“Eu tenho tanto pra lhe falar. Mas com palavras não sei dizer. Como é grande o meu amor por você”

No dia 2 de novembro fez dois anos que meu avô Lino faleceu. Ele foi o avô com quem eu tive mais contato, foi um dos meus maiores exemplos e um dos meus melhores amigos. Por coincidência do destino ou não, ele partiu um mês antes da minha mudança. Naquela época, as emoções se misturaram muito e em alguns momentos eu até pensei em desistir de sair do Brasil, pois sabia que seria muito difícil lidar com situações como essa à distância.

Mas quando meu avô ainda estava no hospital, ele disse que estava muito feliz por mim e que eu deveria aproveitar esta oportunidade única da vida. Ao mesmo tempo, meu pai dizia que não podemos mudar o percurso da vida das pessoas que a gente ama, nem mesmo estando perto delas. E foi com essa força passada pelos dois, que eu consegui enfrentar os primeiros meses de distância da minha família.

Há um ano atrás, eu escrevi o texto que segue abaixo, mas só agora tive coragem de publicá-lo. A dor da saudade ainda segue muito grande, e provavelmente nunca irá passar, mas hoje já consigo lidar melhor com ela. Então, se você está pensando em morar em outro lugar (seja outra cidade, estado ou país), tente se preparar emocionalmente para todas as possibilidades que podem acontecer. Sinto dizer, mas você enfrentará muitas perdas.

E quando digo muitas, estou me referindo também a não participação de eventos felizes, como casamentos, aniversários, festas, encontros de família e dos amigos, nascimentos dos filhos dos amigos ou de algum afilhado, festas de final de ano, etc. E claro, você também irá sentir por estar longe quando um amigo seu precisar de ajuda ou de um abraço, ou quando algum familiar estiver doente e você não puder estar presente para fazer o que for preciso, ou ainda quando alguém partir. Em alguns desses momentos você certamente irá se perguntar se realmente está valendo a pena estar tão longe.

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Eu tenho tanto pra lhe falar….

Acredito que a palavra saudade traz consigo um sentimento tão forte, que é quase impossível não compará-la com a equivalência da força da palavra amor. Sempre usei com frequência essa palavra, pois sinto falta de muitas pessoas e momentos. Mas foi no dia 01 de novembro de 2014 que eu realmente pude entender – e sentir – o tamanho da sua magnitude.

Naquela semana, eu estava em São Paulo à trabalho.  Como era final de semana, resolvi conhecer o Museu da Língua Portuguesa com dois colegas. Eu não queria sair, pois meu coração estava apertado de dor. Porém, meus colegas insistiram e eu fui lá realizar um sonho, já que há muito tempo queria conhecer o museu. Eu estava totalmente encantada com toda aquela poesia ao meu redor. Ao final daquele momento mágico, a ligação chegou. Meu avô tão querido tinha partido. Guardo até hoje as palavras do meu pai “o vozinho descansou”.

O desespero tomou conta de mim. Eu não sabia o que fazer, para onde correr. Já tínhamos nos despedido naquela semana no hospital, porém é incrível como o ser humano sempre carrega consigo a esperança de que um milagre aconteça (ainda bem que somos assim, pois é a esperança que nos move). E foi com a música “Como é grande o meu amor por você”, do Roberto Carlos, que eu disse o meu adeus pra ele. Foi essa a música que eu cantei no último momeno que estivemos juntos. Confesso que até hoje não consigo mais cantá-lá ou escutá-la. É como se um nó se formasse na minha garganta e, ao mesmo tempo, um turbilhão de lembranças toma conta da minha mente.

Antes da chegada daquela notícia, eu já tinha sofrido e chorado muito, pois a hora dele estava chegando, era algo inevitável. Contudo, a minha maior dor naquele dia foi estar longe da minha família, dos meus tios, da minha avó, dos meus primos e, principalmente, do meu pai.

O amor que sinto pelos meus pais ultrapassa qualquer palavra que tenha significado de grandeza. Mas meu pai é meu herói, meu exemplo, meu melhor amigo e um grande parceiro. E ele sentia exatamente isso pelo meu avô. Eles sempre estavam juntos fazendo todo tipo de indiada: construindo um galinheiro ou um galpão, podando uma árvore, indo ao supermercado, pescando, passeando, jogando carta…

Naquele dia, ele estava perdendo o seu pai e o seu melhor amigo, e eu não estava lá. E eu estava perdendo meu avô mais querido, meu xodó, e eu não estava lá. Foi a partir desses acontecimentos que eu pude entender a mistura de sentimentos entre dor e saudade.

Dói chegar na casa dele e não ver a sua moto estacionada na garagem. Dói sentar no sofá da área e não encontrar ele no lugar cativo servindo o chimarrão para toda a família. Dói não poder abraçá-lo e dançar alguns passos de música gauchesca, o cumprimento que sempre fazíamos. Dói não escutar as risadas dele e sentir aquelas mãos ásperas fazendo carinho no meu braço. Dói não escutar pela centésima vez as histórias de antigamente e rir como se fosse a primeira vez que elas estivessem sendo retidas do baú. Dói não ganhar de presente umas folhas de couve ou alface, ou um saco de bergamotas ou jabuticabas. Dói olhar para os passarinhos que sempre estão na árvore em frente ao sofá da área e não escutar as artes que eles aprontaram naquela semana.

Dói olhar para o fogão a lenha que ele fez e não ver fogo, pinhão, quentão ou mocotó. Dói olhar para a churrasqueira e não ver ele ali com o avental do Internacional e um sorriso largo no rosto. Dói entrar na sua marcenaria e encontrar apenas um vazio gigantesco. Dói olhar para as fotos que estão na cristaleira e ver todos os momentos que ele passou ao lado da família, e saber que a partir de agora ele não estará mais nos novos acontecimentos. Dói entrar no quarto e não encontrar ele lá tirando um cochilo depois do almoço. Dói olhar para uma vara de pesca e saber que não faremos mais nenhuma competição de quem pega o maior peixe do dia. Dói fazer qualquer evento na casa da vó e não ter ele por perto sendo o centro da organização da festa e da bagunça. Dói olhar para o balde de milho das galinhas e saber que ele não vai mais dizer para eu não atirar comida escondida para elas. Dói olhar para a minha vó e não ver ele chamando ela dos mais doces apelidos e correndo para agradá-la. Dói não ver os dois expressando todo aquele amor na frente de todos, mesmo depois de 60 anos de casados.

Acredito que o maior legado que ele deixou foi ser um exemplo para toda família e mostrar que podemos mudar a vida dos outros apenas sendo nós mesmos. Ele nunca teve muito dinheiro, mas nem por isso negava ajuda. Ele sempre mostrou que existem outras formas de fazer uma pessoa seguir em frente. Ele escutava, dava conselhos, incentivava. Não teve uma vez que não perguntou como estava o meu trabalho e, enquanto eu respondia, ele já dizia que eu seria um sucesso. Ele fazia isso com todo mundo.

Ele nunca deixava de contar uma história, uma piada, de dar uma risada, de abraçar, de olhar no olho, mostrar o quanto se importava e o quanto estava feliz por nos ver. Ele era um ser tão iluminado, que quando partiu, deixou um vazio do tamanho de uma cratera em vários corações. Ainda é impossível acreditar que ele não está mais entre nós, pois a sua presença continua sendo constante. Ele fez o bem pra tanta gente, que esta onda de coisas boas continua a se propagar. Até na cama do hospital, quando ele ainda estava lúcido, não deixou de fazer planos. Continuou elogiando, cantando, contando piadas.

Ele foi enterrado no dia que completaria 84 anos. Não por coincidência, seu aniversário era no Dia dos Finados, dia no qual o cemitério sempre está cheio de gente e de novas flores. Ele escolheu partir num dia de festa. Ele era uma festa em pessoa. Uma festa de amor, de compaixão, de amizade e de carinho.

Dói tanto lembrar, mas doeria mais ainda se não tivéssemos vivido tantos momentos juntos. Ainda nos encontramos nos meus sonhos e isso ajuda a matar um pouco da saudade. Serei eternamente grata por ele ter me ensinado o significado da palavra saudade e por saber o quanto ela pode ser intensamente sentida a cada dia.

Saudade é o amor que fica. E o amor por ti, vô Lino, será eterno ❤

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“É chato chegar a um objetivo num instante. Eu quero viver nessa metamorfose ambulante”

Ando pensando muito e escrevendo pouco, eu sei, mas um dos encontros que a minha imaginação proporcionou nesses últimos dias foi entre Raul Seixas e Cecília Meireles. Sim, parece algo estranho em um primeiro momento, porém, se você parar pra refletir, eles têm muito em comum. Os dois eram grandes poetas que faziam das palavras mágicas combinações. Toda vez que escuto Raul ou leio Cecília, sinto-me em paz, sinto-me reflexiva.  Eles nos fazem pensar sobre a vida, sobre o amor, sobre a dor e sobre todas as possibilidades.

O último livro de Cecília Meireles que li foi “Escolha seus sonhos”, que não por acaso acabou nas minhas mãos em uma biblioteca aqui de San Diego. Devorei cada crônica em menos de dois dias. Virei a última página com uma vontade louca de desbravar o mundo com um caderno e uma caneta embaixo do braço anotando cada detalhe que meus olhos pudessem ver.

Entre uma das crônicas descobri a “A arte de ser feliz”, que é uma descrição linda de todas as vistas que a autora já teve através das janelas pelas quais passou. Não é um olhar simplista descrevendo o cenário a sua frente, mas sim uma visão profunda de cada detalhe visto pelo seu coração. Aprender a olhar em profundidade é algo que leva tempo, mas Cecília sempre soube fazer isso como ninguém.

Inspirada na “Metamorfose ambulante do Raul” e no olhar para além das aparências de Cecília, gostaria de compartilhar as janelas pelas quais vi o mundo sob diferentes ângulos.

A primeira janela que tenho lembrança dava para um quintal. Eu era criança e certamente esse era o meu lugar preferido. Ali, no meio daquele gramado verde repleto de sombras projetados por um pé de Ingá, eu me sentia livre para brincar e construir o meu próprio mundo. Nessa época, existia por ali uma casinha de madeira feita pelo meu avô. Minha única reocupação era acordar pela manhã e averiguar se tinha sol para poder desfrutar do meu paraíso.

Minha segunda janela era localizada nos fundos da casa dos meus pais. Como era no segundo andar, tinha uma vista privilegiada da cidade. Gostava de sentar nela e ler meus livros ou observar o mundo acontecendo, as luzes brilhando, os pássaros seguindo o seu percurso e as árvores balançando conforme a música do vento. Ali naquela janela passei minha adolescência e comecei a ver tudo de forma diferente. Por vezes rebelde, por vezes cheia de planos, ou só relembrando os fatos passados.

Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Nesse meio tempo, surgiram outras janelas, essas eram em prédios, não tão altos assim, mas no meio de uma capital. Por elas, eu via o caótico trânsito, o correr apressado das pessoas, o sol sendo ignorado e a chuva chegando para trazer mais caos em momentos que deveria ser considerada uma benção. Por muitas vezes, eu não tinha tempo para olhar pela janela. Foram tantos os dias que não disse bom dia para o sol ou para as nuvens, e foram tantas as noites que tive como companhia a lua e as estrelas, mas estava tão compenetrada trabalhando, que não as notava.

No meio do caos, passei por duas novas janelas em duas novas casas. Numa, a qual tinha grades, eu conseguia admirar flores, folhas e gotas que lavavam a alma. Assim como também via muitos mendigos tentando encontrar um pedaço de marquise para se proteger da noite e daquele mundo sem sentido. Na outra, eu via prédios e mais prédios, porém através de uma pequena fresta entre eles, admirava o pôr do sol nos finais de semana.

Agora, minha janela é longe de tudo que já tinha visto ou imagina ver. Agora, minha janela é grande, mas a primeira vista dela é outra janela. Mesmo assim, se olhar para os lados, consigo ver o sol, os aviões e vida tranquila que por aqui acontece. Essa nova janela me proporcionou uma visão completamente diferente do mundo que eu tinha. Ela abriu novas possibilidades e mostrou que é possível sonhar com novas perspectivas, por mais difícil que seja deixar as outras janelas para trás.

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

Eu não sei quantas janelas mais vão passar pelas minhas manhãs e noites, tampouco o que elas irão me mostrar. O que eu sei, é que independente de onde ela esteja, vou aprender algo novo. Sei que posso contar com ela para todos os momentos. Sei que, ao abri-la, serei recebida com a brisa que estiver passando e escutarei os sons que por ela são abafados. Sei que, só de saber que ela está ali, eu já não estarei só.

“There’s a battle outside. And it is ragin. It’ll soon shake your windows. And rattle your walls. For the times they are a-changin”

Em 1964 Bob Dylan gravou “The Times They Are A-Changin”, mas parece que a cada ano a letra se torna mais atual. Essa música ganhou um significado maior para mim quando assisti o filme “Watchmen”. A abertura é feita com cenas de super-heróis, políticos e policiais milimetricamente casadas com cada verso de Dylan. Assim como o filme, a canção traz uma mensagem de protesto apresentando as mudanças que estavam acontecendo na sociedade da época, os valores que estavam sendo deixados para trás, o novo que estava por vir e quem foram os que relutaram em aceitar tais mudanças. Tudo isso expresso através da inversão na ordem das ações, mostrando aos jovens que os novos tempos estavam chegando e que as pessoas deveriam se preparar para isso.

Come gather ‘round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You’ll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin’
Then you better start swimmin’
Or you’ll sink like a stone
For the times they are a-changin’.

E é exatamente sobre o tema “mudança” que quero falar neste post. Neste último mês alterei totalmente minha rotina por conta dos cursos que comecei a fazer. Já não tenho tempo livre na agenda e isto faz de mim a pessoa mais feliz do mundo, pois quando não sobra tempo para muitas distrações, o foco nos objetivos é maior e os maus pensamentos são afastados.

Quando vi, já era a semana do meu aniversário, a primeira comemoração de um novo ano de vida em San Diego. Sempre amei comemorar meu aniversário e fazer alguma festa. Porém, este ano o sentimento era muito mais de gratidão por tudo que havia acontecido no último ano, do que de dar às boas-vindas a uma nova fase. Eu queria ir apenas em um lugar bacana com as pessoas que realmente importam para mim aqui em San Diego. E foi exatamente isso que aconteceu.

Come mothers and fathers
Throughout the land
And don’t criticize
What you can’t understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin(g)’.
Please get out of the new one
If you can’t lend your hand
For the times they are a-changin’.

Pela primeira vez senti que o peso da idade começou a fazer sentido. Além de aparecerem os primeiros cabelos brancos, agora sinto, mais do que nunca, que realmente comecei a amadurecer e a perceber o que realmente tem valor. Experiência de vida tem muito mais a ver com o tamanho das pedras no caminho que você precisa desviar, do que com o número de velas que você apaga na hora do parabéns. Por tudo isso, sou extremamente grata pelos 28 anos terem me mostrado o real significado das palavras coragem e serenidade.

Se não fossem por elas, não teria passado pelo momento mais difícil da minha jornada aqui em San Diego com a maturidade necessária. Ontem, acompanhei meu marido ao hospital achando que ele estava com dor de estômago, quando na verdade era apendicite. Para quem imaginava sair de lá 2h depois com uma lista de remédios e acabou recebendo um saco plástico para guardar todos os pertences pessoais dele antes de vê-lo entrar em uma sala de cirurgia, a probabilidade de surtar era bem grande.

Confesso que não fui forte o suficiente e tremi de medo na primeira hora. Mas a vida é cheia de anjos chamados amigos e foram eles os responsáveis por me darem a força que eu precisava. Depois de toda a energia enviada do Brasil e daqui, no fim tudo acabou dando certo. Passado o susto, fica mais fácil analisar todo o cenário e refletir sobre as lições aprendidas (mania de Gerente de Projetos).

Se tremi de medo, foi porque eu era a única responsável naquele momento pela vida de uma das pessoas que mais amo neste mundo. Eu sei que posso contar com toda nossa família e todos os nossos amigos, porém essa foi a primeira prova que tivemos que passar aqui como marido e mulher tendo que tomar uma decisão sozinhos, provando que um é responsável pelo outro e que não existe mais ninguém que possa fazer isto por nós. O peso da responsabilidade caiu sobre os meus ombros, mas ao vê-lo na sala de recuperação com o melhor diagnóstico possível, o alívio e o sentimento de dever cumprido vieram na hora. A decisão tomada realmente tinha sido a mais sensata.

The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin’.
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin’.

Então, meu amigos, a idade vai chegado e toda a bagagem que você adquiriu ao longo da vida passa do status “peso/dor” para “respostas/coragem”. Aquele momento de sofrimento lá no passado será a coragem que você construiu para conseguir suportar outra tsunami lá no futuro. O aprendizado de ontem será a resposta que alguém que você ama precisará amanhã. E assim a montanha russa da vida vai seguindo com seus altos e baixos e você segue segurando firme em um dos carrinhos. Afinal, de que adianta viver se não para sentir todas as emoções que a vida pode proporcionar?

Os 28 anos de gratidão finalmente chegaram. Agradeço a cada pessoa que caminhou ao meu lado, que me segurou no colo, que me derrubou, que me empurrou para frente ou para trás. Foi através de todo esse sacolejo que criei a minha bagagem e agora estou usufruindo da melhor forma possível de todos as suas ferramentas.

“Todos os dias é um vai e vem. A vida se repete na estação.”

Nesta semana, completarei cinco meses de vida nova em San Diego. Ontem, jantando com um casal de amigos brasileiros, contei histórias de vida das quais tomei conhecimento desde que passei a fazer parte da comunidade de imigrantes deste novo mundo. O ditado costuma diz que “sonhar não custa nada”, porém para algumas pessoas sonhar pode custar a liberdade e o próprio sonho. E foi com esse pensamento que acordei hoje de manhã e passei a sentir ainda mais intensamente a constante rotina de chegadas e partidas que presencio. A rotina da qual também passei a fazer parte.

Maria Rita descreve em frases curtas a relação entre “Encontros e Despedidas”, mas a simplicidade dos versos, na verdade, carrega uma imensidão de sentimentos que acontece a cada ida e vinda.

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Na escola que estudo, todos os dias chega um novo aluno, e todos os dias alguém também se despede. Hoje, foi a vez de um brasileiro, que passou seis meses em San Diego com a esposa e os dois filhos, dizer até logo. Ele vai com a certeza de que no próximo ano retorna para ficar de vez. Já ontem, uma menina do Cazaquistão passou a integrar a turma. Faz uma semana que ela mora em San Diego. Antes, vivia em Los Angeles com o namorado português, porém decidiu largar tudo para viver perto dos amigos, também cazaques, que moram aqui.

Nunca fui boa em despedias e desapegos. Contudo, tive que aprender, mesmo sem querer, a dizer adeus, assim como dar as boas-vindas. Ainda não consigo controlar a explosão de sentimentos que sinto quando penso na minha família que está no Brasil ou o aperto que dá no coração quando lembro daqueles que partiram para sempre, como meu avô Lino e minha avó Ana. Constantemente meus sonhos são com todos aqueles que há muito não vejo. O inconsciente saber ser poderoso e cruel. Constantemente, ele busca em nossa memória histórias e rostos para nos lembrar do mundo que existe para além da cegueira que vivemos ao tentar buscar o segredo da felicidade e da vida estável.

Há um mês, tive que me despedir da primeira grande amizade (sem ser brasileira) que fiz por aqui. A Jara voltou para Minorca, uma ilha da Espanha, pois precisa começar a faculdade e construir sua carreira. Uma menina de 19 anos, com a maturidade de uma mulher de 30, que deixou uma saudade enorme e um ensinamento gigante: “lute por aquilo que você acredita”. Ela não entendia como eu dava conta de tudo e eu até hoje busco entender de onde ela tirou coragem para ficar seis meses longe da sua família, vir para um país completamente sozinha para aprender inglês e buscar respostas para o seu futuro. Segundo ela, seus pais sempre a incentivaram a criar novos laços, a nunca ficar só na comodidade do ninho que eles construíram com tanto amor para ela. Compartilhamos livros, risadas, confidências, almoços, jantares e fotos. Aprendemos sobre amizade, distância e saudade.

Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir

Não é fácil resumir o que aprendi sobre o significado de chegar e partir nesses 150 dias, mas tentarei, assim como Maria Rita, simplificar as grandes escolhas que muitas pessoas fizeram. A simplicidade é proposital para que seja possível enxergar todo o peso das decisões tomadas que estão implícitas nas entrelinhas.

Teve gente que chegou para ficar e que: vendeu sua casa e veio com o filho adolescente com medo da violência na Polônia; vendeu seu carro, o único bem que tinha no Brasil, para tentar uma nova vida com sua namorada, mesmo que isso tenha significado passar a entregar pizza; continuou com seus negócios no México e veio com o marido e os dois filhos adolescentes para abrir novas franquias em San Diego; deixou a Itália para acompanhar a esposa, que recebeu uma oportunidade de trabalho em San Diego, e enquanto ele aguarda seu Green Card, trabalha como voluntário em um aquário na cidade; está há 15 anos morando na Califórnia e volta uma vez por ano para a China como visitante; veio da Argélia para acompanhar o marido e só vai voltar ao seu país de origem no próximo ano para realizar a cerimônia religiosa do casamento; é filipino, mas já morou na Arábia Saudita por um tempo e agora está há muitos anos em San Diego com toda a família desfrutando a poesia da vida; deixou o Iraque e está vivendo feliz há 25 anos nos Estados Unidos.

Tem gente que vem e quer voltar e que: está há 14 anos vivendo em San Diego com o marido e o filho de oito anos, mas todos os dias quer voltar para a Colômbia; está há dois meses na cidade, mas louca de vontade de voltar para o Brasil em julho, pois a vida não está sendo fácil por aqui; teve que deixar a filha de menos de um ano na Arábia Saudita para seus pais a criarem dentro das tradições, enquanto termina o mestrado nos Estados Unidos; veio estudar inglês e fazer festa por alguns meses e voltou para a França.

Tem gente que veio só olhar e que: saiu da Suíça para ficar um ano e meio em San Diego com o marido, o qual trabalha em uma empresa americana, mas como ela não consegue emprego na sua área devido ao visto, está ganhando um dinheiro extra como nanny; partiu da Guatemala há dois anos e está morando com uma tia em San Diego, mas não sabe o que fará no futuro; trabalhou durante um tempo no Brasil e resolveu tirar alguns meses sabáticos para surfar na Califórnia; está morando há um mês na casa de uma família e na metade do ano volta para a Espanha; veio do Equador, frequentou a aula durante um mês e nunca mais voltou; deixou a Síria para estudar e trabalhar em San Diego e está decidindo o que fará no próximo ano; veio da Rússia com o marido, tem medo de se relacionar com estranhos e comparece apenas a cada 15 dias na aula.

São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida

“Sentou pra descansar como se fosse sábado. Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe.”

A lendária música “Construção”, de Chico Buarque, foi escrita durante a ditadura militar brasileira. Nela, ele descreve a rotina de um pobre trabalhador da construção civil, um dos setores que mais se expandiu na época. O personagem acaba morrendo durante a execução do seu trabalho mecânico. O jogo de palavras de cada estrofe intriga o ouvinte e incita a reflexão.

Sempre gostei de observar as pessoas. O jornalismo e a pesquisa em comunicação exigem isso. Foi através deles que aprendi a desenvolver técnicas de observação mais apuradas. Inspirada na canção de Chico, vou tentar descrever a rotina de alguns personagens que passaram – ou ainda passam – pela biblioteca durante meu trabalho.

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único

É meio-dia. O sol está forte, mas a brisa marinha acalenta a pele. Os dez carrinhos de livros estão na rua. Dispostos em linhas transversais, exibem seus troféus. Uma placa ao fundo indica que existe uma sala com mais títulos. Uma criança corre. Ela pega o livro mais colorido da sua categoria. Seus olhos brilham a cada página. A mãe chama e ela abandona sua imersão. É hora de partir, mas não sem antes entregar uma moeda para a vendedora. Ela está apaixonada pelo seu novo amigo. Enquanto isso, um senhor se aproxima. Usa camisa social, boné e chinelos. Sua pele morena contrasta com a barba rala e grisalha. Parece conhecer o lugar. Vai direto ao último carro. Revira toda seção de culinária. Dá uma olhadela na oferta de história. Com 10 achados na mão, pede para reservar. Vai embora. Volta depois de meia hora com chá gelado e cookies. Presenteia a voluntária. Despende vários minutos tentando achar o dinheiro para pagar os livros. Sua carteira parece ter mais folhas internas do que muitos dos exemplares expostos. Não aceita o troco. Leva mais cinco minutos organizando suas aquisições na sacola. Conta uma história. Diz que o segredo do avô de 90 anos era o açúcar. Tomava uma xícara de chá com cinco colheres cheias do doce. Parece gostar da ideia e diz que vai seguir por esse caminho. Suas pernas doentes parecem não concordar. Despede-se com um largo sorriso. É o melhor cliente. Ele sabe disso.

E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Ela chega perguntando pelos livros gratuitos. Vai até eles e começa a falar sozinha. Faz bagunça, mas não percebe. Encontra algumas revistas chinesas. Fica contente. Percorre as demais seções. Parece não ter pressa. Sua camisa chama a atenção. Vários macacos estão pulando alegremente na estampa. Ela não está falando sozinha. Traz em uma das mãos um bicho de pelúcia. Também é um macaco. Apresenta ele para a voluntária. Diz que sua companhia irá ficar contente em ler as revistas. Ela não fala chinês, mas parece que seu amigo sim. Vai em direção ao seu carro. Acho que é sua casa. Continua falando com seu companheiro. A noite será animada.

Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música

O final do dia vai se aproximando. Com ele, surge um novo personagem. Ele fala ao telefone, mas observa as novidades em destaque na prateleira principal. Está usando roupa social. O gel no cabelo reflete a cada movimento da sua cabeça. Seu forte perfume espalha-se pelo ambiente. Pergunta pelos novos exemplares da Rolling Stone. Passa vários minutos olhando os CD’s. Começa a falar do seu trabalho. É músico. Parece estar em uma seção de terapia. Não se incomoda com os demais clientes que estão ao seu lado. Quer toda atenção só para si. Por vezes, fala em italiano. Em outras, espanhol. Começa a cantar Garota de Ipanema. Diz que um dia irá ao Brasil. Despede-se cantarolando.

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Está na hora de fechar. Ele aparece como mágica. Estende uma nota de um dólar e desaparece. Não diz uma palavra. Não se deixa reconhecer. No mesmo instante, ela surge irradiando o ambiente. Parece ter mais de 50 anos. Seus cabelos são loiros e seu corpo é magro. Fica absolutamente animada com o que vê. Dedica mais tempo para a seção de autoajuda. Parece ser conhecedora de reflexologia, reiki e cabala. Revira todas as prateleiras. Enche duas caixas. Paga agradecendo. Despede-se abençoando. Os carrinhos são guardados. A porta é fechada. O dia se encerra. O final de semana começa.

“Não me deixe só. Eu tenho medo do escuro. Eu tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha voz.”

Na louca rotina que vivemos, muitas vezes esquecemos de dedicar tempo para nós mesmos. Há quatro meses atrás, confesso que não conseguia organizar o tempo que sobrava do meu dia para fazer coisas para mim. Acabava trabalhando até mais tarde, ou cuidava das coisas da casa, ou ainda estava tão cansada, que só queria chegar em casa, tomar banho e ir dormir. Mal sobrava tempo para ler algumas páginas de um livro, acabava fazendo isto no ônibus (quando conseguia lugar para sentar). Fazia exercícios no máximo duas vezes por semana e minha dieta não era das melhores.

Porém, quando a vida dá para você a chance de ter tempo, você acaba se reencontrando consigo mesmo e reaprendendo a fazer o que já havia esquecido há muito tempo. Não estou falando de ser egoísta e pensar apenas em si, mas sim de hobbies que você tem, que fazem de você uma pessoa mais feliz e melhor. Seja tocar um instrumento, ler, desenhar, pintar (agora várias pessoa voltaram a fazer este grande passa tempo que eu amo após lançarem livros voltados para adultos), cantar, praticar algum esporte, olhar televisão, ou simplesmente não fazer nada. Ou seja, simplesmente passar um tempo consigo mesmo fazendo algo prazeroso.

Não me deixe só
Que o meu destino é raro
Eu não preciso que seja caro
Quero gosto sincero de amor

A música “Não me deixe só”, de Vanessa da Mata, define muito bem meu momento atual. Terei que ficar três semanas totalmente sozinha aqui em San Diego. Para a minha sorte, sete dias já se passaram. Ao mesmo tempo que está sendo difícil conviver com a casa vazia, passei a cuidar mais de mim. Agora, após meu curso, pego minha bike e ando ao menos 10 km. Optei pela bike, pois não gosto de academia e, como não estou trabalhando no momento, não tenho como pagar aulas de Pilates, Yoga ou Ginástica. Além disso, a cidade tem tantos lugares incríveis, tanta natureza e paisagens maravilhosas, que fica muito mais fácil fazer exercícios ao ar livre. Sem contar que existem ciclovias por todos os lados e, quando não têm, placas sinalizam que por aquela rodovia passam ciclistas.

San Diego é uma cidade com muitos ciclistas, pra falar a verdade. Existem diversas lojas de bikes e acessórios, ciclistas profissionais, famílias inteiras que optam por passear de bike aos finais de semana, além de passeios guiados pelos pontos turísticos da cidade, tudo de bike. Você só precisa escolher por quanto tempo está disposto a pedalar.

Além da bike, vejo muitas pessoas por aqui andando de skate, correndo, caminhando ou fazendo ginástica. Sempre lembro do Rio de Janeiro e de todas aquelas pessoas lindas fazendo exercícios ao ar livre, desfrutando da sorte que têm de morar em uma cidade praiana, cheia de inspiração.

Quando chego ao meu destino, paro pelo menos 30 minutos para ler. Estou intercalando leituras em inglês e em português, pois ainda não consegui aderir totalmente só ao inglês. Ler sempre foi uma das minhas paixões e agora estou conseguindo colocar em dia a pilha de livros que eu havia comprado no Brasil, mas não tinha tempo para ler.

Também passei a fazer uma dieta acompanhada por uma nutricionista brasileira e acabo dedicando bastante tempo preparando cada refeição. Além disso, assim como no Brasil, aqui as frutas, verduras e alimentos naturais são mais caros. Por isso, é preciso fazer uma boa pesquisa nos supermercados antes de comprar qualquer item.

Resumindo, estou tentando ter uma vida mais saudável, sem deixar de comer as coisas que eu gosto (como chocolate!), e aproveitando ainda mais a cidade, já que todo dia acabo descobrindo um novo lugar ou tendo uma nova experiência pelo caminho. Após algum tempo, você ganha mais confiança e começa a desbravar a cidade por caminhos que não são tão populares sem ter medo de se perder (e quando isso acontece, uso o Google Maps).

No início, ia sempre para a mesma praia, Ocean Beach, pelo único caminho que conhecia. Depois, descobri que existia uma ciclovia que costeava um rio até chegar na mesma praia. E agora, segui outras rotas propostas pela ciclovia e conheci meu novo lugar favorito: Mission Beach. Para intercalar, por vezes sigo outros caminhos e vou para Pacific Beach ou ainda para o lado oposto à praia. Contudo, pesquisei novas rotas e vou começar a desbravar novos percursos.

Não me deixe só
Que eu saio na capoeira
Sou perigosa, sou macumbeira
Eu sou de paz, eu sou de bem, mas

Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz

Estar sozinha em outro país é algo assustador e, ao mesmo tempo, muito desafiador. Você precisa ser forte para suportar a solidão e corajoso para sair todos os dias de casa sabendo que precisará lidar com diferentes tipos de situações sem ter ninguém conhecido por perto para ajudá-lo. Falar sozinho, rir de si mesmo e, por vezes, sentir medo, é algo totalmente natural. Contudo, você acaba falando muito mais a segunda língua, fazendo ainda mais amigos ou reforçando a amizade com aqueles que já conquistou na nova terra.

Acho incrível como os imigrantes ajudam um ao outro por aqui. Quando a professora me perguntou como tinham sido minhas férias de primavera, respondi que não muito boas, pois meu marido estava viajando e não gostava de ficar sozinha. Depois disso, colegas brasileiros que eu acabo só cumprimentando na aula, vieram oferecer ajuda, caso fosse necessário. Uma senhora inclusive me passou seu telefone, dizendo que eu poderia ligar a qualquer hora. Meu amigo mexicano já me acolheu na sua casa esta semana com uma janta e minha amiga suíça também combinou um encontrinho.

E assim, dia após dia, San Diego está sendo um aprendizado muito maior do que eu esperava. Ao mesmo tempo que traz saudade, traz conhecimento interior, paz, amizade, coragem e muita sabedoria. Que venham os próximos desafios 🙂

“Pois seja o que vier, venha o que vier. Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar.”

Não preciso de uma data comercial para falar de amizades. Tampouco de um assunto importante para iniciar uma conversa com meus amigos. Quando se é amigo de verdade, QUALQUER tópico é motivo para se trocar dezenas de mensagens no WhatshApp, passar vários minutos ao telefone ou de se arrumar uma desculpa para transformar o happy hour em janta, estender a jantar para um bar ou para a casa do amigo, e por lá acabar ficando até o outro dia de manhã. Afinal, é preciso muito tempo para colocar o papo em dia.

Quando eu descobri que partiria do Brasil, a distância dos pessoas que amo foi o que mais me fez sofrer. Por mais que escutava “Você fará novos amigos por lá”, sentia que não seria a mesma coisa. Bom, passaram-se três meses e meio e agora posso dizer que tenho amigos nos EUA. Claro que ainda está longe de ser como no Brasil, mas agora já tenho um começo.

Por mais estranho que pareça, nenhum dos meus novos amigos é americano. Fiz três grandes amizades na aula de inglês: com uma espanhola, com uma suíça e com um mexicano. Além disso, fiz amizade com um casal paulista e um colega de trabalho do meu marido, também paulista. Esse seleto grupo de pessoas maravilhosas faz com que me sinta mais acolhida por aqui. Nossos programas são basicamente ir um na casa do outro, pegar uma piscina, comer, tomar uns drinks, conversar e ir à praia. Por vezes, vamos a algum restaurante ou barzinho, mas é mais raro. O que importa mesmo é estar em um lugar confortável que dê para conversar e dar boas risadas.

Milton Nascimento resumiu o significado de uma amizade verdadeira na “Canção da América”. Amigo chora quando o outro parte. Amigo mora no coração e entende sua alma. Amigo guarda lembranças, chora e sorri com você por perto ou lembrando de você quando está longe. Amigo supera tudo e ajuda você a empurrar todas as pedras que aparecem pelo caminho.

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir

Mas três meses e meio é um tempo grande se você pensar que, quando está vivendo há muitos anos em um mesmo lugar ou trabalhando há muito tempo em uma empresa, todo tipo de relacionamento acontece de forma mais fácil e natural. Não é preciso meses de convívio para iniciar uma amizade.

Pode ser que seja uma sensação minha, mas enquanto ainda se está construindo o sentimento de pertença a um lugar, você fica mais desconfiando de tudo e leva mais tempo para abrir seus sentimentos e falar abertamente dos seus problemas. Os primeiros encontros com os outros são sempre mais superficiais. Demora um tempo até você falar dos seus medos, das suas preocupações, dos perrengues pelos quais passou, das suas manias e das dúvidas que você tem sobre os próximos passos.

Além disso, também acredito que os brasileiros são muito mais abertos para relacionamentos. Confesso que é difícil fazer amizade com americanos, por exemplo. Para começar, eles demoram semanas até encostar em você. Essa história de dar dois beijinhos quando você conhece a pessoa, não acontece aqui. Eles também são mais individualistas. Sinto que nós brasileiros temos mais esta necessidade de ter os outros por perto sempre, de mandar mensagens, e-mails, dar presentes, ligar. Enfim, de acolher o amigo como se fosse parte da nossa família e mostrar o quanto você realmente se importa com eles. Um amigo brasileiro que namorou uma americana, disse que sentia o mesmo individualismo com ela. Então, se com o namorado existe isso, imagina com um amigo.

Mas cada cultura tem suas características e seu histórico. Sabemos que os adolescentes americanos saem de casa assim que se formam no Ensino Médio e que precisam aprender a se virar sozinhos muito cedo. Tudo isso faz com que eles sejam mais individualistas e façam as coisas por si mesmos, sem precisar contar muito com os demais. Acredito que também deve ser por isso que acabam consumindo tantos livros de autoajuda (e isto eu posso comprovar, pois vejo na biblioteca a absurda quantidade de “self-help” que são vendidos). Os americanos preferem resolver sozinhos os problemas.

Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

E é aí que entra a importância de nunca deixar seus amigos “de raiz”. O contato com meus melhores amigos do Brasil faz com que eu me sinta mais segura. Na última semana acompanhei à distância a superação de grandes desafios de dois dos meus melhores amigos. Por mais que tenha o delay do fuso, estava ali, sentindo eles perto de mim, sofrendo junto com os seus problemas e vibrando com as conquistas.

Meus amigos são o meu suporte, a família que eu tive o privilégio de escolher para fazer parte da minha vida. Aqueles que eu sei que posso apenas olhar no olho para saber se estão bem ou mal. Aqueles que eu sei quais são seus medos, seus sonhos, suas dores, suas crises e suas crenças. Aqueles que apontam o dedo na minha cara quando eu estou errada e que choram junto comigo quando estou desesperada. Ou que caem no chão de tanto rir comigo com uma piada que só nós achamos engraçada ou por lembrar de uma experiência idiota que tivemos juntos.

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam “não”
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Em cada fase da nossa vida ganhamos novos amigos. Por vezes, conhecemos um amigo na infância e vivemos até os últimos dias de nossas vidas ao lado deles. Por vezes, as circunstâncias os levam para longe e acabam nos afastando, mesmo que você more a uma quadra da casa dele. Outras vezes, a distância não é motivo para afastamento, pelo contrário, ela fortalece a união.

Acredito que ninguém consegue ser feliz sozinho. Claro que você consegue ter uma boa vida se estiver bem consigo mesmo. Mas de que adianta ter grandes feitos e se não pode compartilhar com ninguém? De que adianta ter uma boa casa se ela não pode receber pessoas do bem para espalhar sorrisos pelos cômodos? De que adianta ter dinheiro se ele não compra amor verdadeiro? Amigo de verdade gosta de você pelo que você é por dentro.

E é por isso que eu digo, meus amigos, que ainda vamos nos encontrar. Pode ser que leve meses ou até anos, mas eu amo muito vocês e não tem um dia em que não envie boas energias para a sua jornada. Seja no Brasil ou em San Diego, ainda vamos nos ver e passar horas conversando sobre a teoria de tudo.

Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar