“Ô pacato cidadão, te chamei a atenção não foi à toa, não”

É fato que trabalho é trabalho em qualquer lugar do mundo. Contudo, cada país tem suas prórpias leis e regras que devem ser respeitadas e seguidas.

Nos Estados Unidos, a United States Labor Law regula os direitos e deveres dos empregados e uniões, porém existem leis trabalhistas específicas para cada estado, assim como salários, taxas e regras de trânsito, por exemplo. Por isso, antes de procurar emprego, sempre é bom saber quais são os seus direitos e deveres naquele lugar específico.

E tracei a vida inteira planos tão incríveis
Tramo à luz do sol
Apoiado em poesia e em tecnologia
Agora à luz do sol

A maioria dos pontos que vou citar aqui, eu vivenciei na época que trabalhava na loja. Como ela pertence a uma rede grande e possui milhares de funcionários em todo país, eu via muitos desses casos acontecendo com os meus colegas diariamente.

  • O valor mínimo pago por hora de trabalho na Califórnia é $10. Geralmente, esse é o valor pago pela maioria dos estabelecimentos comerciais. Funcionários de bares e restaurantes podem receber um valor por hora menor, pois ganham 20% em gorgeta, mas alguns lugares pagam o valor mínimo de $10 + gorgetas. Para cada profissão também existe uma média de valor anual (aqui nos EUA o salário sempre é dito em valor anual e não mensal como no Brasil) e é importante fazer esta pesquisa antes de aceitar qualquer proposta.
  • Não existe 13o salário. Porém, muitas empresas (especialmente as grandes) fazem avaliação do funcionário no final do ano e, se ele se destacou e atingiu as metas estabelecidas, pode ganhar bônus e aumento de salário.
  • Muitas empresas pagam os funcionários a cada 15 dias. Funcionários de bares e restaurantes costumam receber semanalmente.
  • A licença maternidade não é remunerada e a mulher pode ficar afastada até 12 semanas. Já soube de casos em que as mães optaram por voltar antes desse tempo, porque precisavam do dinheiro e também porque tinham medo de perder o seu cargo.
  • Cada empresa também define o número de dias que o funcionário pode se ausentar por motivos de doença, o chamado “call sick”. Claro que, se a doença for grave, aí entram outras leis, mas se passar dos dias acordados, o funcionário fica sem receber durante o período que estiver ausente. De forma geral, você tem tantos dias por ano (na maioria das empresas são 8 dias por ano no primeiro ano de trabalho e depois vai aumentando) para ficar doente e não ter desconto no salário.
  • Cada empresa determina quantos dias de férias os seus funcionários terão direito. Esse tempo pode variar de 10 a 20 dias após um ano de trabalho. Empresas maiores podem usar a seguinte regra: a cada ano completado na empresa, o funcionário passa a ganhar 1 dia a mais de férias por ano. As férias podem ou não ser pagas e isso é definido no acordo que o funcionário fez com a empresa.
  • Nos Estados Unidos não existem tantos feriados como no Brasil e os americanos não dão muita importância pra eles. Por isso, é bem comum as pessoas trabalharem durante os feriados e isso significa ganhar a mesma coisa do que nos outros dias. Os feriados em que as pessoas realmente param são o Dia da Independência, Acão de Graças e Natal.
  • As taxas mensais descontadas do salário são de 6.2%, que é retido para o Social Security (aposentadoria), e 1.45%, que vai para o Medicare (saúde). O valor descontado do imposto de renda depede do valor que você ganha, quantos dependentes tem, estado civil, possíveis deduções, isenções e créditos.
  • O total de horas semanais trabalhadas varia conforme a área, pois é possível fazer meio turno de 20h ou turno integral de 40h. O pagamento das horas extras também depende da empresa, que escolhe se vai ser em dinheiro ou folga. Diferente do Brasil, aqui não existe adicional por trabalho realizado durante o final de semana. Ou seja, se você trabalha sábado e domingo, continua ganhando o valor hora acordado por hora e ponto. Porém, quando o empregado trabalha mais que as horas do seu turno parcial ou integral, a empresa precisa pagar 1.5 vezes o valor da hora do empregado.
  • O horário de almoço varia entre 30 minutos e 1 hora, e os intervalos de 15 minutos geralmente acontecem a cada 4 horas de trabalho (era assim na loja). Na empresa onde trabalho agora, o almoço tem duração de 30 minutos e a cada hora eu tenho direto a alguns minutos de pausa. No fim, o que acaba acontecendo na maioria dos escritórios, é que as pessoas levam sua própria comida para não perderem tempo de locomoção até um restaurante. Eu levo todos os dias o meu almoço, pois não tenho muitas opções de restaurantes ao redor da empresa. Ou seja, marmita é algo comum por aqui e ninguém tem vergonha de tirar seu pote da bolsa e colocar na geladeira/microondas. Mas almoçar na frente do computador significa para todos os seus colegas que você está trabalhando. Então, não estranhe se eles vierem falar de trabalho enquanto você está comendo. Já tive que esquentar a marmita várias vezes por causa disso 😉
  • Aqui, não existe recisão como no Brasil. Se você sai da empresa por vontade própria, irá receber o que está sendo devido de horas trabalhadas e era isso. Mas você deve avisar sobre a sua saída com pelo menos duas semanas de antecedência, assim a empresa consegue achar outra pessoa ou realocar alguém para cobrir o seu lugar. É tipo um acordo de cavalheiros. Alguns estados adotam o sistema empregatício “at will”, onde empregadores podem demitir sem justa causa e sem necessidade de aviso prévio. Em caso de demissão em massa (mais de 50 empregados), as leis empregatícias exigem que o anúncio seja dado com 60 dias de antecedência e os empregados devem ser pagos no próximo dia de pagamento seguinte à data oficial da demissão.

Pacato cidadão
Ô pacato da civilização
Pacato cidadão
Ô pacato da civilização

No início, a gente acha que não tem direito nenhum, mas depois se dá conta que nem o empregado e nem o empregador pagam tantos impostos, e que a flexibilidade das regras permite com que a relação entre ambas as partes seja muito melhor. Eu não sou especialista em leis trabalhistas. Por isso, se você tem dúvidas, vale dar uma pesquisada na internet ou falar com um advogado 😉

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“Veraneio Vascaína vem dobrando a esquina”

Faz um tempo que não posto aqui no blog, mas a visita dos meus pais e o emprego novo acabaram sendo o meu foco no último mês.

Nesse meio tempo, aconteceram várias coisas, mas uma delas eu acho especialmente importante compartilhar com vocês. Há três semanas atrás, celebrei meu aniversário no Fanuel Street Park, localizado em Mission Beach, San Diego. O parque é muito bonito, cheio de grama e árvores, com parquinho para as crianças e em frente à baia. Lugar perfeito para fazer um churrasco com os amigos. Pois bem, foi o que pensei. Então, convidei mais de 20 amigos lindos e meus pais para comemorar comigo a chegada dos 2.9. Como em todo churrasco que fazemos por aqui, levamos a farofada e as bebidas.

O consumo de bebidas alcoólicas e o porte de garrafas de vidro são proibidos em praias e parques aqui em San Diego (apenas alguns parques permitem, mas são raros). Porém, é extremamente comum você ver as pessoas levando latinhas ou long necks dentro do cooler e servindo a bebida em copos descartáveis coloridos (aqueles famosos copos vermelhos que vemos em todos filmes de comédia americana). Então, como bons brasileiros, sempre seguimos esse mesmo modelo dos gringos malandros que levam bebida para lugares públicos.

O aniversário corria muito bem e alegre até certa hora da tarde, quando um carro da polícia, estilo carrinho de golfe, veio parar no meio da turma. Os policiais disseram que tinham recebido uma denúncia dos vizinhos de que estávamos bebendo cerveja. Àquela altura, já não tínhamos o que fazer para esconder nada, então permitimos que eles olhassem nossos coolers. Obviamente, eles encontram as cervejas e pediram uma explicação. Daí em diante nem é preciso explicar mais nada. Os policiais acabaram perguntando quem eram os donos dos coolers e começaram a fazer as multas. No fim, eu e uma amiga recebemos multa por portar garrafas de vidro e bebida alcoólica, outra amigo recebeu multa por estar portando garrafas de vidro (elas estavam vazias dentro do cooler dele) e outro amigo recebeu uma multa por estar segurando um copo com cerveja.

Não preciso nem dizer que o aniversário acabou por ali. Claro que fique muito chateada e envergonhada por meus convidados receberem multas na minha festa e por eu receber uma multa também, a primeira da minha vida, na frente dos meus pais, ainda por cima no Dia dos Pais aqui nos Estados Unidos. Mas o erro foi nosso.

Por mais incrível que pareça, os policiais foram extremamente educados e tranquilos durante todo o tempo. O trabalho deles foi muito mais de conscientização do que de aplicar uma multa. E isso é o que quero destacar neste texto. A polícia precisa dar a multa para a pessoa aprender, para doer no bolso e para ela não repetir mais esse erro. Durante todo o tempo que eles estiveram conosco, os policiais explicaram o quão perigoso é portar garrafas de vidro em parques e praias; o quanto isso pode machucar alguém, especialmente crianças e animais; o quanto é perigoso beber e dirigir, etc. Saímos todos dali com sentimento de culpa e entendemos que estávamos errados.

No meu caso e da minha amiga que estávamos portado os coolers e não fomos pegas bebendo, existe uma multa específica. Você tem uma chance de não ir pra corte prestar esclarecimentos se, dentro de cinco dias após o recebimento da multa, entrar no site que o policial indicar, pagar uma taxa de $40 e prestar trabalho voluntário. Esse trabalho voluntário consiste em assistir 2h de aula teórica e 4h de limpeza de uma praia ou parque.

O policial nos explicou que o lugar onde estávamos era perigoso tempos atrás e que foi através do trabalho da vizinhança, de denunciar e ajudar a polícia, que ele se tornou um bom lugar hoje em dia. Então, os vizinhos sempre irão fazer esse tipo de denúncia quando eles verem que alguém está desrespeitando as regras do lugar. E para isso também existe uma placa com as regras do lugar em todos os parques e praias, a qual ignoramos.

Cheguei em casa naquele dia e fui direto acessar o site indicado pelo policial. Ainda estou esperando a cartinha dizendo quando terei que assistir à aula e fazer o voluntariado. Meu amigo que foi pego com o copo de cerveja na mão não teve a mesa sorte. No caso dele, ele precisa ir direto para a corte prestar esclarecimentos e certamente o valor da multa será maior.

Talvez a cartinha nunca chegue, talvez leve mais uma mês, mas o fato é que eu não fui mais pra praia levando nenhum tipo de bebida que não seja água ou suco em garrafas plásticas. Diferente do Brasil, aqui não existem quiosques na beira da praia que vendem comida e bebida, tampouco pessoas passando com isopor e vendendo aqueles lanches tão maravilhosos como milho, queijo assado, biscoito globo, esfiha, etc. É proibido. Por isso, é muito comum cada um levar seu isopor/cooler com os seus suprimentos para o dia. É por isso também que eu digo que os gringos são muito mais farofeiros que nós, até porque eles não têm outra opção.

Mas voltando ao ponto principal, fica aqui o meu alerta. Se você for para qualquer lugar público em San Diego, não leve bebidas alcoólicas ou garrafas de vidro. E, se levar, fique consciente das consequências que isso pode acarretar. Por aqui, a famosa frase “mas eu não sabia, eu sou só turista” não funciona. Aqui não existe jeitinho, conversa ou propina. A regra é lei, sem exceção, e ela se aplica a qualquer um, independente de quem você é e de onde você vem.

 

“Sem trabalho eu não sou nada. Não tenho dignidade. Não sinto o meu valor. Não tenho identidade”

Depois de um ano e quatro meses morando em San Diego, finalmente, posso dizer: consegui um emprego na minha área! Mas para chegar até aqui foram muitos os passos dados, dezenas de tentativas e vários momentos de frustração. Ao mesmo tempo, foi um período de intenso aprendizado, autoconhecimento e determinação.

Algumas pessoas que acompanham o blog conhecem um pouco da minha saga, então vou tentar resumir o processo todo em um parágrafo. Levei seis meses para ter em mãos a permissão de trabalho (concedida para vistos específicos), um mês e meio para conseguir emprego na parte de serviços (que é o forte de San Diego) e oito meses para conquistar um emprego na minha área.

Confesso que durante os dois primeiros meses que eu entrei na loja, dei um tempo para as buscas, pois queria me focar no novo trabalho, lidar com a nova rotina e aprender todos os processos da empresa para conseguir manter o meu cargo e o meu salário. Depois do período de adaptação, voltei aos meus objetivos pessoais.

Muita gente tem a ilusão de que com a permissão de trabalho tudo é muito mais fácil, mas não é bem assim. O documento abre mais portas para você conseguir emprego na parte de serviços, com toda certeza, porém para vagas especializadas, é tão difícil quanto. Além disso, o documento não interfere no salário. O valor mínimo pago na Califórnia é $10 por hora e esse é o padrão da maioria das lojas, supermercados, bares, restaurantes e serviços em geral. Quem trabalha em restaurante ou bar consegue ganhar mais, pois recebe gorjetas. Quem é babá geralmente consegue fazer entre $12 e $15 por hora.

Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade

Então, se você vem de um histórico no Brasil com um bom cargo, salário, férias e todas as regalias das leis trabalhistas, pode começar a praticar o desapego e a paciência, caso você venha sem emprego na sua área previamente acertado por aqui.

Quero alertar que este não é um post para desanimar ninguém, muito pelo contrário. Quero é mostrar a realidade americana e a importância de se planejar e ter persistência. O sonho de morar em outro país e fazer dinheiro é algo que exige muito empenho. O mundo todo passa por uma crise, então realmente não está fácil conseguir emprego, agora imagine para quem não tem documentos.

Acredito seja mais fácil conseguir emprego em outros estados americanos ou países não tão turísticos, contudo a Califórnia recebe todos os anos milhares de imigrantes do mundo todo que estão tentando, assim como nós, uma vida melhor e isso faz com que a disputa por um cargo seja maior e, consequentemente, o valor por hora baixe. Sei de pessoas que trabalham com “bicos” por aqui e recebem muito menos dinheiro hoje do que há 5 anos atrás. Ser babá por aqui pagava muito bem tempos atrás. Hoje, vejo anúncio oferecendo $10, $12 e, em poucos casos, $15 a hora. E ainda tem gente que trabalha por menos, porque realmente precisa.

Ainda considero os EUA como um lugar cheio de oportunidades, mas aqui, assim como em qualquer lugar do mundo, você precisa ter referências, experiência, inglês fluente (isso varia de acordo com a função), carro próprio (varia também) e provar que é dedicado, comprometido e bom naquilo que faz para conquistar a confiança.

Eu tenho o meu ofício
Tem gente que não tem nada
E outros que tem mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar

Os americanos são bem exigentes em termos de pontualidade, produtividade e rapidez. E, como isso é cultural, eles sempre desconfiam de quem vem de outros países, outras culturas, pois muitas vezes não sabem como é a cobrança e a entrega do trabalho por lá. Por sorte, viemos de um país onde a maioria das pessoas trabalha muito, então pra nós é normal já chegar, fazer acontecer e entregar mais que o esperado. Por isso, o brasileiro, na maioria das vezes, tem um crédito grande por aqui.

Eu tentei indicação (obrigada ao sócios da W3Haus por serem tão queridos e continuarem ajudando os ex-funcionários com tanto carinho e empenho) e consegui uma entrevista. Infelizmente, não deu e eu não consegui descobrir o motivo para poder melhorar nas próximas oportunidades.

Depois disso, só consegui fazer mais uma entrevista presencial em um cargo próximo à área, mas como era muito técnico e eu não sou formada em Análise de Sistemas, não deu também. Daí em diante fiz mais uma entrevista por telefone para um cargo semelhante e não consegui mais nada.

Dedicada de uma a duas tardes ou manhãs por semana, dependendo do meu horário na loja, para enviar currículos. Foram quase duzentas tentativas. Fui em duas agências de emprego pra ver se conseguia ajuda ( e aqui agradeço de coração aos sócios da Brivia e da 3yz pelo envio de referências, vocês continuam fazendo a diferença na minha carreira e na minha vida <3). Porém, até hoje não recebi uma vaga deles.

Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
De todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar

Quando as minhas alternativas já estavam se esgotando e eu estava até pensando em começar a procurar emprego em outras cidades e, com isso, ter que me mudar, apareceu uma vaga em um dos sites que eu sempre buscava. Apliquei, fui chamada para uma entrevista, depois para uma segunda e então veio a tão sonhada resposta: sim, você está contratada!

Passado quase um mês, ainda não acredito que é verdade. Nas duas primeiras semanas, achei melhor não contar pra quase ninguém (vai saber se ia dar certo). Hoje, digo com todo orgulho que consegui e, por mais que pensasse em desistir em alguns momentos, eu continuei.

Acredito muito que quem faz o bem, recebe o bem, e uma hora ou outra chega a sua vez de brilhar na vida. Eu só não sabia que demorava tanto! Mas a Califórnia tem me ajudado todos os dias a aprender o significado de PACIÊNCIA e PERSEVERANÇA.

Obs.: vou contar mais detalhes sobre o processo de busca por emprego por aqui na página da Família nos Estados Unidos. Curtam lá 😉

“And as I looked around, I began to notice. That we were nothing like the rest”

Acredito que um dos melhores presentes que a Califórnia me deu foi a sensação de ser livre e a oportunidade de poder viajar com frequência. Por mais que eu tenha uma vida cheia de obrigações, aqui, eu posso conhecer lugares incríveis sem precisar viajar milhares de quilômetros. Aqui, eu posso planejar trips que jamais imaginaria fazer alguma vez na vida e gastar muito pouco dinheiro.

Faz um ano e quatro meses que estamos morando na Califórnia e já conhecemos muitos lugares, pois é barato e fácil viajar. San Diego está numa região bem localizada, por isso muitas vezes é só preciso pegar o carro, dirigir uma ou duas horas e o seu destino estará logo ali. Dependendo do tempo e da grana que se têm, às vezes não é nem preciso passar a noite no lugar, gastando com hospedagem, por exemplo. Dá para fazer o famoso “bate e volta”.

Ano passado, conhecemos Palm Springs, Joshua Tree, Salton Sea, Temecula, Big Bear, Mammoth, Santa Bárbara, Oceanside, Malibu, Laguna Beach, Santa Mônica, Trestels e até Tijuana e Ensenada, cidades localizadas no México. Este ano, já fomos para San Francisco e Los Angeles. Porém, também tivemos a oportunidade única de ir ao Coachella, um dos maiores e mais famosos festivais de música dos Estados Unidos. O festival, que começou oficialmente em 1999, acontece anualmente na cidade de Índio, na Califórnia, e tem a duração de dois finais de semana (contando sexta, sábado e domingo).

I heard them calling in the distance
So I packed my things and ran
Far away from all the trouble
I had caused with my two hands
Alone we traveled on with nothing but a shadow
We fled far away

Assim que os ingressos foram colocados à venda, no final do ano passado, garantimos a nossa presença. Logo depois, começamos a pesquisar algumas casas, pois iríamos com uma turma grande de amigos. Porém, no fim optamos por alugar um RV (o motorhome daqui) e ficar em um camping próximo ao evento. Certamente essa foi a melhor escolha que poderíamos ter feito. O RV tem um custo-benefício exelente se comparado com o aluguel de um motel (hotel barato daqui) ou de uma casa, já que os preços triplicam na época do evento. Fomos em 6 pessoas (mas existem opções para turmas maiores e menores) e todos dormiram confortavelmente. O RV oferece todo o conforto de uma casa sobre quatro rodas (banheiro, cozinha, ar-condicionado, camas, sofás, armários) e não gasta muita gasolina. Fomos e voltamos do evento, que fica a duas horas e meia de San Diego, e gastamos 3/4 de tanque. Você também pode levar toda a sua comida, já que tem geladeira, pia e fogão pra cozinhar. Por isso, fizemos um bom rancho antes de ir e comíamos bem todas às manhãs, antes de sair e quando voltávamos. Assim, gastávamos muito pouco comendo no evento (as coisas não são muito caras. A média fica entre $7 e $10 por um lanche, $2 por uma garrafa de água e $10 por um copo de cerveja).

O camping foi outro grande acerto da trip. Ficamos a 30 minutos do evento, mas tínhamos uma infraestrutura maravilhosa: piscina, jacuzi, banheiros com chuveiros, café da manhã, sem contar todo o sistema de água, luz e esgoto oferecidos para os RVs. Todos os dias, o camping disponibilizava um ônibus (em horários específicos) para levar e buscar os hóspedes que estavam ali apenas pelo Coachella. Claro que pagamos pelo serviço, mas a economia foi bem grande se compararmos com a grana que gastaríamos com estacionamento (fora o cansaço e o perigo em voltar dirigindo) ou com Uber, que chegava a custar quatro vezes mais que uma corrida normal devido a quantidade de gente que estava buscando o serviço.

Enfim, a experiência com o motorhome foi tão positiva, que já estamos planejando fazer outras trips com ele. E agora, eu também passei a entender o porquê de muitas pessoas optarem por morar em um RV.Você tem tudo que precisa e ainda pode levar a sua casa para qualquer lugar do mundo. Na Califórnia, existem dezenas de pessoas que fazem isso, inclusive existem campings em vários lugares onde é possível pagar uma taxa mensal para poder estacionar a “sua casa”. Também é comum ver vários RVs nos estacionamentos públicos das praias e dos parques de San Diego.

Hold your horses now
(Sleep until the sun goes down)
Through the woods we ran
(Deep into the mountain sound)
Hold your horses now
(Sleep until the sun goes down)
Through the woods we ran

Agora, falando sobre o Coachella…..Por mais que eu tivesse visto fotos e lido algumas matérias sobre o festival, nenhuma descrição conseguiu representar a sua verdadeira grandiosidade. Desde o momento que eu desci do ônibus e caminhei até a entrada final (o que leva meia hora) eu não estava acreditando que aquele lugar no meio do deserto era real, parecia uma miragem.

Imagine que em média 200 mil pessoas passam pelo festival durante os dois finais de semana, o que é MUITA gente! Então, para oferecer o melhor serviço para toda essa galera, existem dezenas de barraquinhas de comida, lojinhas, banheiros, além de muitas pessoas trabalhando ao redor do lugar como seguranças, médicos e enfermeiros, e diversos outros funcionários que ajudam você a achar o seu estacionamento, seu acampamento (o Coachella tem um espaço para camping, mas é mais caro), seus amigos…

Os portões abrem às 11h da manhã e o festival termina às 2 da madrugada na sexta e no sábado, e à 1h no domingo. Acha pouco? Nós geralmente chegávamos às 15h e ficávamos até o final, o que dava uma média de 10/11 horas de evento aproveitado, o que foi MUITO para o nosso corpo. Aí tem um ponto importante: eu fiquei extremamente feliz por estar fazendo exercícios físicos nos últimos meses, pois você precisa ter um mínimo de preparo físico para conseguir curtir o festival ao longo dos três dias.

Como são dezenas de bandas tocando ao mesmo tempo e o lugar é ENORME, você caminha de um lado para o outro o tempo todo. Claro que dá para sentar, deitar e até dormir na grama, mas não dá pra ficar muito tempo no descanso, pois o mundo Coachella não pára pra você se recuperar.

Além dos palcos principais e das grandes tendas, existem tendas menores de música eletrônica que sempre estão com algum DJ fazendo a festa. Eu, que estava mais pelos shows de rock, indie e acústicos, acabei me rendendo em muitos momentos.

Um ponto que nos convenceu a não chegar muito cedo todos os dias, além do cansaço, foi o calor. Imagine que o festival é no meio do deserto e as temperaturas chegam aos 40 graus. Por isso, não dá para esquecer do protetor solar para o rosto, lábios e corpo, além de estar o tempo todo tomando água. À noite, ficava mais fresco, em torno de 20 graus, e era preciso sempre levar um casaquinho.

Some had scars and some had scratches
It made me wonder about their past
And as I looked around I began to notice
That we were nothing like the rest

Como é permitida a entrada de crianças e menores, as áreas que vendem bebidas álcóolicas para maiores de 21 anos são fechadas. Ou seja, você precisa, todos os dias, mostrar seu documento, pegar uma pulseirinha (todos os dias a cor da pulseirinha muda) e depois parar nas filas para entrar nesses lugares. Eu vi poucas crianças, mas a quantidade de adolescentes é realmente impressionante se comparada com pessoas mais velhas.

Nos três dias do evento, não vi nenhuma briga ou confusão, apenas algumas pessoas passando mal do calor e da bebida, o que é perfeitamente normal em qualquer festival ao ar livre. Nem nos maiores shows, como no do Guns N’ Roses, por exemplo, fomos empurrados ou nos sentimos apertados/sufocados. As pessoas respeitam o seu espaço. Por isso, era comum ver no meio da multidão que estava assistindo a um show, pessoas sentadas ou deitadas e todo mundo passando ao redor e respeitando a opção delas de não estarem de pé.

O que me deixou mais encantada com toda a experiência foi a atmosfera do lugar. Ver o pôr do sol era o momento mais incrível do dia, pois você olhava ao redor e via muitas montanhas e palmeiras, milhares de pessoas cantando, sorrindo, dançando e não se importando com o que o mundo estava pensando sobre elas naquele momento.

Além da música, o Coachella é um festival de arte. Você encontra esculturas, luminosos, construções e letreiros por todos os lugares. É inspirador estar ali, mesmo quando você não está vendo algum show, pois a arte toma conta do lugar e de você. O jeito de vestir das pessoas também é algo à parte. O look padrão é o estilo hippie chic, mas todo mundo encontra a sua forma de deixar o visual com um toque pessoal. Ao mesmo tempo, existem pessoas que vão fantasiadas (vi muitos unicórnios, alguns super-heróis, um minion e até um pikachu), outras seguem um estilo gótico, outras ainda optam pela linha nudes.

Amei a experiência e recomendo pra todo mundo. Se você tiver a oportunidade de ir ao Coachella, vá! Você estará no fim do mundo sentindo por todos os seus poros uma energia que mistura música, arte e pessoas dos mais variados estilos e lugares. Depois, você terá uma vida inteira para recordar e contar as histórias que viveu, as bandas que conheceu e os amigos que fez ❤

Whoa-oh-oh-oh-oh We sleep until the sun goes down Whoa-oh, whoa-oh We sleep until the sun goes downWhoa-oh-oh-oh
We sleep until the sun goes down

La la la, whoa-oh-oh-oh-oh
La la la, we sleep until the sun goes down
La la la, whoa-oh, whoa-oh
La la la, we sleep until the sun goes

“Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer”

 

Eu penso em tantas coisas diariamente para escrever aqui e tentar ajudar quem está passando por esta fase constante de aprendizados e transformações, mas fico criando mil desculpas para não publicar. A principal delas é:”o que as pessoas vão pensar?”. E depois vêm os acompanhamentos: “o que elas vão dizer? será que vou conseguir transmitir o que quero? será que elas vão achar interessante? será que não estou sendo chata?”

Motivada por esse complexo de perfeição, que tanto faziam parte das minhas crises de ansiedade, vou começar a publicar aqui mais informações sobre as cenas cotidianas, independente de quem ache interessante ou não. Desde o início deixei claro que este blog não era para falar sobre roteiros de passeios, dar dicas de restaurantes ou de festas, até porque existem dezenas de blogs que fazem isto e tenho um projeto paralelo relacionado à dicas específicas de San Diego. Este espaço é para falar de impressões, de sentimentos, de observações e vivências de alguém que deixou tudo para trás e resolveu começar de novo. Aqui é a vida real, sem máscaras, sem maquiagem e sem filtros.

Esses dias estava trocando mensagens com as minhas melhores amigas sobre rotina e uma delas comentou “Como é engraçado, se tem rotina aí também!”. Eu dei risada e depois comecei a pensar sobre esse tópico.

Sim, sou uma privilegiada por morar perto de uma praia, na Califórnia, mas aqui temos também que trabalhar, pagar contas, estudar, fazer supermercado, ir ao médico, resolver problemas burocráticos no banco e no DMV (Detran daqui), lavar roupa, levar o lixo pra rua, fazer comida, limpar a casa…. Enfim, tarefas padrões que devem ser feitas em qualquer lugar do mundo e que criam, querendo ou não, uma rotina, já que você precisa se organizar para fazer tudo o que precisa e sem deixar as coisas acumularem.

E em tudo que eu faço
Existe um porquê
Eu sei que eu nasci
Eu sei que eu nasci pra saber

Confesso que tem um lado meu que gosta de rotina, pois ela é sinônimo de segurança. Porém, aqui eu aprendi a diversificá-la. Agora que é inverno, não consigo ir muitas vezes para a praia. Mesmo assim, pelo menos a cada 15 dias tento ver o mar, seja num passeio de final de semana, seja nos dias de pedalada. Quando vejo o mar, bate um sentimento de que estou de férias, livre de qualquer problema ou compromisso, aberta para receber energias boas e deixar ir embora aqueles pensamentos ruins.

Como o meu trabalho tem variações constantes de horários, toda semana eu preciso reorganizar minhas tarefas rotineiras e isto já me ajuda a tentar escapar da rotina enjessada, aquela na qual você faz sempre as mesmas coisas nos mesmo horários, encontra sempre as mesmas pessoas no ônibus, no trabalho, na hora do exercício. Estou sempre pegando o ônibus em horários diferentes, pedalando em momentos diferentes, trabalhando com pessoas diferentes (como a escala muda para todo mundo, nem sempre são os mesmos colegas que estão ao meu lado). A única coisa que não muda são os horários das aulas de inglês. Contudo, toda semana entra algum colega novo na escola e este pequeno detalhe já muda tudo, pois sempre se aprende algo interesante com quem é de outro país.

Todos os finais de semana também tentamos fazer coisas diferentes, com grupos de amigos diferentes, e decidimos no máximo com um dia de antecedência a programação. Praticar o desapego de agendas fechadas e repetição de atividades consideradas de lazar também é  uma forma sair da rotina.

Porém, por aqui parece que se entregar para a rotina é perder um tempo precioso, pois existe uma cobrança própria de aproveitar ao máximo cada segundo neste lugar incrível. Infelizmente, não dá pra passar o dia na praia tomando sol, pegando onda, lendo um livro, tirando fotos, cantando com os artistas de rua, fazendo novos amigos. Por isso mesmo, tento fazer logo o que é preciso para conseguir ter um tempo de folga e curtir San Diego. Mas quando dá para deixar de lado as obrigações, eu deixo e vou lá viver a Califórnia. Afinal, a gente nunca sabe quando terá esta oportunidade novamente.

E fui andando sem pensar em voltar
E sem ligar pro que me aconteceu
Um belo dia vou lhe telefonar
Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu

Quando paramos para pensar, a rotina nada mais é do que a repetição constante de ações que nos são conhecidas e, por isso, parecem seguras. Mas não significa que elas são de fato seguras. Em um belo dia, algo pode acontecer e acabar, ou reinventar, o processo daquela ação que era tão conhecida.

Pode ser que a sua empresa mude de endereço e você precise rever todos os trajetos para chegar ao novo local (além de onde estacionar o carro, ou qual ônibus pegar, ou ainda ver quais restaurantes próximos aceitam o vale-refeição). Pode ser que os horários da sua aula de box/yoga/pilates/dança mudem e você precise reorganizar sua agenda. Pode ser que você quebre um braço e precise reaprender a fazer coisas simples da vida até tirar o gesso. Pode ser que…

A infinidade de “pode ser que” é tamanha, que o ser humano acaba criando uma rotina para não enlouquecer pensando em todas as possibilidades de mudança que a vida pode proporcionar. E hoje estou falando apenas de mudanças simples de rotina, nem vou entrar no mérito de mudancas que incluem grandes perdas.

No ar que eu respiro, uu
Eu sinto prazer
De ser quem eu sou
De estar onde estou

Então, independente do lugar do mundo que você esteja, vai existir rotina, cabe a você tentar fazer com ela seja boa – ou menos pior. E também cabe a você, e somente a você, tentar diversificar as formas de encarar as atividades repetitivas que precisam ser feitas.

Você pode começar, assim como eu, trocando a cozinha da sua casa por um café na hora de fazer algum freela, homework ou homeoffice. Sempre dá pra fazer uma amizade ou ao menos descobrir um novo café. Quando for ao supermercado, tente trocar algum item que você sempre compra por algo que nunca provou (claro que seguindo a mesma faixa de preço). Esses tempos comprei um chips de batata doce (pra matar a vontade do chips tradicional) e amei! Experimentar novos sabores, na maioria das vezes, é algo muito prazeroso. Quando estiver indo para o trabalho, coloque uma playlist que nunca escutou para rodar. O Spotify é gratuito e oferece uma lista enorme de opções (além de funcionar em qualquer celular)! Dê uma chance para um título alternativo de filme ao invés de assistir sempre aos mesmos estilos. Tenho certeza que você vai se surpreender com o cinema “Lado B”.

Poderia passar o dia listando sugestões de coisas que podem ser feitas de forma diferente, mas basta dizer que é preciso abrir os olhos e o coração todos os dias para ver o mundo sob outro ângulo. Não é preciso morar do outro lado do mundo para experimentar, todos os dias, algo diferente.

Toda mudança começa com simples ações 🙂

 

 

“Porque que eu sou apenas movimento. Sou do mundo, sou do vento. Nômade”

Devido aos últimos acontecimentos políticos e econômicos do Brasil, somados aos velhos problemas de falta de investimento em educação, saúde, segurança, empregos, etc., alguns amigos vêm falar comigo sobre o que é preciso para mudar de país e, consequentemente, de vida.

A resposta parece ser complexa, afinal você está deixando tudo para trás, então só pode ser algo muito difícil de ser feito. Mas na realidade a resporta é muito mais simples do que parece. Para ajudar nessa reflexão, sugiro que você assista ao vídeo que uma grande amiga fez contando como ela mudou de país com o marido e as duas filhas pequenas. Já adianto que concordo com 100% dos seus argumentos e faço este post com o objetivo de complementar suas ideias.

A minha casa está onde está o meu coração
Ele muda, minha casa não
No campo, em minas, terras gerais ou qualquer lugar
Onde estou, a minha casa está

Porque que eu sou apenas movimento
Sou do mundo, sou do vento
Nômade

Sei que muita gente não tem o sonho de morar em outro lugar e nem se imagina fora da sua cidade, do seu estado (então que dirá do Brasil!). Outros, já nascem com o chip que diz que eles são cidadões do mundo e gostariam de desbravar as oportunidades que podem aparecer. Eu, por exemplo, nunca tive o sonho de morar fora, sempre quis conhecer outro lugares, mas nunca me imaginei longe do meu país. Porém, os acontecimentos muitas vezes fazem com que você reveja seus conceitos e comece a cogitar uma vida melhor para si, para o seu companheiro ou para seus filhos.

Hoje, infelizmente, eu não consigo mais me imaginar no Brasil construindo uma família. Só de pensar que meus filhos não terão diversos espaços públicos para brincar, escolas públicas de qualidade, várias opções de apartamentos/condomínios com espaços para crianças sem ter que pagar o dobro do preço por isso, incentivo à prática de algum esporte ou o aprendizado de algum instrumento, empresas que oferecem empregos flexíveis para as mães e, principalmente, segurança em qualquer lugar que ele for com os amigos, eu já desisto da ideia de um dia poder começar uma família. Sei que estou sendo radical e tenho várias amigas com filhos no Brasil, porém eu acompanho a aflição delas de estarem o tempo todo com medo.

Como já disse em outros momentos, nem tudo são flores. Os Estados Unidos, assim como todos os países, tem seus problemas, algumas coisas que funcionam bem no Brasil não funcionam aqui, mas poder sair de casa sem medo de ser assaltado, machucado ou morto na rua é um tópico que supera todas as dificuldades.

Porque quando paro sou ninguém
Não declaro onde ou quem
Nômade

Meu endereço é o sítio estrelado de norte a sul
Ele muda a cada estação
Na boca do sertão, na varanda do seu olhar
Onde estou, a minha casa está

Então, o primeiro passo a ser dado é fazer o seu sonho/ideia virar realidade. É preciso ter planejamento financeiro, pesquisar bastante sobre o lugar, falar com amigos ou conhecidos que moram ou visitaram esse lugar, procurar um lugar para morar e alternativas de como se manter. Tem gente que guarda dinheiro e tira meio ano ou um ano sabático; outros vêm com visto de estudante, se matriculam em um curso e trabalham durante o tempo que estão fora da escola; outros vêm com visto de tursista e continuam tocando seus negócios no Brasil à distância; e assim por diante.

Planejamento racional de todas as necessidades que você irá ter é essencial, mas a vontade de querer mudar, de estar disposto a encarar o desafio, faz parte dos outros 50% do objetivo. E dentro da vontade está a prática do desapego e estar aberto ao novo estilo de vida que você irá levar. Não é porque você estará na Califórnia, na Tailândia ou em Sidney que nenhum problema irá acontecer e que será tudo lindo. Lembre-se que a cultura, a língua, a comida, o jeito de pensar e agir são totalmente diferentes do seu país.

Eu abri mão da minha carreira e ainda sigo na busca de um emprego na área. San Diego não é a melhor cidade dos Estados Unidos para eu me recolocar no mercado de tecnologia (nesta área o melhor seria morar em San Francisco ou Los Angeles), contudo sigo tentando. Enquanto isso, trabalho em uma loja de departamento e faço freelas. Confesso que foi difícil no início tirar da cabeça que eu estava rebaixando toda a minha escolaridade e minhas experiências profissionais. Hoje, eu vejo que estou aprendendo muita coisa nova e já consigo olhar de forma diferente para a minha carreira. Conheci pessoas, histórias de vida, aprendi novas coisas e até uma nova língua (estou cada dia melhor no espanhol). Então, mudar muitas vezes significa dar passos para frente, mesmo que eles sejam de formiguinha.

Porque quando passo sou alguém
Sou do espaço, sou do bem
Nômade

A minha carne é feita de tudo que vai e vem
Tempo, nuvem, aflição também
Encontro e perda ao mesmo tempo, eu não vou parar
Onde estou, a minha casa está

O problema de mudar é que só de pensar no esforço que será preciso empregar para colocar em prática a ideia, já faz com que muita gente desista. Mas mudar de país é algo realmente simples de ser feito, sério mesmo! Não é preciso anos de planejamento, no nosso caso levamos um ano entre a ideia e a materialização. Claro que cada caso é um caso, porém as dificuldades não podem fazer com que você se acomode. Assim como a maioria dos amigos que conheço aqui planejou sua mudança, outros vieram na cara e na coragem, só com a roupa do corpo. Sim, é muito mais difícil recomeçar assim, mas eles não ficaram sentados no sofá criando desculpas e sofrendo por antecipação sobre as coisas que iriam ter que enfrentar.

Abra sua visão, converse com amigos, vizinhos, pessoas no ônibus, no café. Faça uma lista de tudo que você irá precisar para mudar de país, assim como faça uma lista de tudo que você quer fazer nesse lugar (lugares para visitar, restaurantes, esportes…) e todos os dias ao levantar, olhe para as listas e siga sua meta. Leia livros e blogs sobre pessoas que mudaram de país e começaram uma nova vida. Entre nas comunidades no Facebook de brasileiros que vivem nesse lugar e faça perguntas, interaja, já vá se familiarizando com a realidade do lugar. Faça tudo que for possível para se sentir mais seguro sobre a sua escolha. Se der, visite esse lugar antes de fazer sua mudança definitiva, veja se ele realmente é aquilo que você imagina e que vai te fazer feliz.

É muito difícil sair da zona de conformo, mas eu garanto que depois que você faz isso uma vez, vai ficar constantemente se perguntando por que demorou tanto.

Mar doce lar, vasto e profundo, mais vasto é o meu coração, que não cabe nesse mundo e precisa transbordar

Este ano de 2015 certamente foi o mais fascinante de toda a minha vida. Dia 7 de dezembro completamos um ano de San Diego, de aprendizados e muita saudade. É incrível como a experiência de morar em outro país transforma uma pessoa. Você passa por tantos momentos incríveis, embaraçosos, trabalhosos, alegres e tristes; conhece gente de todo o canto do mundo; começa a dar ainda mais valor para as pequenas coisas da vida (como cheiros, gostos, lembranças…); e faz muitas descobertas.

Olhei pro mar, pra não me perder de vista
E vi uma onda solitária, correndo sem quebrar
Como se fosse ela uma surfista
A onda olhou pra mim, me convidou jogando a sua crista
Abrindo os braços como ninguém abre
E eu que não sou Cristo, mas entendo de milagre
Fui andando sobre as águas do jeito que só quem conhece sabe
Acorde num domingo, tome seu café
Pegue a sua prancha, tome a benção à mãe
Reze com fé e vai pro mar
Solitário surfista…

Entre tantas descobertas, destaco as que mais mudaram minha visão sobre o mundo e sobre mim mesma:

– Os amigos na verdade são a família que você escolhe;

– Não é fácil recomeçar, mas é possível;

– Temos muito preconceito guardado dentro de nós sobre os EUA e muitos “achismos” vão por terra já na primeira semana que você está aqui;

– A comida brasileira é a melhor (claro que o maior destaque é para o feijão, o pudim, o pão, a polenta, etc., da mãe);

– O cheiro da minha mãe e o abraço do meu pai são os melhores presentes que a vida me deu e dói muito todos os dias não ter este tesouro por perto;

– Você é muito corajoso e só descobre isso quando está bem longe de casa, sem ter nenhum conhecido por perto, falando outra língua e tendo que encarar uma nova cultura;

– A Califórnia é um dos lugares mais loucos e incríveis que existe, mas nem por isso significa que a vida nela é um eterno pôr do sol no Pacífico.

Mar doce lar, vasto e profundo, mais vasto é o meu coração
Que não cabe nesse mundo e precisa transbordar
Navegar não é preciso, é preciso surfar
Nada parado, tudo em movimento
O chão é a parede e é o teto ao mesmo tempo
A parede desabando e eu lá dentro, acelero e acelera o batimento
Tanto bate até que fura, água mole em pedra dura
Cada louco tem a sua loucura
Eu viajo por isso, quase sempre sem visto
A sereia me chama, eu não resisto
Sei que cada feiticeira tem a sua maneira de transformar
Uma laje de pedra em ouro maciço, parece feitiço
A sereia me chama, eu viajo por isso

Ando trabalhando muito, mas não na minha área; ganhando pouco, mas o suficiente para pagar os pequenos prazeres da vida; viajando muito, mas gastando pouco; estudando inglês menos do que deveria, mas garantindo um certificado de Project Manager no início do ano; escrevendo de menos, mas passando mais tempo com os novos amigos; fazendo exercício de menos, mas comendo melhor; conhecendo novas bandas, mas não deixando de curtir os clássicos; recebendo muitos amigos em casa, mas para mim o tempo com eles nunca é o suficiente; dando muita risada, mas não deixando de chorar nas datas que todo mundo passa com a família, ou naqueles dias que tudo dá errado e o que você quer é apenas um colo de “mainha” ou um abraço da sua melhor amiga.

As trips que fizemos não foram muitas, mais aqui por perto mesmo, porém foram intensas. Tivemos a chance de conhecer Big Bear, Mammoth, Temecula,Los Angeles, Santa Barbara, Malibu, Venice, Oceanside, San Clemente e tantas outras praias do litoral californiano. Vamos passar o ano novo em San Francisco e, antes de vir pra cá, fizemos uma trip de um dia no México, na qual conhecemos as praias de Rosarito e Ensenada.

Não posso deixar de citar as bandas que tivemos a oportunidade de ver ao vivo por aqui como Foo Fighters, John Butler Trio, Alabama Shakes, The Wailers, Sublime e Madonna. Os ingressos aqui são muito mais baratos que no Brasil, por isso nossa ideia é aumentar a lista para o próximo ano.

Cheguei na praia, olhei pro mar, entrei no mar
Entrei no mar, olhei pra onda, entrei na onda
Entrei na onda e fiz a onda até a areia
Entrei na onda que corre na minha aldeia
A minha onda não é uma onda qualquer
Da minha onda eu saio de cabeça feita
E na areia uma sereia com pernas de mulher
Mais perfeita do que a onda mais perfeita
Adivinhava o meu futuro com os seus óculos escuros
Me filmando nas esquerdas e direitas
Cheguei na areia e a sereia entrou no mar
E só de onda eu me deitei onde ela deita
Tubarão em pele de cordeiro, um ataque de surpresa
Predador virando presa, uma sereia com pernas de mulher
Perfeição ou perversão da natureza?

Termino 2015 com a certeza de que quem faz o ano ser bom ou ruim é você, e que 365 dias não são mais o suficiente para realizar meus sonhos. Ainda não trabalho naquilo que amo, mas continuo buscando algo que me faça feliz.

Lembro que, quando cheguei aqui, já não sabia quais eram meus objetivos de vida, pois tudo estava de pernas para o ar. Agora, a minha lista está gigante e eu vou precisar correr muito para não perder a próxima parada.

Posso continuar sendo uma solitária surfista, porém quando chego na areia tenho a certeza de que sempre terá alguém me esperando.

Que a onda de 2016 venha com tudo! Feliz Ano Novo 😉