“Todos os dias é um vai e vem. A vida se repete na estação.”

Nesta semana, completarei cinco meses de vida nova em San Diego. Ontem, jantando com um casal de amigos brasileiros, contei histórias de vida das quais tomei conhecimento desde que passei a fazer parte da comunidade de imigrantes deste novo mundo. O ditado costuma diz que “sonhar não custa nada”, porém para algumas pessoas sonhar pode custar a liberdade e o próprio sonho. E foi com esse pensamento que acordei hoje de manhã e passei a sentir ainda mais intensamente a constante rotina de chegadas e partidas que presencio. A rotina da qual também passei a fazer parte.

Maria Rita descreve em frases curtas a relação entre “Encontros e Despedidas”, mas a simplicidade dos versos, na verdade, carrega uma imensidão de sentimentos que acontece a cada ida e vinda.

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Na escola que estudo, todos os dias chega um novo aluno, e todos os dias alguém também se despede. Hoje, foi a vez de um brasileiro, que passou seis meses em San Diego com a esposa e os dois filhos, dizer até logo. Ele vai com a certeza de que no próximo ano retorna para ficar de vez. Já ontem, uma menina do Cazaquistão passou a integrar a turma. Faz uma semana que ela mora em San Diego. Antes, vivia em Los Angeles com o namorado português, porém decidiu largar tudo para viver perto dos amigos, também cazaques, que moram aqui.

Nunca fui boa em despedias e desapegos. Contudo, tive que aprender, mesmo sem querer, a dizer adeus, assim como dar as boas-vindas. Ainda não consigo controlar a explosão de sentimentos que sinto quando penso na minha família que está no Brasil ou o aperto que dá no coração quando lembro daqueles que partiram para sempre, como meu avô Lino e minha avó Ana. Constantemente meus sonhos são com todos aqueles que há muito não vejo. O inconsciente saber ser poderoso e cruel. Constantemente, ele busca em nossa memória histórias e rostos para nos lembrar do mundo que existe para além da cegueira que vivemos ao tentar buscar o segredo da felicidade e da vida estável.

Há um mês, tive que me despedir da primeira grande amizade (sem ser brasileira) que fiz por aqui. A Jara voltou para Minorca, uma ilha da Espanha, pois precisa começar a faculdade e construir sua carreira. Uma menina de 19 anos, com a maturidade de uma mulher de 30, que deixou uma saudade enorme e um ensinamento gigante: “lute por aquilo que você acredita”. Ela não entendia como eu dava conta de tudo e eu até hoje busco entender de onde ela tirou coragem para ficar seis meses longe da sua família, vir para um país completamente sozinha para aprender inglês e buscar respostas para o seu futuro. Segundo ela, seus pais sempre a incentivaram a criar novos laços, a nunca ficar só na comodidade do ninho que eles construíram com tanto amor para ela. Compartilhamos livros, risadas, confidências, almoços, jantares e fotos. Aprendemos sobre amizade, distância e saudade.

Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir

Não é fácil resumir o que aprendi sobre o significado de chegar e partir nesses 150 dias, mas tentarei, assim como Maria Rita, simplificar as grandes escolhas que muitas pessoas fizeram. A simplicidade é proposital para que seja possível enxergar todo o peso das decisões tomadas que estão implícitas nas entrelinhas.

Teve gente que chegou para ficar e que: vendeu sua casa e veio com o filho adolescente com medo da violência na Polônia; vendeu seu carro, o único bem que tinha no Brasil, para tentar uma nova vida com sua namorada, mesmo que isso tenha significado passar a entregar pizza; continuou com seus negócios no México e veio com o marido e os dois filhos adolescentes para abrir novas franquias em San Diego; deixou a Itália para acompanhar a esposa, que recebeu uma oportunidade de trabalho em San Diego, e enquanto ele aguarda seu Green Card, trabalha como voluntário em um aquário na cidade; está há 15 anos morando na Califórnia e volta uma vez por ano para a China como visitante; veio da Argélia para acompanhar o marido e só vai voltar ao seu país de origem no próximo ano para realizar a cerimônia religiosa do casamento; é filipino, mas já morou na Arábia Saudita por um tempo e agora está há muitos anos em San Diego com toda a família desfrutando a poesia da vida; deixou o Iraque e está vivendo feliz há 25 anos nos Estados Unidos.

Tem gente que vem e quer voltar e que: está há 14 anos vivendo em San Diego com o marido e o filho de oito anos, mas todos os dias quer voltar para a Colômbia; está há dois meses na cidade, mas louca de vontade de voltar para o Brasil em julho, pois a vida não está sendo fácil por aqui; teve que deixar a filha de menos de um ano na Arábia Saudita para seus pais a criarem dentro das tradições, enquanto termina o mestrado nos Estados Unidos; veio estudar inglês e fazer festa por alguns meses e voltou para a França.

Tem gente que veio só olhar e que: saiu da Suíça para ficar um ano e meio em San Diego com o marido, o qual trabalha em uma empresa americana, mas como ela não consegue emprego na sua área devido ao visto, está ganhando um dinheiro extra como nanny; partiu da Guatemala há dois anos e está morando com uma tia em San Diego, mas não sabe o que fará no futuro; trabalhou durante um tempo no Brasil e resolveu tirar alguns meses sabáticos para surfar na Califórnia; está morando há um mês na casa de uma família e na metade do ano volta para a Espanha; veio do Equador, frequentou a aula durante um mês e nunca mais voltou; deixou a Síria para estudar e trabalhar em San Diego e está decidindo o que fará no próximo ano; veio da Rússia com o marido, tem medo de se relacionar com estranhos e comparece apenas a cada 15 dias na aula.

São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida

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“Foi por medo de avião, que eu segurei pela primeira vez a tua mão.”

Belchior falava de medos há muitos anos atrás, quando eu nem sabia o significado pleno da palavra. O medo do novo, da insegurança, do outro, do dia, da noite e, claro, de avião. Para qualquer lado que olhamos, lá está ele, o medo, espreitando-nos e pronto para dar o bote a qualquer deslize, a qualquer sinal de dúvida.

Há três meses atrás, quando recebi a notícia que iria morar em San Diego, a primeira coisa que senti foi medo (a terapia me ensinou que devemos falar dos sentimentos, por isso vou abrir meu coração em cada post que aqui for publicado).

Durante muitos dias refleti sobre os impactos dessa mudança e de tudo que estaria abrindo mão. Permiti-me chegar ao fundo do poço, sofrendo por deixar para trás minha família, meus amigos, meu trabalho, minha casa, minhas coisas e tudo mais que fazia parte da minha rotina, tudo aquilo que estava sob o meu controle e me deixava segura. Depois de tantas lágrimas, decidi que pensaria apenas na coisas boas que o futuro reservava.

Mas por que sofrer tanto? Porque descobri que toda mudança é um luto e que todo luto deve ser sentido, pois só depois de vivê-lo é que conseguimos dar os próximos passos e encarar de peito aberto tudo que está por vir. Porque descobri que não estamos seguros nunca e que não tem como prever o que irá acontecer. Podemos e devemos sim fazer planos, mas não sabemos os obstáculos que vão surgir no meio do caminho para realizá-los. A segurança e o controle são pura ilusão.

Sei que essas palavras podem parecer clichês ou saídas de um livro de auto-ajuda, mas o fato é que são a mais pura realidade (e aqui está falando uma pessoa que sofre crises constantes de ansiedade por querer controlar tudo o tempo todo). Levei meses para entender o significado disso tudo e é muito difícil aceitar que você simplesmente precisa viver o hoje. Claro que se deve planejar o futuro, mas sem sofrer por antecipação com o que ele irá reservar e entender que não adianta mais se martirizar pelo passado, apenas tirar de bom tudo que ele ensinou.

Quando chegou o grande dia de partir, tinha dois corações no aeroporto: o que queria ficar acolhido no seio da família e o que queria desbravar o mundo, mesmo conhecendo muito pouco a seu respeito. Por estranho que pareça, após as lágrimas da despedida, estava muito feliz em ter conseguido entrar nos três aviões que me aguardavam ao longo das 15h de viagem. Nunca tinha feito uma viagem tão longa e estava com medo de ter alguma crise de pânico do avião (como explicar para o seu inconsciente claustrofóbico que você não pode abrir uma janela pra pegar um ar durante 9h e 6h seguidas?)

Tudo correu muito bem até chegarmos no John F. Kennedy International Airport. Foi aí que tive uma de minhas crises, a primeira de muito tempo. Quem tem crises de pânico sabe bem como é: falta de ar, boca seca, coração acelerado, calor e desespero, muito desespero. A vontade de sair correndo daquela fila enorme da imigração era maior que eu. Por alguns minutos estava totalmente apavorada. Foi aí que tive que recorrer ao meus calmantes e às doces palavras do meu marido. Então tudo começou a ficar calmo novamente e o ar tornou-se abundante. No fim, acabei fazendo amizade com uma senhora brasileira que estava na fila e esqueci da crise.

À noite parei para refletir o motivo do desespero. Acho que foi porque realmente estava começando a entender que agora seria moradora de outro país, que teria que enfrentar uma nova língua, uma nova cultura, que eu estava realmente começando a viver uma nova vida e que deveria encará-la. Claro que eu já tinha refletido muito sobre isso, mas quando realmente se vive a situação é totalmente diferente.

Passado o susto, ao descer no San Diego International Airport fiquei emocionada, tudo aquilo realmente estava acontecendo. Até agora não acredito que estou aqui no Mission Valley, sentada no sofá de um hotel escrevendo este post. Logo eu, que sempre sonhei pequeno, que lutei tanto para conquistar bens materiais que hoje nem estão mais aqui comigo.

Realizar sonhos implica em desapegos muito maiores que se possa imaginar, mas para quem é do bem e tem fé, tudo pode acontecer.

Hello, California!

“Não aprendi a dizer adeus, mas tenho que aceitar, que amores vêm e vão.”

Leandro & Leonardo transformaram em música a dor do adeus e ensinaram que não é fácil acostumar-se com a distância que nos separa de quem amamos.

Foram através das palavras abaixo, as quais escolhi carinhosamente para me despedir da família, dos colegas e dos amigos que ficaram no Brasil, que coloquei um ponto e vírgula na vida que levava por lá e me encorajei a começar com letra maiúscula uma nova história por aqui em San Diego.

Começo estes registros retomando o “até logo” por assim dizer, para mostrar o quão difícil é fazer escolhas na vida, principalmente quando elas implicam em inúmeras e doloridas renúncias. Ao mesmo tempo, gostaria de tornar pública esta experiência, pois sei que muitas pessoas passaram, passam e passarão pelo mesmo processo. Afinal, compartilhar é comunicar, ajudar, conhecer e crescer.

Há três meses uma notícia mudou meus planos e, consequentemente, a minha vida: a oportunidade de morar em San Diego. Se existe um tempo certo para organizar uma mudança dessas eu não sei, só sei que durante esse tempo eu corri como louca, chorei como criança, fui no Brasco e na volta casei, descobri a insônia, misturei sentimentos, aprendi o que significa desapego e burocracia, aproveitei ao máximo a companhia das pessoas que amo e refleti em looping, dia e noite, sobre como seria partir e recomeçar. O misto de felicidade, saudade, insegurança, medo e esperança dominaram as 24h do meu dia.

E no meio de toda essa mudança não planejada, acabei perdendo meu padrinho Paulo e meu avô Lino. Foi aí que revivi o significado da saudade, da tristeza, da impotência, da dor e da união. Ao mesmo tempo, minha prima Vanessa casou e trouxe o brilho da felicidade para a família. Nunca estamos preparados para nos despedir, ainda mais quando é pra sempre, mas depois da tempestade sempre vem o sol…

Diante de tantas mudanças que 2014 me proporcionou, posso dizer que a principal delas foi o amadurecimento. Durante toda minha vida sempre quis ter tudo sob controle, inclusive meus sonhos, mas agora descobri que se é muito mais feliz quando simplesmente deixamos a vida acontecer e aceitamos as oportunidades que ela nos dá.

Muitas pessoas perguntaram “É aí, o que você vai fazer lá?” e a verdade é que eu vou descobrir agora. Por enquanto posso dizer que vou estudar, construir um lar e apoiar o meu marido na sua nova jornada de trabalho. Decidi viver um dia de cada vez e aproveitar ao máximo o tempo que ainda tinha aqui no Brasil antes de começar a fazer novos planos.

Nos últimos 10 anos trabalhei direto e muito, pois amo o que faço, mas tirei poucas férias e não tive tempo de tocar projetos paralelos. Agora ganhei de presente do destino a oportunidade de poder parar por pelo menos três meses (enquanto meu visto de trabalho não vem) e descobrir um mundo novo de oportunidades.

Dói muito dizer adeus para tanta gente que amo, para o meu trabalho, para a minha rotina, mas quando uma mudança é para melhor, tudo ganha outro significado. Se a saudade é o amor que fica, eu sou puro amor, pois estou carregando dentro do meu coração todos que fizerem de mim uma pessoa melhor.

Obrigada ao amigos, colegas e familiares pelo apoio.