“Ô pacato cidadão, te chamei a atenção não foi à toa, não”

É fato que trabalho é trabalho em qualquer lugar do mundo. Contudo, cada país tem suas prórpias leis e regras que devem ser respeitadas e seguidas.

Nos Estados Unidos, a United States Labor Law regula os direitos e deveres dos empregados e uniões, porém existem leis trabalhistas específicas para cada estado, assim como salários, taxas e regras de trânsito, por exemplo. Por isso, antes de procurar emprego, sempre é bom saber quais são os seus direitos e deveres naquele lugar específico.

E tracei a vida inteira planos tão incríveis
Tramo à luz do sol
Apoiado em poesia e em tecnologia
Agora à luz do sol

A maioria dos pontos que vou citar aqui, eu vivenciei na época que trabalhava na loja. Como ela pertence a uma rede grande e possui milhares de funcionários em todo país, eu via muitos desses casos acontecendo com os meus colegas diariamente.

  • O valor mínimo pago por hora de trabalho na Califórnia é $10. Geralmente, esse é o valor pago pela maioria dos estabelecimentos comerciais. Funcionários de bares e restaurantes podem receber um valor por hora menor, pois ganham 20% em gorgeta, mas alguns lugares pagam o valor mínimo de $10 + gorgetas. Para cada profissão também existe uma média de valor anual (aqui nos EUA o salário sempre é dito em valor anual e não mensal como no Brasil) e é importante fazer esta pesquisa antes de aceitar qualquer proposta.
  • Não existe 13o salário. Porém, muitas empresas (especialmente as grandes) fazem avaliação do funcionário no final do ano e, se ele se destacou e atingiu as metas estabelecidas, pode ganhar bônus e aumento de salário.
  • Muitas empresas pagam os funcionários a cada 15 dias. Funcionários de bares e restaurantes costumam receber semanalmente.
  • A licença maternidade não é remunerada e a mulher pode ficar afastada até 12 semanas. Já soube de casos em que as mães optaram por voltar antes desse tempo, porque precisavam do dinheiro e também porque tinham medo de perder o seu cargo.
  • Cada empresa também define o número de dias que o funcionário pode se ausentar por motivos de doença, o chamado “call sick”. Claro que, se a doença for grave, aí entram outras leis, mas se passar dos dias acordados, o funcionário fica sem receber durante o período que estiver ausente. De forma geral, você tem tantos dias por ano (na maioria das empresas são 8 dias por ano no primeiro ano de trabalho e depois vai aumentando) para ficar doente e não ter desconto no salário.
  • Cada empresa determina quantos dias de férias os seus funcionários terão direito. Esse tempo pode variar de 10 a 20 dias após um ano de trabalho. Empresas maiores podem usar a seguinte regra: a cada ano completado na empresa, o funcionário passa a ganhar 1 dia a mais de férias por ano. As férias podem ou não ser pagas e isso é definido no acordo que o funcionário fez com a empresa.
  • Nos Estados Unidos não existem tantos feriados como no Brasil e os americanos não dão muita importância pra eles. Por isso, é bem comum as pessoas trabalharem durante os feriados e isso significa ganhar a mesma coisa do que nos outros dias. Os feriados em que as pessoas realmente param são o Dia da Independência, Acão de Graças e Natal.
  • As taxas mensais descontadas do salário são de 6.2%, que é retido para o Social Security (aposentadoria), e 1.45%, que vai para o Medicare (saúde). O valor descontado do imposto de renda depede do valor que você ganha, quantos dependentes tem, estado civil, possíveis deduções, isenções e créditos.
  • O total de horas semanais trabalhadas varia conforme a área, pois é possível fazer meio turno de 20h ou turno integral de 40h. O pagamento das horas extras também depende da empresa, que escolhe se vai ser em dinheiro ou folga. Diferente do Brasil, aqui não existe adicional por trabalho realizado durante o final de semana. Ou seja, se você trabalha sábado e domingo, continua ganhando o valor hora acordado por hora e ponto. Porém, quando o empregado trabalha mais que as horas do seu turno parcial ou integral, a empresa precisa pagar 1.5 vezes o valor da hora do empregado.
  • O horário de almoço varia entre 30 minutos e 1 hora, e os intervalos de 15 minutos geralmente acontecem a cada 4 horas de trabalho (era assim na loja). Na empresa onde trabalho agora, o almoço tem duração de 30 minutos e a cada hora eu tenho direto a alguns minutos de pausa. No fim, o que acaba acontecendo na maioria dos escritórios, é que as pessoas levam sua própria comida para não perderem tempo de locomoção até um restaurante. Eu levo todos os dias o meu almoço, pois não tenho muitas opções de restaurantes ao redor da empresa. Ou seja, marmita é algo comum por aqui e ninguém tem vergonha de tirar seu pote da bolsa e colocar na geladeira/microondas. Mas almoçar na frente do computador significa para todos os seus colegas que você está trabalhando. Então, não estranhe se eles vierem falar de trabalho enquanto você está comendo. Já tive que esquentar a marmita várias vezes por causa disso 😉
  • Aqui, não existe recisão como no Brasil. Se você sai da empresa por vontade própria, irá receber o que está sendo devido de horas trabalhadas e era isso. Mas você deve avisar sobre a sua saída com pelo menos duas semanas de antecedência, assim a empresa consegue achar outra pessoa ou realocar alguém para cobrir o seu lugar. É tipo um acordo de cavalheiros. Alguns estados adotam o sistema empregatício “at will”, onde empregadores podem demitir sem justa causa e sem necessidade de aviso prévio. Em caso de demissão em massa (mais de 50 empregados), as leis empregatícias exigem que o anúncio seja dado com 60 dias de antecedência e os empregados devem ser pagos no próximo dia de pagamento seguinte à data oficial da demissão.

Pacato cidadão
Ô pacato da civilização
Pacato cidadão
Ô pacato da civilização

No início, a gente acha que não tem direito nenhum, mas depois se dá conta que nem o empregado e nem o empregador pagam tantos impostos, e que a flexibilidade das regras permite com que a relação entre ambas as partes seja muito melhor. Eu não sou especialista em leis trabalhistas. Por isso, se você tem dúvidas, vale dar uma pesquisada na internet ou falar com um advogado 😉

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“Sem trabalho eu não sou nada. Não tenho dignidade. Não sinto o meu valor. Não tenho identidade”

Depois de um ano e quatro meses morando em San Diego, finalmente, posso dizer: consegui um emprego na minha área! Mas para chegar até aqui foram muitos os passos dados, dezenas de tentativas e vários momentos de frustração. Ao mesmo tempo, foi um período de intenso aprendizado, autoconhecimento e determinação.

Algumas pessoas que acompanham o blog conhecem um pouco da minha saga, então vou tentar resumir o processo todo em um parágrafo. Levei seis meses para ter em mãos a permissão de trabalho (concedida para vistos específicos), um mês e meio para conseguir emprego na parte de serviços (que é o forte de San Diego) e oito meses para conquistar um emprego na minha área.

Confesso que durante os dois primeiros meses que eu entrei na loja, dei um tempo para as buscas, pois queria me focar no novo trabalho, lidar com a nova rotina e aprender todos os processos da empresa para conseguir manter o meu cargo e o meu salário. Depois do período de adaptação, voltei aos meus objetivos pessoais.

Muita gente tem a ilusão de que com a permissão de trabalho tudo é muito mais fácil, mas não é bem assim. O documento abre mais portas para você conseguir emprego na parte de serviços, com toda certeza, porém para vagas especializadas, é tão difícil quanto. Além disso, o documento não interfere no salário. O valor mínimo pago na Califórnia é $10 por hora e esse é o padrão da maioria das lojas, supermercados, bares, restaurantes e serviços em geral. Quem trabalha em restaurante ou bar consegue ganhar mais, pois recebe gorjetas. Quem é babá geralmente consegue fazer entre $12 e $15 por hora.

Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade

Então, se você vem de um histórico no Brasil com um bom cargo, salário, férias e todas as regalias das leis trabalhistas, pode começar a praticar o desapego e a paciência, caso você venha sem emprego na sua área previamente acertado por aqui.

Quero alertar que este não é um post para desanimar ninguém, muito pelo contrário. Quero é mostrar a realidade americana e a importância de se planejar e ter persistência. O sonho de morar em outro país e fazer dinheiro é algo que exige muito empenho. O mundo todo passa por uma crise, então realmente não está fácil conseguir emprego, agora imagine para quem não tem documentos.

Acredito seja mais fácil conseguir emprego em outros estados americanos ou países não tão turísticos, contudo a Califórnia recebe todos os anos milhares de imigrantes do mundo todo que estão tentando, assim como nós, uma vida melhor e isso faz com que a disputa por um cargo seja maior e, consequentemente, o valor por hora baixe. Sei de pessoas que trabalham com “bicos” por aqui e recebem muito menos dinheiro hoje do que há 5 anos atrás. Ser babá por aqui pagava muito bem tempos atrás. Hoje, vejo anúncio oferecendo $10, $12 e, em poucos casos, $15 a hora. E ainda tem gente que trabalha por menos, porque realmente precisa.

Ainda considero os EUA como um lugar cheio de oportunidades, mas aqui, assim como em qualquer lugar do mundo, você precisa ter referências, experiência, inglês fluente (isso varia de acordo com a função), carro próprio (varia também) e provar que é dedicado, comprometido e bom naquilo que faz para conquistar a confiança.

Eu tenho o meu ofício
Tem gente que não tem nada
E outros que tem mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar

Os americanos são bem exigentes em termos de pontualidade, produtividade e rapidez. E, como isso é cultural, eles sempre desconfiam de quem vem de outros países, outras culturas, pois muitas vezes não sabem como é a cobrança e a entrega do trabalho por lá. Por sorte, viemos de um país onde a maioria das pessoas trabalha muito, então pra nós é normal já chegar, fazer acontecer e entregar mais que o esperado. Por isso, o brasileiro, na maioria das vezes, tem um crédito grande por aqui.

Eu tentei indicação (obrigada ao sócios da W3Haus por serem tão queridos e continuarem ajudando os ex-funcionários com tanto carinho e empenho) e consegui uma entrevista. Infelizmente, não deu e eu não consegui descobrir o motivo para poder melhorar nas próximas oportunidades.

Depois disso, só consegui fazer mais uma entrevista presencial em um cargo próximo à área, mas como era muito técnico e eu não sou formada em Análise de Sistemas, não deu também. Daí em diante fiz mais uma entrevista por telefone para um cargo semelhante e não consegui mais nada.

Dedicada de uma a duas tardes ou manhãs por semana, dependendo do meu horário na loja, para enviar currículos. Foram quase duzentas tentativas. Fui em duas agências de emprego pra ver se conseguia ajuda ( e aqui agradeço de coração aos sócios da Brivia e da 3yz pelo envio de referências, vocês continuam fazendo a diferença na minha carreira e na minha vida <3). Porém, até hoje não recebi uma vaga deles.

Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
De todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar

Quando as minhas alternativas já estavam se esgotando e eu estava até pensando em começar a procurar emprego em outras cidades e, com isso, ter que me mudar, apareceu uma vaga em um dos sites que eu sempre buscava. Apliquei, fui chamada para uma entrevista, depois para uma segunda e então veio a tão sonhada resposta: sim, você está contratada!

Passado quase um mês, ainda não acredito que é verdade. Nas duas primeiras semanas, achei melhor não contar pra quase ninguém (vai saber se ia dar certo). Hoje, digo com todo orgulho que consegui e, por mais que pensasse em desistir em alguns momentos, eu continuei.

Acredito muito que quem faz o bem, recebe o bem, e uma hora ou outra chega a sua vez de brilhar na vida. Eu só não sabia que demorava tanto! Mas a Califórnia tem me ajudado todos os dias a aprender o significado de PACIÊNCIA e PERSEVERANÇA.

Obs.: vou contar mais detalhes sobre o processo de busca por emprego por aqui na página da Família nos Estados Unidos. Curtam lá 😉

“Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo. Quem acredita sempre alcança.”

Lembro que a letra de “Mais uma vez”, do Legião Urbana, foi a escolhida para fazer parte da epígrafe do meu TCC. Naquele momento, ela fez todo o sentido ao ilustrar o fechamento de um ciclo. Hoje, ao escutá-la, ela também conseguiu dar significado para o meu recomeço.

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem

Após a publicação do último post, recebi várias mensagens de apoio e também relatos de amigos que passaram ou estão passando pela difícil tarefa de recomeçar sua carreira em outro país. Muitos disseram para eu manter a calma e acreditar que um dia as coisas vão acontecer.

Sim, eu acredito. Desistir nunca foi uma opção. Mas o ponto que quero esclarecer melhor, é o misto de esforço e sentimento que estão envolvidos na tarefa de reconstruir. Faz um mês que estou na busca de um emprego, pois foi uma opção minha não começar antes. Primeiro, porque queria estudar inglês, fazer trabalho voluntário e me sentir mais confiante ao tentar algo na minha área. Segundo, porque não quis aceitar trabalhar ilegalmente em um restaurante ou como babá. Muitos imigrantes por aqui não possuem outra opção, já que precisam pagar as contas, e dedicam grande parte do seu dia, finais de semana e feriados para a primeira oportunidade que aparece. Tenho muita sorte de ter um marido que pode nos manter enquanto eu me qualifico. Ao mesmo tempo, como tenho permissão de trabalho, tenho mais oportunidades para encontrar vagas na área de prestação de serviços, por exemplo.

Porém, outro ponto que dificulta a recolocação, é a falta de conhecidos que possam indicar você. Aqui fica muito mais difícil contar com amigos que possuem contatos em empresas que você gostaria de trabalhar. No Brasil, depois do meu primeiro estágio, não precisei mais sair enviando currículo e fazendo mil entrevistas, as oportunidades surgiam e eu sempre tinha algum contato que podia me indicar. Agora, é preciso recomeçar o ciclo de contatos, é preciso dedicar tempo para criar um novo networking.

Por isso, enquanto sigo na luta por conseguir algum voluntariado, estágio ou emprego em uma agência digital, também estou aplicando para vagas de vendedora em lojas. Como agora já estamos próximos do final do ano, surgem várias vagas temporárias. E foi em uma dessas oportunidades que uma estrela brilhou e eu consegui um trabalho temporário em uma loja. Semana passada fiz meu treinamento e devo começar na próxima semana!!!

Estou muito feliz por ter essa oportunidade, mesmo não sendo na minha área, pois agora vou poder contar com a indicação de um empregador americano, vou entender como funciona o sistema de trabalho por aqui, além de estar o dia todo falando inglês. Contudo, não desisti de achar o recomeço na minha profissão. Continuo pesquisando vagas, enviando currículos e fazendo contatos.

Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar

Recomeçar em outra área é algo muito enriquecedor. Tenho certeza que vou aprender muito e estou extremamente agradecida por isso. Ao mesmo tempo, já escutei algumas pessoas julgando o fato de que é inaceitável estudar durante tanto tempo para ser vendedora, garçonete, babá. Tenho uma amiga aqui com Doutorado em Psicologia que é nanny, outra que é Nutricionista e trabalha em um parque de diversões. E qual o problema nisso? O problema é que muitos de nós encara o emprego como sinônimo de status e pensa que todos os prestadores de serviços são classificados como uma categoria mais baixa da sociedade. É realmente revoltante estar em 2015 e ter que lidar com mais esse preconceito. Mais revoltante ainda é entender que esse pensamento é cultural, está enraizando na nossa sociedade e nos é ensinado desde que somos crianças. O que posso dizer é  que o prestador de serviço aqui nos Estados Unidos recebe por hora e, principalmente garçons/garçonetes, ganham mais por mês do que muita gente com cargo de gerente no Brasil.

Claro que é difícil dar passos para trás depois de estudar tanto e trabalhar mais ainda. É complicado saber que você vai ganhar bem menos no final do mês e que vai levar um bom tempo até chegar ao salário que você tinha quando deixou sua carreira no seu país de origem. Mas você optou por isso e agora precisa encarar as consequências. Não é vergonhoso trabalhar em outro lugar, todo trabalho é digno. Porém, infelizmente, lá no fundo, temos aquela cobrança de que poderia ser diferente. Nesse ponto, recomendo um texto maravilhoso indicado pela minha melhor amiga: A Alemanha e o trabalho. Vender colchão. Por que não? Uma das passagens que mais me marcou no texto foi: “Trabalho é só trabalho. Não tem nada a ver com status, com quem você é, não diz tanto sobre você. Tento repetir isso para mim milhões de vezes até tentar me convencer.” 

Para quem não acredita ou imagina que o preconceito com prestadores de serviço no Brasil é algo raro, recomendo esta outra leitura: Por que comemos embaixo da escada?.

Tem gente enganando a gente
Veja a nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!

A semana que passou me ensinou que mais difícil que recomeçar é mostrar para si mesmo que será preciso descer alguns degraus, deixar o orgulho de lado e encarar os comentários nem sempre positivos. “Trabalho é só trabalho” e nada mal recomeçar em um lugar tão maravilhoso quanto a California. Por aqui, o trabalhador pode iniciar ou terminar o dia surfando, voltar para casa a pé de noite sem ter medo de ser assaltado ou morto no caminho. Por aqui, o trabalhador é respeitado pelo simples fato de estar ganhando sua vida honestamente, seja qual for a sua profissão.

Confiar em si mesmo é o primeiro passo para qualquer processo de mudança. Toda dificuldade é temporária, você só precisa acreditar e batalhar para que as coisas aconteçam. Uma hora o sol vai brilhar no seu caminho, esteja você na Califórnia, em Dublin, em Berlim, em Abu Dhabi, em Sydney, em Shanghai, ou em qualquer lugar do mundo que você escolheu recomeçar. Você já é um vencedor pelo simples fato de ter tido a coragem de mudar.

“Garota, eu vou pra Califórnia. Viver a vida sobre as ondas. Vou ser artista de cinema. O meu destino é ser star”

Três meses e meio passaram-se desde o último post. Um longo intervalo para quem tinha se comprometido a escrever semanalmente suas experiências. Mas a vida é imprevisível e acabamos nos perdendo no turbilhão de atividades diárias e descontinuando aquilo que seria uma prioridade.

Foram tantas coisas que aconteceram nesse tempo, que serão necessários vários posts para colocar as experiências em dia. Pensei muito no post de “retomada”, porém, antes de falar sobre as três semanas que passei no Brasil, as novas trips feitas, as visitas recebidas e os novos cursos, vou falar de algo que tem ocupado boa parte do meu tempo e tem sido meu grande objetivo atual: conseguir um emprego. Acredito também que este tópico pode ajudar muitas pessoas que estão na mesma situação.

Eu dou a volta, pulo o muro
Mergulho no escuro
Sarto de banda
Na Califórnia é diferente, irmão
É muito mais do que um sonho

Sim, a Califórnia é um sonho de lugar, contudo nenhum recomeço é simples, ainda mais quando se trata de se recolocar no mercado de trabalho em outro país. Desde que voltei do Brasil, há um mês, tenho procurado um emprego na minha área. Antes da viagem, já deixei meu currículo e minha carta de apresentação prontos e validados pelo conselheiro da escola de inglês.

Aqui, todo tipo de informação pessoal é proibida de ser passada para o empregador, tanto no currículo, quanto na entrevista. Claro que existem meios do recrutador conseguir algumas informações pessoais suas, mas é algo que cabe muito mais ao entrevistado se sentir a vontade para falar enquanto se apresenta. Um site que me ajudou muito a criar o currículo e a carta foi o da escola de inglês, o qual possui vários modelos para fazer download.

A primeira coisa que fiz após ter o currículo pronto foi criar um perfil em inglês no LinkedIn. Depois, comecei a procura pelo ponto mais óbvio: Google. Listei todas as agências digitais da cidade e entrei nos seus respectivos sites verificando se havia vaga na minha área. As que tinham, entrava em contato. Como não obtive retorno de nenhuma (a não ser um e-mail automático de retorno), comecei a enviar meu currículo também para as agências que não possuíam vagas abertas. Paralelo a isso, me cadastrei em alguns sites como Monster, IndeedSimply Hired, entre outros, para procurar e receber news de vagas não só de agências, mas também de empresas privadas.

A vida passa lentamente
E a gente vai tão de repente
Tão de repente que não sente
Saudades do que já passou

Eu dou a volta, pulo o muro
Mergulho no escuro
Sarto de banda
Na minha vida ninguém manda não
Eu vou além desse sonho

É tanta coisa nova todos os dias acontecendo por aqui que realmente às vezes fica difícil sentir saudades do que passou desde que chegamos. Cada passo é um mergulho no escuro. E a coragem? Desde que comecei esta jornada de retorno a minha carreira, acabei desviando do meu caminho e enviando alguns currículos para trabalhar no comércio. Por mais que não seja minha área, é uma experiência que pode agregar conhecimento, experiência e, claro, dinheiro enquanto não consigo o meu emprego dos sonhos. Aproveitei que agora algumas empresas estão com vagas temporárias para as grandes festas de final de ano (Dia de Ação de Graças e Natal) e tentei arriscar. Acabei conseguindo duas entrevistas.

Em uma das entrevistas o processo foi feito em grupo. Imagina você sendo entrevistado em outro idioma, com outros três “concorrentes”, sendo o único estrangeiro e sem experiência nenhuma no varejo? O medo bateu logo que cheguei. Respirei fundo antes de entrar na sala e resolvi confiar no meu taco. Pensei “Mais que um não eu não recebo”e “Já ganhei pontos só por ter sido chamada e estar aqui”.

Assim como o currículo é diferente, as entrevistas também são. O foco aqui é totalmente profissional, sem perguntas pessoais, e o recrutador testa sua experiência através de perguntas em que você deve dizer o que faria se acontecesse uma situação x na empresa. Ou quando você fala das suas características, ele pede para citar exemplos disso no seu último trabalho. Na escola recebemos uma lista de perguntas padrões para nos preparamos antes de uma entrevista. Seguem abaixo:

“Please tell me about yourself”: aqui não é pra falar da sua vida pessoal, mas sim para se vender, dizer no que você é bom, quais são suas principais características e descrever resumidamente as funções exercidas nos últimos anos.

“Where do you see yourself in five years?”: dizer qual o cargo que quer alcançar na empresa, mas não esquecer de falar que é através do cargo que você está se candidatando que vai conseguir a experiência necessária para chegar no seu objetivo final.

“Why do you want to work here?”: uma das principais perguntas feitas por aqui. Por isso, é importante dar uma boa pesquisada sobre a empresa antes da entrevista e ter os dados na ponta da língua, mostrando o seu conhecimento sobre ela.

“What are your weaknesses?”: quando for falar de um ponto fraco, já diga o que está fazendo para melhorá-lo. No meu caso, falo do inglês, que ainda não é perfeito, mas que continuo fazendo aulas todos os dias para aprimorar.

“Do you have any questions for me?”: aqui você sempre tem que ter pelo menos umas duas perguntas prontas para fazer e elas não podem ser sobre benefícios e valores, mas sim sobre a rotina de trabalho, quais são os próximos passos do processo, quais as oportunidades de crescimento, etc. Seguem algumas sugestões: “Does this job usually lead to other positions?”, “What are the opportunities for advancement?”, “How would you describe a typical day for this position?”, “How are employees evaluated in your company?”, “If I were offered a job, how soon would you like me to begin?”, “What is the next step in the interview process?”.

Outras perguntas que podem surgir: “Tell me about a difficult situation you had to handle”, “How would your peers or co-workers describe you?”,  “What are your strengths?”, “How are your English skills?”, “Are you available to work nights and weekends?”.

Garota, eu vou pra Califórnia
Viver a vida sobre as ondas
Vou ser artista de cinema
O meu destino é ser star

O saldo final até agora para a minha área foi só uma entrevista por telefone. Assim como no Brasil, tudo é muito mais fácil quando se tem um amigo ou conhecido que possa recomendar você para a vaga. Por isso, o processo de entrar em contato por conta própria com as empresas é muito mais lento.

Nesse meio tempo, acabei participando de um evento de Project Manager na escola onde faço o curso na mesma temática para fazer alguns contatos. Paralelo a isso, tenho feito alguns amigos nos cursos de marketing. Quando as pessoas são da minha área ou possuem uma rede grande de contatos, pergunto se posso adicioná-las no LinkedIn. No LinkedIn também estou buscando profissionais de RH da minha área e enviando e-mail me apresentando e perguntando se eles sabem de alguma vaga que se encaixe no meu perfil.

Sei que a descrição do processo parece simples, mas não é. Alguns sites pedem para você fazer um cadastro completo (que incluiu toda sua experiência profissional, educação, cursos, 90 perguntas de múltipla escolha sobre situações que podem acontecer no dia a dia da empresa, etc.) e você acaba perdendo uma hora só para se candidatar a uma vaga. E, para cada e-mail enviado, é preciso mudar algumas características do currículo e reescrever a carta de apresentação. O processo é lento e exige muita paciência.

Já bateu o pensamento de que é meio frustrante dar vários passos atrás para recomeçar. De cada 20 currículos que você envia, somente um dá retorno. Às vezes, nenhum. Você até tem chance sim de ser star na Califórnia, mas precisa lutar muito para ter seu lugar de destaque ao sol. Ninguém disse que seria tão difícil recomeçar. Porém, também ninguém falou que seria possível fazer melhor quando se tem uma segunda chance, e que nunca é tarde pra aprender a ser mais humilde e otimista.

“Valeu a pena. Êh! Êh! Sou pescador de ilusões.”

Morar em outro país exige que você faça planos. Sim, a palavra exigir é forte, mas você precisa planejar seu futuro para não cair no esquecimento e na necessidade. Nas últimas semanas, estamos discutindo em aula o tema plano de carreira americano e uma coisa ficou nítida: por mais que você tivesse uma boa colocação no seu emprego anterior e experiência para pôr no currículo, ou seja, fosse alguém na sua área em seu país; ou tenha estudado longos anos, fale mais de um idioma e tenha feitos vários cursos; se você está aqui aprendendo inglês e tentando uma oportunidade de trabalho (ou seja, não tenha sido transferido da sua empresa do Brasil para cá ou não tenha chegado já com um emprego garantido), você não é ninguém. Na verdade você é só mais um na multidão de imigrantes.

Essa constatação é um soco no estômago – e no ego. No início, você fica pensando em looping e é difícil não desanimar. Por exemplo, tenho uma amiga brasileira que está cursando MBA aqui (ela tinha uma boa carreira no Brasil) e como proposta curricular precisa fazer x horas de estágio em uma empresa americana. Porém, no estágio é delegado para ela atividades extremamente simples, que estão muito abaixo das suas qualificações. Atividades essas que deveriam ser dadas para quem está iniciando na área e não para quem já tem longos anos de experiência. Ela está sofrendo com isso, assim como seus colegas. O problema não é ser estagiário, afinal quem nunca foi? O problema é ter mais de 30 anos e ter que começar do zero.

Mas não importa. Quando você muda para os EUA e não tem suporte de uma empresa, você precisa entender que a corrida está apenas começando. Claro que sua carga de experiência é importante, porém ela só vai valer realmente depois de longos meses em uma empresa, quando o seu chefe tiver confiança em você e conseguir ver o seu trabalho dando resultados.

Aqui sou apenas uma estudante de inglês e uma voluntária. Ponto. E todos os anos da Graduação e da Pós-Graduação? E os Cursos Complementares? E o vários anos de experiência de trabalho? Tudo isso ficou no Brasil. É hora de virar a página e começar uma nova história.

O sonho americano não é tão lindo assim se você realmente quer continuar a ter uma carreira. Conheço várias pessoas que são formadas na faculdade e executavam cargos importantes no seu país, contudo aqui são garçons/garçonetes e babás. E para quem não tem Graduação, que é o básico, o cenário é ainda pior. É necessário trabalhar em dois ou três empregos para conseguir se sustentar e garantir o valor mínimo por hora na Califónia, que é de $9. Vale lembrar que San Diego não é uma cidade barata. Mesmo assim, o valor do aluguel e da alimentação ainda saem mais em conta se comparados com San Francisco ou Los Angles. New York está em outro patamar, não cabe nem comparar o custo de vida por lá ( é como querer comparar Porto Alegre com Rio de Janeiro).

Se meus joelhos
Não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé
Que me traga fé

Se por alguns
Segundos eu observar
E só observar
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol

Aí você começa a questionar o quanto vale a pena para essas pessoas saírem do seu país para tentar uma nova vida, se elas não conseguem desfrutar das belezas que San Diego tem para oferecer. E você começa a se perguntar: o que eu estou fazendo aqui? Mas aí você precisa pensar que a cultura, a situação econômica, a violência e a educação têm um impacto gigantesco para o futuro das pessoas, ainda mais quando elas têm filhos. Escutar e tentar entender a história de vida de quem o rodeia faz com que você amplie seu campo de visão e comece a agradecer mais por tudo que tem.

Tenho colegas com realidades bem difíceis por aqui. Prefiro não citar seus nomes ou seus países de origem para preservá-los, só posso dizer que não são brasileiros.

Uma colega largou seu emprego e vendeu sua casa no seu país, o único bem que tinha, para dar ao seu filho adolescente a chance de ter um futuro melhor que o seu aqui nos EUA. Como em seu país a violência está aumentando cada vez mais e o número de empregos só baixa, ela temia por seu filho, ainda mais sendo mãe solteira e não tendo outra fonte de renda. Aqui, ele está terminando o Ensino Médio e no próximo ano inicia a faculdade. Já fez amigos, está aprendendo uma segunda língua e, principalmente, está em um lugar seguro. Enquanto isso, ela está estudando inglês para conseguir um emprego, pois as suas economias acabarão e ela precisa continuar sustentando o futuro de sua família.

Além disso, uma outra colega vive aqui há anos, mas só tem o Ensino Médio. Ela trabalha em dois restaurantes todos os dias, tem apenas uma folga por semana e ganha o suficiente para viver, mas não o bastante para aproveitar. Porém, um colega na mesma situação, está finalizando o curso de inglês e no próximo mês irá começar a faculdade. Ele tem mais de 30 anos, nenhum final de semana livre, dois filhos e o sonho de ser educador físico.

Somado aos problemas de colocação no mercado de trabalho, também tenho colegas que possuem tempo para estudar, uma condição de vida boa, porém sua religião não permite que desfrutem do tempo livre. Por exemplo, uma colega mora aqui há dois anos com seu marido e um de seus irmãos e, paralelo ao curso de inglês, faz um curso técnico em informática. Seu objetivo é conseguir um emprego em San Diego. Até aí tudo bem, mas ela não aproveita nada da cidade. Ela não dirige e nem sabe andar de bicicleta por puro medo. Tampouco sai para passear sozinha, pois ela só pode sair para a rua acompanhada de um familiar ou do seu marido.

Enfim, dificuldades à parte, o importante é não deixar se abater pelo desânimo. Penso no seguinte: já que devo começar do zero, então vou organizar minha trajetória para que ela seja certeira e traga o retorno esperado. Agora, já não tenho mais todas aquelas dúvidas do que quero ser ou fazer como quando tinha aos 17 anos. Já consigo decidir com clareza minhas expectativas. Isso não significa que eu não vá escolher outro rumo quando for mais velha, mas por enquanto preciso ter foco no presente, na atual situação que estou encarando.

Ainda assim estarei
Pronto pra comemorar
Se eu me tornar
Menos faminto
E curioso
Curioso

O mar escuro
Trará o medo
Lado a lado
Com os corais
Mais coloridos

Como diz a música Pescador de Ilusões do Rappa, quando você se torna menos faminto e mais curioso para descobrir o mundo e a si próprio, mesmo que o medo apareça de um lado (e tenha certeza de que ele estará lá), do outro você terá a visão dos mais lindos corais. Esses corais são sua família, seus amigos, sua fé.

Contudo, só falar não adianta, é preciso fazer. Por isso, o primeiro passo é criar um plano para chegar até o seu grande objetivo de vida. Vale lembra que não precisa ser um adulto para fazer isso, você pode ser um adolescente, um jovem ou estar na melhor idade.

Segue o esquema que estamos trabalhando na aula e que acredito que é um bom começo para qualquer pessoa:

My long-term goal is:…….

1. First, I need to:….
2. Then, I need to:…
3. Next, I need to:…
4. After that, I need to:….
5. Finally, I will reach my long-term goal of:…..

Ainda não vou compartilhar minhas respostas, pois estou construindo os steps em aula, mas o primeiro passo já foi dado: estudar inglês. Os próximos passos serão uma consequência. Será fácil? Não. Será rápido? Não. Vai exigir paciência. Sim (e muita!). Vou desanimar em algum momento? Sim. Vou desistir? Jamais!

Uma característica muito interessante dos EUA é que aqui existem escolas públicas que são muito boas. Por exemplo, eu faço inglês na San Diego Continuing Education totalmente free. Além do curso de inglês como segundo idioma, a escola oferece alguns cursos profissionalizantes, também gratuitos, como moda e nutrição.

Existem muitos outros cursos totalmente sem custos, ou que você precisa pagar apenas o material didático ou ainda que são bem mais baratos que uma escola regular. Para conhecer todas as oportunidades da instituição San Diego Community College District, basta acessar http://sdccd.edu/.

Você também pode participar de trabalhos voluntários para melhorar seu novo idioma e aumentar sua rede de contatos. No LinkedIn é fácil de encontrar oportunidades em qualquer cidade, basta usar os filtros do próprio site. Ou você ainda pode buscar por um voluntariado em diferentes cidades dos EUA neste site http://www.volunteermatch.org/.

Se eu ousar catar
Na superfície
De qualquer manhã
As palavras
De um livro
Sem final, sem final
Sem final, sem final
Final

Nenhuma jornada é fácil. Você colocará muitas vezes seu anzol na água, irá esperar por horas e será enganado, iludido pelo peixe. Porém, às vezes, você conseguirá ser mais rápido, ousado e espero, e enfim conseguirá tirá-lo da água. Pescar ilusões faz parte da longa jornada que é viver. Pescar exige paciência e persistência. Só assim você conseguirá trazer para a superfície todos os seus sonhos e escrever o livro da sua vida.

“O que foi escondido é o que se escondeu. E o que foi prometido, ninguém prometeu. Nem foi tempo perdido.”

Em “Tempo Perdido” Renato Russo deixou um recado bem claro: estamos perdendo tempo com coisas supérfluas ao invés de viver para aquilo que realmente nos faz feliz. Ao nos darmos conta disso e despertarmos para a vida, vemos que estávamos presos à ilusões e tantos outros objetivos sem sentido. Mas, ainda assim, nunca é tarde para erguer a cabeça e recomeçar, pois temos todo o tempo do mundo pela frente. Ou acreditamos que temos.

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo

Em alguns dias é preciso fazer um esforço colossal para levantar da cama e traçar o roteiro do dia. Quando você está acostumando a uma rotina e já tem um tempo estabelecido para tudo, é muito difícil entender como funciona a lógica do autogerenciamento dele. Aquele tempo que você tanto reivindicava quando estava correndo sem parar no trabalho, na sua louca rotina, agora está totalmente a sua disposição e você não sabe o que fazer com ele. Na verdade você até sabe, pois tem mil itens na fila, o problema é descobrir o que é prioridade, o que é realmente importante, o que pode ser deixado de lado, o que é apenas perca de tempo…

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Mesmo quando você descobre ao menos uma das prioridades e foca nela, alguns fantasmas ficam assombrando os seus pensamentos. Não é fácil esquecer o que se passou e seguir em frente, tampouco tudo que você deixou para trás. Viver o momento, depois refletir sobre ele e seguir adiante para o próximo desafio, é algo que exige muita maturidade. Quantas vezes você já não perdeu tempo ruminando algo que fez ou falou e fica por dias, meses ou até anos se martirizando por isso?

Desde que vim morar em San Diego, muitas são as noites que acordo e não consigo dormir pensando em absolutamente tudo. Meus próprios sonhos me pregam armadilhas ao recuperar momentos passados, pessoas que seguiram outros rumos ou parentes queridos que já se foram. Acho que, quanto maior a distância, maior fica a memória e mais seguido ela insiste em abrir o seu baú e relembrar o passado. Talvez para se sentir mais segura com os novos acontecimentos, ou talvez para tentar encontrar o lugar das novas peças do quebra cabeça que não estão sendo fáceis de encaixar, já que não seguem mais a mesma lógica das outras.

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos

E sim, alguns dias são cinzas e trazem consigo uma tempestade. Ou talvez somos nós que fazemos com que um simples ato vire uma tormenta. Esses dias, durante o trabalho na biblioteca, uma homem pediu uma informação que eu não soube interpretar, pois ainda estou aprendendo a falar inglês. Ele ficou extremamente bravo quando eu disse isso e foi embora falando para o vento, e para quem mais quisesse escutar, que era um absurdo ter uma pessoa atendendo ali que não falasse inglês. Por mais que uma mulher tenha dito que ele era um idiota e me explicado depois com calma o que queria, isso me deixou magoada.

Sei que estou começando a estudar em uma escola, que estudo todos os dias por conta própria e que faço trabalho voluntário para treinar a língua, mas ainda assim isso não é satisfatório. E sabe por quê? Porque tudo na vida precisa de tempo. Como se o próprio Sr. Tempo quisesse me mostrar isso, no restante do dia três pessoas vieram me agradecer pelo serviço prestado à biblioteca e disseram que meu inglês é muito bom. Mesmo assim, sei que ainda preciso de tempo para aprender e conseguir estar 100% adaptada. Afinal, só se passou um mês e meio da mudança de vida (mas que parece que já foi ano!).

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora

Assim como existem pessoas que vão incentivar suas escolhas, também vão ter outras que tentarão derrubar você. Talvez elas sejam necessárias para que possamos avaliar nosso nível de coragem e de preparo para encarar os desafios da vida. Ou talvez elas só sejam mal amadas mesmo.

Mas afinal o que é o tempo? Como medimos ele? Qual a sua importância? Só sei que o tempo está passando e trazendo consigo memórias, desafios e aprendizados. Para conseguir seguir o seu ritmo, é importante deixar as luzes da nossa vida sempre acessas. Essa luzes são os amigos e a família. São eles que nos dão coragem para não desistirmos ou acabarmos nos perdendo na escuridão da insegurança e do medo. Não podemos deixar pessoas negativas roubarem o nosso precioso tempo, afinal “somos tão jovens” e precisamos aproveitar a vida da melhor forma possível.

“De uma América a outra consigo passar num segundo. Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo.”

Quem nunca viajou nas asas da imaginação ao escutar a música Aquarela do Toquinho? Cada estrofe resume as fases da vida de forma muito doce, seus momentos bons e ruins, e exemplifica como a felicidade realmente está nas pequenas descobertas. Basta imaginar, sonhar e usar todos os lápis de cor a nossa disposição para tornar a aquarela uma realidade. Também podemos aprender com a canção, que existirão momentos preto e branco, que as pessoas que amamos vão se ir com os navios da vida para descolorir em outro lugar e que, por mais longa e dura que a nossa estrada seja, precisamos aprender a passar por eles para encontrar a passarela da felicidade outra vez.

Um menino caminha e caminhando chega no muro E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar Sem pedir licença muda nossa vida Depois convida a rir ou chorar

Antes de vir para San Diego perdi duas pessoas amadas, entre elas o meu avô Lino, foi quando o futuro me convidou a chorar. Meu avô sempre foi um contador de histórias. Minha primeira lembrança de vida é estar ao seu lado, no meu aniversário de dois ou três anos, tocando um piano de brinquedo. Enquanto batia de forma descoordenada naquelas teclas coloridas e de som estridente, ele sorria e cantava alegremente. E ele foi assim durante toda sua vida. Cada conquista, mesmo que pequena, ele comemorava e contava uma história sobre um fato parecido para exemplificar como as coisas eram possíveis.

Tive o privilégio de escrever sobre sua profissão em um trabalho da faculdade. Passei um dia em sua marcenaria, localizada no porão da sua casa, e pude ver quanta paixão, cuidado e perfeccionismo ele empregava em cada objeto que criava. Na última vez que fui visitar minha avó, antes de viajar, decidi ir até a oficina. Foi muito dolorido reencontrar seu guardapó pendurado ao lado da porta, os pregos e o martelo ainda sobre a mesa. Tudo disposto de forma como se ele só estivesse saído por alguns instantes para tomar um café.

No hospital, disse que estava muito feliz com a minha mudança e meu casamento. Até fizemos planos de criar um site para vender suas peças de madeira e seus licores de jabuticaba. Como eu teria mais tempo, poderia ajudá-lo nessa empreitada. Infelizmente não conseguimos começar a pintar esse novo quadro. Mas a astronave do futuro, depois de quase cair, ergue-se e leva você para as estrales, para um lugar mais bonito e cheio de paz.

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo E se a gente quiser ele vai pousar

Foi então que um avião branco surgiu e me trouxe um novo mundo de possibilidades. Seguindo o conselho do meu avô, escutei meu coração e vim atrás da felicidade. Acabei pousando na Biblioteca Pública de Mission Valley sem querer, em uma das minhas caminhadas de desbravamento do bairro. Foi amor à primeira vista!

A biblioteca é pequena, porém muita bonita. Nesse primeiro encontro sentei em um dos sofás e comecei a ler um livro. A partir desse dia passei a ir, pelo menos duas vezes por semana, estudar inglês nesse lugar tão inspirador. Acabei fazendo amizade com um senhor que estuda árabe e com um guarda. E foi através da amizade com o guarda que descobri a oportunidade de ser voluntária aos finais de semana.

Então, o pingo de tinta que caiu no papel virou uma gaivota e voou para encontrar seu bando. Meu primeiro dia de trabalho foi nesse domingo. Estava muito empolgada! No ensino fundamental trabalhei como voluntária na biblioteca da escola durante um ano e desde então passei a amar bibliotecas, pequenas ou grandes. Na faculdade foran muitos dias estudando e trabalhando naquela que é considerada uma das maiores da América Latina. Sempre que viajo, tento conhecer a biblioteca do lugar. Sem sombra de dúvidas a Biblioteca di Ateneo, localizada dentro de um antigo teatro em Buenos Aires, foi a mais linda que conheci até agora.

Trabalhar em uma biblioteca é ter a possibilidade de conhecer muitas histórias, de fazer amizades, de ajudar as pessoas a mergulharem ainda mais nesse mundo cheio de personagens, aventuras e lições de vida e, claro, falar inglês. Estou ajudando a vender livros antigos para a aquisição de novos. Confesso que ganhei muito mais do que doei até agora. Meu chefe, o Bob, é um senhor de mais de sessenta anos que há cinco é voluntário. Muito metódico, foi um ótimo instrutor e ficou muito feliz com a ajuda. A partir de agora, estarei todos os domingos na biblioteca construindo um pedaço da minha passarela e ajudando a colorir e a encher de palavras a vida de todos aqueles que por ali passarem.

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar Vamos todos numa linda passarela De uma aquarela que um dia enfim Descolorirá

Certamente não sabemos onde a estrada da nossa vida irá chegar. Mas não é parado em casa que vamos fazer com que os passos ao longo do seu caminho sejam menos doloridos. Nem sempre é fácil fechar a porta de casa e desbravar o mundo, mas muitas vezes ele pode ser recompensador. Agradeço todos os dias por estar feliz em viver aqui e de ter essa disposição enorme em sair e não deixar o quadro da vida descolorir tão rápido.