“Porque que eu sou apenas movimento. Sou do mundo, sou do vento. Nômade”

Devido aos últimos acontecimentos políticos e econômicos do Brasil, somados aos velhos problemas de falta de investimento em educação, saúde, segurança, empregos, etc., alguns amigos vêm falar comigo sobre o que é preciso para mudar de país e, consequentemente, de vida.

A resposta parece ser complexa, afinal você está deixando tudo para trás, então só pode ser algo muito difícil de ser feito. Mas na realidade a resporta é muito mais simples do que parece. Para ajudar nessa reflexão, sugiro que você assista ao vídeo que uma grande amiga fez contando como ela mudou de país com o marido e as duas filhas pequenas. Já adianto que concordo com 100% dos seus argumentos e faço este post com o objetivo de complementar suas ideias.

A minha casa está onde está o meu coração
Ele muda, minha casa não
No campo, em minas, terras gerais ou qualquer lugar
Onde estou, a minha casa está

Porque que eu sou apenas movimento
Sou do mundo, sou do vento
Nômade

Sei que muita gente não tem o sonho de morar em outro lugar e nem se imagina fora da sua cidade, do seu estado (então que dirá do Brasil!). Outros, já nascem com o chip que diz que eles são cidadões do mundo e gostariam de desbravar as oportunidades que podem aparecer. Eu, por exemplo, nunca tive o sonho de morar fora, sempre quis conhecer outro lugares, mas nunca me imaginei longe do meu país. Porém, os acontecimentos muitas vezes fazem com que você reveja seus conceitos e comece a cogitar uma vida melhor para si, para o seu companheiro ou para seus filhos.

Hoje, infelizmente, eu não consigo mais me imaginar no Brasil construindo uma família. Só de pensar que meus filhos não terão diversos espaços públicos para brincar, escolas públicas de qualidade, várias opções de apartamentos/condomínios com espaços para crianças sem ter que pagar o dobro do preço por isso, incentivo à prática de algum esporte ou o aprendizado de algum instrumento, empresas que oferecem empregos flexíveis para as mães e, principalmente, segurança em qualquer lugar que ele for com os amigos, eu já desisto da ideia de um dia poder começar uma família. Sei que estou sendo radical e tenho várias amigas com filhos no Brasil, porém eu acompanho a aflição delas de estarem o tempo todo com medo.

Como já disse em outros momentos, nem tudo são flores. Os Estados Unidos, assim como todos os países, tem seus problemas, algumas coisas que funcionam bem no Brasil não funcionam aqui, mas poder sair de casa sem medo de ser assaltado, machucado ou morto na rua é um tópico que supera todas as dificuldades.

Porque quando paro sou ninguém
Não declaro onde ou quem
Nômade

Meu endereço é o sítio estrelado de norte a sul
Ele muda a cada estação
Na boca do sertão, na varanda do seu olhar
Onde estou, a minha casa está

Então, o primeiro passo a ser dado é fazer o seu sonho/ideia virar realidade. É preciso ter planejamento financeiro, pesquisar bastante sobre o lugar, falar com amigos ou conhecidos que moram ou visitaram esse lugar, procurar um lugar para morar e alternativas de como se manter. Tem gente que guarda dinheiro e tira meio ano ou um ano sabático; outros vêm com visto de estudante, se matriculam em um curso e trabalham durante o tempo que estão fora da escola; outros vêm com visto de tursista e continuam tocando seus negócios no Brasil à distância; e assim por diante.

Planejamento racional de todas as necessidades que você irá ter é essencial, mas a vontade de querer mudar, de estar disposto a encarar o desafio, faz parte dos outros 50% do objetivo. E dentro da vontade está a prática do desapego e estar aberto ao novo estilo de vida que você irá levar. Não é porque você estará na Califórnia, na Tailândia ou em Sidney que nenhum problema irá acontecer e que será tudo lindo. Lembre-se que a cultura, a língua, a comida, o jeito de pensar e agir são totalmente diferentes do seu país.

Eu abri mão da minha carreira e ainda sigo na busca de um emprego na área. San Diego não é a melhor cidade dos Estados Unidos para eu me recolocar no mercado de tecnologia (nesta área o melhor seria morar em San Francisco ou Los Angeles), contudo sigo tentando. Enquanto isso, trabalho em uma loja de departamento e faço freelas. Confesso que foi difícil no início tirar da cabeça que eu estava rebaixando toda a minha escolaridade e minhas experiências profissionais. Hoje, eu vejo que estou aprendendo muita coisa nova e já consigo olhar de forma diferente para a minha carreira. Conheci pessoas, histórias de vida, aprendi novas coisas e até uma nova língua (estou cada dia melhor no espanhol). Então, mudar muitas vezes significa dar passos para frente, mesmo que eles sejam de formiguinha.

Porque quando passo sou alguém
Sou do espaço, sou do bem
Nômade

A minha carne é feita de tudo que vai e vem
Tempo, nuvem, aflição também
Encontro e perda ao mesmo tempo, eu não vou parar
Onde estou, a minha casa está

O problema de mudar é que só de pensar no esforço que será preciso empregar para colocar em prática a ideia, já faz com que muita gente desista. Mas mudar de país é algo realmente simples de ser feito, sério mesmo! Não é preciso anos de planejamento, no nosso caso levamos um ano entre a ideia e a materialização. Claro que cada caso é um caso, porém as dificuldades não podem fazer com que você se acomode. Assim como a maioria dos amigos que conheço aqui planejou sua mudança, outros vieram na cara e na coragem, só com a roupa do corpo. Sim, é muito mais difícil recomeçar assim, mas eles não ficaram sentados no sofá criando desculpas e sofrendo por antecipação sobre as coisas que iriam ter que enfrentar.

Abra sua visão, converse com amigos, vizinhos, pessoas no ônibus, no café. Faça uma lista de tudo que você irá precisar para mudar de país, assim como faça uma lista de tudo que você quer fazer nesse lugar (lugares para visitar, restaurantes, esportes…) e todos os dias ao levantar, olhe para as listas e siga sua meta. Leia livros e blogs sobre pessoas que mudaram de país e começaram uma nova vida. Entre nas comunidades no Facebook de brasileiros que vivem nesse lugar e faça perguntas, interaja, já vá se familiarizando com a realidade do lugar. Faça tudo que for possível para se sentir mais seguro sobre a sua escolha. Se der, visite esse lugar antes de fazer sua mudança definitiva, veja se ele realmente é aquilo que você imagina e que vai te fazer feliz.

É muito difícil sair da zona de conformo, mas eu garanto que depois que você faz isso uma vez, vai ficar constantemente se perguntando por que demorou tanto.

“Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo. Quem acredita sempre alcança.”

Lembro que a letra de “Mais uma vez”, do Legião Urbana, foi a escolhida para fazer parte da epígrafe do meu TCC. Naquele momento, ela fez todo o sentido ao ilustrar o fechamento de um ciclo. Hoje, ao escutá-la, ela também conseguiu dar significado para o meu recomeço.

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem

Após a publicação do último post, recebi várias mensagens de apoio e também relatos de amigos que passaram ou estão passando pela difícil tarefa de recomeçar sua carreira em outro país. Muitos disseram para eu manter a calma e acreditar que um dia as coisas vão acontecer.

Sim, eu acredito. Desistir nunca foi uma opção. Mas o ponto que quero esclarecer melhor, é o misto de esforço e sentimento que estão envolvidos na tarefa de reconstruir. Faz um mês que estou na busca de um emprego, pois foi uma opção minha não começar antes. Primeiro, porque queria estudar inglês, fazer trabalho voluntário e me sentir mais confiante ao tentar algo na minha área. Segundo, porque não quis aceitar trabalhar ilegalmente em um restaurante ou como babá. Muitos imigrantes por aqui não possuem outra opção, já que precisam pagar as contas, e dedicam grande parte do seu dia, finais de semana e feriados para a primeira oportunidade que aparece. Tenho muita sorte de ter um marido que pode nos manter enquanto eu me qualifico. Ao mesmo tempo, como tenho permissão de trabalho, tenho mais oportunidades para encontrar vagas na área de prestação de serviços, por exemplo.

Porém, outro ponto que dificulta a recolocação, é a falta de conhecidos que possam indicar você. Aqui fica muito mais difícil contar com amigos que possuem contatos em empresas que você gostaria de trabalhar. No Brasil, depois do meu primeiro estágio, não precisei mais sair enviando currículo e fazendo mil entrevistas, as oportunidades surgiam e eu sempre tinha algum contato que podia me indicar. Agora, é preciso recomeçar o ciclo de contatos, é preciso dedicar tempo para criar um novo networking.

Por isso, enquanto sigo na luta por conseguir algum voluntariado, estágio ou emprego em uma agência digital, também estou aplicando para vagas de vendedora em lojas. Como agora já estamos próximos do final do ano, surgem várias vagas temporárias. E foi em uma dessas oportunidades que uma estrela brilhou e eu consegui um trabalho temporário em uma loja. Semana passada fiz meu treinamento e devo começar na próxima semana!!!

Estou muito feliz por ter essa oportunidade, mesmo não sendo na minha área, pois agora vou poder contar com a indicação de um empregador americano, vou entender como funciona o sistema de trabalho por aqui, além de estar o dia todo falando inglês. Contudo, não desisti de achar o recomeço na minha profissão. Continuo pesquisando vagas, enviando currículos e fazendo contatos.

Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar

Recomeçar em outra área é algo muito enriquecedor. Tenho certeza que vou aprender muito e estou extremamente agradecida por isso. Ao mesmo tempo, já escutei algumas pessoas julgando o fato de que é inaceitável estudar durante tanto tempo para ser vendedora, garçonete, babá. Tenho uma amiga aqui com Doutorado em Psicologia que é nanny, outra que é Nutricionista e trabalha em um parque de diversões. E qual o problema nisso? O problema é que muitos de nós encara o emprego como sinônimo de status e pensa que todos os prestadores de serviços são classificados como uma categoria mais baixa da sociedade. É realmente revoltante estar em 2015 e ter que lidar com mais esse preconceito. Mais revoltante ainda é entender que esse pensamento é cultural, está enraizando na nossa sociedade e nos é ensinado desde que somos crianças. O que posso dizer é  que o prestador de serviço aqui nos Estados Unidos recebe por hora e, principalmente garçons/garçonetes, ganham mais por mês do que muita gente com cargo de gerente no Brasil.

Claro que é difícil dar passos para trás depois de estudar tanto e trabalhar mais ainda. É complicado saber que você vai ganhar bem menos no final do mês e que vai levar um bom tempo até chegar ao salário que você tinha quando deixou sua carreira no seu país de origem. Mas você optou por isso e agora precisa encarar as consequências. Não é vergonhoso trabalhar em outro lugar, todo trabalho é digno. Porém, infelizmente, lá no fundo, temos aquela cobrança de que poderia ser diferente. Nesse ponto, recomendo um texto maravilhoso indicado pela minha melhor amiga: A Alemanha e o trabalho. Vender colchão. Por que não? Uma das passagens que mais me marcou no texto foi: “Trabalho é só trabalho. Não tem nada a ver com status, com quem você é, não diz tanto sobre você. Tento repetir isso para mim milhões de vezes até tentar me convencer.” 

Para quem não acredita ou imagina que o preconceito com prestadores de serviço no Brasil é algo raro, recomendo esta outra leitura: Por que comemos embaixo da escada?.

Tem gente enganando a gente
Veja a nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!

A semana que passou me ensinou que mais difícil que recomeçar é mostrar para si mesmo que será preciso descer alguns degraus, deixar o orgulho de lado e encarar os comentários nem sempre positivos. “Trabalho é só trabalho” e nada mal recomeçar em um lugar tão maravilhoso quanto a California. Por aqui, o trabalhador pode iniciar ou terminar o dia surfando, voltar para casa a pé de noite sem ter medo de ser assaltado ou morto no caminho. Por aqui, o trabalhador é respeitado pelo simples fato de estar ganhando sua vida honestamente, seja qual for a sua profissão.

Confiar em si mesmo é o primeiro passo para qualquer processo de mudança. Toda dificuldade é temporária, você só precisa acreditar e batalhar para que as coisas aconteçam. Uma hora o sol vai brilhar no seu caminho, esteja você na Califórnia, em Dublin, em Berlim, em Abu Dhabi, em Sydney, em Shanghai, ou em qualquer lugar do mundo que você escolheu recomeçar. Você já é um vencedor pelo simples fato de ter tido a coragem de mudar.