“Já na garagem o pé no breque, o Cadillac ao lado do meu Calhambeque”

Este certamente é um dos posts mais difíceis que já escrevi, pois ele me faz relembrar um grande trauma que eu tinha: o de dirigir.

Aos 18 anos, assim como a maioria dos jovens, eu fui ao CFC fazer a minha carteira de motorista. Eu nunca tinha dirigido na vida, mas adorava pegar a estrada e imaginar aquela sensação de liberdade sentida pelo motorista. Passei de primeira na prova teória. Na primeira aula prática, eu já fui bem e, a cada dia, me sentia mais confiante. Tudo parecia se encaminhar como manda o roteiro, até chegar o dia da prova. Eu fiquei tão apavorada, que nem saí da primeira parte, a do estacionamento, aquela mesma parte que há uma semana atrás eu tirava de letra.

O pânico da prova seguiu por mais três tentativas. Meu pé tremia tanto, que mal parava na embreagem. Assim, eu apagava o carro e já perdia pontos, o que me deixava ainda mais nervosa e com maiores chances de errar de novo. Na última vez, eu aceitei a derrota e decidi dar um tempo. Nessa época, eu já estava com 19 anos, fazia faculdade e trabalhava em dois lugares.

Quando percebi, não tinha mais tempo de encaixar as aulas e provas de direção na minha rotina. No fim, eu já nem me importava com o fato de não dirigir, pois tinha à disposição transporte público para todos os lugares que eu precisava ir. Além disso, eu sempre estava lendo e estudando durante um percurso e outro, então era bom eu ter esse tempo “livre”. Eu também contava com a sorte de ganhar algumas caronas do meu pai quando perdia o ônibus na saída da faculdade, ou quando precisava começar a trabalhar às 7h15 na escola perto da nossa casa.

A única coisa que realmente me incomodava eram as pessoas, muitas vezes amigos próximos, que cobram isso de mim. Eu preferia ficar só escutando e não dizer nada, do que contar todo o meu trauma; explicar o quanto os avaliadores eram rígidos e pareciam fazer isso de propósito pra você errar e pagar de novo pra fazer a prova; do quanto era frustrante pra mim escutar que a prova prática era fácil e era ridículo as pessoas rodarem tanto; do quanto era vergonhoso eu ter que apresentar minha identidade e não minha carteira de motorista na entrada das festas; do quanto eu tinha que explicar e explicar que realmente dava pra se virar pegando ônibus, trem e táxi. E cada vez que uma coisa dessas acontecia, eu alimentava ainda mais aquele trauma de não dirigir. Eu me sentia um ET no meio de todo mundo. Não sabia como explicar que cada pessoa tem um processo de aprendizagem diferente e que eu não era inferior a ninguém por não ter uma carteira de motorista.

E assim se passaram 8 anos até eu começar a sentir a necessidade de ter um carro. Nessa época, eu morava em Porto Alegre e depender de ônibus ou táxi estava ficando cava vez mais perigoso. Eu também estava fazendo terapia e esse era um dos tópicos trabalhados durante os encontros. Foi então que comecei a repensar sobre tudo e pesquisar CFC’s perto de casa. Já estava tomando coragem para ir lá e encarar todo o pesadelo de novo, quando surgiu a oportunidade de morarmos em San Diego.

Quando cheguei aqui, o primeiro projeto pessoal que eu tinha era tirar a minha carteira de motorista. Mas eu não imaginava que o processo seria tão simples e que o trauma seria muito fácil de ser superado. Aqui na Califórnia, o processo de aquisição da driver license é bem simples: você paga $30 e faz a prova teória e a prova prática. Simples assim mesmo. Sem aulas, sem meses de preparacão, sem tanta burocracia.

O mais difícil do processo é separar os papéis solicitados, principalmente no caso do motorista ser um imigrante, e à espera da carteira, que pode demorar até dois meses pra chegar na sua casa. As provas são feitas em dias separados e você pode fazer o agendamento online ou por telefone.

Não existe aula teórica. Você pega a cartilha com as leis de trânsito da Califórnia (sim, porque cada estado tem leis diferentes e, se você for morar em outro lugar, vai precisar fazer a carteira de motorista naquele local) gratuitamente em qualquer DMV ou comprar um livro com as regras de trânsito e estudar de casa. A prova teórica não precisa ser feita em inglês, você pode perguntar se o DVM têm a versão na sua língua. Para a nossa sorte tinha, mas era português de Portugal.

A prova prática é a mesma coisa. Você pode pagar para ter aulas de direção se quiser, mas a maioria das pessoas aprende a dirigir aqui com algum conhecido. E é totalmente legal isso, até porque você ganha a carteira provisória assim que passa na prova teórica. Você pode praticar à vontade, desde que sempre esteja acompanhado por uma pessoa que já tenha a carteira de motorista daquele estado.

Antes de fazer a prova prática, o próprio DVM recomenda ao motorista assistir aos vídeos disponíveis no YouTube para ver as dicas e saber mais sobre as regras. Para quem não tem carteira e está fazendo o processo pela primeira vez na vida, eles recomendam que a pessoa tenha pelo menos 100h de “aula” prática antes de fazer a prova. E para quem já tem carteira, assim que passa na prova teórica, já pode agendar a prática.

A prova prática é bem mais simples do que no Brasil. Pra começar, você faz a prova no seu próprio carro. Se você não tem carro, pode alugar um em qualquer lugar. O DVM não disponibiliza carros para fazer a prova e você precisa estar com a documentação em dia, pois todos os papéis são verificados no dia.

Depois que os papéis são checados, você é enviado para uma fila específica ao lado do prédio do DMV, onde deve esperar o examinador. Antes de entrar no carro, o examinador verifica se as setas, luzes de freio, buzina e demais itens básicos do carro estão funcionando. Estando tudo certo, é hora de dar uma volta na quadra. O percurso dura em torno de 15 minutos e o avaliador examina se você troca de pista corretamente, dá sinal, segue o limite de velocidade, sabe estacionar o carro e dar ré, sabe como fazer uma conversão levando em consideração a ciclovia, respeita os sinais de trânsito, a faixa de segurança, etc. É bem simples mesmo.

Para quem quiser mais informações, aqui está o link do site oficial do DMV californiano.

Resumindo a história, depois de chegar aqui, em três meses eu já tinha a minha carteira provisória e comecei a dirigir, sempre acompanhada do meu marido, que já tinha a carteira da Califórnia. Quando eu estava quase completando um ano de carteira provisória, fui fazer a prova prática, até porque a data de validade dela é de um ano. Não preciso nem dizer que nem dormi na semana anteiror. Fui pra prova tremendo, cometi alguns pequenos deslizes (a maioria por ser cuidadosa demais), mas passei. Quando a avaliadora disse que eu tinha passado, eu quase dei um abraço nela. Assim que ela saiu do carro, comecei a chorar de emoção. Eu finalmente tinha conseguido tirar a carteira de motorista depois de 11 anos!

O processo também se tornou menos traumático, pois os motoristas de San Diego são muito educados. Claro que sempre tem gente que não liga a seta ou faz alguma bizarrice, mas é difícil alguém buzinar, não dar passagem ou brigar. O número de acidentes também é bem menor. O único lugar que é mais assustador de dirigir é nas hayways (freeways daqui), pois os americanos passam fácil dos 100km/h e você precisa estar bem atento às saídas que precisa tomar, se não é preciso fazer um retorno bem grande até conseguir voltar para o mesmo lugar.

Pra completar, há três meses atrás comprei meu primeiro carro. Ele é pequeno, bem usadinho, mas tem sido um grande companheiro. Agora, vou para todos os lugares que preciso sem depender de ninguém. Confesso que nas primeiras duas semanas que eu estava dirigindo ele sozinha, ficava muito nervosa.

Ainda bem que tudo na vida é questão de costume. Ainda fico apreensiva quando tenho que ir para um lugar mais distante e que não conheço, mas é mais aquela tensão de ter que ficar sempre atenta a todos os movimentos que estão acontecendo ao seu redor e usar o GPS (ainda estamos tentando nos acertar).

Tenho sido constantemente a motorista da rodada, pois eu mesma disse que de agora em diante é a minha vez de não beber e levar meus amigos (ou minhas cobaias hahaha) para os bares, jantinhas, festas, etc., e depois para casa em segurança. Nos finais de semana, meu marido quase não está mais dirigindo, pois prefere passar a vez pra mim.

E assim vou seguindo, dia após dia, tentando superar os meus medos e provando pra mim mesma que nunca é tarde para realizar um projeto de vida e de dar a volta por cima.

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“Imagine there’s no countries. It isn’t hard to do”

Não vou expressar minha opinião política sobre o Impeachment da Dilma, mas o tópico deste post está ligado a isso. Hoje, li muitos posts no Facebook que me deixaram chateada, porém um deles me abalou profundamente. Ele dizia mais ou menos o seguinte: “A pessoa fica fazendo mimimi, mas mora nos EUA, na Alemanha, na Austrália…”. Eu reli umas duas vezes pra ver se não era coisa da minha imaginação. Infelizmente, era a realidade, e os comentários que se seguiram foram ainda piores.

Só porque uma pessoa não mora mais no seu país de origem, não significa que ela é menos cidadã, que tem menos direitos e que não pode expressar a sua opinião sobre um assunto que afeta a vida dela direta ou indiretamente.

Eu moro nos Estados Unidos sim, mas continuo pagando impostos no Brasil, justificando meu voto e fazendo declaração do imposto de renda. Eu não moro mais no Brasil, mas toda minha família e meus amigos seguem lá e eu me preocupo com o futuro deles. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileira, falo português todos os dias, mantenho minhas tradições e tenho muito orgulho disso. Eu não moro no Brasil, mas a maioria dos meus melhores amigos em San Diego são brasileiros e eles também carregam toda essa bagagem com eles. Eu não moro no Brasil, mas acompanho todos os dias as notícias do país pra saber o que está acontecendo. Eu não moro no Brasil, mas sigo defendendo o meu país e tentando explicar para as pessoas de outras nacionalidades como temos muito mais coisas para oferecer do que apenas Carnaval e caipirinha. Eu não moro no Brasil, mas torço todos os dias para que as coisas melhorem. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileira e sei exatamente o que está se passando e o sentimento que tudo isso causa. Eu não moro no Brasil, mas vivi 27 anos da minha vida nesse país repleto de encantos mil e, ao mesmo tempo, cheio de desigualdades sociais. Eu não moro no Brasil, mas posso voltar a qualquer momento, porque se tudo der errado, é lá que eu sempre serei acolhida, é lá que o meu sotaque não faz a mínima diferença, é lá que as minhas experiências profissionais valem de verdade, é lá que eu conquistei um monte de coisas boas que pra sempre vou me orgulhar.

E eu poderia não fazer nada disso. Poderia apenas ignorar a existência do Brasil e seguir com a minha vida aqui, e mesmo assim eu ainda teria o direito de opinar sobre o cenário político e econômico do meu país. Eu não abandonei o Brasil, eu não fugi, eu não mandei tudo para o espaço por causa do cenário atual. Eu mudei, porque tive uma grande oportunidade na minha vida e agradeço todos os dias por ela ter acontecido. E mesmo se tivesse abandonado tudo por não aguentar mais, ainda assim teria o direito de opinar.

Acredite, não é porque você mora em outro continente que não sofre junto, que não torce junto, que não entende o que está se passando, que só serve pra falar mal do seu país de origem e exaltar o seu local de moradia atual. Eu sempre vou estar presente, mesmo de longe, em cada mudança que acontecer. Eu mando mensagem pra minha família e pros amigos mais próximos quando vejo que tem um temporal na cidade, então me diz como eu não vou me preocupar e estar por dentro de um processo de mudança política? Eu sei que olhar de fora não é a mesma coisa que estar experienciando na pele o que está acontecendo. Mas isso não diminiu o meu direito de ser brasileira seja onde for.

Eu sonho com o dia em que todas as pessoas tenham a oportunidade de conseguir olhar para os outros sem preconceito, inveja, intolerância e pré-julgamentos. Eu sonho com o dia em que o ódio das pessoas seja transformado em sentiments bons e que gerem ações que façam a vida de alguém melhor. Já falei isto aqui uma vez e vou repetir. Você não precisa mudar de cidade, estado, país ou continente para enxergar o mundo de outra forma e respeitar a opinião do outro. Enquanto isso, sigo acreditando e torcendo pelo meu país e excluindo todos aqueles que não conseguem entender o que isso significa.

 

“Ô pacato cidadão, te chamei a atenção não foi à toa, não”

É fato que trabalho é trabalho em qualquer lugar do mundo. Contudo, cada país tem suas prórpias leis e regras que devem ser respeitadas e seguidas.

Nos Estados Unidos, a United States Labor Law regula os direitos e deveres dos empregados e uniões, porém existem leis trabalhistas específicas para cada estado, assim como salários, taxas e regras de trânsito, por exemplo. Por isso, antes de procurar emprego, sempre é bom saber quais são os seus direitos e deveres naquele lugar específico.

E tracei a vida inteira planos tão incríveis
Tramo à luz do sol
Apoiado em poesia e em tecnologia
Agora à luz do sol

A maioria dos pontos que vou citar aqui, eu vivenciei na época que trabalhava na loja. Como ela pertence a uma rede grande e possui milhares de funcionários em todo país, eu via muitos desses casos acontecendo com os meus colegas diariamente.

  • O valor mínimo pago por hora de trabalho na Califórnia é $10. Geralmente, esse é o valor pago pela maioria dos estabelecimentos comerciais. Funcionários de bares e restaurantes podem receber um valor por hora menor, pois ganham 20% em gorgeta, mas alguns lugares pagam o valor mínimo de $10 + gorgetas. Para cada profissão também existe uma média de valor anual (aqui nos EUA o salário sempre é dito em valor anual e não mensal como no Brasil) e é importante fazer esta pesquisa antes de aceitar qualquer proposta.
  • Não existe 13o salário. Porém, muitas empresas (especialmente as grandes) fazem avaliação do funcionário no final do ano e, se ele se destacou e atingiu as metas estabelecidas, pode ganhar bônus e aumento de salário.
  • Muitas empresas pagam os funcionários a cada 15 dias. Funcionários de bares e restaurantes costumam receber semanalmente.
  • A licença maternidade não é remunerada e a mulher pode ficar afastada até 12 semanas. Já soube de casos em que as mães optaram por voltar antes desse tempo, porque precisavam do dinheiro e também porque tinham medo de perder o seu cargo.
  • Cada empresa também define o número de dias que o funcionário pode se ausentar por motivos de doença, o chamado “call sick”. Claro que, se a doença for grave, aí entram outras leis, mas se passar dos dias acordados, o funcionário fica sem receber durante o período que estiver ausente. De forma geral, você tem tantos dias por ano (na maioria das empresas são 8 dias por ano no primeiro ano de trabalho e depois vai aumentando) para ficar doente e não ter desconto no salário.
  • Cada empresa determina quantos dias de férias os seus funcionários terão direito. Esse tempo pode variar de 10 a 20 dias após um ano de trabalho. Empresas maiores podem usar a seguinte regra: a cada ano completado na empresa, o funcionário passa a ganhar 1 dia a mais de férias por ano. As férias podem ou não ser pagas e isso é definido no acordo que o funcionário fez com a empresa.
  • Nos Estados Unidos não existem tantos feriados como no Brasil e os americanos não dão muita importância pra eles. Por isso, é bem comum as pessoas trabalharem durante os feriados e isso significa ganhar a mesma coisa do que nos outros dias. Os feriados em que as pessoas realmente param são o Dia da Independência, Acão de Graças e Natal.
  • As taxas mensais descontadas do salário são de 6.2%, que é retido para o Social Security (aposentadoria), e 1.45%, que vai para o Medicare (saúde). O valor descontado do imposto de renda depede do valor que você ganha, quantos dependentes tem, estado civil, possíveis deduções, isenções e créditos.
  • O total de horas semanais trabalhadas varia conforme a área, pois é possível fazer meio turno de 20h ou turno integral de 40h. O pagamento das horas extras também depende da empresa, que escolhe se vai ser em dinheiro ou folga. Diferente do Brasil, aqui não existe adicional por trabalho realizado durante o final de semana. Ou seja, se você trabalha sábado e domingo, continua ganhando o valor hora acordado por hora e ponto. Porém, quando o empregado trabalha mais que as horas do seu turno parcial ou integral, a empresa precisa pagar 1.5 vezes o valor da hora do empregado.
  • O horário de almoço varia entre 30 minutos e 1 hora, e os intervalos de 15 minutos geralmente acontecem a cada 4 horas de trabalho (era assim na loja). Na empresa onde trabalho agora, o almoço tem duração de 30 minutos e a cada hora eu tenho direto a alguns minutos de pausa. No fim, o que acaba acontecendo na maioria dos escritórios, é que as pessoas levam sua própria comida para não perderem tempo de locomoção até um restaurante. Eu levo todos os dias o meu almoço, pois não tenho muitas opções de restaurantes ao redor da empresa. Ou seja, marmita é algo comum por aqui e ninguém tem vergonha de tirar seu pote da bolsa e colocar na geladeira/microondas. Mas almoçar na frente do computador significa para todos os seus colegas que você está trabalhando. Então, não estranhe se eles vierem falar de trabalho enquanto você está comendo. Já tive que esquentar a marmita várias vezes por causa disso 😉
  • Aqui, não existe recisão como no Brasil. Se você sai da empresa por vontade própria, irá receber o que está sendo devido de horas trabalhadas e era isso. Mas você deve avisar sobre a sua saída com pelo menos duas semanas de antecedência, assim a empresa consegue achar outra pessoa ou realocar alguém para cobrir o seu lugar. É tipo um acordo de cavalheiros. Alguns estados adotam o sistema empregatício “at will”, onde empregadores podem demitir sem justa causa e sem necessidade de aviso prévio. Em caso de demissão em massa (mais de 50 empregados), as leis empregatícias exigem que o anúncio seja dado com 60 dias de antecedência e os empregados devem ser pagos no próximo dia de pagamento seguinte à data oficial da demissão.

Pacato cidadão
Ô pacato da civilização
Pacato cidadão
Ô pacato da civilização

No início, a gente acha que não tem direito nenhum, mas depois se dá conta que nem o empregado e nem o empregador pagam tantos impostos, e que a flexibilidade das regras permite com que a relação entre ambas as partes seja muito melhor. Eu não sou especialista em leis trabalhistas. Por isso, se você tem dúvidas, vale dar uma pesquisada na internet ou falar com um advogado 😉

“Veraneio Vascaína vem dobrando a esquina”

Faz um tempo que não posto aqui no blog, mas a visita dos meus pais e o emprego novo acabaram sendo o meu foco no último mês.

Nesse meio tempo, aconteceram várias coisas, mas uma delas eu acho especialmente importante compartilhar com vocês. Há três semanas atrás, celebrei meu aniversário no Fanuel Street Park, localizado em Mission Beach, San Diego. O parque é muito bonito, cheio de grama e árvores, com parquinho para as crianças e em frente à baia. Lugar perfeito para fazer um churrasco com os amigos. Pois bem, foi o que pensei. Então, convidei mais de 20 amigos lindos e meus pais para comemorar comigo a chegada dos 2.9. Como em todo churrasco que fazemos por aqui, levamos a farofada e as bebidas.

O consumo de bebidas alcoólicas e o porte de garrafas de vidro são proibidos em praias e parques aqui em San Diego (apenas alguns parques permitem, mas são raros). Porém, é extremamente comum você ver as pessoas levando latinhas ou long necks dentro do cooler e servindo a bebida em copos descartáveis coloridos (aqueles famosos copos vermelhos que vemos em todos filmes de comédia americana). Então, como bons brasileiros, sempre seguimos esse mesmo modelo dos gringos malandros que levam bebida para lugares públicos.

O aniversário corria muito bem e alegre até certa hora da tarde, quando um carro da polícia, estilo carrinho de golfe, veio parar no meio da turma. Os policiais disseram que tinham recebido uma denúncia dos vizinhos de que estávamos bebendo cerveja. Àquela altura, já não tínhamos o que fazer para esconder nada, então permitimos que eles olhassem nossos coolers. Obviamente, eles encontram as cervejas e pediram uma explicação. Daí em diante nem é preciso explicar mais nada. Os policiais acabaram perguntando quem eram os donos dos coolers e começaram a fazer as multas. No fim, eu e uma amiga recebemos multa por portar garrafas de vidro e bebida alcoólica, outra amigo recebeu multa por estar portando garrafas de vidro (elas estavam vazias dentro do cooler dele) e outro amigo recebeu uma multa por estar segurando um copo com cerveja.

Não preciso nem dizer que o aniversário acabou por ali. Claro que fique muito chateada e envergonhada por meus convidados receberem multas na minha festa e por eu receber uma multa também, a primeira da minha vida, na frente dos meus pais, ainda por cima no Dia dos Pais aqui nos Estados Unidos. Mas o erro foi nosso.

Por mais incrível que pareça, os policiais foram extremamente educados e tranquilos durante todo o tempo. O trabalho deles foi muito mais de conscientização do que de aplicar uma multa. E isso é o que quero destacar neste texto. A polícia precisa dar a multa para a pessoa aprender, para doer no bolso e para ela não repetir mais esse erro. Durante todo o tempo que eles estiveram conosco, os policiais explicaram o quão perigoso é portar garrafas de vidro em parques e praias; o quanto isso pode machucar alguém, especialmente crianças e animais; o quanto é perigoso beber e dirigir, etc. Saímos todos dali com sentimento de culpa e entendemos que estávamos errados.

No meu caso e da minha amiga que estávamos portado os coolers e não fomos pegas bebendo, existe uma multa específica. Você tem uma chance de não ir pra corte prestar esclarecimentos se, dentro de cinco dias após o recebimento da multa, entrar no site que o policial indicar, pagar uma taxa de $40 e prestar trabalho voluntário. Esse trabalho voluntário consiste em assistir 2h de aula teórica e 4h de limpeza de uma praia ou parque.

O policial nos explicou que o lugar onde estávamos era perigoso tempos atrás e que foi através do trabalho da vizinhança, de denunciar e ajudar a polícia, que ele se tornou um bom lugar hoje em dia. Então, os vizinhos sempre irão fazer esse tipo de denúncia quando eles verem que alguém está desrespeitando as regras do lugar. E para isso também existe uma placa com as regras do lugar em todos os parques e praias, a qual ignoramos.

Cheguei em casa naquele dia e fui direto acessar o site indicado pelo policial. Ainda estou esperando a cartinha dizendo quando terei que assistir à aula e fazer o voluntariado. Meu amigo que foi pego com o copo de cerveja na mão não teve a mesa sorte. No caso dele, ele precisa ir direto para a corte prestar esclarecimentos e certamente o valor da multa será maior.

Talvez a cartinha nunca chegue, talvez leve mais uma mês, mas o fato é que eu não fui mais pra praia levando nenhum tipo de bebida que não seja água ou suco em garrafas plásticas. Diferente do Brasil, aqui não existem quiosques na beira da praia que vendem comida e bebida, tampouco pessoas passando com isopor e vendendo aqueles lanches tão maravilhosos como milho, queijo assado, biscoito globo, esfiha, etc. É proibido. Por isso, é muito comum cada um levar seu isopor/cooler com os seus suprimentos para o dia. É por isso também que eu digo que os gringos são muito mais farofeiros que nós, até porque eles não têm outra opção.

Mas voltando ao ponto principal, fica aqui o meu alerta. Se você for para qualquer lugar público em San Diego, não leve bebidas alcoólicas ou garrafas de vidro. E, se levar, fique consciente das consequências que isso pode acarretar. Por aqui, a famosa frase “mas eu não sabia, eu sou só turista” não funciona. Aqui não existe jeitinho, conversa ou propina. A regra é lei, sem exceção, e ela se aplica a qualquer um, independente de quem você é e de onde você vem.

 

“Sem trabalho eu não sou nada. Não tenho dignidade. Não sinto o meu valor. Não tenho identidade”

Depois de um ano e quatro meses morando em San Diego, finalmente, posso dizer: consegui um emprego na minha área! Mas para chegar até aqui foram muitos os passos dados, dezenas de tentativas e vários momentos de frustração. Ao mesmo tempo, foi um período de intenso aprendizado, autoconhecimento e determinação.

Algumas pessoas que acompanham o blog conhecem um pouco da minha saga, então vou tentar resumir o processo todo em um parágrafo. Levei seis meses para ter em mãos a permissão de trabalho (concedida para vistos específicos), um mês e meio para conseguir emprego na parte de serviços (que é o forte de San Diego) e oito meses para conquistar um emprego na minha área.

Confesso que durante os dois primeiros meses que eu entrei na loja, dei um tempo para as buscas, pois queria me focar no novo trabalho, lidar com a nova rotina e aprender todos os processos da empresa para conseguir manter o meu cargo e o meu salário. Depois do período de adaptação, voltei aos meus objetivos pessoais.

Muita gente tem a ilusão de que com a permissão de trabalho tudo é muito mais fácil, mas não é bem assim. O documento abre mais portas para você conseguir emprego na parte de serviços, com toda certeza, porém para vagas especializadas, é tão difícil quanto. Além disso, o documento não interfere no salário. O valor mínimo pago na Califórnia é $10 por hora e esse é o padrão da maioria das lojas, supermercados, bares, restaurantes e serviços em geral. Quem trabalha em restaurante ou bar consegue ganhar mais, pois recebe gorjetas. Quem é babá geralmente consegue fazer entre $12 e $15 por hora.

Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade

Então, se você vem de um histórico no Brasil com um bom cargo, salário, férias e todas as regalias das leis trabalhistas, pode começar a praticar o desapego e a paciência, caso você venha sem emprego na sua área previamente acertado por aqui.

Quero alertar que este não é um post para desanimar ninguém, muito pelo contrário. Quero é mostrar a realidade americana e a importância de se planejar e ter persistência. O sonho de morar em outro país e fazer dinheiro é algo que exige muito empenho. O mundo todo passa por uma crise, então realmente não está fácil conseguir emprego, agora imagine para quem não tem documentos.

Acredito seja mais fácil conseguir emprego em outros estados americanos ou países não tão turísticos, contudo a Califórnia recebe todos os anos milhares de imigrantes do mundo todo que estão tentando, assim como nós, uma vida melhor e isso faz com que a disputa por um cargo seja maior e, consequentemente, o valor por hora baixe. Sei de pessoas que trabalham com “bicos” por aqui e recebem muito menos dinheiro hoje do que há 5 anos atrás. Ser babá por aqui pagava muito bem tempos atrás. Hoje, vejo anúncio oferecendo $10, $12 e, em poucos casos, $15 a hora. E ainda tem gente que trabalha por menos, porque realmente precisa.

Ainda considero os EUA como um lugar cheio de oportunidades, mas aqui, assim como em qualquer lugar do mundo, você precisa ter referências, experiência, inglês fluente (isso varia de acordo com a função), carro próprio (varia também) e provar que é dedicado, comprometido e bom naquilo que faz para conquistar a confiança.

Eu tenho o meu ofício
Tem gente que não tem nada
E outros que tem mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar

Os americanos são bem exigentes em termos de pontualidade, produtividade e rapidez. E, como isso é cultural, eles sempre desconfiam de quem vem de outros países, outras culturas, pois muitas vezes não sabem como é a cobrança e a entrega do trabalho por lá. Por sorte, viemos de um país onde a maioria das pessoas trabalha muito, então pra nós é normal já chegar, fazer acontecer e entregar mais que o esperado. Por isso, o brasileiro, na maioria das vezes, tem um crédito grande por aqui.

Eu tentei indicação (obrigada ao sócios da W3Haus por serem tão queridos e continuarem ajudando os ex-funcionários com tanto carinho e empenho) e consegui uma entrevista. Infelizmente, não deu e eu não consegui descobrir o motivo para poder melhorar nas próximas oportunidades.

Depois disso, só consegui fazer mais uma entrevista presencial em um cargo próximo à área, mas como era muito técnico e eu não sou formada em Análise de Sistemas, não deu também. Daí em diante fiz mais uma entrevista por telefone para um cargo semelhante e não consegui mais nada.

Dedicada de uma a duas tardes ou manhãs por semana, dependendo do meu horário na loja, para enviar currículos. Foram quase duzentas tentativas. Fui em duas agências de emprego pra ver se conseguia ajuda ( e aqui agradeço de coração aos sócios da Brivia e da 3yz pelo envio de referências, vocês continuam fazendo a diferença na minha carreira e na minha vida <3). Porém, até hoje não recebi uma vaga deles.

Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
De todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar

Quando as minhas alternativas já estavam se esgotando e eu estava até pensando em começar a procurar emprego em outras cidades e, com isso, ter que me mudar, apareceu uma vaga em um dos sites que eu sempre buscava. Apliquei, fui chamada para uma entrevista, depois para uma segunda e então veio a tão sonhada resposta: sim, você está contratada!

Passado quase um mês, ainda não acredito que é verdade. Nas duas primeiras semanas, achei melhor não contar pra quase ninguém (vai saber se ia dar certo). Hoje, digo com todo orgulho que consegui e, por mais que pensasse em desistir em alguns momentos, eu continuei.

Acredito muito que quem faz o bem, recebe o bem, e uma hora ou outra chega a sua vez de brilhar na vida. Eu só não sabia que demorava tanto! Mas a Califórnia tem me ajudado todos os dias a aprender o significado de PACIÊNCIA e PERSEVERANÇA.

Obs.: vou contar mais detalhes sobre o processo de busca por emprego por aqui na página da Família nos Estados Unidos. Curtam lá 😉

“And as I looked around, I began to notice. That we were nothing like the rest”

Acredito que um dos melhores presentes que a Califórnia me deu foi a sensação de ser livre e a oportunidade de poder viajar com frequência. Por mais que eu tenha uma vida cheia de obrigações, aqui, eu posso conhecer lugares incríveis sem precisar viajar milhares de quilômetros. Aqui, eu posso planejar trips que jamais imaginaria fazer alguma vez na vida e gastar muito pouco dinheiro.

Faz um ano e quatro meses que estamos morando na Califórnia e já conhecemos muitos lugares, pois é barato e fácil viajar. San Diego está numa região bem localizada, por isso muitas vezes é só preciso pegar o carro, dirigir uma ou duas horas e o seu destino estará logo ali. Dependendo do tempo e da grana que se têm, às vezes não é nem preciso passar a noite no lugar, gastando com hospedagem, por exemplo. Dá para fazer o famoso “bate e volta”.

Ano passado, conhecemos Palm Springs, Joshua Tree, Salton Sea, Temecula, Big Bear, Mammoth, Santa Bárbara, Oceanside, Malibu, Laguna Beach, Santa Mônica, Trestels e até Tijuana e Ensenada, cidades localizadas no México. Este ano, já fomos para San Francisco e Los Angeles. Porém, também tivemos a oportunidade única de ir ao Coachella, um dos maiores e mais famosos festivais de música dos Estados Unidos. O festival, que começou oficialmente em 1999, acontece anualmente na cidade de Índio, na Califórnia, e tem a duração de dois finais de semana (contando sexta, sábado e domingo).

I heard them calling in the distance
So I packed my things and ran
Far away from all the trouble
I had caused with my two hands
Alone we traveled on with nothing but a shadow
We fled far away

Assim que os ingressos foram colocados à venda, no final do ano passado, garantimos a nossa presença. Logo depois, começamos a pesquisar algumas casas, pois iríamos com uma turma grande de amigos. Porém, no fim optamos por alugar um RV (o motorhome daqui) e ficar em um camping próximo ao evento. Certamente essa foi a melhor escolha que poderíamos ter feito. O RV tem um custo-benefício exelente se comparado com o aluguel de um motel (hotel barato daqui) ou de uma casa, já que os preços triplicam na época do evento. Fomos em 6 pessoas (mas existem opções para turmas maiores e menores) e todos dormiram confortavelmente. O RV oferece todo o conforto de uma casa sobre quatro rodas (banheiro, cozinha, ar-condicionado, camas, sofás, armários) e não gasta muita gasolina. Fomos e voltamos do evento, que fica a duas horas e meia de San Diego, e gastamos 3/4 de tanque. Você também pode levar toda a sua comida, já que tem geladeira, pia e fogão pra cozinhar. Por isso, fizemos um bom rancho antes de ir e comíamos bem todas às manhãs, antes de sair e quando voltávamos. Assim, gastávamos muito pouco comendo no evento (as coisas não são muito caras. A média fica entre $7 e $10 por um lanche, $2 por uma garrafa de água e $10 por um copo de cerveja).

O camping foi outro grande acerto da trip. Ficamos a 30 minutos do evento, mas tínhamos uma infraestrutura maravilhosa: piscina, jacuzi, banheiros com chuveiros, café da manhã, sem contar todo o sistema de água, luz e esgoto oferecidos para os RVs. Todos os dias, o camping disponibilizava um ônibus (em horários específicos) para levar e buscar os hóspedes que estavam ali apenas pelo Coachella. Claro que pagamos pelo serviço, mas a economia foi bem grande se compararmos com a grana que gastaríamos com estacionamento (fora o cansaço e o perigo em voltar dirigindo) ou com Uber, que chegava a custar quatro vezes mais que uma corrida normal devido a quantidade de gente que estava buscando o serviço.

Enfim, a experiência com o motorhome foi tão positiva, que já estamos planejando fazer outras trips com ele. E agora, eu também passei a entender o porquê de muitas pessoas optarem por morar em um RV.Você tem tudo que precisa e ainda pode levar a sua casa para qualquer lugar do mundo. Na Califórnia, existem dezenas de pessoas que fazem isso, inclusive existem campings em vários lugares onde é possível pagar uma taxa mensal para poder estacionar a “sua casa”. Também é comum ver vários RVs nos estacionamentos públicos das praias e dos parques de San Diego.

Hold your horses now
(Sleep until the sun goes down)
Through the woods we ran
(Deep into the mountain sound)
Hold your horses now
(Sleep until the sun goes down)
Through the woods we ran

Agora, falando sobre o Coachella…..Por mais que eu tivesse visto fotos e lido algumas matérias sobre o festival, nenhuma descrição conseguiu representar a sua verdadeira grandiosidade. Desde o momento que eu desci do ônibus e caminhei até a entrada final (o que leva meia hora) eu não estava acreditando que aquele lugar no meio do deserto era real, parecia uma miragem.

Imagine que em média 200 mil pessoas passam pelo festival durante os dois finais de semana, o que é MUITA gente! Então, para oferecer o melhor serviço para toda essa galera, existem dezenas de barraquinhas de comida, lojinhas, banheiros, além de muitas pessoas trabalhando ao redor do lugar como seguranças, médicos e enfermeiros, e diversos outros funcionários que ajudam você a achar o seu estacionamento, seu acampamento (o Coachella tem um espaço para camping, mas é mais caro), seus amigos…

Os portões abrem às 11h da manhã e o festival termina às 2 da madrugada na sexta e no sábado, e à 1h no domingo. Acha pouco? Nós geralmente chegávamos às 15h e ficávamos até o final, o que dava uma média de 10/11 horas de evento aproveitado, o que foi MUITO para o nosso corpo. Aí tem um ponto importante: eu fiquei extremamente feliz por estar fazendo exercícios físicos nos últimos meses, pois você precisa ter um mínimo de preparo físico para conseguir curtir o festival ao longo dos três dias.

Como são dezenas de bandas tocando ao mesmo tempo e o lugar é ENORME, você caminha de um lado para o outro o tempo todo. Claro que dá para sentar, deitar e até dormir na grama, mas não dá pra ficar muito tempo no descanso, pois o mundo Coachella não pára pra você se recuperar.

Além dos palcos principais e das grandes tendas, existem tendas menores de música eletrônica que sempre estão com algum DJ fazendo a festa. Eu, que estava mais pelos shows de rock, indie e acústicos, acabei me rendendo em muitos momentos.

Um ponto que nos convenceu a não chegar muito cedo todos os dias, além do cansaço, foi o calor. Imagine que o festival é no meio do deserto e as temperaturas chegam aos 40 graus. Por isso, não dá para esquecer do protetor solar para o rosto, lábios e corpo, além de estar o tempo todo tomando água. À noite, ficava mais fresco, em torno de 20 graus, e era preciso sempre levar um casaquinho.

Some had scars and some had scratches
It made me wonder about their past
And as I looked around I began to notice
That we were nothing like the rest

Como é permitida a entrada de crianças e menores, as áreas que vendem bebidas álcóolicas para maiores de 21 anos são fechadas. Ou seja, você precisa, todos os dias, mostrar seu documento, pegar uma pulseirinha (todos os dias a cor da pulseirinha muda) e depois parar nas filas para entrar nesses lugares. Eu vi poucas crianças, mas a quantidade de adolescentes é realmente impressionante se comparada com pessoas mais velhas.

Nos três dias do evento, não vi nenhuma briga ou confusão, apenas algumas pessoas passando mal do calor e da bebida, o que é perfeitamente normal em qualquer festival ao ar livre. Nem nos maiores shows, como no do Guns N’ Roses, por exemplo, fomos empurrados ou nos sentimos apertados/sufocados. As pessoas respeitam o seu espaço. Por isso, era comum ver no meio da multidão que estava assistindo a um show, pessoas sentadas ou deitadas e todo mundo passando ao redor e respeitando a opção delas de não estarem de pé.

O que me deixou mais encantada com toda a experiência foi a atmosfera do lugar. Ver o pôr do sol era o momento mais incrível do dia, pois você olhava ao redor e via muitas montanhas e palmeiras, milhares de pessoas cantando, sorrindo, dançando e não se importando com o que o mundo estava pensando sobre elas naquele momento.

Além da música, o Coachella é um festival de arte. Você encontra esculturas, luminosos, construções e letreiros por todos os lugares. É inspirador estar ali, mesmo quando você não está vendo algum show, pois a arte toma conta do lugar e de você. O jeito de vestir das pessoas também é algo à parte. O look padrão é o estilo hippie chic, mas todo mundo encontra a sua forma de deixar o visual com um toque pessoal. Ao mesmo tempo, existem pessoas que vão fantasiadas (vi muitos unicórnios, alguns super-heróis, um minion e até um pikachu), outras seguem um estilo gótico, outras ainda optam pela linha nudes.

Amei a experiência e recomendo pra todo mundo. Se você tiver a oportunidade de ir ao Coachella, vá! Você estará no fim do mundo sentindo por todos os seus poros uma energia que mistura música, arte e pessoas dos mais variados estilos e lugares. Depois, você terá uma vida inteira para recordar e contar as histórias que viveu, as bandas que conheceu e os amigos que fez ❤

Whoa-oh-oh-oh-oh We sleep until the sun goes down Whoa-oh, whoa-oh We sleep until the sun goes downWhoa-oh-oh-oh
We sleep until the sun goes down

La la la, whoa-oh-oh-oh-oh
La la la, we sleep until the sun goes down
La la la, whoa-oh, whoa-oh
La la la, we sleep until the sun goes

“Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer”

 

Eu penso em tantas coisas diariamente para escrever aqui e tentar ajudar quem está passando por esta fase constante de aprendizados e transformações, mas fico criando mil desculpas para não publicar. A principal delas é:”o que as pessoas vão pensar?”. E depois vêm os acompanhamentos: “o que elas vão dizer? será que vou conseguir transmitir o que quero? será que elas vão achar interessante? será que não estou sendo chata?”

Motivada por esse complexo de perfeição, que tanto faziam parte das minhas crises de ansiedade, vou começar a publicar aqui mais informações sobre as cenas cotidianas, independente de quem ache interessante ou não. Desde o início deixei claro que este blog não era para falar sobre roteiros de passeios, dar dicas de restaurantes ou de festas, até porque existem dezenas de blogs que fazem isto e tenho um projeto paralelo relacionado à dicas específicas de San Diego. Este espaço é para falar de impressões, de sentimentos, de observações e vivências de alguém que deixou tudo para trás e resolveu começar de novo. Aqui é a vida real, sem máscaras, sem maquiagem e sem filtros.

Esses dias estava trocando mensagens com as minhas melhores amigas sobre rotina e uma delas comentou “Como é engraçado, se tem rotina aí também!”. Eu dei risada e depois comecei a pensar sobre esse tópico.

Sim, sou uma privilegiada por morar perto de uma praia, na Califórnia, mas aqui temos também que trabalhar, pagar contas, estudar, fazer supermercado, ir ao médico, resolver problemas burocráticos no banco e no DMV (Detran daqui), lavar roupa, levar o lixo pra rua, fazer comida, limpar a casa…. Enfim, tarefas padrões que devem ser feitas em qualquer lugar do mundo e que criam, querendo ou não, uma rotina, já que você precisa se organizar para fazer tudo o que precisa e sem deixar as coisas acumularem.

E em tudo que eu faço
Existe um porquê
Eu sei que eu nasci
Eu sei que eu nasci pra saber

Confesso que tem um lado meu que gosta de rotina, pois ela é sinônimo de segurança. Porém, aqui eu aprendi a diversificá-la. Agora que é inverno, não consigo ir muitas vezes para a praia. Mesmo assim, pelo menos a cada 15 dias tento ver o mar, seja num passeio de final de semana, seja nos dias de pedalada. Quando vejo o mar, bate um sentimento de que estou de férias, livre de qualquer problema ou compromisso, aberta para receber energias boas e deixar ir embora aqueles pensamentos ruins.

Como o meu trabalho tem variações constantes de horários, toda semana eu preciso reorganizar minhas tarefas rotineiras e isto já me ajuda a tentar escapar da rotina enjessada, aquela na qual você faz sempre as mesmas coisas nos mesmo horários, encontra sempre as mesmas pessoas no ônibus, no trabalho, na hora do exercício. Estou sempre pegando o ônibus em horários diferentes, pedalando em momentos diferentes, trabalhando com pessoas diferentes (como a escala muda para todo mundo, nem sempre são os mesmos colegas que estão ao meu lado). A única coisa que não muda são os horários das aulas de inglês. Contudo, toda semana entra algum colega novo na escola e este pequeno detalhe já muda tudo, pois sempre se aprende algo interesante com quem é de outro país.

Todos os finais de semana também tentamos fazer coisas diferentes, com grupos de amigos diferentes, e decidimos no máximo com um dia de antecedência a programação. Praticar o desapego de agendas fechadas e repetição de atividades consideradas de lazar também é  uma forma sair da rotina.

Porém, por aqui parece que se entregar para a rotina é perder um tempo precioso, pois existe uma cobrança própria de aproveitar ao máximo cada segundo neste lugar incrível. Infelizmente, não dá pra passar o dia na praia tomando sol, pegando onda, lendo um livro, tirando fotos, cantando com os artistas de rua, fazendo novos amigos. Por isso mesmo, tento fazer logo o que é preciso para conseguir ter um tempo de folga e curtir San Diego. Mas quando dá para deixar de lado as obrigações, eu deixo e vou lá viver a Califórnia. Afinal, a gente nunca sabe quando terá esta oportunidade novamente.

E fui andando sem pensar em voltar
E sem ligar pro que me aconteceu
Um belo dia vou lhe telefonar
Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu

Quando paramos para pensar, a rotina nada mais é do que a repetição constante de ações que nos são conhecidas e, por isso, parecem seguras. Mas não significa que elas são de fato seguras. Em um belo dia, algo pode acontecer e acabar, ou reinventar, o processo daquela ação que era tão conhecida.

Pode ser que a sua empresa mude de endereço e você precise rever todos os trajetos para chegar ao novo local (além de onde estacionar o carro, ou qual ônibus pegar, ou ainda ver quais restaurantes próximos aceitam o vale-refeição). Pode ser que os horários da sua aula de box/yoga/pilates/dança mudem e você precise reorganizar sua agenda. Pode ser que você quebre um braço e precise reaprender a fazer coisas simples da vida até tirar o gesso. Pode ser que…

A infinidade de “pode ser que” é tamanha, que o ser humano acaba criando uma rotina para não enlouquecer pensando em todas as possibilidades de mudança que a vida pode proporcionar. E hoje estou falando apenas de mudanças simples de rotina, nem vou entrar no mérito de mudancas que incluem grandes perdas.

No ar que eu respiro, uu
Eu sinto prazer
De ser quem eu sou
De estar onde estou

Então, independente do lugar do mundo que você esteja, vai existir rotina, cabe a você tentar fazer com ela seja boa – ou menos pior. E também cabe a você, e somente a você, tentar diversificar as formas de encarar as atividades repetitivas que precisam ser feitas.

Você pode começar, assim como eu, trocando a cozinha da sua casa por um café na hora de fazer algum freela, homework ou homeoffice. Sempre dá pra fazer uma amizade ou ao menos descobrir um novo café. Quando for ao supermercado, tente trocar algum item que você sempre compra por algo que nunca provou (claro que seguindo a mesma faixa de preço). Esses tempos comprei um chips de batata doce (pra matar a vontade do chips tradicional) e amei! Experimentar novos sabores, na maioria das vezes, é algo muito prazeroso. Quando estiver indo para o trabalho, coloque uma playlist que nunca escutou para rodar. O Spotify é gratuito e oferece uma lista enorme de opções (além de funcionar em qualquer celular)! Dê uma chance para um título alternativo de filme ao invés de assistir sempre aos mesmos estilos. Tenho certeza que você vai se surpreender com o cinema “Lado B”.

Poderia passar o dia listando sugestões de coisas que podem ser feitas de forma diferente, mas basta dizer que é preciso abrir os olhos e o coração todos os dias para ver o mundo sob outro ângulo. Não é preciso morar do outro lado do mundo para experimentar, todos os dias, algo diferente.

Toda mudança começa com simples ações 🙂