“Porque que eu sou apenas movimento. Sou do mundo, sou do vento. Nômade”

Devido aos últimos acontecimentos políticos e econômicos do Brasil, somados aos velhos problemas de falta de investimento em educação, saúde, segurança, empregos, etc., alguns amigos vêm falar comigo sobre o que é preciso para mudar de país e, consequentemente, de vida.

A resposta parece ser complexa, afinal você está deixando tudo para trás, então só pode ser algo muito difícil de ser feito. Mas na realidade a resporta é muito mais simples do que parece. Para ajudar nessa reflexão, sugiro que você assista ao vídeo que uma grande amiga fez contando como ela mudou de país com o marido e as duas filhas pequenas. Já adianto que concordo com 100% dos seus argumentos e faço este post com o objetivo de complementar suas ideias.

A minha casa está onde está o meu coração
Ele muda, minha casa não
No campo, em minas, terras gerais ou qualquer lugar
Onde estou, a minha casa está

Porque que eu sou apenas movimento
Sou do mundo, sou do vento
Nômade

Sei que muita gente não tem o sonho de morar em outro lugar e nem se imagina fora da sua cidade, do seu estado (então que dirá do Brasil!). Outros, já nascem com o chip que diz que eles são cidadões do mundo e gostariam de desbravar as oportunidades que podem aparecer. Eu, por exemplo, nunca tive o sonho de morar fora, sempre quis conhecer outro lugares, mas nunca me imaginei longe do meu país. Porém, os acontecimentos muitas vezes fazem com que você reveja seus conceitos e comece a cogitar uma vida melhor para si, para o seu companheiro ou para seus filhos.

Hoje, infelizmente, eu não consigo mais me imaginar no Brasil construindo uma família. Só de pensar que meus filhos não terão diversos espaços públicos para brincar, escolas públicas de qualidade, várias opções de apartamentos/condomínios com espaços para crianças sem ter que pagar o dobro do preço por isso, incentivo à prática de algum esporte ou o aprendizado de algum instrumento, empresas que oferecem empregos flexíveis para as mães e, principalmente, segurança em qualquer lugar que ele for com os amigos, eu já desisto da ideia de um dia poder começar uma família. Sei que estou sendo radical e tenho várias amigas com filhos no Brasil, porém eu acompanho a aflição delas de estarem o tempo todo com medo.

Como já disse em outros momentos, nem tudo são flores. Os Estados Unidos, assim como todos os países, tem seus problemas, algumas coisas que funcionam bem no Brasil não funcionam aqui, mas poder sair de casa sem medo de ser assaltado, machucado ou morto na rua é um tópico que supera todas as dificuldades.

Porque quando paro sou ninguém
Não declaro onde ou quem
Nômade

Meu endereço é o sítio estrelado de norte a sul
Ele muda a cada estação
Na boca do sertão, na varanda do seu olhar
Onde estou, a minha casa está

Então, o primeiro passo a ser dado é fazer o seu sonho/ideia virar realidade. É preciso ter planejamento financeiro, pesquisar bastante sobre o lugar, falar com amigos ou conhecidos que moram ou visitaram esse lugar, procurar um lugar para morar e alternativas de como se manter. Tem gente que guarda dinheiro e tira meio ano ou um ano sabático; outros vêm com visto de estudante, se matriculam em um curso e trabalham durante o tempo que estão fora da escola; outros vêm com visto de tursista e continuam tocando seus negócios no Brasil à distância; e assim por diante.

Planejamento racional de todas as necessidades que você irá ter é essencial, mas a vontade de querer mudar, de estar disposto a encarar o desafio, faz parte dos outros 50% do objetivo. E dentro da vontade está a prática do desapego e estar aberto ao novo estilo de vida que você irá levar. Não é porque você estará na Califórnia, na Tailândia ou em Sidney que nenhum problema irá acontecer e que será tudo lindo. Lembre-se que a cultura, a língua, a comida, o jeito de pensar e agir são totalmente diferentes do seu país.

Eu abri mão da minha carreira e ainda sigo na busca de um emprego na área. San Diego não é a melhor cidade dos Estados Unidos para eu me recolocar no mercado de tecnologia (nesta área o melhor seria morar em San Francisco ou Los Angeles), contudo sigo tentando. Enquanto isso, trabalho em uma loja de departamento e faço freelas. Confesso que foi difícil no início tirar da cabeça que eu estava rebaixando toda a minha escolaridade e minhas experiências profissionais. Hoje, eu vejo que estou aprendendo muita coisa nova e já consigo olhar de forma diferente para a minha carreira. Conheci pessoas, histórias de vida, aprendi novas coisas e até uma nova língua (estou cada dia melhor no espanhol). Então, mudar muitas vezes significa dar passos para frente, mesmo que eles sejam de formiguinha.

Porque quando passo sou alguém
Sou do espaço, sou do bem
Nômade

A minha carne é feita de tudo que vai e vem
Tempo, nuvem, aflição também
Encontro e perda ao mesmo tempo, eu não vou parar
Onde estou, a minha casa está

O problema de mudar é que só de pensar no esforço que será preciso empregar para colocar em prática a ideia, já faz com que muita gente desista. Mas mudar de país é algo realmente simples de ser feito, sério mesmo! Não é preciso anos de planejamento, no nosso caso levamos um ano entre a ideia e a materialização. Claro que cada caso é um caso, porém as dificuldades não podem fazer com que você se acomode. Assim como a maioria dos amigos que conheço aqui planejou sua mudança, outros vieram na cara e na coragem, só com a roupa do corpo. Sim, é muito mais difícil recomeçar assim, mas eles não ficaram sentados no sofá criando desculpas e sofrendo por antecipação sobre as coisas que iriam ter que enfrentar.

Abra sua visão, converse com amigos, vizinhos, pessoas no ônibus, no café. Faça uma lista de tudo que você irá precisar para mudar de país, assim como faça uma lista de tudo que você quer fazer nesse lugar (lugares para visitar, restaurantes, esportes…) e todos os dias ao levantar, olhe para as listas e siga sua meta. Leia livros e blogs sobre pessoas que mudaram de país e começaram uma nova vida. Entre nas comunidades no Facebook de brasileiros que vivem nesse lugar e faça perguntas, interaja, já vá se familiarizando com a realidade do lugar. Faça tudo que for possível para se sentir mais seguro sobre a sua escolha. Se der, visite esse lugar antes de fazer sua mudança definitiva, veja se ele realmente é aquilo que você imagina e que vai te fazer feliz.

É muito difícil sair da zona de conformo, mas eu garanto que depois que você faz isso uma vez, vai ficar constantemente se perguntando por que demorou tanto.

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Mar doce lar, vasto e profundo, mais vasto é o meu coração, que não cabe nesse mundo e precisa transbordar

Este ano de 2015 certamente foi o mais fascinante de toda a minha vida. Dia 7 de dezembro completamos um ano de San Diego, de aprendizados e muita saudade. É incrível como a experiência de morar em outro país transforma uma pessoa. Você passa por tantos momentos incríveis, embaraçosos, trabalhosos, alegres e tristes; conhece gente de todo o canto do mundo; começa a dar ainda mais valor para as pequenas coisas da vida (como cheiros, gostos, lembranças…); e faz muitas descobertas.

Olhei pro mar, pra não me perder de vista
E vi uma onda solitária, correndo sem quebrar
Como se fosse ela uma surfista
A onda olhou pra mim, me convidou jogando a sua crista
Abrindo os braços como ninguém abre
E eu que não sou Cristo, mas entendo de milagre
Fui andando sobre as águas do jeito que só quem conhece sabe
Acorde num domingo, tome seu café
Pegue a sua prancha, tome a benção à mãe
Reze com fé e vai pro mar
Solitário surfista…

Entre tantas descobertas, destaco as que mais mudaram minha visão sobre o mundo e sobre mim mesma:

– Os amigos na verdade são a família que você escolhe;

– Não é fácil recomeçar, mas é possível;

– Temos muito preconceito guardado dentro de nós sobre os EUA e muitos “achismos” vão por terra já na primeira semana que você está aqui;

– A comida brasileira é a melhor (claro que o maior destaque é para o feijão, o pudim, o pão, a polenta, etc., da mãe);

– O cheiro da minha mãe e o abraço do meu pai são os melhores presentes que a vida me deu e dói muito todos os dias não ter este tesouro por perto;

– Você é muito corajoso e só descobre isso quando está bem longe de casa, sem ter nenhum conhecido por perto, falando outra língua e tendo que encarar uma nova cultura;

– A Califórnia é um dos lugares mais loucos e incríveis que existe, mas nem por isso significa que a vida nela é um eterno pôr do sol no Pacífico.

Mar doce lar, vasto e profundo, mais vasto é o meu coração
Que não cabe nesse mundo e precisa transbordar
Navegar não é preciso, é preciso surfar
Nada parado, tudo em movimento
O chão é a parede e é o teto ao mesmo tempo
A parede desabando e eu lá dentro, acelero e acelera o batimento
Tanto bate até que fura, água mole em pedra dura
Cada louco tem a sua loucura
Eu viajo por isso, quase sempre sem visto
A sereia me chama, eu não resisto
Sei que cada feiticeira tem a sua maneira de transformar
Uma laje de pedra em ouro maciço, parece feitiço
A sereia me chama, eu viajo por isso

Ando trabalhando muito, mas não na minha área; ganhando pouco, mas o suficiente para pagar os pequenos prazeres da vida; viajando muito, mas gastando pouco; estudando inglês menos do que deveria, mas garantindo um certificado de Project Manager no início do ano; escrevendo de menos, mas passando mais tempo com os novos amigos; fazendo exercício de menos, mas comendo melhor; conhecendo novas bandas, mas não deixando de curtir os clássicos; recebendo muitos amigos em casa, mas para mim o tempo com eles nunca é o suficiente; dando muita risada, mas não deixando de chorar nas datas que todo mundo passa com a família, ou naqueles dias que tudo dá errado e o que você quer é apenas um colo de “mainha” ou um abraço da sua melhor amiga.

As trips que fizemos não foram muitas, mais aqui por perto mesmo, porém foram intensas. Tivemos a chance de conhecer Big Bear, Mammoth, Temecula,Los Angeles, Santa Barbara, Malibu, Venice, Oceanside, San Clemente e tantas outras praias do litoral californiano. Vamos passar o ano novo em San Francisco e, antes de vir pra cá, fizemos uma trip de um dia no México, na qual conhecemos as praias de Rosarito e Ensenada.

Não posso deixar de citar as bandas que tivemos a oportunidade de ver ao vivo por aqui como Foo Fighters, John Butler Trio, Alabama Shakes, The Wailers, Sublime e Madonna. Os ingressos aqui são muito mais baratos que no Brasil, por isso nossa ideia é aumentar a lista para o próximo ano.

Cheguei na praia, olhei pro mar, entrei no mar
Entrei no mar, olhei pra onda, entrei na onda
Entrei na onda e fiz a onda até a areia
Entrei na onda que corre na minha aldeia
A minha onda não é uma onda qualquer
Da minha onda eu saio de cabeça feita
E na areia uma sereia com pernas de mulher
Mais perfeita do que a onda mais perfeita
Adivinhava o meu futuro com os seus óculos escuros
Me filmando nas esquerdas e direitas
Cheguei na areia e a sereia entrou no mar
E só de onda eu me deitei onde ela deita
Tubarão em pele de cordeiro, um ataque de surpresa
Predador virando presa, uma sereia com pernas de mulher
Perfeição ou perversão da natureza?

Termino 2015 com a certeza de que quem faz o ano ser bom ou ruim é você, e que 365 dias não são mais o suficiente para realizar meus sonhos. Ainda não trabalho naquilo que amo, mas continuo buscando algo que me faça feliz.

Lembro que, quando cheguei aqui, já não sabia quais eram meus objetivos de vida, pois tudo estava de pernas para o ar. Agora, a minha lista está gigante e eu vou precisar correr muito para não perder a próxima parada.

Posso continuar sendo uma solitária surfista, porém quando chego na areia tenho a certeza de que sempre terá alguém me esperando.

Que a onda de 2016 venha com tudo! Feliz Ano Novo 😉

“Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo. Quem acredita sempre alcança.”

Lembro que a letra de “Mais uma vez”, do Legião Urbana, foi a escolhida para fazer parte da epígrafe do meu TCC. Naquele momento, ela fez todo o sentido ao ilustrar o fechamento de um ciclo. Hoje, ao escutá-la, ela também conseguiu dar significado para o meu recomeço.

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem

Após a publicação do último post, recebi várias mensagens de apoio e também relatos de amigos que passaram ou estão passando pela difícil tarefa de recomeçar sua carreira em outro país. Muitos disseram para eu manter a calma e acreditar que um dia as coisas vão acontecer.

Sim, eu acredito. Desistir nunca foi uma opção. Mas o ponto que quero esclarecer melhor, é o misto de esforço e sentimento que estão envolvidos na tarefa de reconstruir. Faz um mês que estou na busca de um emprego, pois foi uma opção minha não começar antes. Primeiro, porque queria estudar inglês, fazer trabalho voluntário e me sentir mais confiante ao tentar algo na minha área. Segundo, porque não quis aceitar trabalhar ilegalmente em um restaurante ou como babá. Muitos imigrantes por aqui não possuem outra opção, já que precisam pagar as contas, e dedicam grande parte do seu dia, finais de semana e feriados para a primeira oportunidade que aparece. Tenho muita sorte de ter um marido que pode nos manter enquanto eu me qualifico. Ao mesmo tempo, como tenho permissão de trabalho, tenho mais oportunidades para encontrar vagas na área de prestação de serviços, por exemplo.

Porém, outro ponto que dificulta a recolocação, é a falta de conhecidos que possam indicar você. Aqui fica muito mais difícil contar com amigos que possuem contatos em empresas que você gostaria de trabalhar. No Brasil, depois do meu primeiro estágio, não precisei mais sair enviando currículo e fazendo mil entrevistas, as oportunidades surgiam e eu sempre tinha algum contato que podia me indicar. Agora, é preciso recomeçar o ciclo de contatos, é preciso dedicar tempo para criar um novo networking.

Por isso, enquanto sigo na luta por conseguir algum voluntariado, estágio ou emprego em uma agência digital, também estou aplicando para vagas de vendedora em lojas. Como agora já estamos próximos do final do ano, surgem várias vagas temporárias. E foi em uma dessas oportunidades que uma estrela brilhou e eu consegui um trabalho temporário em uma loja. Semana passada fiz meu treinamento e devo começar na próxima semana!!!

Estou muito feliz por ter essa oportunidade, mesmo não sendo na minha área, pois agora vou poder contar com a indicação de um empregador americano, vou entender como funciona o sistema de trabalho por aqui, além de estar o dia todo falando inglês. Contudo, não desisti de achar o recomeço na minha profissão. Continuo pesquisando vagas, enviando currículos e fazendo contatos.

Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar

Recomeçar em outra área é algo muito enriquecedor. Tenho certeza que vou aprender muito e estou extremamente agradecida por isso. Ao mesmo tempo, já escutei algumas pessoas julgando o fato de que é inaceitável estudar durante tanto tempo para ser vendedora, garçonete, babá. Tenho uma amiga aqui com Doutorado em Psicologia que é nanny, outra que é Nutricionista e trabalha em um parque de diversões. E qual o problema nisso? O problema é que muitos de nós encara o emprego como sinônimo de status e pensa que todos os prestadores de serviços são classificados como uma categoria mais baixa da sociedade. É realmente revoltante estar em 2015 e ter que lidar com mais esse preconceito. Mais revoltante ainda é entender que esse pensamento é cultural, está enraizando na nossa sociedade e nos é ensinado desde que somos crianças. O que posso dizer é  que o prestador de serviço aqui nos Estados Unidos recebe por hora e, principalmente garçons/garçonetes, ganham mais por mês do que muita gente com cargo de gerente no Brasil.

Claro que é difícil dar passos para trás depois de estudar tanto e trabalhar mais ainda. É complicado saber que você vai ganhar bem menos no final do mês e que vai levar um bom tempo até chegar ao salário que você tinha quando deixou sua carreira no seu país de origem. Mas você optou por isso e agora precisa encarar as consequências. Não é vergonhoso trabalhar em outro lugar, todo trabalho é digno. Porém, infelizmente, lá no fundo, temos aquela cobrança de que poderia ser diferente. Nesse ponto, recomendo um texto maravilhoso indicado pela minha melhor amiga: A Alemanha e o trabalho. Vender colchão. Por que não? Uma das passagens que mais me marcou no texto foi: “Trabalho é só trabalho. Não tem nada a ver com status, com quem você é, não diz tanto sobre você. Tento repetir isso para mim milhões de vezes até tentar me convencer.” 

Para quem não acredita ou imagina que o preconceito com prestadores de serviço no Brasil é algo raro, recomendo esta outra leitura: Por que comemos embaixo da escada?.

Tem gente enganando a gente
Veja a nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!

A semana que passou me ensinou que mais difícil que recomeçar é mostrar para si mesmo que será preciso descer alguns degraus, deixar o orgulho de lado e encarar os comentários nem sempre positivos. “Trabalho é só trabalho” e nada mal recomeçar em um lugar tão maravilhoso quanto a California. Por aqui, o trabalhador pode iniciar ou terminar o dia surfando, voltar para casa a pé de noite sem ter medo de ser assaltado ou morto no caminho. Por aqui, o trabalhador é respeitado pelo simples fato de estar ganhando sua vida honestamente, seja qual for a sua profissão.

Confiar em si mesmo é o primeiro passo para qualquer processo de mudança. Toda dificuldade é temporária, você só precisa acreditar e batalhar para que as coisas aconteçam. Uma hora o sol vai brilhar no seu caminho, esteja você na Califórnia, em Dublin, em Berlim, em Abu Dhabi, em Sydney, em Shanghai, ou em qualquer lugar do mundo que você escolheu recomeçar. Você já é um vencedor pelo simples fato de ter tido a coragem de mudar.

“Garota, eu vou pra Califórnia. Viver a vida sobre as ondas. Vou ser artista de cinema. O meu destino é ser star”

Três meses e meio passaram-se desde o último post. Um longo intervalo para quem tinha se comprometido a escrever semanalmente suas experiências. Mas a vida é imprevisível e acabamos nos perdendo no turbilhão de atividades diárias e descontinuando aquilo que seria uma prioridade.

Foram tantas coisas que aconteceram nesse tempo, que serão necessários vários posts para colocar as experiências em dia. Pensei muito no post de “retomada”, porém, antes de falar sobre as três semanas que passei no Brasil, as novas trips feitas, as visitas recebidas e os novos cursos, vou falar de algo que tem ocupado boa parte do meu tempo e tem sido meu grande objetivo atual: conseguir um emprego. Acredito também que este tópico pode ajudar muitas pessoas que estão na mesma situação.

Eu dou a volta, pulo o muro
Mergulho no escuro
Sarto de banda
Na Califórnia é diferente, irmão
É muito mais do que um sonho

Sim, a Califórnia é um sonho de lugar, contudo nenhum recomeço é simples, ainda mais quando se trata de se recolocar no mercado de trabalho em outro país. Desde que voltei do Brasil, há um mês, tenho procurado um emprego na minha área. Antes da viagem, já deixei meu currículo e minha carta de apresentação prontos e validados pelo conselheiro da escola de inglês.

Aqui, todo tipo de informação pessoal é proibida de ser passada para o empregador, tanto no currículo, quanto na entrevista. Claro que existem meios do recrutador conseguir algumas informações pessoais suas, mas é algo que cabe muito mais ao entrevistado se sentir a vontade para falar enquanto se apresenta. Um site que me ajudou muito a criar o currículo e a carta foi o da escola de inglês, o qual possui vários modelos para fazer download.

A primeira coisa que fiz após ter o currículo pronto foi criar um perfil em inglês no LinkedIn. Depois, comecei a procura pelo ponto mais óbvio: Google. Listei todas as agências digitais da cidade e entrei nos seus respectivos sites verificando se havia vaga na minha área. As que tinham, entrava em contato. Como não obtive retorno de nenhuma (a não ser um e-mail automático de retorno), comecei a enviar meu currículo também para as agências que não possuíam vagas abertas. Paralelo a isso, me cadastrei em alguns sites como Monster, IndeedSimply Hired, entre outros, para procurar e receber news de vagas não só de agências, mas também de empresas privadas.

A vida passa lentamente
E a gente vai tão de repente
Tão de repente que não sente
Saudades do que já passou

Eu dou a volta, pulo o muro
Mergulho no escuro
Sarto de banda
Na minha vida ninguém manda não
Eu vou além desse sonho

É tanta coisa nova todos os dias acontecendo por aqui que realmente às vezes fica difícil sentir saudades do que passou desde que chegamos. Cada passo é um mergulho no escuro. E a coragem? Desde que comecei esta jornada de retorno a minha carreira, acabei desviando do meu caminho e enviando alguns currículos para trabalhar no comércio. Por mais que não seja minha área, é uma experiência que pode agregar conhecimento, experiência e, claro, dinheiro enquanto não consigo o meu emprego dos sonhos. Aproveitei que agora algumas empresas estão com vagas temporárias para as grandes festas de final de ano (Dia de Ação de Graças e Natal) e tentei arriscar. Acabei conseguindo duas entrevistas.

Em uma das entrevistas o processo foi feito em grupo. Imagina você sendo entrevistado em outro idioma, com outros três “concorrentes”, sendo o único estrangeiro e sem experiência nenhuma no varejo? O medo bateu logo que cheguei. Respirei fundo antes de entrar na sala e resolvi confiar no meu taco. Pensei “Mais que um não eu não recebo”e “Já ganhei pontos só por ter sido chamada e estar aqui”.

Assim como o currículo é diferente, as entrevistas também são. O foco aqui é totalmente profissional, sem perguntas pessoais, e o recrutador testa sua experiência através de perguntas em que você deve dizer o que faria se acontecesse uma situação x na empresa. Ou quando você fala das suas características, ele pede para citar exemplos disso no seu último trabalho. Na escola recebemos uma lista de perguntas padrões para nos preparamos antes de uma entrevista. Seguem abaixo:

“Please tell me about yourself”: aqui não é pra falar da sua vida pessoal, mas sim para se vender, dizer no que você é bom, quais são suas principais características e descrever resumidamente as funções exercidas nos últimos anos.

“Where do you see yourself in five years?”: dizer qual o cargo que quer alcançar na empresa, mas não esquecer de falar que é através do cargo que você está se candidatando que vai conseguir a experiência necessária para chegar no seu objetivo final.

“Why do you want to work here?”: uma das principais perguntas feitas por aqui. Por isso, é importante dar uma boa pesquisada sobre a empresa antes da entrevista e ter os dados na ponta da língua, mostrando o seu conhecimento sobre ela.

“What are your weaknesses?”: quando for falar de um ponto fraco, já diga o que está fazendo para melhorá-lo. No meu caso, falo do inglês, que ainda não é perfeito, mas que continuo fazendo aulas todos os dias para aprimorar.

“Do you have any questions for me?”: aqui você sempre tem que ter pelo menos umas duas perguntas prontas para fazer e elas não podem ser sobre benefícios e valores, mas sim sobre a rotina de trabalho, quais são os próximos passos do processo, quais as oportunidades de crescimento, etc. Seguem algumas sugestões: “Does this job usually lead to other positions?”, “What are the opportunities for advancement?”, “How would you describe a typical day for this position?”, “How are employees evaluated in your company?”, “If I were offered a job, how soon would you like me to begin?”, “What is the next step in the interview process?”.

Outras perguntas que podem surgir: “Tell me about a difficult situation you had to handle”, “How would your peers or co-workers describe you?”,  “What are your strengths?”, “How are your English skills?”, “Are you available to work nights and weekends?”.

Garota, eu vou pra Califórnia
Viver a vida sobre as ondas
Vou ser artista de cinema
O meu destino é ser star

O saldo final até agora para a minha área foi só uma entrevista por telefone. Assim como no Brasil, tudo é muito mais fácil quando se tem um amigo ou conhecido que possa recomendar você para a vaga. Por isso, o processo de entrar em contato por conta própria com as empresas é muito mais lento.

Nesse meio tempo, acabei participando de um evento de Project Manager na escola onde faço o curso na mesma temática para fazer alguns contatos. Paralelo a isso, tenho feito alguns amigos nos cursos de marketing. Quando as pessoas são da minha área ou possuem uma rede grande de contatos, pergunto se posso adicioná-las no LinkedIn. No LinkedIn também estou buscando profissionais de RH da minha área e enviando e-mail me apresentando e perguntando se eles sabem de alguma vaga que se encaixe no meu perfil.

Sei que a descrição do processo parece simples, mas não é. Alguns sites pedem para você fazer um cadastro completo (que incluiu toda sua experiência profissional, educação, cursos, 90 perguntas de múltipla escolha sobre situações que podem acontecer no dia a dia da empresa, etc.) e você acaba perdendo uma hora só para se candidatar a uma vaga. E, para cada e-mail enviado, é preciso mudar algumas características do currículo e reescrever a carta de apresentação. O processo é lento e exige muita paciência.

Já bateu o pensamento de que é meio frustrante dar vários passos atrás para recomeçar. De cada 20 currículos que você envia, somente um dá retorno. Às vezes, nenhum. Você até tem chance sim de ser star na Califórnia, mas precisa lutar muito para ter seu lugar de destaque ao sol. Ninguém disse que seria tão difícil recomeçar. Porém, também ninguém falou que seria possível fazer melhor quando se tem uma segunda chance, e que nunca é tarde pra aprender a ser mais humilde e otimista.

“É chato chegar a um objetivo num instante. Eu quero viver nessa metamorfose ambulante”

Ando pensando muito e escrevendo pouco, eu sei, mas um dos encontros que a minha imaginação proporcionou nesses últimos dias foi entre Raul Seixas e Cecília Meireles. Sim, parece algo estranho em um primeiro momento, porém, se você parar pra refletir, eles têm muito em comum. Os dois eram grandes poetas que faziam das palavras mágicas combinações. Toda vez que escuto Raul ou leio Cecília, sinto-me em paz, sinto-me reflexiva.  Eles nos fazem pensar sobre a vida, sobre o amor, sobre a dor e sobre todas as possibilidades.

O último livro de Cecília Meireles que li foi “Escolha seus sonhos”, que não por acaso acabou nas minhas mãos em uma biblioteca aqui de San Diego. Devorei cada crônica em menos de dois dias. Virei a última página com uma vontade louca de desbravar o mundo com um caderno e uma caneta embaixo do braço anotando cada detalhe que meus olhos pudessem ver.

Entre uma das crônicas descobri a “A arte de ser feliz”, que é uma descrição linda de todas as vistas que a autora já teve através das janelas pelas quais passou. Não é um olhar simplista descrevendo o cenário a sua frente, mas sim uma visão profunda de cada detalhe visto pelo seu coração. Aprender a olhar em profundidade é algo que leva tempo, mas Cecília sempre soube fazer isso como ninguém.

Inspirada na “Metamorfose ambulante do Raul” e no olhar para além das aparências de Cecília, gostaria de compartilhar as janelas pelas quais vi o mundo sob diferentes ângulos.

A primeira janela que tenho lembrança dava para um quintal. Eu era criança e certamente esse era o meu lugar preferido. Ali, no meio daquele gramado verde repleto de sombras projetados por um pé de Ingá, eu me sentia livre para brincar e construir o meu próprio mundo. Nessa época, existia por ali uma casinha de madeira feita pelo meu avô. Minha única reocupação era acordar pela manhã e averiguar se tinha sol para poder desfrutar do meu paraíso.

Minha segunda janela era localizada nos fundos da casa dos meus pais. Como era no segundo andar, tinha uma vista privilegiada da cidade. Gostava de sentar nela e ler meus livros ou observar o mundo acontecendo, as luzes brilhando, os pássaros seguindo o seu percurso e as árvores balançando conforme a música do vento. Ali naquela janela passei minha adolescência e comecei a ver tudo de forma diferente. Por vezes rebelde, por vezes cheia de planos, ou só relembrando os fatos passados.

Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Nesse meio tempo, surgiram outras janelas, essas eram em prédios, não tão altos assim, mas no meio de uma capital. Por elas, eu via o caótico trânsito, o correr apressado das pessoas, o sol sendo ignorado e a chuva chegando para trazer mais caos em momentos que deveria ser considerada uma benção. Por muitas vezes, eu não tinha tempo para olhar pela janela. Foram tantos os dias que não disse bom dia para o sol ou para as nuvens, e foram tantas as noites que tive como companhia a lua e as estrelas, mas estava tão compenetrada trabalhando, que não as notava.

No meio do caos, passei por duas novas janelas em duas novas casas. Numa, a qual tinha grades, eu conseguia admirar flores, folhas e gotas que lavavam a alma. Assim como também via muitos mendigos tentando encontrar um pedaço de marquise para se proteger da noite e daquele mundo sem sentido. Na outra, eu via prédios e mais prédios, porém através de uma pequena fresta entre eles, admirava o pôr do sol nos finais de semana.

Agora, minha janela é longe de tudo que já tinha visto ou imagina ver. Agora, minha janela é grande, mas a primeira vista dela é outra janela. Mesmo assim, se olhar para os lados, consigo ver o sol, os aviões e vida tranquila que por aqui acontece. Essa nova janela me proporcionou uma visão completamente diferente do mundo que eu tinha. Ela abriu novas possibilidades e mostrou que é possível sonhar com novas perspectivas, por mais difícil que seja deixar as outras janelas para trás.

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

Eu não sei quantas janelas mais vão passar pelas minhas manhãs e noites, tampouco o que elas irão me mostrar. O que eu sei, é que independente de onde ela esteja, vou aprender algo novo. Sei que posso contar com ela para todos os momentos. Sei que, ao abri-la, serei recebida com a brisa que estiver passando e escutarei os sons que por ela são abafados. Sei que, só de saber que ela está ali, eu já não estarei só.

“There’s a battle outside. And it is ragin. It’ll soon shake your windows. And rattle your walls. For the times they are a-changin”

Em 1964 Bob Dylan gravou “The Times They Are A-Changin”, mas parece que a cada ano a letra se torna mais atual. Essa música ganhou um significado maior para mim quando assisti o filme “Watchmen”. A abertura é feita com cenas de super-heróis, políticos e policiais milimetricamente casadas com cada verso de Dylan. Assim como o filme, a canção traz uma mensagem de protesto apresentando as mudanças que estavam acontecendo na sociedade da época, os valores que estavam sendo deixados para trás, o novo que estava por vir e quem foram os que relutaram em aceitar tais mudanças. Tudo isso expresso através da inversão na ordem das ações, mostrando aos jovens que os novos tempos estavam chegando e que as pessoas deveriam se preparar para isso.

Come gather ‘round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You’ll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin’
Then you better start swimmin’
Or you’ll sink like a stone
For the times they are a-changin’.

E é exatamente sobre o tema “mudança” que quero falar neste post. Neste último mês alterei totalmente minha rotina por conta dos cursos que comecei a fazer. Já não tenho tempo livre na agenda e isto faz de mim a pessoa mais feliz do mundo, pois quando não sobra tempo para muitas distrações, o foco nos objetivos é maior e os maus pensamentos são afastados.

Quando vi, já era a semana do meu aniversário, a primeira comemoração de um novo ano de vida em San Diego. Sempre amei comemorar meu aniversário e fazer alguma festa. Porém, este ano o sentimento era muito mais de gratidão por tudo que havia acontecido no último ano, do que de dar às boas-vindas a uma nova fase. Eu queria ir apenas em um lugar bacana com as pessoas que realmente importam para mim aqui em San Diego. E foi exatamente isso que aconteceu.

Come mothers and fathers
Throughout the land
And don’t criticize
What you can’t understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin(g)’.
Please get out of the new one
If you can’t lend your hand
For the times they are a-changin’.

Pela primeira vez senti que o peso da idade começou a fazer sentido. Além de aparecerem os primeiros cabelos brancos, agora sinto, mais do que nunca, que realmente comecei a amadurecer e a perceber o que realmente tem valor. Experiência de vida tem muito mais a ver com o tamanho das pedras no caminho que você precisa desviar, do que com o número de velas que você apaga na hora do parabéns. Por tudo isso, sou extremamente grata pelos 28 anos terem me mostrado o real significado das palavras coragem e serenidade.

Se não fossem por elas, não teria passado pelo momento mais difícil da minha jornada aqui em San Diego com a maturidade necessária. Ontem, acompanhei meu marido ao hospital achando que ele estava com dor de estômago, quando na verdade era apendicite. Para quem imaginava sair de lá 2h depois com uma lista de remédios e acabou recebendo um saco plástico para guardar todos os pertences pessoais dele antes de vê-lo entrar em uma sala de cirurgia, a probabilidade de surtar era bem grande.

Confesso que não fui forte o suficiente e tremi de medo na primeira hora. Mas a vida é cheia de anjos chamados amigos e foram eles os responsáveis por me darem a força que eu precisava. Depois de toda a energia enviada do Brasil e daqui, no fim tudo acabou dando certo. Passado o susto, fica mais fácil analisar todo o cenário e refletir sobre as lições aprendidas (mania de Gerente de Projetos).

Se tremi de medo, foi porque eu era a única responsável naquele momento pela vida de uma das pessoas que mais amo neste mundo. Eu sei que posso contar com toda nossa família e todos os nossos amigos, porém essa foi a primeira prova que tivemos que passar aqui como marido e mulher tendo que tomar uma decisão sozinhos, provando que um é responsável pelo outro e que não existe mais ninguém que possa fazer isto por nós. O peso da responsabilidade caiu sobre os meus ombros, mas ao vê-lo na sala de recuperação com o melhor diagnóstico possível, o alívio e o sentimento de dever cumprido vieram na hora. A decisão tomada realmente tinha sido a mais sensata.

The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin’.
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin’.

Então, meu amigos, a idade vai chegado e toda a bagagem que você adquiriu ao longo da vida passa do status “peso/dor” para “respostas/coragem”. Aquele momento de sofrimento lá no passado será a coragem que você construiu para conseguir suportar outra tsunami lá no futuro. O aprendizado de ontem será a resposta que alguém que você ama precisará amanhã. E assim a montanha russa da vida vai seguindo com seus altos e baixos e você segue segurando firme em um dos carrinhos. Afinal, de que adianta viver se não para sentir todas as emoções que a vida pode proporcionar?

Os 28 anos de gratidão finalmente chegaram. Agradeço a cada pessoa que caminhou ao meu lado, que me segurou no colo, que me derrubou, que me empurrou para frente ou para trás. Foi através de todo esse sacolejo que criei a minha bagagem e agora estou usufruindo da melhor forma possível de todos as suas ferramentas.

“Eu não tenho data pra comemorar. Às vezes os meus dias são de par em par. Procurando agulha num palheiro.”

Andei afastada do blog, mas não foi por falta de tempo para escrever, e sim porque precisava resolver questões comigo mesma antes de externar minhas opinões e meus sentimentos. Nesse tempo, estudei, trabalhei bastante no voluntariado (agora são novamente duas vezes fixas por semana), fiz novos amigos e viajei. No próximo post vou relatar minha primeira trip pela Califa e trazer uma visão diferente sobre os lugares pelos quais passei. Porém, este post é para falar de um recomeço.

Recomeçar significa reencontrar ideias, projetos e uma pessoa que você havia perdido pelo caminho há algum tempo: você mesmo. Aquela pessoa que tinha sido engolida pelo stress da rotina maluca e pela zona de conforto. Ao reencontrar você mesmo, acontece um choque de mundos, quase um Big Bang. O “você antigo”, cheio de cicatrizes, manias e medos, descobre o “você novo”, completamente entusiasmado, cheio de planos e coragem. No primeiro momento, eles se estranham e até ficam emburrados um com o outro. Mas depois, eles descobrem que podem ser grandes amigos e ensinar um ao outro tudo o que sabem, criando um “você melhor”.

Acredito que uma boa viagem faz você alçar novos voos, descobrir novos horizontes, conhecer novas pessoas, aprender mais sobre o mundo e sobre si mesmo. Essa viagem não precisa ser para outro país, como foi meu caso, pode ser para a cidade vizinha, para a casa de paia de um amigo ou para o bairro mais bacana da sua cidade.

Viajar é ir além do seu portão. É dar passos para fora daquelas quatro paredes que tanto protegem e escondem você. Viajar é mais que pegar um carro ou um avião. Viajar é olhar para os lados e ver cores, amores e emoções. É sentir cheiros e sabores. É escutar barulhos, sorrisos, choros, lamentos e sonhos. Viajar é desenvolver cada um dos seus sentidos e descobrir que todos eles podem ir muito mais além. Viajar é fechar a porta e não olha para trás, é ter a coragem de um adulto e a alegria de uma criança. Viajar é descobrir o sabor da liberdade, entender o significado de responsabilidade e sentir na pele o significado da palavra experiência.

As músicas do Cazuza sempre me fizerem, de certa forma, viajar. Em “O tempo não para” é possível identificar um turbilhão de sentimentos, experiências e aprendizados. Dá para viajar apenas aumentando o volume e fechando os olhos.

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Já comentei por aqui que o sentimento inicial de um imigrante é ser só mais um na multidão, “só mais um cara”. Durante muitos dias que passam, você acredita que “está correndo na direção contrária” e sabe que isso não vai te levar a lugar algum. Não terá “pódio ou beijo de namorada” esperando na chegada. Você terá muitas pessoas perguntando por que você está triste ou nem sempre está feliz, se tem uma oportunidade de ouro nas mãos.

Muita gente tem a ilusão de que mudar de país irá resolver todos os problemas da vida, inclusive os de relacionamento. Só que você encontra muito mais espinhos nas flores pelas quais sonhava encontrar e é difícil aceitar e aprender a desviar deles. Não adianta escapar, em algum momento você irá espetar o seu dedo e isso irá doer. E mais uma coisa: os seus defeitos acabam se exaltando em momentos de grande mudança. Isso significa que você entrará em um número de conflitos maior consigo mesmo e com as pessoas mais próximas.

Claro que existem pessoas que encaram as mudanças da vida com mais facilidade. Infelizmente – ou felizmente – eu sou diferente. Toda mudança sempre foi difícil pra mim. Sofro demasiadamente por tudo. Sou ansiosa, sou apegada à pessoas e lugares, sinto saudade de tudo.

Começar do zero em um novo país é desafiador e também um pouco frustrante. Se você não sabe falar a nova língua fluentemente, você não é nada. E aí você precisa fazer novos cursos, aprender mais do mesmo (só que no novo idioma), aceitar que é preciso voltar a fazer estágio ou voluntariado, pois não têm experiência na sua área dentro da nova cultura.

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Contudo, você descobre que é muito mais forte do que pensa. Apesar de se sentir como uma criança aprendendo a falar um novo idioma e como um adolescente tentando ser aceito em um novo grupo de colegas/amigos, você descobre que é adulto e maduro, e prova para si mesmo que consegue encarar erros, desafios e possibilidades. “Você não está derrotado enquanto os dados ainda estiverem rolando”.

O grande degrau para se sentir aceito em uma nova cultura é não ter medo de errar. Não ter medo de escorregar na pronúncia, não ter medo de se perder pelas ruas, não ter medo de tentar conseguir um voluntariado ou um emprego, não ter medo de falar com as pessoas, não ter medo de pedir algum prato diferente no restaurante só porque você não entende quais são os ingredientes. Aí você vai aprendendo a sobreviver, por mais que alguns arranhões vão aparecendo no seu corpo. Machucar-se faz parte do processo.

Aprendi a assumir para as pessoas o que eu não sei. Quando alguém fala alguma coisa que eu não entendo, digo: “por favor, pode repetir?” e se ainda assim não entendo, digo “por favor, você pode me explicar? Estou aprendendo a falar inglês e em alguns momentos não entendo o que é dito”.

Aprendi a pedir ajuda. Peço para meus colegas de aula, para meus amigos, meu marido, meus clientes e meu chefe corrigirem minha pronúncia e a me ensinarem novas palavras. Não tenho mais vergonha de falar, pois a necessidade de expressar minha opinião é muito maior que a cobrança perfeccionista que existe dentro de mim. Não tenho vergonha de assumir que meus melhores amigos aqui são: o Google Maps, o Google Translater e minha bike.

Tomei vergonha na cara e comecei a cuidar mais da minha saúde. Há dois meses mudei minha alimentação, estou tentando ser mais natureba, consumir mais frutas e verduras, menos carne vermelha, farinha branca e glúten. Aprendi a fazer pão vegano, cookies integrais, a cozinhar diferentes receitas e a usar mais temperos naturais.

Fiz as pazes com os exercícios físicos e passei a correr. Imaginem que eu corria no máximo três minutos na esteira da academia e quase morria. Agora, já consigo correr 30 minutos sem parar ao ar livre. Claro que corro bem devagarinho, em um ritmo de iniciante, porém é preciso começar de algum lugar, não? Ao menos três vezes por semana eu dedico uma hora por dia ao exercício, seja correndo, andando de bike ou caminhando. E assim eu aprendi a dormir melhor, a me sentir mais disposta e descobri uma nova melhor amiga: a atividade física.

Não existe mágica. Viajar não irá mudar a sua vida, a não ser que você vá com a cabeça e o coração abertos. O primeiro passo é aceitar que mudar é errar, só a partir daí você irá começar a acertar. O tempo nunca para, então siga com ele.

O tempo não para
Não para, não, não pára