exercícios ao ar livre, desfrutando da sorte que têm de morar em uma cidade praiana, cheia de inspiração.

Quando chego ao meu destino, paro pelo menos 30 minutos para ler. Estou intercalando leituras em inglês e em português, pois ainda não consegui aderir totalmente só ao inglês. Ler sempre foi uma das minhas paixões e agora estou conseguindo colocar em dia a pilha de livros que eu havia comprado no Brasil, mas não tinha tempo para ler.

Também passei a fazer uma dieta acompanhada por uma nutricionista brasileira e acabo dedicando bastante tempo preparando cada refeição. Além disso, assim como no Brasil, aqui as frutas, verduras e alimentos naturais são mais caros. Por isso, é preciso fazer uma boa pesquisa nos supermercados antes de comprar qualquer item.

Resumindo, estou tentando ter uma vida mais saudável, sem deixar de comer as coisas que eu gosto (como chocolate!), e aproveitando ainda mais a cidade, já que todo dia acabo descobrindo um novo lugar ou tendo uma nova experiência pelo caminho. Após algum tempo, você ganha mais confiança e começa a desbravar a cidade por caminhos que não são tão populares sem ter medo de se perder (e quando isso acontece, uso o Google Maps).

No início, ia sempre para a mesma praia, Ocean Beach, pelo único caminho que conhecia. Depois, descobri que existia uma ciclovia que costeava um rio até chegar na mesma praia. E agora, segui outras rotas propostas pela ciclovia e conheci meu novo lugar favorito: Mission Beach. Para intercalar, por vezes sigo outros caminhos e vou para Pacific Beach ou ainda para o lado oposto à praia. Contudo, pesquisei novas rotas e vou começar a desbravar novos percursos.

Não me deixe só
Que eu saio na capoeira
Sou perigosa, sou macumbeira
Eu sou de paz, eu sou de bem, mas

Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz

Estar sozinha em outro país é algo assustador e, ao mesmo tempo, muito desafiador. Você precisa ser forte para suportar a solidão e corajoso para sair todos os dias de casa sabendo que precisará lidar com diferentes tipos de situações sem ter ninguém conhecido por perto para ajudá-lo. Falar sozinho, rir de si mesmo e, por vezes, sentir medo, é algo totalmente natural. Contudo, você acaba falando muito mais a segunda língua, fazendo ainda mais amigos ou reforçando a amizade com aqueles que já conquistou na nova terra.

Acho incrível como os imigrantes ajudam um ao outro por aqui. Quando a professora me perguntou como tinham sido minhas férias de primavera, respondi que não muito boas, pois meu marido estava viajando e não gostava de ficar sozinha. Depois disso, colegas brasileiros que eu acabo só cumprimentando na aula, vieram oferecer ajuda, caso fosse necessário. Uma senhora inclusive me passou seu telefone, dizendo que eu poderia ligar a qualquer hora. Meu amigo mexicano já me acolheu na sua casa esta semana com uma janta e minha amiga suíça também combinou um encontrinho.

E assim, dia após dia, San Diego está sendo um aprendizado muito maior do que eu esperava. Ao mesmo tempo que traz saudade, traz conhecimento interior, paz, amizade, coragem e muita sabedoria. Que venham os próximos desafios 🙂

“A vida vem em ondas como um mar. Num indo e vindo infinito.”

Planejar. Esse verbo por muito tempo guiou os meus dias. Todas as manhãs, levantava da cama sabendo exatamente o que faria, em qual horário e com quem. Perdi muitas noites de sono repassando os fatos do dia, culpando-me por ter esquecido de fazer alguma tarefa no trabalho (não respondi o e-mail x, preciso ligar para fulano, tenho que cobrar ciclano…) e tentando dizer para mim mesma que precisava priorizar alguns compromissos pessoais (esqueci de marcar minha mão pela terceira vez na semana, não mandei mensagem para a fulana, preciso confirmar presença no aniversário do ciclano…). E assim os dias passavam e eu naquela roda gigante maluca que não saia do lugar, e que cada vez mais consumia meu sono e minha saúde.

Saber planejar é crucial para a sua carreira, ainda mais quando você trabalha como gerente de projetos. Planejar é essencial para você aprender a priorizar o que realmente é importante. O problema é quando você quer planejar e controlar tudo que acontece ao seu redor.

Este novo momento da vida está me ensinando a não fazer muitos planos para o meu dia. Confesso que no início é extremamente complicado, mas com o tempo você descobre que pode ter um dia maravilho que não teria se tivesse planejado.

Esta semana era “Spring Breack” na minha escola. Semana passada estava preocupada pensando que teria minha rotina interrompida, mais uma vez. Aproveitei as manhãs para estudar, mas na quarta-feira decidi ir à biblioteca do meu bairro, afinal é sempre bom mudar de ares. No fim, ela estava fechada devido a um feriado específico. Decidi mandar mensagem para um colega que mora ali perto e fomos tomar banho de piscina, jantar e ele acabou aqui em casa à noite tomando um drink comigo e com o meu marido. Em outra tarde, decidi que me dedicaria a fazer novas receitas e passei o dia em função de pães e geléias.

Como Lulu Santos muito bem disse, a vida é como uma onda. Cada momento é composto por uma onda específica. Por vezes, ela é grande, bonita e perfeita, e você consegue surfar sobre ela; já em outros momentos, ela é traiçoeira e arrasta você para o fundo do mar, mas você precisa ter coragem para vencê-la e recomeçar tudo outra vez; por outras, ela é tão tranquila que você mal a percebe. Mas não importa a sua intensidade, cada momento está ali, acontecendo e convidando você para desfrutá-lo. Mas se você perder uma dessas ondas, não adianta chorar, pois ela não voltará. O mar não vai parar para você recuperá-la. É preciso erguer a cabeça e seguir adiante, buscando novas oportunidades, novas ondas que poderão trazer aquilo que você espera.

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará

A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito

Tenho uma lista de tarefas que preciso fazer toda semana e em dias específicos, mas como tenho tempo livre nesses espaços, procuro deixa a vida levar. Os finais de semana são os mais incríveis. Dificilmente marcamos compromissos, os eventos vão acontecendo com o desenrolar do dia. Sábado passado começamos o dia na praia, encontramos alguns amigos, fomos parar numa raive, depois pegamos uma jacuzzi na casa de um casal de amigos e terminamos a noite comendo o melhor hambúrguer das redondezas em um restaurante muito bacana. Resumindo, conhecemos pessoas novas, degustamos novos sabores, demos muitas risadas, aproveitamos cada minuto do dia e tudo isso sem fazer nenhum planejamento prévio.

Sempre me cobrei muito para que cada coisa fosse feita com perfeição. E, quando dava errado, senti-me a pessoa mais frustrada do mundo. Porém, nunca me dei tempo para melhorar. Agora, e com ajuda da terapia feita no ano passado, passei a entender que todos os acontecimentos intensos da nossa vida precisam de maturação, assim com um bom vinho.

Após passar por um momento triste, como a perda de uma pessoa querida, por exemplo, você precisa se dar um tempo para chora e sofrer. Depois, você precisa refletir sobre esse luto e entender o quanto ele significa na sua vida, retirando todos os pontos que possam ajudá-lo a ser uma pessoa melhor. Só depois disso você segue adiante. O mesmo ciclo acontece com as coisas boas, como uma promoção no trabalho, por exemplo. Você deve ter o tempo de comemorar e de sorrir, mas depois deve processar a novidade, entender o que fez chegar até ali e como esses pontos positivos podem ser aplicados em outros aspectos da sua vida.

Estamos mudando o tempo todo, o mundo muda o tempo todo. Nunca vamos conseguir acompanhar tudo na mesma velocidade, mas precisamos desacelerar para poder conseguir seguir na maratona com a cabeça e o coração em ordem. Quando os dois estão em conflito, a vida vira um caos!

Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo

Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre

Como uma onda no mar

Mas não se engane, não é fácil. Todo processo de mudança e amadurecimento é doloroso, muito doloroso. Tem momentos que você tem vontade de sair correndo para o colo da sua mãe como uma criança assustada e desprotegida. Contudo, você não pode. Sua mãe mora longe, ou está viajando, ou infelizmente ela já não está mais aqui.

Claro que você pode se dar a esse luxo de vez em quando, mas não sempre. Você é um adulto e precisa aprender a controlar suas birras internas, seu conflitos, seus momentos de decepção, de perdas, de erros. Ser adulto exige tomadas de decisões, escolhas que nem sempre serão as certas, mas quando são podem abrir um novo mundo para você. Porém, o mais importante de tudo é saber que: ser adulto é aprender a entender a emoções e senti-las, desfrutando a sua intensidade. Esconder sentimentos é para os fracos, os verdadeiros corajosos são aqueles que admitem sentir.

A vida vai e vem como uma onda no mar. Aproveite a brisa, a areia, o sal, a água e tudo mais que ela pode lhe dar, assim como o mar. Faça planos, mas não exagere. Nunca sabemos se o dia de amanhã chegará para perdermos tempo levando uma vida tão certinha e regrada. Toda pitada de loucura faz bem para a alma.