“Eu não tenho data pra comemorar. Às vezes os meus dias são de par em par. Procurando agulha num palheiro.”

Andei afastada do blog, mas não foi por falta de tempo para escrever, e sim porque precisava resolver questões comigo mesma antes de externar minhas opinões e meus sentimentos. Nesse tempo, estudei, trabalhei bastante no voluntariado (agora são novamente duas vezes fixas por semana), fiz novos amigos e viajei. No próximo post vou relatar minha primeira trip pela Califa e trazer uma visão diferente sobre os lugares pelos quais passei. Porém, este post é para falar de um recomeço.

Recomeçar significa reencontrar ideias, projetos e uma pessoa que você havia perdido pelo caminho há algum tempo: você mesmo. Aquela pessoa que tinha sido engolida pelo stress da rotina maluca e pela zona de conforto. Ao reencontrar você mesmo, acontece um choque de mundos, quase um Big Bang. O “você antigo”, cheio de cicatrizes, manias e medos, descobre o “você novo”, completamente entusiasmado, cheio de planos e coragem. No primeiro momento, eles se estranham e até ficam emburrados um com o outro. Mas depois, eles descobrem que podem ser grandes amigos e ensinar um ao outro tudo o que sabem, criando um “você melhor”.

Acredito que uma boa viagem faz você alçar novos voos, descobrir novos horizontes, conhecer novas pessoas, aprender mais sobre o mundo e sobre si mesmo. Essa viagem não precisa ser para outro país, como foi meu caso, pode ser para a cidade vizinha, para a casa de paia de um amigo ou para o bairro mais bacana da sua cidade.

Viajar é ir além do seu portão. É dar passos para fora daquelas quatro paredes que tanto protegem e escondem você. Viajar é mais que pegar um carro ou um avião. Viajar é olhar para os lados e ver cores, amores e emoções. É sentir cheiros e sabores. É escutar barulhos, sorrisos, choros, lamentos e sonhos. Viajar é desenvolver cada um dos seus sentidos e descobrir que todos eles podem ir muito mais além. Viajar é fechar a porta e não olha para trás, é ter a coragem de um adulto e a alegria de uma criança. Viajar é descobrir o sabor da liberdade, entender o significado de responsabilidade e sentir na pele o significado da palavra experiência.

As músicas do Cazuza sempre me fizerem, de certa forma, viajar. Em “O tempo não para” é possível identificar um turbilhão de sentimentos, experiências e aprendizados. Dá para viajar apenas aumentando o volume e fechando os olhos.

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Já comentei por aqui que o sentimento inicial de um imigrante é ser só mais um na multidão, “só mais um cara”. Durante muitos dias que passam, você acredita que “está correndo na direção contrária” e sabe que isso não vai te levar a lugar algum. Não terá “pódio ou beijo de namorada” esperando na chegada. Você terá muitas pessoas perguntando por que você está triste ou nem sempre está feliz, se tem uma oportunidade de ouro nas mãos.

Muita gente tem a ilusão de que mudar de país irá resolver todos os problemas da vida, inclusive os de relacionamento. Só que você encontra muito mais espinhos nas flores pelas quais sonhava encontrar e é difícil aceitar e aprender a desviar deles. Não adianta escapar, em algum momento você irá espetar o seu dedo e isso irá doer. E mais uma coisa: os seus defeitos acabam se exaltando em momentos de grande mudança. Isso significa que você entrará em um número de conflitos maior consigo mesmo e com as pessoas mais próximas.

Claro que existem pessoas que encaram as mudanças da vida com mais facilidade. Infelizmente – ou felizmente – eu sou diferente. Toda mudança sempre foi difícil pra mim. Sofro demasiadamente por tudo. Sou ansiosa, sou apegada à pessoas e lugares, sinto saudade de tudo.

Começar do zero em um novo país é desafiador e também um pouco frustrante. Se você não sabe falar a nova língua fluentemente, você não é nada. E aí você precisa fazer novos cursos, aprender mais do mesmo (só que no novo idioma), aceitar que é preciso voltar a fazer estágio ou voluntariado, pois não têm experiência na sua área dentro da nova cultura.

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Contudo, você descobre que é muito mais forte do que pensa. Apesar de se sentir como uma criança aprendendo a falar um novo idioma e como um adolescente tentando ser aceito em um novo grupo de colegas/amigos, você descobre que é adulto e maduro, e prova para si mesmo que consegue encarar erros, desafios e possibilidades. “Você não está derrotado enquanto os dados ainda estiverem rolando”.

O grande degrau para se sentir aceito em uma nova cultura é não ter medo de errar. Não ter medo de escorregar na pronúncia, não ter medo de se perder pelas ruas, não ter medo de tentar conseguir um voluntariado ou um emprego, não ter medo de falar com as pessoas, não ter medo de pedir algum prato diferente no restaurante só porque você não entende quais são os ingredientes. Aí você vai aprendendo a sobreviver, por mais que alguns arranhões vão aparecendo no seu corpo. Machucar-se faz parte do processo.

Aprendi a assumir para as pessoas o que eu não sei. Quando alguém fala alguma coisa que eu não entendo, digo: “por favor, pode repetir?” e se ainda assim não entendo, digo “por favor, você pode me explicar? Estou aprendendo a falar inglês e em alguns momentos não entendo o que é dito”.

Aprendi a pedir ajuda. Peço para meus colegas de aula, para meus amigos, meu marido, meus clientes e meu chefe corrigirem minha pronúncia e a me ensinarem novas palavras. Não tenho mais vergonha de falar, pois a necessidade de expressar minha opinião é muito maior que a cobrança perfeccionista que existe dentro de mim. Não tenho vergonha de assumir que meus melhores amigos aqui são: o Google Maps, o Google Translater e minha bike.

Tomei vergonha na cara e comecei a cuidar mais da minha saúde. Há dois meses mudei minha alimentação, estou tentando ser mais natureba, consumir mais frutas e verduras, menos carne vermelha, farinha branca e glúten. Aprendi a fazer pão vegano, cookies integrais, a cozinhar diferentes receitas e a usar mais temperos naturais.

Fiz as pazes com os exercícios físicos e passei a correr. Imaginem que eu corria no máximo três minutos na esteira da academia e quase morria. Agora, já consigo correr 30 minutos sem parar ao ar livre. Claro que corro bem devagarinho, em um ritmo de iniciante, porém é preciso começar de algum lugar, não? Ao menos três vezes por semana eu dedico uma hora por dia ao exercício, seja correndo, andando de bike ou caminhando. E assim eu aprendi a dormir melhor, a me sentir mais disposta e descobri uma nova melhor amiga: a atividade física.

Não existe mágica. Viajar não irá mudar a sua vida, a não ser que você vá com a cabeça e o coração abertos. O primeiro passo é aceitar que mudar é errar, só a partir daí você irá começar a acertar. O tempo nunca para, então siga com ele.

O tempo não para
Não para, não, não pára

“Todos os dias é um vai e vem. A vida se repete na estação.”

Nesta semana, completarei cinco meses de vida nova em San Diego. Ontem, jantando com um casal de amigos brasileiros, contei histórias de vida das quais tomei conhecimento desde que passei a fazer parte da comunidade de imigrantes deste novo mundo. O ditado costuma diz que “sonhar não custa nada”, porém para algumas pessoas sonhar pode custar a liberdade e o próprio sonho. E foi com esse pensamento que acordei hoje de manhã e passei a sentir ainda mais intensamente a constante rotina de chegadas e partidas que presencio. A rotina da qual também passei a fazer parte.

Maria Rita descreve em frases curtas a relação entre “Encontros e Despedidas”, mas a simplicidade dos versos, na verdade, carrega uma imensidão de sentimentos que acontece a cada ida e vinda.

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Na escola que estudo, todos os dias chega um novo aluno, e todos os dias alguém também se despede. Hoje, foi a vez de um brasileiro, que passou seis meses em San Diego com a esposa e os dois filhos, dizer até logo. Ele vai com a certeza de que no próximo ano retorna para ficar de vez. Já ontem, uma menina do Cazaquistão passou a integrar a turma. Faz uma semana que ela mora em San Diego. Antes, vivia em Los Angeles com o namorado português, porém decidiu largar tudo para viver perto dos amigos, também cazaques, que moram aqui.

Nunca fui boa em despedias e desapegos. Contudo, tive que aprender, mesmo sem querer, a dizer adeus, assim como dar as boas-vindas. Ainda não consigo controlar a explosão de sentimentos que sinto quando penso na minha família que está no Brasil ou o aperto que dá no coração quando lembro daqueles que partiram para sempre, como meu avô Lino e minha avó Ana. Constantemente meus sonhos são com todos aqueles que há muito não vejo. O inconsciente saber ser poderoso e cruel. Constantemente, ele busca em nossa memória histórias e rostos para nos lembrar do mundo que existe para além da cegueira que vivemos ao tentar buscar o segredo da felicidade e da vida estável.

Há um mês, tive que me despedir da primeira grande amizade (sem ser brasileira) que fiz por aqui. A Jara voltou para Minorca, uma ilha da Espanha, pois precisa começar a faculdade e construir sua carreira. Uma menina de 19 anos, com a maturidade de uma mulher de 30, que deixou uma saudade enorme e um ensinamento gigante: “lute por aquilo que você acredita”. Ela não entendia como eu dava conta de tudo e eu até hoje busco entender de onde ela tirou coragem para ficar seis meses longe da sua família, vir para um país completamente sozinha para aprender inglês e buscar respostas para o seu futuro. Segundo ela, seus pais sempre a incentivaram a criar novos laços, a nunca ficar só na comodidade do ninho que eles construíram com tanto amor para ela. Compartilhamos livros, risadas, confidências, almoços, jantares e fotos. Aprendemos sobre amizade, distância e saudade.

Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir

Não é fácil resumir o que aprendi sobre o significado de chegar e partir nesses 150 dias, mas tentarei, assim como Maria Rita, simplificar as grandes escolhas que muitas pessoas fizeram. A simplicidade é proposital para que seja possível enxergar todo o peso das decisões tomadas que estão implícitas nas entrelinhas.

Teve gente que chegou para ficar e que: vendeu sua casa e veio com o filho adolescente com medo da violência na Polônia; vendeu seu carro, o único bem que tinha no Brasil, para tentar uma nova vida com sua namorada, mesmo que isso tenha significado passar a entregar pizza; continuou com seus negócios no México e veio com o marido e os dois filhos adolescentes para abrir novas franquias em San Diego; deixou a Itália para acompanhar a esposa, que recebeu uma oportunidade de trabalho em San Diego, e enquanto ele aguarda seu Green Card, trabalha como voluntário em um aquário na cidade; está há 15 anos morando na Califórnia e volta uma vez por ano para a China como visitante; veio da Argélia para acompanhar o marido e só vai voltar ao seu país de origem no próximo ano para realizar a cerimônia religiosa do casamento; é filipino, mas já morou na Arábia Saudita por um tempo e agora está há muitos anos em San Diego com toda a família desfrutando a poesia da vida; deixou o Iraque e está vivendo feliz há 25 anos nos Estados Unidos.

Tem gente que vem e quer voltar e que: está há 14 anos vivendo em San Diego com o marido e o filho de oito anos, mas todos os dias quer voltar para a Colômbia; está há dois meses na cidade, mas louca de vontade de voltar para o Brasil em julho, pois a vida não está sendo fácil por aqui; teve que deixar a filha de menos de um ano na Arábia Saudita para seus pais a criarem dentro das tradições, enquanto termina o mestrado nos Estados Unidos; veio estudar inglês e fazer festa por alguns meses e voltou para a França.

Tem gente que veio só olhar e que: saiu da Suíça para ficar um ano e meio em San Diego com o marido, o qual trabalha em uma empresa americana, mas como ela não consegue emprego na sua área devido ao visto, está ganhando um dinheiro extra como nanny; partiu da Guatemala há dois anos e está morando com uma tia em San Diego, mas não sabe o que fará no futuro; trabalhou durante um tempo no Brasil e resolveu tirar alguns meses sabáticos para surfar na Califórnia; está morando há um mês na casa de uma família e na metade do ano volta para a Espanha; veio do Equador, frequentou a aula durante um mês e nunca mais voltou; deixou a Síria para estudar e trabalhar em San Diego e está decidindo o que fará no próximo ano; veio da Rússia com o marido, tem medo de se relacionar com estranhos e comparece apenas a cada 15 dias na aula.

São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida

“Sentou pra descansar como se fosse sábado. Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe.”

A lendária música “Construção”, de Chico Buarque, foi escrita durante a ditadura militar brasileira. Nela, ele descreve a rotina de um pobre trabalhador da construção civil, um dos setores que mais se expandiu na época. O personagem acaba morrendo durante a execução do seu trabalho mecânico. O jogo de palavras de cada estrofe intriga o ouvinte e incita a reflexão.

Sempre gostei de observar as pessoas. O jornalismo e a pesquisa em comunicação exigem isso. Foi através deles que aprendi a desenvolver técnicas de observação mais apuradas. Inspirada na canção de Chico, vou tentar descrever a rotina de alguns personagens que passaram – ou ainda passam – pela biblioteca durante meu trabalho.

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único

É meio-dia. O sol está forte, mas a brisa marinha acalenta a pele. Os dez carrinhos de livros estão na rua. Dispostos em linhas transversais, exibem seus troféus. Uma placa ao fundo indica que existe uma sala com mais títulos. Uma criança corre. Ela pega o livro mais colorido da sua categoria. Seus olhos brilham a cada página. A mãe chama e ela abandona sua imersão. É hora de partir, mas não sem antes entregar uma moeda para a vendedora. Ela está apaixonada pelo seu novo amigo. Enquanto isso, um senhor se aproxima. Usa camisa social, boné e chinelos. Sua pele morena contrasta com a barba rala e grisalha. Parece conhecer o lugar. Vai direto ao último carro. Revira toda seção de culinária. Dá uma olhadela na oferta de história. Com 10 achados na mão, pede para reservar. Vai embora. Volta depois de meia hora com chá gelado e cookies. Presenteia a voluntária. Despende vários minutos tentando achar o dinheiro para pagar os livros. Sua carteira parece ter mais folhas internas do que muitos dos exemplares expostos. Não aceita o troco. Leva mais cinco minutos organizando suas aquisições na sacola. Conta uma história. Diz que o segredo do avô de 90 anos era o açúcar. Tomava uma xícara de chá com cinco colheres cheias do doce. Parece gostar da ideia e diz que vai seguir por esse caminho. Suas pernas doentes parecem não concordar. Despede-se com um largo sorriso. É o melhor cliente. Ele sabe disso.

E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Ela chega perguntando pelos livros gratuitos. Vai até eles e começa a falar sozinha. Faz bagunça, mas não percebe. Encontra algumas revistas chinesas. Fica contente. Percorre as demais seções. Parece não ter pressa. Sua camisa chama a atenção. Vários macacos estão pulando alegremente na estampa. Ela não está falando sozinha. Traz em uma das mãos um bicho de pelúcia. Também é um macaco. Apresenta ele para a voluntária. Diz que sua companhia irá ficar contente em ler as revistas. Ela não fala chinês, mas parece que seu amigo sim. Vai em direção ao seu carro. Acho que é sua casa. Continua falando com seu companheiro. A noite será animada.

Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música

O final do dia vai se aproximando. Com ele, surge um novo personagem. Ele fala ao telefone, mas observa as novidades em destaque na prateleira principal. Está usando roupa social. O gel no cabelo reflete a cada movimento da sua cabeça. Seu forte perfume espalha-se pelo ambiente. Pergunta pelos novos exemplares da Rolling Stone. Passa vários minutos olhando os CD’s. Começa a falar do seu trabalho. É músico. Parece estar em uma seção de terapia. Não se incomoda com os demais clientes que estão ao seu lado. Quer toda atenção só para si. Por vezes, fala em italiano. Em outras, espanhol. Começa a cantar Garota de Ipanema. Diz que um dia irá ao Brasil. Despede-se cantarolando.

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Está na hora de fechar. Ele aparece como mágica. Estende uma nota de um dólar e desaparece. Não diz uma palavra. Não se deixa reconhecer. No mesmo instante, ela surge irradiando o ambiente. Parece ter mais de 50 anos. Seus cabelos são loiros e seu corpo é magro. Fica absolutamente animada com o que vê. Dedica mais tempo para a seção de autoajuda. Parece ser conhecedora de reflexologia, reiki e cabala. Revira todas as prateleiras. Enche duas caixas. Paga agradecendo. Despede-se abençoando. Os carrinhos são guardados. A porta é fechada. O dia se encerra. O final de semana começa.

“Valeu a pena. Êh! Êh! Sou pescador de ilusões.”

Morar em outro país exige que você faça planos. Sim, a palavra exigir é forte, mas você precisa planejar seu futuro para não cair no esquecimento e na necessidade. Nas últimas semanas, estamos discutindo em aula o tema plano de carreira americano e uma coisa ficou nítida: por mais que você tivesse uma boa colocação no seu emprego anterior e experiência para pôr no currículo, ou seja, fosse alguém na sua área em seu país; ou tenha estudado longos anos, fale mais de um idioma e tenha feitos vários cursos; se você está aqui aprendendo inglês e tentando uma oportunidade de trabalho (ou seja, não tenha sido transferido da sua empresa do Brasil para cá ou não tenha chegado já com um emprego garantido), você não é ninguém. Na verdade você é só mais um na multidão de imigrantes.

Essa constatação é um soco no estômago – e no ego. No início, você fica pensando em looping e é difícil não desanimar. Por exemplo, tenho uma amiga brasileira que está cursando MBA aqui (ela tinha uma boa carreira no Brasil) e como proposta curricular precisa fazer x horas de estágio em uma empresa americana. Porém, no estágio é delegado para ela atividades extremamente simples, que estão muito abaixo das suas qualificações. Atividades essas que deveriam ser dadas para quem está iniciando na área e não para quem já tem longos anos de experiência. Ela está sofrendo com isso, assim como seus colegas. O problema não é ser estagiário, afinal quem nunca foi? O problema é ter mais de 30 anos e ter que começar do zero.

Mas não importa. Quando você muda para os EUA e não tem suporte de uma empresa, você precisa entender que a corrida está apenas começando. Claro que sua carga de experiência é importante, porém ela só vai valer realmente depois de longos meses em uma empresa, quando o seu chefe tiver confiança em você e conseguir ver o seu trabalho dando resultados.

Aqui sou apenas uma estudante de inglês e uma voluntária. Ponto. E todos os anos da Graduação e da Pós-Graduação? E os Cursos Complementares? E o vários anos de experiência de trabalho? Tudo isso ficou no Brasil. É hora de virar a página e começar uma nova história.

O sonho americano não é tão lindo assim se você realmente quer continuar a ter uma carreira. Conheço várias pessoas que são formadas na faculdade e executavam cargos importantes no seu país, contudo aqui são garçons/garçonetes e babás. E para quem não tem Graduação, que é o básico, o cenário é ainda pior. É necessário trabalhar em dois ou três empregos para conseguir se sustentar e garantir o valor mínimo por hora na Califónia, que é de $9. Vale lembrar que San Diego não é uma cidade barata. Mesmo assim, o valor do aluguel e da alimentação ainda saem mais em conta se comparados com San Francisco ou Los Angles. New York está em outro patamar, não cabe nem comparar o custo de vida por lá ( é como querer comparar Porto Alegre com Rio de Janeiro).

Se meus joelhos
Não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé
Que me traga fé

Se por alguns
Segundos eu observar
E só observar
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol

Aí você começa a questionar o quanto vale a pena para essas pessoas saírem do seu país para tentar uma nova vida, se elas não conseguem desfrutar das belezas que San Diego tem para oferecer. E você começa a se perguntar: o que eu estou fazendo aqui? Mas aí você precisa pensar que a cultura, a situação econômica, a violência e a educação têm um impacto gigantesco para o futuro das pessoas, ainda mais quando elas têm filhos. Escutar e tentar entender a história de vida de quem o rodeia faz com que você amplie seu campo de visão e comece a agradecer mais por tudo que tem.

Tenho colegas com realidades bem difíceis por aqui. Prefiro não citar seus nomes ou seus países de origem para preservá-los, só posso dizer que não são brasileiros.

Uma colega largou seu emprego e vendeu sua casa no seu país, o único bem que tinha, para dar ao seu filho adolescente a chance de ter um futuro melhor que o seu aqui nos EUA. Como em seu país a violência está aumentando cada vez mais e o número de empregos só baixa, ela temia por seu filho, ainda mais sendo mãe solteira e não tendo outra fonte de renda. Aqui, ele está terminando o Ensino Médio e no próximo ano inicia a faculdade. Já fez amigos, está aprendendo uma segunda língua e, principalmente, está em um lugar seguro. Enquanto isso, ela está estudando inglês para conseguir um emprego, pois as suas economias acabarão e ela precisa continuar sustentando o futuro de sua família.

Além disso, uma outra colega vive aqui há anos, mas só tem o Ensino Médio. Ela trabalha em dois restaurantes todos os dias, tem apenas uma folga por semana e ganha o suficiente para viver, mas não o bastante para aproveitar. Porém, um colega na mesma situação, está finalizando o curso de inglês e no próximo mês irá começar a faculdade. Ele tem mais de 30 anos, nenhum final de semana livre, dois filhos e o sonho de ser educador físico.

Somado aos problemas de colocação no mercado de trabalho, também tenho colegas que possuem tempo para estudar, uma condição de vida boa, porém sua religião não permite que desfrutem do tempo livre. Por exemplo, uma colega mora aqui há dois anos com seu marido e um de seus irmãos e, paralelo ao curso de inglês, faz um curso técnico em informática. Seu objetivo é conseguir um emprego em San Diego. Até aí tudo bem, mas ela não aproveita nada da cidade. Ela não dirige e nem sabe andar de bicicleta por puro medo. Tampouco sai para passear sozinha, pois ela só pode sair para a rua acompanhada de um familiar ou do seu marido.

Enfim, dificuldades à parte, o importante é não deixar se abater pelo desânimo. Penso no seguinte: já que devo começar do zero, então vou organizar minha trajetória para que ela seja certeira e traga o retorno esperado. Agora, já não tenho mais todas aquelas dúvidas do que quero ser ou fazer como quando tinha aos 17 anos. Já consigo decidir com clareza minhas expectativas. Isso não significa que eu não vá escolher outro rumo quando for mais velha, mas por enquanto preciso ter foco no presente, na atual situação que estou encarando.

Ainda assim estarei
Pronto pra comemorar
Se eu me tornar
Menos faminto
E curioso
Curioso

O mar escuro
Trará o medo
Lado a lado
Com os corais
Mais coloridos

Como diz a música Pescador de Ilusões do Rappa, quando você se torna menos faminto e mais curioso para descobrir o mundo e a si próprio, mesmo que o medo apareça de um lado (e tenha certeza de que ele estará lá), do outro você terá a visão dos mais lindos corais. Esses corais são sua família, seus amigos, sua fé.

Contudo, só falar não adianta, é preciso fazer. Por isso, o primeiro passo é criar um plano para chegar até o seu grande objetivo de vida. Vale lembra que não precisa ser um adulto para fazer isso, você pode ser um adolescente, um jovem ou estar na melhor idade.

Segue o esquema que estamos trabalhando na aula e que acredito que é um bom começo para qualquer pessoa:

My long-term goal is:…….

1. First, I need to:….
2. Then, I need to:…
3. Next, I need to:…
4. After that, I need to:….
5. Finally, I will reach my long-term goal of:…..

Ainda não vou compartilhar minhas respostas, pois estou construindo os steps em aula, mas o primeiro passo já foi dado: estudar inglês. Os próximos passos serão uma consequência. Será fácil? Não. Será rápido? Não. Vai exigir paciência. Sim (e muita!). Vou desanimar em algum momento? Sim. Vou desistir? Jamais!

Uma característica muito interessante dos EUA é que aqui existem escolas públicas que são muito boas. Por exemplo, eu faço inglês na San Diego Continuing Education totalmente free. Além do curso de inglês como segundo idioma, a escola oferece alguns cursos profissionalizantes, também gratuitos, como moda e nutrição.

Existem muitos outros cursos totalmente sem custos, ou que você precisa pagar apenas o material didático ou ainda que são bem mais baratos que uma escola regular. Para conhecer todas as oportunidades da instituição San Diego Community College District, basta acessar http://sdccd.edu/.

Você também pode participar de trabalhos voluntários para melhorar seu novo idioma e aumentar sua rede de contatos. No LinkedIn é fácil de encontrar oportunidades em qualquer cidade, basta usar os filtros do próprio site. Ou você ainda pode buscar por um voluntariado em diferentes cidades dos EUA neste site http://www.volunteermatch.org/.

Se eu ousar catar
Na superfície
De qualquer manhã
As palavras
De um livro
Sem final, sem final
Sem final, sem final
Final

Nenhuma jornada é fácil. Você colocará muitas vezes seu anzol na água, irá esperar por horas e será enganado, iludido pelo peixe. Porém, às vezes, você conseguirá ser mais rápido, ousado e espero, e enfim conseguirá tirá-lo da água. Pescar ilusões faz parte da longa jornada que é viver. Pescar exige paciência e persistência. Só assim você conseguirá trazer para a superfície todos os seus sonhos e escrever o livro da sua vida.

“Não me deixe só. Eu tenho medo do escuro. Eu tenho medo do inseguro, dos fantasmas da minha voz.”

Na louca rotina que vivemos, muitas vezes esquecemos de dedicar tempo para nós mesmos. Há quatro meses atrás, confesso que não conseguia organizar o tempo que sobrava do meu dia para fazer coisas para mim. Acabava trabalhando até mais tarde, ou cuidava das coisas da casa, ou ainda estava tão cansada, que só queria chegar em casa, tomar banho e ir dormir. Mal sobrava tempo para ler algumas páginas de um livro, acabava fazendo isto no ônibus (quando conseguia lugar para sentar). Fazia exercícios no máximo duas vezes por semana e minha dieta não era das melhores.

Porém, quando a vida dá para você a chance de ter tempo, você acaba se reencontrando consigo mesmo e reaprendendo a fazer o que já havia esquecido há muito tempo. Não estou falando de ser egoísta e pensar apenas em si, mas sim de hobbies que você tem, que fazem de você uma pessoa mais feliz e melhor. Seja tocar um instrumento, ler, desenhar, pintar (agora várias pessoa voltaram a fazer este grande passa tempo que eu amo após lançarem livros voltados para adultos), cantar, praticar algum esporte, olhar televisão, ou simplesmente não fazer nada. Ou seja, simplesmente passar um tempo consigo mesmo fazendo algo prazeroso.

Não me deixe só
Que o meu destino é raro
Eu não preciso que seja caro
Quero gosto sincero de amor

A música “Não me deixe só”, de Vanessa da Mata, define muito bem meu momento atual. Terei que ficar três semanas totalmente sozinha aqui em San Diego. Para a minha sorte, sete dias já se passaram. Ao mesmo tempo que está sendo difícil conviver com a casa vazia, passei a cuidar mais de mim. Agora, após meu curso, pego minha bike e ando ao menos 10 km. Optei pela bike, pois não gosto de academia e, como não estou trabalhando no momento, não tenho como pagar aulas de Pilates, Yoga ou Ginástica. Além disso, a cidade tem tantos lugares incríveis, tanta natureza e paisagens maravilhosas, que fica muito mais fácil fazer exercícios ao ar livre. Sem contar que existem ciclovias por todos os lados e, quando não têm, placas sinalizam que por aquela rodovia passam ciclistas.

San Diego é uma cidade com muitos ciclistas, pra falar a verdade. Existem diversas lojas de bikes e acessórios, ciclistas profissionais, famílias inteiras que optam por passear de bike aos finais de semana, além de passeios guiados pelos pontos turísticos da cidade, tudo de bike. Você só precisa escolher por quanto tempo está disposto a pedalar.

Além da bike, vejo muitas pessoas por aqui andando de skate, correndo, caminhando ou fazendo ginástica. Sempre lembro do Rio de Janeiro e de todas aquelas pessoas lindas fazendo exercícios ao ar livre, desfrutando da sorte que têm de morar em uma cidade praiana, cheia de inspiração.

Quando chego ao meu destino, paro pelo menos 30 minutos para ler. Estou intercalando leituras em inglês e em português, pois ainda não consegui aderir totalmente só ao inglês. Ler sempre foi uma das minhas paixões e agora estou conseguindo colocar em dia a pilha de livros que eu havia comprado no Brasil, mas não tinha tempo para ler.

Também passei a fazer uma dieta acompanhada por uma nutricionista brasileira e acabo dedicando bastante tempo preparando cada refeição. Além disso, assim como no Brasil, aqui as frutas, verduras e alimentos naturais são mais caros. Por isso, é preciso fazer uma boa pesquisa nos supermercados antes de comprar qualquer item.

Resumindo, estou tentando ter uma vida mais saudável, sem deixar de comer as coisas que eu gosto (como chocolate!), e aproveitando ainda mais a cidade, já que todo dia acabo descobrindo um novo lugar ou tendo uma nova experiência pelo caminho. Após algum tempo, você ganha mais confiança e começa a desbravar a cidade por caminhos que não são tão populares sem ter medo de se perder (e quando isso acontece, uso o Google Maps).

No início, ia sempre para a mesma praia, Ocean Beach, pelo único caminho que conhecia. Depois, descobri que existia uma ciclovia que costeava um rio até chegar na mesma praia. E agora, segui outras rotas propostas pela ciclovia e conheci meu novo lugar favorito: Mission Beach. Para intercalar, por vezes sigo outros caminhos e vou para Pacific Beach ou ainda para o lado oposto à praia. Contudo, pesquisei novas rotas e vou começar a desbravar novos percursos.

Não me deixe só
Que eu saio na capoeira
Sou perigosa, sou macumbeira
Eu sou de paz, eu sou de bem, mas

Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz

Estar sozinha em outro país é algo assustador e, ao mesmo tempo, muito desafiador. Você precisa ser forte para suportar a solidão e corajoso para sair todos os dias de casa sabendo que precisará lidar com diferentes tipos de situações sem ter ninguém conhecido por perto para ajudá-lo. Falar sozinho, rir de si mesmo e, por vezes, sentir medo, é algo totalmente natural. Contudo, você acaba falando muito mais a segunda língua, fazendo ainda mais amigos ou reforçando a amizade com aqueles que já conquistou na nova terra.

Acho incrível como os imigrantes ajudam um ao outro por aqui. Quando a professora me perguntou como tinham sido minhas férias de primavera, respondi que não muito boas, pois meu marido estava viajando e não gostava de ficar sozinha. Depois disso, colegas brasileiros que eu acabo só cumprimentando na aula, vieram oferecer ajuda, caso fosse necessário. Uma senhora inclusive me passou seu telefone, dizendo que eu poderia ligar a qualquer hora. Meu amigo mexicano já me acolheu na sua casa esta semana com uma janta e minha amiga suíça também combinou um encontrinho.

E assim, dia após dia, San Diego está sendo um aprendizado muito maior do que eu esperava. Ao mesmo tempo que traz saudade, traz conhecimento interior, paz, amizade, coragem e muita sabedoria. Que venham os próximos desafios 🙂

“A vida vem em ondas como um mar. Num indo e vindo infinito.”

Planejar. Esse verbo por muito tempo guiou os meus dias. Todas as manhãs, levantava da cama sabendo exatamente o que faria, em qual horário e com quem. Perdi muitas noites de sono repassando os fatos do dia, culpando-me por ter esquecido de fazer alguma tarefa no trabalho (não respondi o e-mail x, preciso ligar para fulano, tenho que cobrar ciclano…) e tentando dizer para mim mesma que precisava priorizar alguns compromissos pessoais (esqueci de marcar minha mão pela terceira vez na semana, não mandei mensagem para a fulana, preciso confirmar presença no aniversário do ciclano…). E assim os dias passavam e eu naquela roda gigante maluca que não saia do lugar, e que cada vez mais consumia meu sono e minha saúde.

Saber planejar é crucial para a sua carreira, ainda mais quando você trabalha como gerente de projetos. Planejar é essencial para você aprender a priorizar o que realmente é importante. O problema é quando você quer planejar e controlar tudo que acontece ao seu redor.

Este novo momento da vida está me ensinando a não fazer muitos planos para o meu dia. Confesso que no início é extremamente complicado, mas com o tempo você descobre que pode ter um dia maravilho que não teria se tivesse planejado.

Esta semana era “Spring Breack” na minha escola. Semana passada estava preocupada pensando que teria minha rotina interrompida, mais uma vez. Aproveitei as manhãs para estudar, mas na quarta-feira decidi ir à biblioteca do meu bairro, afinal é sempre bom mudar de ares. No fim, ela estava fechada devido a um feriado específico. Decidi mandar mensagem para um colega que mora ali perto e fomos tomar banho de piscina, jantar e ele acabou aqui em casa à noite tomando um drink comigo e com o meu marido. Em outra tarde, decidi que me dedicaria a fazer novas receitas e passei o dia em função de pães e geléias.

Como Lulu Santos muito bem disse, a vida é como uma onda. Cada momento é composto por uma onda específica. Por vezes, ela é grande, bonita e perfeita, e você consegue surfar sobre ela; já em outros momentos, ela é traiçoeira e arrasta você para o fundo do mar, mas você precisa ter coragem para vencê-la e recomeçar tudo outra vez; por outras, ela é tão tranquila que você mal a percebe. Mas não importa a sua intensidade, cada momento está ali, acontecendo e convidando você para desfrutá-lo. Mas se você perder uma dessas ondas, não adianta chorar, pois ela não voltará. O mar não vai parar para você recuperá-la. É preciso erguer a cabeça e seguir adiante, buscando novas oportunidades, novas ondas que poderão trazer aquilo que você espera.

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará

A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito

Tenho uma lista de tarefas que preciso fazer toda semana e em dias específicos, mas como tenho tempo livre nesses espaços, procuro deixa a vida levar. Os finais de semana são os mais incríveis. Dificilmente marcamos compromissos, os eventos vão acontecendo com o desenrolar do dia. Sábado passado começamos o dia na praia, encontramos alguns amigos, fomos parar numa raive, depois pegamos uma jacuzzi na casa de um casal de amigos e terminamos a noite comendo o melhor hambúrguer das redondezas em um restaurante muito bacana. Resumindo, conhecemos pessoas novas, degustamos novos sabores, demos muitas risadas, aproveitamos cada minuto do dia e tudo isso sem fazer nenhum planejamento prévio.

Sempre me cobrei muito para que cada coisa fosse feita com perfeição. E, quando dava errado, senti-me a pessoa mais frustrada do mundo. Porém, nunca me dei tempo para melhorar. Agora, e com ajuda da terapia feita no ano passado, passei a entender que todos os acontecimentos intensos da nossa vida precisam de maturação, assim com um bom vinho.

Após passar por um momento triste, como a perda de uma pessoa querida, por exemplo, você precisa se dar um tempo para chora e sofrer. Depois, você precisa refletir sobre esse luto e entender o quanto ele significa na sua vida, retirando todos os pontos que possam ajudá-lo a ser uma pessoa melhor. Só depois disso você segue adiante. O mesmo ciclo acontece com as coisas boas, como uma promoção no trabalho, por exemplo. Você deve ter o tempo de comemorar e de sorrir, mas depois deve processar a novidade, entender o que fez chegar até ali e como esses pontos positivos podem ser aplicados em outros aspectos da sua vida.

Estamos mudando o tempo todo, o mundo muda o tempo todo. Nunca vamos conseguir acompanhar tudo na mesma velocidade, mas precisamos desacelerar para poder conseguir seguir na maratona com a cabeça e o coração em ordem. Quando os dois estão em conflito, a vida vira um caos!

Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo

Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre

Como uma onda no mar

Mas não se engane, não é fácil. Todo processo de mudança e amadurecimento é doloroso, muito doloroso. Tem momentos que você tem vontade de sair correndo para o colo da sua mãe como uma criança assustada e desprotegida. Contudo, você não pode. Sua mãe mora longe, ou está viajando, ou infelizmente ela já não está mais aqui.

Claro que você pode se dar a esse luxo de vez em quando, mas não sempre. Você é um adulto e precisa aprender a controlar suas birras internas, seu conflitos, seus momentos de decepção, de perdas, de erros. Ser adulto exige tomadas de decisões, escolhas que nem sempre serão as certas, mas quando são podem abrir um novo mundo para você. Porém, o mais importante de tudo é saber que: ser adulto é aprender a entender a emoções e senti-las, desfrutando a sua intensidade. Esconder sentimentos é para os fracos, os verdadeiros corajosos são aqueles que admitem sentir.

A vida vai e vem como uma onda no mar. Aproveite a brisa, a areia, o sal, a água e tudo mais que ela pode lhe dar, assim como o mar. Faça planos, mas não exagere. Nunca sabemos se o dia de amanhã chegará para perdermos tempo levando uma vida tão certinha e regrada. Toda pitada de loucura faz bem para a alma.

“Pois seja o que vier, venha o que vier. Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar.”

Não preciso de uma data comercial para falar de amizades. Tampouco de um assunto importante para iniciar uma conversa com meus amigos. Quando se é amigo de verdade, QUALQUER tópico é motivo para se trocar dezenas de mensagens no WhatshApp, passar vários minutos ao telefone ou de se arrumar uma desculpa para transformar o happy hour em janta, estender a jantar para um bar ou para a casa do amigo, e por lá acabar ficando até o outro dia de manhã. Afinal, é preciso muito tempo para colocar o papo em dia.

Quando eu descobri que partiria do Brasil, a distância dos pessoas que amo foi o que mais me fez sofrer. Por mais que escutava “Você fará novos amigos por lá”, sentia que não seria a mesma coisa. Bom, passaram-se três meses e meio e agora posso dizer que tenho amigos nos EUA. Claro que ainda está longe de ser como no Brasil, mas agora já tenho um começo.

Por mais estranho que pareça, nenhum dos meus novos amigos é americano. Fiz três grandes amizades na aula de inglês: com uma espanhola, com uma suíça e com um mexicano. Além disso, fiz amizade com um casal paulista e um colega de trabalho do meu marido, também paulista. Esse seleto grupo de pessoas maravilhosas faz com que me sinta mais acolhida por aqui. Nossos programas são basicamente ir um na casa do outro, pegar uma piscina, comer, tomar uns drinks, conversar e ir à praia. Por vezes, vamos a algum restaurante ou barzinho, mas é mais raro. O que importa mesmo é estar em um lugar confortável que dê para conversar e dar boas risadas.

Milton Nascimento resumiu o significado de uma amizade verdadeira na “Canção da América”. Amigo chora quando o outro parte. Amigo mora no coração e entende sua alma. Amigo guarda lembranças, chora e sorri com você por perto ou lembrando de você quando está longe. Amigo supera tudo e ajuda você a empurrar todas as pedras que aparecem pelo caminho.

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir

Mas três meses e meio é um tempo grande se você pensar que, quando está vivendo há muitos anos em um mesmo lugar ou trabalhando há muito tempo em uma empresa, todo tipo de relacionamento acontece de forma mais fácil e natural. Não é preciso meses de convívio para iniciar uma amizade.

Pode ser que seja uma sensação minha, mas enquanto ainda se está construindo o sentimento de pertença a um lugar, você fica mais desconfiando de tudo e leva mais tempo para abrir seus sentimentos e falar abertamente dos seus problemas. Os primeiros encontros com os outros são sempre mais superficiais. Demora um tempo até você falar dos seus medos, das suas preocupações, dos perrengues pelos quais passou, das suas manias e das dúvidas que você tem sobre os próximos passos.

Além disso, também acredito que os brasileiros são muito mais abertos para relacionamentos. Confesso que é difícil fazer amizade com americanos, por exemplo. Para começar, eles demoram semanas até encostar em você. Essa história de dar dois beijinhos quando você conhece a pessoa, não acontece aqui. Eles também são mais individualistas. Sinto que nós brasileiros temos mais esta necessidade de ter os outros por perto sempre, de mandar mensagens, e-mails, dar presentes, ligar. Enfim, de acolher o amigo como se fosse parte da nossa família e mostrar o quanto você realmente se importa com eles. Um amigo brasileiro que namorou uma americana, disse que sentia o mesmo individualismo com ela. Então, se com o namorado existe isso, imagina com um amigo.

Mas cada cultura tem suas características e seu histórico. Sabemos que os adolescentes americanos saem de casa assim que se formam no Ensino Médio e que precisam aprender a se virar sozinhos muito cedo. Tudo isso faz com que eles sejam mais individualistas e façam as coisas por si mesmos, sem precisar contar muito com os demais. Acredito que também deve ser por isso que acabam consumindo tantos livros de autoajuda (e isto eu posso comprovar, pois vejo na biblioteca a absurda quantidade de “self-help” que são vendidos). Os americanos preferem resolver sozinhos os problemas.

Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

E é aí que entra a importância de nunca deixar seus amigos “de raiz”. O contato com meus melhores amigos do Brasil faz com que eu me sinta mais segura. Na última semana acompanhei à distância a superação de grandes desafios de dois dos meus melhores amigos. Por mais que tenha o delay do fuso, estava ali, sentindo eles perto de mim, sofrendo junto com os seus problemas e vibrando com as conquistas.

Meus amigos são o meu suporte, a família que eu tive o privilégio de escolher para fazer parte da minha vida. Aqueles que eu sei que posso apenas olhar no olho para saber se estão bem ou mal. Aqueles que eu sei quais são seus medos, seus sonhos, suas dores, suas crises e suas crenças. Aqueles que apontam o dedo na minha cara quando eu estou errada e que choram junto comigo quando estou desesperada. Ou que caem no chão de tanto rir comigo com uma piada que só nós achamos engraçada ou por lembrar de uma experiência idiota que tivemos juntos.

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam “não”
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Em cada fase da nossa vida ganhamos novos amigos. Por vezes, conhecemos um amigo na infância e vivemos até os últimos dias de nossas vidas ao lado deles. Por vezes, as circunstâncias os levam para longe e acabam nos afastando, mesmo que você more a uma quadra da casa dele. Outras vezes, a distância não é motivo para afastamento, pelo contrário, ela fortalece a união.

Acredito que ninguém consegue ser feliz sozinho. Claro que você consegue ter uma boa vida se estiver bem consigo mesmo. Mas de que adianta ter grandes feitos e se não pode compartilhar com ninguém? De que adianta ter uma boa casa se ela não pode receber pessoas do bem para espalhar sorrisos pelos cômodos? De que adianta ter dinheiro se ele não compra amor verdadeiro? Amigo de verdade gosta de você pelo que você é por dentro.

E é por isso que eu digo, meus amigos, que ainda vamos nos encontrar. Pode ser que leve meses ou até anos, mas eu amo muito vocês e não tem um dia em que não envie boas energias para a sua jornada. Seja no Brasil ou em San Diego, ainda vamos nos ver e passar horas conversando sobre a teoria de tudo.

Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar

“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas.”

Há algum tempo atrás, Chico Buarque retratou na música “Mulheres de Atenas” os valores aceitos e impostos por uma sociedade machista, e o modelo de herói interpretado pelos homens. Infelizmente, as Mulheres de Atenas são atemporais e uma realidade, já que ainda precisamos enfrentar diariamente o assédio, as piadinhas sem graça, os baixos salários, a violência doméstica, as cobranças sem sentido e tantos outros problemas que há décadas fazem parte do cotidiano feminino.

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas

Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas; cadenas

Talvez algumas pessoas não entendam a ironia da música, mas mirar-se nas Mulheres de Atenas é fazer exatamente o contrário: a ideia é que possamos refletir sobre toda a submissão sofrida e as regras impostas às Mulheres de Atenas, e então acordar e lutar para que esta realidade não se repita mais.

Em muitos lugares e culturas, desde o início dos tempos, podemos ver mulheres sendo tratadas como objetos, escravas de uma vida já pré-determinada: nascer, tornar-se uma mocinha, casar, ser uma boa esposa, ter filhos, ser uma boa mãe, cuidar muito bem da casa, por vezes trabalhar e depois morrer.

E assim, geração após geração, fomos sendo educadas pelas nossas famílias dentro desse modelo e impactadas por brincadeiras e brinquedos relacionados à vida de uma dona de casa (casinha, panelinhas, ferro de passar roupa, bonecas…) e à vida de uma “mulherzinha” frágil e que tem sempre o mesmo sonho (vejam a Barbie, por exemplo, apesar de ser dita moderna e fashionista, ela é o exemplo de uma mulher que trabalha e é independente financeiramente, mas o grande sonho da sua vida é casar de véu e grinalda com o Ken, um homem perfeito,bonito, malhado e jovem).

Muitas meninas, desde pequenas, acabam fazendo mais trabalhos domésticos em casa do que seus irmãos homens, por exemplo. Por vezes aprendem a dirigir só depois dos irmãos ou só quando arrumam um namorado. Algumas meninas também são incentivadas a se cuidar quando o assunto é relacionamento. Devem escolher bem seus namorados e não sair ficando com qualquer um. Enquanto com os homens é o contrário: quanto mais mulheres você “pegar”, melhor, você será um “galo”, um “garanhão”. Em compensação, se você for uma mulher e fizer o mesmo, será “fácil”, uma “galinha”. Viram a diferença?

Meu ponto aqui não é julgar a educação dada pelas famílias, tampouco a escolha que muitas mulheres fazem por vontade própria de casarem, serem donas de casa e mães. Pelo contrário, respeito muito cada decisão que uma mulher toma. O grande ponto que estou discutindo aqui é o histórico da associação da mulher com a submissão ao homem e as diferenças de direitos de ambos os sexos.

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos
Bravos guerreiros de Atenas

Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar um carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas, Helenas

Mulheres de Atenas não podem ter gostos ou vontades. Não podem gostar de outras mulheres; não podem trabalhar em cargos superiores ou com tarefas ditas masculinas (como mecânica, marcenaria, motorista, na área de tecnologia…); não podem nem pensar em outro homem se é casada, mas seu marido pode sair com outras mulheres e está tudo bem, a sociedade aceita; não podem optar por não ter filhos, elas serão muito questionadas por isso. Apenas devem “seguir as regras” e temer o julgamento do seu marido e da sociedade.

Mês passado li o “O Primo Basílio”, da Eça de Queiroz. Uma obra clássica de 1878 que retrata em detalhes a vida das mulheres daquela época, especialmente de Luísa, a personagem principal. Cada vez que pisava na calçada, ela era observada pelos vizinhos e vigiada pelos amigos do marido. O tempo todo precisava dizer para onde iria e com quem se encontraria. E assim, com todas as proibições e julgamentos (e no fim após uma paixão pelo primo), acabou morrendo na solidão da sua casa, imersa em sonhos que jamais poderia realizar, pois era uma mulher. Ela não podia separar-se do marido, ela não podia trabalhar, ela não podia sequer usar outra roupa se não vestidos!

Claro que o mundo evoluiu, as mulheres conquistaram muitos direitos, mas mesmo assim continuamos a presenciar situações arcaicas. Por isso, acredito que sempre é interessante ler obras desse gênero para entender o passado e olhar com olhos mais críticos o presente.

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas:
Geram pros seus maridos
Os novos filhos de Atenas

Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas
Não tem sonhos, só tem presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas, morenas

Já estamos em 2015 e ainda precisamos enfrentar muitos dos problemas passados pelas Mulheres de Atenas e por Luísa. No último Dia Internacional da Mulher, além dos comerciais emotivos, também vi muitos relatos de amigas e conhecidas descrevendo situações nas quais sofreram assédio na rua. Que bom que agora podemos tornar este assunto de conhecimento público, mas é chocante saber que isso ainda acontece.

Mas não pensem que as buzinadas, os assobios e as cantadas nojentas recebidas na rua acontecem apenas no Brasil. Os americanos são ainda mais descarados. Inclusive discuti o assunto com uma amiga brasileira que mora em San Diego também e ela diz ter o mesmo sentimento.

Claro que existem diferenças. Apesar do americano abordar mais as mulheres que os brasileiros, eles são “mais educados”. Dificilmente você escuta um “gostosa” ou “delícia”, é mais comum um “bonita” ou “sexy”. Independente das “cantadas” serem mais brandas em um lugar se comparado ao outro, o fato é que não somos obrigadas a passar por esse tipo de constrangimento.

Esses dias um amigo que mora aqui disse que eu deveria usar uma aliança no dedo para mostrar que sou casada e inibir abordagens. Oi? Agora eu preciso mostrar de alguma forma para a sociedade que sou casada para não ser assediada? E o RESPEITO fica aonde?

Confesso que sou bastante revoltada com o assunto. Quando os homens vão entender que a maioria das mulheres não gostam desse tipo de coisa? Que não faz bem para o nosso ego, pelo contrário, que essa atitude infantil causa medo e nojo? Daqui há quantos anos vamos poder sair na rua bem arrumadas, de saia, de vestido ou de calça mais colada sem que os homens entendam que “estamos vestidas assim, porque estamos pedindo para chamar a atenção e escutar palavras esdrúxulas”, ou pior ainda: receber passadas de mão?

Mulheres adoram elogios sim, mas assédio é ago totalmente diferente. Elogio é aquilo que elas recebem de seus parceiros ou de uma paquera no barzinho, na balada, e não de estranhos que praticamente as comem com os olhos na rua e falam coisas obscenas.

Uma amiga relatou no Facebook que um homem passou a mão na sua bunda, do nada, como se ele tivesse direito de encostar no seu corpo. Gente, que mundo é este? Muitas mulheres têm mais medo de sofrer algum abuso na rua do que de serem assaltadas, tamanho é a proporção deste absurdo.

Pelo menos aqui nos Estados Unidos existe uma lei em que a mulher pode prestar queixa de assédio na delegacia mesmo sem testemunhas. Infelizmente, no Brasil muitas queixas são recebidas por policiais homens que, por vezes, tratam o assunto como uma besteira ou um barraco. A vítima certamente sentirá medo ou trauma por muito tempo, enquanto o acusado seguirá livre pelas ruas fazendo o mesmo com outras mulheres.

Por toda desigualdade que ainda existe, por todo preconceito, por toda falta de entendimento do sexo feminino que eu digo: BASTA! Apoio às mulheres que brigam para serem tratadas com respeito, para terem os mesmos direitos que os homens e por não serem julgadas por suas escolhas. Estou do lado das mulheres que mostram o dedo do meio para os caras que fazem piadas de mal gosto na rua, que prestam queixa à polícia por assédio ou que queimam o sutiã para mostrar ao mundo que possuem voz e valor. Apoio às mulheres que têm diferentes opções sexuais e diferentes escolhas religiosas. Apoio às mulheres que optaram por serem ou não mães, afinal, cada uma escolhe aquilo que irá deixá-las mais felizes. Enfim, apoio e respeito às mulheres pelo simples fato de serem mulheres e enfrentarem todos os dias diversos desafios. Espero, do fundo do meu coração, poder olhar para trás e ver que todos estes problemas que ainda sofremos foram sanados.

Espero, do fundo do meu coração, que as próximas gerações de mulheres não precisem passar por mais nenhum preconceito ou assédio e que até lá todas as pessoas entendam o significado das palavras RESPEITO e IGUALDADE.

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz.”

O tempo passa muito rápido. Hoje completamos três meses na terra do Tio Sam. Foram tantos aprendizados, alegrias, saudades, frustrações e superações, que parece ter passado mais de um ano. Cada dia é tão intenso, que equivale, muitas vezes, a uma semana. Como Gonzaguinha divinamente disse na música “O que é o que é”, não devemos ter vergonha da felicidade e devemos ser humildes para aceitar que somos eternos aprendizes nesta vida. Aprender certamente foi o que mais fiz nesses últimos tempos. Por isso, para cada dia que passamos aqui, listei um hábito da cultura dos americanos que vivem em San Diego e que me fizeram ter uma nova visão das coisas.

Eu fico com a pureza das respostas das crianças:
É a vida! É bonita e é bonita!
Viver e não ter a vergonha de ser feliz,
Cantar,
A beleza de ser um eterno aprendiz
Eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será,
Mas isso não impede que eu repita:
É bonita, é bonita e é bonita!

  1. Os carros param para os pedestres que atravessam na faixa de segurança.
  2. Não atravesse fora da faixa de segurança. Você pode levar uma advertência da polícia ou até uma multa.
  3. Existem faixas para pedestres em todos os lugares.
  4. O trânsito em San Diego não é caótico (se você for pra Los Angeles certamente vai se sentir em São Paulo). Os motoristas só buzinam quando realmente é necessário.
  5. Existe cordialidade no trânsito. Os outros motoristas deixam você passar na frente quando necessário.
  6. Na freeway, se você estiver com um passageiro no carro, pode andar na via expressa, a qual possui menos fluxo que as demais. Ou seja, você “ganha” essa vantagem se estiver fazendo rodízio com seus colegas de trabalho, por exemplo.
  7. Os pedágios são muito diferentes. Os carros não precisam parar, existe uma câmera que registra sua placa e dentro de alguns dias você recebe em casa o boleto para pagar a taxa.
  8. Carros são muito baratos e fáceis de serem comprados por aqui.
  9. Os americanos usam o carro pra TUDO. Dificilmente você vê americanos caminhando. Eles realmente dirigem de uma quadra a outra se for preciso.
  10. Como o carro é praticamente a sua casa, é muito comum você ver americanos almoçando no carro, se maquiando, tomando café, etc. Inclusive, já vi várias pessoas que carregam MUITAS coisas dentro do carro.
  11. A gasolina é muito barata.
  12. Não existem guardadores de carro por aqui.
  13. É muito comum encontrar carros com chave na iguinição, com os vidros abertos ou com as portas destrancadas.
  14. Existem vários estacionamentos públicos em que você estacionada e por conta própria paga o seu ticket. Claro que, se você não pagar e passar a fiscalização, seu carro será guinchado. O mesmo vale para os paquímetros.
  15. Têm calçadas em todos os lugares, ou seja, você pode caminhar ou andar de bicicleta sem medo.
  16. Se você está de bike, os motoristas respeitam a sua opção. Inclusive existem pistas em que o ciclista tem a preferência.
  17. O transporte público é muito bom, porém restrito já que a maioria das pessoas têm carro.
  18. Tudo é self-service: posto de gasolina, trolley, supermercado e lojas de materiais de construção ou móveis (nesses três últimos casos existem alguns caixas com pessoas atendendo).
  19. Em lojas de materiais de construção, como Home Depot, ou de móveis, como Ikea, você mesmo que passa pelas prateleiras pegando o que precisa e leva pra casa. A maioria das lojas não faz entrega e, quando faz, cobra caro por isso.
  20. Como é caro o serviço de entrega, existem empresas que alugam mini caminhões de mudança para as pessoas carregarem seus móveis/materiais de construção da loja para a sua casa.
  21. Quando você compra móveis em lojas mais baratas, você mesmo que deve montá-los em sua casa. Isso é muito comum por aqui.
  22. A burocracia para alugar um carro ou um apartamento é mínima. Nada comparado com o Brasil.
  23. Buffet não é uma coisa comum, mas é um dos únicos lugares que você não precisa pagar gorjeta.
  24. Comprar “bobagens” (salgadinho, bolacha recheada, chocolate, bolos, etc.) no supermercado é MUITO mais barato do que comprar alimentos saudáveis (frutas, legumes, sucos, pães integrais, etc.).
  25. Ao mesmo tempo, existem diversos supermercados que vendem alimentos mais saudáveis e não possuem preço muito superior aos supermercados comuns.
  26. A maioria dos cardápios possui opções de pratos para vegetarianos e veganos.
  27. A comida é barata. Claro que existem restaurantes caros, mas em geral os preços são bem acessíveis. Porém, mesmo assim os americanos acham caro.
  28. No cinema você que serve a sua bebida e coloca manteiga na sua pipoca.
  29. O almoço é reduzido a lanches, principalmente hamburgues e tacos. Se você quer comida de verdade, precisa procurar bastante ou fazer em casa.
  30. Inclusive é muito comum os americanos levarem comida feita em casa para o trabalho (a famosa marmita).

E a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão?
Ela é a batida de um coração?
Ela é uma doce ilusão?
Mas e a vida? Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é, meu irmão?

  1. Os restaurantes não cobram água caso você peça.
  2. O drive-thru é muito comum aqui. Todos os fast-foods com drive-thru têm mais movimento que o interior do restaurante. Até algumas farmácias têm drive-thru.
  3. A palavra grande significa gigante. Ex.: se você for na Starbucks e pedir um café grande, virá praticamente um balde de café.
  4. A pimenta é muito comum em todos os cardápios e existem molhos apimentados de todos os tipos.
  5. Na maioria das vezes você não precisa pedir a conta, ela vem logo depois que você termina sua refeição.
  6. Os americanos gostam de jantar cedo. Por isso, muitos restaurantes fecham às 9h.
  7. Você que calcula a gorjeta nos restaurantes e escolhe se quer pagar junto no cartão ou separadamente em dinheiro.
  8. Você não encontra massa de pastel nos supermercados.
  9. Leite condensado, creme de leite, batata palha e requeijão são itens não muito comuns e possuem diferentes aspectos por aqui.
  10. Muitas lojas oferecem cupons de desconto em todas as compras. Como a concorrência é grande, os programas de fidelidade são muito comuns.
  11. A maioria das lojas abre no domingo.
  12. Os atendentes perguntam se você precisa de ajuda logo que você entra na loja e depois dão todo espaço do mundo para você olhar as coisas.
  13. Dificilmente você vai encontrar um item sem preço. Seja no supermercado, em uma loja de roupas, na farmácia, no site do salão de beleza, enfim, tudo é precificado.
  14. O preço que está na etiqueta é o valor final e ponto. Americanos não ficam negociando desconto como no Brasil. Ou você tem um cupom de desconto ou vai pagar o valor da etiqueta. Ponto final.
  15. Se você não gostou de um produto, você tem uma semana para ir na loja e pedir seu dinheiro de volta sem dar muitas explicações.
  16. Quando você troca um produto, você pode escolher entre seu dinheiro de volta ou ganhar um vale para comprar outros itens na loja.
  17. É comum você receber seu dinheiro de volta através de cheques que são enviados pelos correios.
  18. Se você fez alguma compra on-line, geralmente em menos de uma semana recebe o produto em casa.
  19. As entregas das compras on-line geralmente são deixadas na frente da porta da sua casa, mesmo se você não estiver em casa.
  20. Os shoppings não cobram estacionamento.
  21. Tudo é muito prático. Dificilmente você encontra balde ou pano de chão. Aqui se usa o mop, que é um rodo com um pano descartável.
  22. Os americanos não se preocupam muito com limpeza, geralmente fazem apenas a limpeza básica da casa usando seus produtos e acessórios automáticos. Tanto é que as faxineiras brasileiras ganham muito dinheiro por aqui, pois são conhecidas por realmente colocarem uma casa abaixo e deixar tudo tinindo de limpo.
  23. Por todo serviço prestado é preciso pagar gorjeta de 10% a 15%, inclusive no salão de beleza.
  24. Todo tipo de serviço é caro. Desde um encanador até uma manicure.
  25. Como o serviço é caro, muitas mulheres acabam fazendo em casa coisas como unhas, hidratação no cabelo e depilação. Por esse mesmo motivo, existe muitos bons produtos à venda e com preços acessíveis.
  26. Do mesmo modo, muitas americanas não têm empregadas e fazem elas mesmas a limpeza da casa (lembrando que esse serviço também é caro). Por isso, existem produtos de limpeza milagrosos e baratos, assim como robôs que limpam a casa.
  27. Aqui as pessoas andam bem à vontade. Não existe a preocupação de estar arrumado para ir ao shopping, ao cinema ou à praia. Se você ver uma mulher muito bem arrumada, na maioria das vezes ela é oriental, européia (geralmente francesas e espanholas) ou brasileira.
  28. Os americanos são muito amigáveis. Eles adoram conversar.
  29. Muitos americanos têm animais de estimação, principalmente cachorros.
  30. Os pets são praticamente filhos para os americanos. É muito comum ver cachorros nas praias, nos supermercados, em restaurantes e até em serviços públicos.

Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo,
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo,
Há quem fale que é um divino mistério profundo,
É o sopro do criador numa atitude repleta de amor.
Você diz que é luta e prazer,
Ele diz que a vida é viver

  1. A maioria dos apartamentos alugados cobram uma taxa extra mensal para quem tem pet.
  2. Existem muitos mendigos em San Diego devido ao clima.
  3. Os mendigos são muito educados. Dificilmente eles abordam você. A maioria usa um pedaço de papelão dizendo que precisa de dinheiro.
  4. O voluntariado é muito comum por aqui. Existem muitas vagas de voluntariado em escolas, bibliotecas, parques e ONGs.
  5. É proibido beber bebidas alcóolicas em locais públicos, como na praia, por exemplo.
  6. Na beira da praia é comum encontrar diversas quadras de vôlei gratuitas paras as pessoas jogarem.
  7. Existem diversas pistas de skates e elas são muito bem conservadas.
  8. As festas acabam cedo. Às 2h as luzes são acessas e as pessoas são mandadas embora.
  9. É permitido vender bebidas alcóolicas em estádios, espetáculos e shows.
  10. Sempre que você compra bebida alcóolica, precisa mostrar sua identidade.
  11. As festas americanas nas casas das pessoas geralmente são muito práticas: você leva uma coisa para comer e beber e a dona da casa também serve comidas prontas, geralmente legumes com algum molho ou tortas prontas.
  12. Os americanos não perdem horas na cozinha pra fazer uma janta pros seus convidados.
  13. Quando os americanos dão tchau, eles realmente vão embora.
  14. Ao expressar suas opiniões, você precisa ser bastante direto. Os americanos são muito objetivos.
  15. Não existe jeitinho pra nada. É tudo preto no branco. Aceite e siga as regas. Esqueça o jeitinho brasileiro.
  16. Horários devem ser respeitados. Se você chegou 1 minuto depois do que foi marcado, você está realmente atrasado.
  17. Os americanos não gostam de falar muito perto das pessoas, tampouco que sejam tocados durante a conversa.
  18. Respeite o espaço alheio. Se você está no elevador e existe espaço vago, mantenha uma certa distância das pessoas.
  19. Para os americanos é importante saber de onde você é e o que você faz. Mesmo que você seja “só” estudante, para eles isso é muito valorizado, pois significa que você está se qualificando para o mercado de trabalho.
  20. Os americanos comprimentam você e continuam andando. Eles estão sempre correndo.
  21. Todas as filas são respeitadas.
  22. Lojas de usados são muito comuns. Aqui as pessoas não se importam muito em ter em casa móveis e roupas usadas.
  23. Existem containers em algumas calçadas para você fazer doação das coisas que não usa mais ou você simplesmente pode colocá-las na frente da sua casa.
  24. Inclusive existem sites para você publicar os objetos que está doando e anunciar para as pessoas.
  25. É muito comum encontrar bazar no jardim das casas, principalmente nos finais de semana.
  26. Viajar dentro do país é barato.
  27. É bastante comum as pessoas fazerem trip de carro ou alugar um motor room e viajar com a família.
  28. Os americanos são extremamente educados. Eles pedem com licença, desculpa e obrigado para tudo.
  29. Existem muitos programas de auditório e de debate na televisão.
  30. 60% dos comerciais são de comida, 20% de carros, 10% de produtos para emagrecer e 10% sobre outros assuntos.

Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser,
Sempre desejada por mais que esteja errada,
Ninguém quer a morte, só saúde e sorte,
E a pergunta roda, e a cabeça agita.

Agora, aguado os próximos 90 dias. Certamente muitos novos aprendizados virão 🙂

“Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia. Eu não encho mais a casa de alegria. Eu não vou me adaptar.”

Esta semana o tema das aulas de inglês foi sobre “cultural shock”, ou seja, o choque cultural pelo qual passamos quando mudamos de país. O interessante foi notar que TODOS os quarenta colegas ( a turma é composta por pessoas de 26 nacionalidades diferentes) identificaram-se com os sintomas causados por esse processo de mudança. Segundo os estudos feitos sobre o assunto, passamos por cinco estágios de adaptação quando não somos mais apenas turistas. São eles: período de lua de mel, choque cultural, adaptação inicial, isolamento mental, e aceitação e integração.

1. Período de lua de mel: inicialmente, muitas pessoas ficam fascinadas e excitadas com tudo que vão conhecendo da nova cultura. Cada descoberta é uma experiência que será guardada em sua memória para sempre. Porém, esta fase só acontece uma vez, por isso é preciso aproveitá-la ao máximo. 

Quanto a esta fase, posso dizer que a vivi apenas na primeira semana, já que o choque cultural acontece muito rápido quando você tem a certeza de que vai ficar por um longo tempo em um novo país. Nos primeiros dias em San Diego, fiquei encantada com a educação das pessoas no trânsito e nos espaços públicos em geral, com o valor baixo de itens que pagamos uma verdadeira fortuna no Brasil (carros, maquiagem, cosméticos, roupas de marca, comidas…), com a pouca burocracia necessária para resolver questões complexas como alugar um carro ou uma casa, com o grande número de ciclovias na cidade, com a beleza natural, entre tantas outras coisas boas.

2. Coque cultural: as pessoas começam a ficar imersas em novos problemas como moradia, transporte, emprego, compras do dia a dia e a língua. A fatiga mental é um dos resultados do contínuo estranhamento e tentativa de entendimento da nova língua e cultura.

Acredito que esta fase é uma das mais demoradas a passar. Não tive dificuldades para me adaptar com o transporte público, com as idas ao supermercado e lojas em geral, com a procura da casa e todo o envolvimento exigido para mantê-la. Mas a língua, esta sim prega peças em você todos os dias. Nem é preciso sair de casa, pois você vai ter que lidar com ela na televisão, no rádio e na porta da sua casa (algumas vezes é o carteiro trazendo alguma entrega, o seu vizinho pedindo alguma coisa ou o síndico do prédio explicando uma nova regra) e você precisa aprender a lidar com todas estas questões.

Algumas coisas causarão por muito tempo – ou para sempre – estranhamento. A comida é a principal delas. Em San Diego é muito comum você ver restaurantes de comida mexicana (principalmente tacos) e hamburguerias. Os americanos usam muito mais o drive-thru do que as dependências do restaurante. Até as farmácias possuem drive-thru! Por isso, o almoço resume-se basicamente a lanches rápidos, muitas vezes feitos no escritório ou no carro. Esse foi um dos motivos que me fez optar por comer sempre em casa no almoço, já que não dispenso feijão, arroz e carne, ou uma massa com molho, arroz com legumes, enfim, comida de verdade! Além disso, a comida daqui não tem o mesmo sabor da comida brasileira, falta aquele gosto de comida “fresquinha”, de tempero (não estou contando pimenta, pois aqui tudo tem pimenta!), parece que as coisas são muito artificiais.

Outro choque cultural que tive aqui foi com o tamanho das coisas. Nunca se pode pedir alguma coisa grande, pois o grande é gigante (claro que, se você estiver com MUITA fome ou MUITA sede, vá em frente!). Por exemplo, um balde de pipoca grande no cinema dá para três pessoas comerem com muita tranquilidade. Acredito que esse seja um dos motivos que faça com que muitos americanos sejam obesos. Além disso, como carro é um item barato, as pessoas quase não andam a pé. Sinto-me uma estranha quando dou meus passeios de camelo ou de bike.

Ao mesmo tempo, por aqui tudo é muito correto. Você precisa seguir as regras, não dá para aplicar o “jeitinho brasileiro”. Essa diferença eu considero extremamente positiva, pois faz com que a cidade seja um local seguro para se viver. Sem contar que as pessoas são muito simpáticas e solícitas. Posso contar nos dedos os americanos que foram grosseiros comigo. Sempre que precisei, recebi ajuda e fui muito bem recebida e atendida nos lugares pelos quais passei. Ah, os americanos são muito politizados, eles discutem muito sobre os assuntos que estão acontecendo na atualidade e possuem um vasto conhecimento acerca da história do seu país. Eles realmente conhecem a sua origem e se orgulham disso.

3. Adaptação inicial: com o passar do tempo os problemas de moradia e compras, por exemplo, vão se resolvendo. A pessoa ainda não fala fluentemente a nova língua, mas já consegue expressar ideias e sentimentos básicos. 

Acredito que estou entre esta fase e a fase do choque cultural. Como tudo ainda é muito novo, o choque é grande, mas o aprendizado diário da língua faz com que você vá ganhando confiança aos poucos e passe a sentir-se um pouco melhor a cada dia.

Ainda não tenho como descrever as fases abaixo, pois não cheguei lá. Mas acho interessante compartilhar mesmo assim o que elas significam.

4. Isolamento mental: algumas pessoas ficam um longo tempo ser ver sua família e amigos e acabam sentindo-se sozinhas. Muitas vezes não conseguem expressar seus sentimentos a não ser na sua língua nativa. Isso causa frustração e perda da autoconfiança. Algumas pessoas permanecem nesta fase por um longo tempo, principalmente se não têm um emprego. 

5. Aceitação e integração: a rotina já está estabelecida. As pessoas já estão acostumadas com os hábitos, costumes, comidas e características do povo e da nova cultura. Já sentem-se confortáveis com a língua e fazem novos amigos. 

Na música “Não vou me adaptar”, de Nando Reis, o choque caudado por uma mudança é descrito de forma brilhante.

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia,
Eu não encho mais a casa de alegria.
Os anos se passaram enquanto eu dormia,
E quem eu queria bem me esquecia

Com o passar dos meses, você vai percebendo que as coisas estão mudando no seu interior. Como cada dia exige um esforço maior, mesmo que já tenha estabelecido uma rotina, você amadurece de forma mais rápida do que se estivesse no seu país, na sua zona de conforto. Existem pessoas que passam muitos anos da sua vida longe do seu país de origem e não conseguem se adaptar aos novos costumes que precisam enfrentar no seu cotidiano. Assim como tudo na vida, algumas pessoas possuem mais facilidade do que outras para enfrentar as mudanças da vida.

Confesso que alguns dias são bem sofridos para mim, pois sinto muita saudade da minha família, dos meus amigos e do meu trabalho. Nessas horas, o sentimentalismo não ajuda muito, mas é preciso absorver as novidades da forma que você é, afinal, nada vai mudar a sua essência (ainda bem!).

Eu não tenho mais a cara que eu tinha,
No espelho essa cara já não é minha.
Mas é que quando eu me toquei, achei tão estranho,
A minha barba estava desse tamanho.

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou me adaptar!
Me adaptar!

Com o tempo, tenho certeza de que um dia vou acordar, olhar no espelho e ver uma nova pessoa. Você é feito das suas escolhas e das suas experiências. Toda a sua bagagem cultural irá afetar a sua opinião sobre os mais diversos assuntos do mundo. Por mais que eu diga muitas vezes que não vou me adaptar, em alguns dias sinto-me quase como uma nativa. E assim a vida vai seguindo o seu curso natural.

Assim como existe um estranhamento do novo país, certamente terei um estranhamento quando for visitar o Brasil, o inverso também irá acontecer. As coisas por aqui são muito diferentes. Chegou um ponto que eu decidi não comparar mais. Se a língua é diferente, a moeda é diferente, a comida é diferente, ou seja, é uma cultura totalmente diferente, por que comparar?

Vejo muitos brasileiros idolatrando a nova cultura e repudiando seu país. Fico triste com isso. Todos sabemos que o Brasil possui diversos problemas e está enfrentando uma séria crise política. Mas temos tantas coisas boas para se orgulhar! Muitos americanos, assim como muitos colegas de outros países, já me disseram que querem muito conhecer o Brasil. E os que já foram para nossa terra, dizem ter adorado. Então, por que precisamos cuspir no prato que comemos? Parte do que sou devo a minha pátria amada. E não existe choque cultural que irá apagar a minha origem. Se a situação está ruim, também cabe a nós fazermos alguma coisa para ajudar o país a mudar (mas este assunto é tema para outro post).

Obs.: o texto completo sobre cultural shock que estudei em aula está disponível online (em inglês): http://anh-tourguide.blogspot.com/2011/11/unit-2-cross-cultural-conflict.html