“Ver na vida algum motivo pra sonhar. Ter um sonho todo azul, azul da cor do mar.”

O que seria da vida sem os sonhos? Na semana passada fui desafiada pela professora de inglês a fazer minha “bucket list” com dez itens, ou seja, listar dez coisas que quero fazer antes de morrer. Quando peguei o papel em branco, pensei que sairia escrevendo como louca. Mas não. Parei diante daquela página cheia de linhas e comecei a pensar nas dez prioridades da minha vida para os próximos anos. Em nenhum momento veio a minha cabeça dinheiro ou bens materiais. Concentrei-me e abri o coração, pois aprendi que só levamos da vida as lembranças. Então, por que não sonhar com lugares, com artes, com novas habilidades, novas línguas e culturas? Por que não sonhar também pequeno? Por que deixar de realizar um sonho por achar que ele é infantil? E foi aí que Tim Maia e sua canção “Azul da cor do mar” embalou minha lista e o lápis começou a deslizar no papel.

Ah!
Se o mundo inteiro
Me pudesse ouvir
Tenho muito pra contar
Dizer que aprendi

My bucket list

– Speek and write in English very weel.

Sim, não está sendo fácil fazer este intensivo de inglês. Aqui não aprendemos apenas as regras gramaticais e a conjugar o verbo “to be” como no Ensino Médio. Em todas as aulas precisamos escrever, fazer exercícios e falar muito. Sem contar os testes e as apresentações para toda turma. E não bastam só as aulas, você precisa estudar muito em casa para conseguir entrar no ritmo da professora. Dizem que quanto mais velho você é, mais demora para aprender um novo idioma. Termino este tópico confirmando esse velho ditado.

– Visit New York at Christmas and search for the biggest Christmas tree in the city.

Sempre amei o Natal. Na verdade é a única data comemorativa que eu realmente gosto, pois para mim é sinônimo de família reunida, de amor compartilhado e de alegria. Como sou cinéfila assumida, vi todos os filmes possíveis que mostravam o Natal nos Estados Unidos. Sim, porque faz muito mais sentido ver o Papai Noel vestido com aquela roupa no meio da neve do que no calor de 40 graus no auge do verão no Brasil. Enfim, voltando ao início da descrição do sonho, uma cena em particular  de “Esqueceram de mim 2” ficou na minha memória: tem um momento em que Kevin McCallister se depara com uma gigantesca árvore de Natal repleta de luzes no meio de Nova York. A árvore é tão grande, tem tantas luzes, é tão linda, que o personagem perde o fôlego! Pronto, desde então sonho em ter esse mesmo momento. Pode ser que agora eu não ache a árvore tão grande assim, pode ser que agora ela não tenha mais tanta magia como tinha na época, mas meu coração continua batendo mais rápido quando penso nisso.

– Make a trip in a ballon and a ship.

Tenho muito medo de altura, mas quando estou dentro do avião, por incrível que pareça, sinto-me tranquila. Não sei explicar, não sinto medo quando estou voando, mas sim quando estou na sacada de um prédio alto, por exemplo. Deve ser porque o avião dá a sensação de liberdade, proporcionada aquela vista incrível do céu e deixa você passar por entre as nuvens como um pássaro. Enfim, sempre achei balões lindos e acredito que seja uma experiência incrível poder ver o mundão velho de meu Deus  das alturas com o vento batendo no seu rosto. Sobre o navio, bom, sempre amei o mar e fazer passeios de barco, mas nunca tive a oportunidade de fazer um cruzeiro em um navio. Esta aí mais uma experiência que deve ser incrível.

– Go to Greece, Italy, Thailand, Germany, Alaska, Australia, Chile and Hawaii.

Sim, quero conhecer outro países também, mas este é meu top 8. Acredito que seja melhor ser modesta do que simplesmente dizer “dar a volta ao mundo”, até porque isto é muito vago. Sei que vou precisar de mais de uma vida para dar a volta ao mundo. Sim, é para sonhar, mas para tornar o sonho realidade precisamos ser realistas em alguns momentos, não?

– Learn to cook diferent dishes, especially meats and vegetables.

Estou tentando  fazer receitas diferentes desde que cheguei aqui. Primeiro, porque a comida americana não é muito boa, já que tem muita gordura. Quer dizer, você tem a opção de ir a restaurantes chineses, vietnamitas, italianos, etc., contudo, é mais caro. Na tentativa de criar um cardápio mais saudável, toda semana tento preparar algo com peixe e vegetais. Tem funcionado 🙂 Além disso, cozinhar é algo que me acalma. Porém, não sou dessas pessoas encarnadas que faz pratos bonitos, requintados, com muitos ingredientes. As minhas regras básicas são: simplicidade e praticidade.

– See the snow and make a snowman.

Está aí mais um sonho de criança. Sempre quis ver a neve, fazer um boneco e atirar bolas nos amigos. Infelizmente, nunca tive essa oportunidade. Não que eu não tentei ir para Gramado e Canela quando a previsão do tempo anunciava que podia nevar, porém nunca tive sorte. Minha mãe, que morou em Canela até sua adolescência, tinha o privilégio de ver e brincar com essa maravilha todos os invernos. Mas os tempos mudaram, o ser humano desestabilizou o clima do planeta e acabou com algumas maravilhas naturais em determinadas regiões. Agora, é preciso viajar pra longe para ver os tão gelados flocos de neve.

– Open a library for the poor people and teach them to read and write.

Sou apaixonada por livros desde sempre. Meu maior sonho sempre foi morar em uma biblioteca. Sempre que passo em frente a uma, não resisto, preciso entrar, caminhar por suas prateleiras, pegar alguns livros na mão e respirar aquele cheiro de histórias. Quando tinha 9 anos era ajudante na biblioteca da minha escola. Como amava dar baixa nos livros, organizar as prateleiras, catalogar os livros novos, indicar títulos para as outras crianças e, claro, ler nas horas vagas! Quando dava, participava da “Hora do conto”, que consistia em escutar histórias que minha professora Neida contava. Desde então, minha paixão por bibliotecas só aumentou. Sonho um dia poder abrir uma biblioteca onde passa realizar diversos projetos, como ensinar as pessoas a lerem e escreverem. Os livros podem abrir janelas e portas na vida.

– Write for a living and write a book or many book.

Quem sabe um dia consiga viver do que escrevo? Quem sabe um dia consiga publicar um livro ou dois? Sonhar não custa, não é verdade?

– Get married in Las Vegas and in Hawaii.

Eu acabei casando só no cartório, mas como a maioria das mulheres tenho o sonho de usar um vestido branco e fazer meus votos em um lugar mágico. Mas não consigo me ver entrando em uma Igreja, até porque tenho minhas próprias crenças. Por isso, o meu sonho de casar, talvez não de vel e grinalda, mas de vestido branco e buquê de flores, é em uma praia no Hawaii e em Las Vegas (mas não com o Elvis!). Sim, eu quero casar em mais de um lugar e com a mesma pessoa. Afinal, nem todo romantismo precisa ser tradicional, nem todo amor precisa ser expresso perante dezenas de pessoas e nem toda promessa precisa ser anunciada em um convite.

– Go to a Rolling Stones, AC DC and Iron Maiden concerts.

Amo ir a shows e ainda quero ver muitos nesta vida. Assim como as viagens que quero fazer, também não sou tão ambiciosa assim na minha lista de bandas (ou sim, já que as duas primeiras podem acabar a qualquer momento) . Estão, este é o meu top 3.

E na vida a gente
Tem que entender
Que um nasce pra sofrer
Enquanto o outro ri

Mas quem sofre
Sempre tem que procurar
Pelo menos vir achar
Razão para viver

Por mais que na vida uns sofram mais, não significa que essas pessoas não possam sonhar. Que razão melhor para viver do que um sonho? Que razão melhor para dar um sentido na vida do que um sonho? Sugiro que você também faça a sua bucket list e a guarde, sempre com o objetivo de abri-la de tempos em tempos para colocar um “certinho”do lado daquilo que você realizou, ou para motivar você a acordar todas as manhãs e lembrar que todo o esforço vale a pena quando ele tem um objetivo.

“Caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento. No sol de quase dezembro, eu vou.”

Dois meses passaram, mas parece que foram doze. Todos os dias a vida é tão cheia de descobertas, que você aproveita muito mais cada minuto e tenta absorver ao máximo a experiência, pois sabe que ela passa rápido e escorre pelas mãos. Ah quem dera poder viver para sempre assim!

Ao mesmo tempo, você despende mais energia por pensar potencialmente em tudo, em cada escolha e em cada saudade. Os sentimentos ficam muito intensos. Por vezes você está muito feliz, como se fosse a pessoa mais abençoada do mundo. Por vezes você está tão triste, que as lágrimas chegam sem avisar, molham o rosto e lavam a alma.

Você caminha sentindo-se nu, como diria Caetano: “sem lenço e sem documento”. Você não consegue esconder aquilo que está estampado no seu rosto. Você está sedento por amor e por carinho. Você está sentido-se o ser mais frágil do mundo. Contudo, você está sozinho e precisa ser forte. O sol e a lua são seus mais fiéis companheiros. Quem muito caminha por aí sabe do que estou falando.

Quando você está longe, por mais que esteja cercado de pessoas, sente-se só. Mas você precisa ter em sua vida um momentos para ser só, pois é assim que se consegue crescer e sobreviver ao novo. Você está longe, mas queria estar perto e também queria estar onde está. Será que a vida é assim tão bipolar? Ou será que você faz dela este caos?

Mesmo longe, você não deixa de acompanhar as notícias e saber sobre tudo que está acontecendo por lá, por mais que não possa fazer muita coisa daqui. A maioria das notícias se repetem todos os dias: violência, corrupção, futilidades, milagres e curiosidades. O mundo vai seguindo, as pessoas vão sobrevivendo, fazendo suas festas, comemorando suas conquistas, chorando suas decepções, mas você não está lá. Você não pode fazer nada além de mandar uma mensagem ou dizer algumas palavras. Você não pode dar um abraço ou simplesmente mostrar que se importa através do brilho do olhar.  Mas você sente, você sofre, você torce, você se preocupa e você se orgulha.

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou

As fotos enviadas pelos entes queridos acalmam o coração e mostram que eles seguem vivendo um dia por vez, assim como você. Eles continuam enchendo a vida de cores, de amores, de sabores e de canções. E você segue buscando ser forte e criando a sua nova rotina, conhecendo novas personalidades e espaços. As pessoas seguem casando e acreditando no amor. As pessoas seguem estudando e acreditando na sabedoria. As pessoas seguem trabalhando e acreditando que podem fazer alguma diferença no mundo. E você segue acreditando que está, de alguma forma, presente.

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não

Descobri que praticar hiking é uma forma de estar perto da natureza e ao mesmo tempo em contato com o seu eu. Caminhar por trilhas desconhecidas sem saber onde se vai chegar dá medo sim. Ao mesmo tempo, você sabe que alguém já passou por ali, pois vê as pegadas, e isso dá segurança e esperança de que pode seguir. San Diego oferece paisagens cheias de montanhas, pedras, plantas rasteiras, muito sol e algum vento. Todo final de semana você pode escolher uma nova trilha, pois a cidade é abençoada com muita natureza a ser desbravada.

Você sente que cada passo trilhado é um a menos e que cada metro de subida é uma vitória. A recompensa está logo ali, mas parece nunca chegar. Porém, você não desiste. Por mais que as pedras façam você tropeçar ou resvalar, por mais que a boca fique seca e implore por mais água, por mais que suas pernas digam chega, você segue, pois sabe que seus olhos precisam daquela recompensa. E quando você chega ao cume, seu coração se enche de alegria. Você sente como nunca que quer seguir vivendo para ver mais, aprender mais e aproveitar mais.

Momentos como esses são inesquecíveis. Durante todo o tempo de caminhada você vai pensando em tudo e em nada. Você fala consigo mesmo e, por vezes, até com um ser superior. Você incentiva a si mesmo, você precisa acreditar em si mesmo. Corpo e mente trabalham juntos, já que um depende do outro, um dá força para o outro. E assim, passo a passo, você vai chegando ao seu destino final.

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou

A volta é bem mais tranquila, você já conhece o caminho e os obstáculos, e então passa a apreciar com calma a paisagem e tenta gravar os detalhes em sua memória. O ponto de chegada, aquele mesmo da partida que causava tanto entusiamo e incertezas no início, agora é a mais pura sensação de dever cumprido e relaxamento.

A ida sempre é mais difícil, ela é incerta, ela prega armadilhas, ela é, por vezes, traiçoeira. Mas a volta traz outro vigor. Os calos nos pés podem doer mais, mas mesmo assim você sabe que está no caminho certo e que a chegada reserva a recompensa que faz você querer repetir a dose.

Claro que nem todo caminho que você traça tem o mesmo trajeto na volta. Ainda não sei se a vida aqui será permanente, se traçaremos novas trilhas ou voltaremos para o início. Por enquanto só sei que eu vou vivendo passo a passo, minuto a minuto, dia a dia, sem nenhum lenço e com apenas um documento. Estou aproveitando cada brisa. Não me importo com os grãos de areia que ficam dentro do sapato, tampouco com os outros que vão passando correndo por mim. Cada um tem o seu ritmo. Cada um tem o seu objetivo de vida. Cada um tem o seu limite.

Por enquanto eu sigo contra o vento e assim eu vou.

“Por isso hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado. De bater na porta do vizinho e desejar bom dia.”

Quando você está na sua cidade natal, passa o dia sendo inundado por paisagens conhecidas e acolhedoras, de afeto dos mais próximos, pelos sabores que tanto gosta, pela música local que faz seu coração bater mais forte e por cheiros que remetem à lembranças boas. Infelizmente, por muitas vezes, nem percebe o quanto isso é acolhedor. Mas quando você está longe, qualquer som, odor ou gesto que lembrem a sua origem, viram quase um evento. Zeca Baleiro compara muito bem a tristeza e a solidão com os personagens do nosso cotidiano na música “Telegrama”, o que faz a saudade bater ainda mais forte.

Eu tava triste, tristinho
Mais sem graça que a top-model magrela
Na passarela
Eu tava só, sozinho!
Mais solitário que um paulistano
Que um canastrão na hora que cai o pano

Para compensar esses sentimentos, muitas vezes escuto músicas de artistas brasileiros, faço comidas que minha mãe me ensinou e, claro, leio livros em português. É incrível como em alguns momentos você sente uma vontade louca de entrar num restaurante que sirva uma “à lá minuta” com feijão ou de escutar um artista de rua cantando Roberto Carlos. Mas por aqui tudo é diferente e você precisa adaptar suas vontades ao que a cidade oferece.

Mas ontem eu recebi um telegrama
Era você de Aracaju ou do Alabama
Dizendo: Nêgo, sinta-se feliz
Porque no mundo tem alguém que diz
Que muito te ama!
Que tanto te ama!
Que muito, muito te ama
Que tanto te ama!

Contudo, esses dias recebi um presente. Fui a um restaurante que, no meio de sua playlist, tocou um samba. Apesar dos hamburgers, dos papos em alto e bom som em inglês que estavam rolando nas mesas ao lado e da bandeira americana tremulando na porta, por três minutos me senti em casa e fiquei realizada. Confesso que até deu vontade de levantar da mesa e começar a dançar de alegria, mas me contive e apenas expressei a gratidão através de um sorriso.

Por isso hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria

Dia 28 de janeiro comecei a estudar inglês na San Diego Continuing Education – SDCE, localizada em Point Loma. Tenho aula todos os dias pela manhã com mais de 30 colegas de diferentes nacionalidades. É muito interessante escutar suas histórias, pois você conhece pessoas que estão na mesma situação que a sua e, mesmo sendo de uma cultura totalmente diferente, sentem as mesmas coisas: as mesmas saudades e guardam as mesmas lembranças da sua terra na memória.

Apesar das pequenas alegrias que é possível encontrar aqui através de uma feijoada típica brasileira ou de um jogo de futebol, quando você abre espaço para conhecer pessoas novas e deixa elas fazerem parte da sua vida, este sentimento de pertença fora do seu país começa a se construir.

Na última sexta-feira resolvi abrir mais meu coração durante o trabalho voluntário e vejam só o que aconteceu: aprendi a dançar salsa com uma cliente, assisti o pôr do sol com outra, aprendi mais sobre história da arte com um professor aposentado e ajudei duas crianças a escolherem seus livros. Sai de lá no final do dia com vontade de sorrir para o mundo, de bater na porta do vizinho e dizer “good night!” e de cantar rap com o atendente da 7-Eleven. Tudo isso e muito mais apenas por deixar cair todas as barreiras da insegurança e ser apenas eu mesma. Foi tão recompensador, que agora quero exercitar isso sempre.

“O que foi escondido é o que se escondeu. E o que foi prometido, ninguém prometeu. Nem foi tempo perdido.”

Em “Tempo Perdido” Renato Russo deixou um recado bem claro: estamos perdendo tempo com coisas supérfluas ao invés de viver para aquilo que realmente nos faz feliz. Ao nos darmos conta disso e despertarmos para a vida, vemos que estávamos presos à ilusões e tantos outros objetivos sem sentido. Mas, ainda assim, nunca é tarde para erguer a cabeça e recomeçar, pois temos todo o tempo do mundo pela frente. Ou acreditamos que temos.

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo

Em alguns dias é preciso fazer um esforço colossal para levantar da cama e traçar o roteiro do dia. Quando você está acostumando a uma rotina e já tem um tempo estabelecido para tudo, é muito difícil entender como funciona a lógica do autogerenciamento dele. Aquele tempo que você tanto reivindicava quando estava correndo sem parar no trabalho, na sua louca rotina, agora está totalmente a sua disposição e você não sabe o que fazer com ele. Na verdade você até sabe, pois tem mil itens na fila, o problema é descobrir o que é prioridade, o que é realmente importante, o que pode ser deixado de lado, o que é apenas perca de tempo…

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Mesmo quando você descobre ao menos uma das prioridades e foca nela, alguns fantasmas ficam assombrando os seus pensamentos. Não é fácil esquecer o que se passou e seguir em frente, tampouco tudo que você deixou para trás. Viver o momento, depois refletir sobre ele e seguir adiante para o próximo desafio, é algo que exige muita maturidade. Quantas vezes você já não perdeu tempo ruminando algo que fez ou falou e fica por dias, meses ou até anos se martirizando por isso?

Desde que vim morar em San Diego, muitas são as noites que acordo e não consigo dormir pensando em absolutamente tudo. Meus próprios sonhos me pregam armadilhas ao recuperar momentos passados, pessoas que seguiram outros rumos ou parentes queridos que já se foram. Acho que, quanto maior a distância, maior fica a memória e mais seguido ela insiste em abrir o seu baú e relembrar o passado. Talvez para se sentir mais segura com os novos acontecimentos, ou talvez para tentar encontrar o lugar das novas peças do quebra cabeça que não estão sendo fáceis de encaixar, já que não seguem mais a mesma lógica das outras.

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos

E sim, alguns dias são cinzas e trazem consigo uma tempestade. Ou talvez somos nós que fazemos com que um simples ato vire uma tormenta. Esses dias, durante o trabalho na biblioteca, uma homem pediu uma informação que eu não soube interpretar, pois ainda estou aprendendo a falar inglês. Ele ficou extremamente bravo quando eu disse isso e foi embora falando para o vento, e para quem mais quisesse escutar, que era um absurdo ter uma pessoa atendendo ali que não falasse inglês. Por mais que uma mulher tenha dito que ele era um idiota e me explicado depois com calma o que queria, isso me deixou magoada.

Sei que estou começando a estudar em uma escola, que estudo todos os dias por conta própria e que faço trabalho voluntário para treinar a língua, mas ainda assim isso não é satisfatório. E sabe por quê? Porque tudo na vida precisa de tempo. Como se o próprio Sr. Tempo quisesse me mostrar isso, no restante do dia três pessoas vieram me agradecer pelo serviço prestado à biblioteca e disseram que meu inglês é muito bom. Mesmo assim, sei que ainda preciso de tempo para aprender e conseguir estar 100% adaptada. Afinal, só se passou um mês e meio da mudança de vida (mas que parece que já foi ano!).

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora

Assim como existem pessoas que vão incentivar suas escolhas, também vão ter outras que tentarão derrubar você. Talvez elas sejam necessárias para que possamos avaliar nosso nível de coragem e de preparo para encarar os desafios da vida. Ou talvez elas só sejam mal amadas mesmo.

Mas afinal o que é o tempo? Como medimos ele? Qual a sua importância? Só sei que o tempo está passando e trazendo consigo memórias, desafios e aprendizados. Para conseguir seguir o seu ritmo, é importante deixar as luzes da nossa vida sempre acessas. Essa luzes são os amigos e a família. São eles que nos dão coragem para não desistirmos ou acabarmos nos perdendo na escuridão da insegurança e do medo. Não podemos deixar pessoas negativas roubarem o nosso precioso tempo, afinal “somos tão jovens” e precisamos aproveitar a vida da melhor forma possível.

“Vida louca vida, vida breve. Já que eu não posso te levar, quero que você me leve.”

A vida é louca por si só ou será que nós fazemos dela uma loucura? Será que ela não desejaria ser menos louca? Ou será que ela quer ser louca mesmo? Por que a vida é tão breve? Será que a loucura não a faz ser breve? Ou será que devemos fazer dela uma loucura por ser tão breve? Será que não podemos levar a vida ao nosso jeito? Ou será que nos acomodamos e esperamos ela nos levar para algum lugar? Será que ela foi feita para nos levar ou nós que devemos levá-la? Tantas perguntas curtas para tantas respostas complexas. Cazuza sempre nos fez refletir sobre a loucura que é viver em suas letras tão sinceras.

Algumas pessoas dizem que estou tendo sorte por aqui neste primeiro mês. A verdade é que não é sorte, é atitude e um pouco de loucura. Acredito na teoria de que as coisas não acontecem na sua vida do nada, você, de alguma forma, criou uma situação ou gerou uma ação que resultou naquele fato. Claro que não é nada fácil ter coragem e agir, isso exige um esforço gigante. Mas se você ficar parado, a vida passa.

Por exemplo, há duas semanas atrás conheci dois árabes, da Arábia Saudita, na Starbucks que tem perto da biblioteca em que faço trabalho voluntário. Estava lá fazendo minhas planilhas de comparação de preços dos itens que precisaria comprar para a casa nova e, no meio disso, acabei falando no Skype com meus dois melhores amigos. Como não tinha fone de ouvido na mochila, acabei pedindo emprestado para um dos árabes e depois, ao devolvê-lo, comecei a puxar papo. No fim, acabei conversando com Aymin e Mohammed por quase duas horas.

Conversa vai e conversa vem, um deles comentou que outro colega, Salim, estava de mudança para Chicago e precisava vender todas as suas coisas da casa. Devido à urgência, estava liquidando tudo. Disse que tinha interesse e liguei para o meu marido. Ele veio até nós e combinou uma visita à casa de Salim naquela mesma noite. Fomos até lá e adoramos! Todos os móveis tinham menos de um ano de uso e estavam muito bem cuidados. Fechamos negócio e na semana seguinte fomos lá buscar todas as coisas. Salim não quis nem conferir o dinheiro que combinamos e colocamos dentro de um envelope, pois disse que confiava em nós.

Conto esta história, pois ela me fez pensar em muitas coisas. Os árabes são, muitas vezes, discriminados e taxados de terroristas, quando na verdade existe sim um grupo de muçulmanos fanáticos que espalham terror pelo mundo com seus atentados bárbaros, mas, ao mesmo tempo, a grande maioria deles são pessoas do bem, apegadas a seus valores e sua família, e que também estão estudando e trabalhando para conquistar um lugar ao sol. Julgar o próximo é uma eterna falta de ter o que falar. É falta de respeito com o outro e consigo mesmo.

Tô cansado de tanta babaquice, tanta caretice
Desta eterna falta do que falar

Depois de tudo, mandei mensagem para Mohammed agradecendo a indicação e dizendo que havíamos fechado negócio. Ele se colocou à disposição para ajudar no que mais fosse preciso para nossa mudança. Aymin mandou mensagem perguntando como estavam as coisas para mim e para o meu marido. E assim conhecemos três pessoas que nos ajudaram a facilitar nossa instalação em San Diego e viraram nossas amigas.

Se eu tivesse me deixado levar pelo preconceito e pelo medo, certamente não teria pedido o fone emprestado à Aymin, pois antes disso tudo já tinha visto qual era sua origem ao ouví-lo falar ao telefone com alguém. Tampouco teria iniciado uma conversa com ele. Simplesmente poderia ter ido para casa. Não foi sorte conhecer os dois, foi ter a mente e o coração abertos para aceitar o outro do jeito que ele é.

Se ninguém olha quando você passa
Você logo acha que a vida voltou ao normal
Aquela vida sem sentido, volta sem perigo
É a mesma vida sempre igual

Se não tivéssemos sido um pouco loucos e ido até a casa de uma pessoa estranha, teríamos gastado o triplo do valor para mobiliarmos nossa casa, além de ter perdido muito tempo com isso. Se não tivéssemos sido um pouco loucos, não teríamos vindo morar em San Diego. Se não tivéssemos sido um pouco loucos, não teríamos saído da casa de nossos pais. Se não tivéssemos sido um pouco loucos, não teríamos conquistado nada na vida.

Todos somos iguais, independente do cargo que ocupamos, do sobrenome da nossa família, do quanto dinheiro temos, de onde viemos e para onde vamos. No fundo, todos temos medos, angústias, erros, vergonhas e esperanças. No fundo, somos todos loucos.

E a vida precisa ser louca, pois ela não espera você enxugar suas lágrimas ou curar os seus machucados. A vida precisa ser louca, pois ela corre todos os dias uma maratona e não nos espera nem para tomar um gole de água. A vida precisa ser louca, porque estamos tendo uma oportunidade de dar um sentido a ela. A vida precisa ser louca, para que possamos ser felizes. A vida precisa ser louca, para que tenhamos coragem de acompanhá-la até o fim.

“Leste oeste norte e sul, onde um homem se situa. Quando o sol sobre o azul ou quando no mar a lua.”

Adriana Calcanhoto colocou muito bem em “Maresia” a posição a qual pertence o homem no mundo: todo lugar. Em uma aula na faculdade, lembro de ter lido um texto sobre o sentido de pertencimento a um lugar. Existem pessoas que já nascem entendendo que são cidadãs do mundo, diria que marinheiras. Já outras, sofrem por deixar suas raízes e demoram muito, ou às vezes nunca conseguem, sentir-se pertencente a um novo lugar, a uma nova cultura.

Ah, se eu fosse marinheiro
Seria doce meu lar
Não só o Rio de Janeiro
A imensidão e o mar

Quando você é uma dessas pessoas que precisa colocar tijolo por tijolo na construção da consciência de que pertence ao mundão velho de meu Deus, passa a perceber que tudo fica mais fácil ao se criar um ambiente acolhedor. Por isso, a primeira coisa que comprei quando cheguei em San Diego foi uma planta. Quer dizer, não e uma simples planta, é o Axl, o nosso bonsai. Confesso que não sei a qual família de bonsais ele pertence, só sei explicar que suas raízes são bem gordinhas e suas folhas também. Sempre quisemos ter um, mas não imaginava comprá-lo assim, por impulso.

Acho que estava com tanto medo de me sentir sozinha durante o dia, que quando olhei pra ele ali na prateleira das folhagens, pedindo para sair daquele agito e ganhar um lar, compreendi que faríamos companhia um para o outro durante as nossas horas de silêncio. Hoje ele faz parte da minha rotina e ajuda a criar o sentimento de que existe outro ser vivo por perto quando estou sozinha em casa. Sei que isso parece loucura, mas a distância faz dessas com as pessoas.

Não foi  fácil passar pelas festas de final de ano aqui. Natal e Ano Novo são sinônimos de família e amigos reunidos, festejando, comendo, rezando, abraçando e trocando sorrisos. Nós aqui improvisamos as datas e conseguimos passá-las sem nos sentirmos tão sozinhos, seja um acolhendo o outro, seja os amigos brasileiros e americanos que fizemos por aqui nos recebendo em suas casa.

A grande questão é que, quando você já é um marinheiro, seu coração não parte tão facilmente com os rompimentos impostos pela vida. Ele já está calejado pelas andanças mar afora (ou adentro).

Ah, se eu fosse marinheiro
Era eu quem tinha partido
Mas meu coração ligeiro
Não se teria partido

Ou se partisse colava
Com cola de maresia
Eu amava e desamava
Sem peso e com poesia

Mas o marinheiro só é forte assim, porque ele tem maturidade. Ele sabe que uma vez amado jamais será esquecido, por maior que seja a distância ou o tempo. Ele sabe que o mar nem sempre é calmo e existem muitas tempestades no caminho. Ele sabe que é preciso ter coragem para enfrentar ondas gigantes. Ele sabe que é preciso ter paciência para chegar até o seu destino. Ele sabe que existe uma rota a ser traçada e que nem sempre ela será a melhor ou a mais certeira. Ele sabe que a solidão é sua companheira. Ele sabe que nem sempre o mar dará para ele aquilo que ele quer.

Porém, ele também sabe que em cada porto poderá descobrir novos amores. Que depois de toda tempestade o céu oferece uma paisagem sem igual e que o mar poderá surpreendê-lo com muito mais do que ele planejava encontrar. Ele sabe que pode contar com seu conhecimento e seu coração para chegar onde quer. Que o mar pode dar felicidade em abundância, sustento e aprendizado. Ele sabe que com o tempo ele se tornará um marinheiro melhor e poderá ensinar outros homens a seguirem pelo mesmo caminho.

Não buscaria conforto
Nem juntaria dinheiro
Um amor em cada porto
Ah, se eu fosse marinheiro.

Com o passar do tempo você começa a descobrir as melhores rotas, conhecer seus novos companheiros de viagem, escutar novas histórias e ver nossos lugares. Nesse primeiro mês mantivemos nossa agenda bem cheia e já fizemos alguns bons amigos. Na próxima semana vamos nos mudar em definitivo para nosso apartamento e aí sim começaremos a fixar nossas raízes. Por enquanto, posso dizer que vamos jogar a âncora, mas sem ter nenhuma certeza de quanto tempo ela ficará parada.

Enquanto isso, seguimos velejando com cautela, desviando já de longe de qualquer pedra que possa aparecer no horizonte, aprendendo a confiar em nossos novos guias. Ficamos parados quando sentimos que o mar pode trazer perigo, esperamos a onda passar sem acelerar e contemplamos o horizonte esperançosos.

Enquanto não somos marinheiros, seguimos apenas uma direção, aquela que parece ser a mais segura. Enquanto não somos marinheiros, seguimos desbravando o mar sem muita ousadia. Enquanto não somos marinheiros, seguimos chorando na calada da noite com as fotografias dos nossos amores escondidas embaixo do travesseiro.

“De uma América a outra consigo passar num segundo. Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo.”

Quem nunca viajou nas asas da imaginação ao escutar a música Aquarela do Toquinho? Cada estrofe resume as fases da vida de forma muito doce, seus momentos bons e ruins, e exemplifica como a felicidade realmente está nas pequenas descobertas. Basta imaginar, sonhar e usar todos os lápis de cor a nossa disposição para tornar a aquarela uma realidade. Também podemos aprender com a canção, que existirão momentos preto e branco, que as pessoas que amamos vão se ir com os navios da vida para descolorir em outro lugar e que, por mais longa e dura que a nossa estrada seja, precisamos aprender a passar por eles para encontrar a passarela da felicidade outra vez.

Um menino caminha e caminhando chega no muro E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar Sem pedir licença muda nossa vida Depois convida a rir ou chorar

Antes de vir para San Diego perdi duas pessoas amadas, entre elas o meu avô Lino, foi quando o futuro me convidou a chorar. Meu avô sempre foi um contador de histórias. Minha primeira lembrança de vida é estar ao seu lado, no meu aniversário de dois ou três anos, tocando um piano de brinquedo. Enquanto batia de forma descoordenada naquelas teclas coloridas e de som estridente, ele sorria e cantava alegremente. E ele foi assim durante toda sua vida. Cada conquista, mesmo que pequena, ele comemorava e contava uma história sobre um fato parecido para exemplificar como as coisas eram possíveis.

Tive o privilégio de escrever sobre sua profissão em um trabalho da faculdade. Passei um dia em sua marcenaria, localizada no porão da sua casa, e pude ver quanta paixão, cuidado e perfeccionismo ele empregava em cada objeto que criava. Na última vez que fui visitar minha avó, antes de viajar, decidi ir até a oficina. Foi muito dolorido reencontrar seu guardapó pendurado ao lado da porta, os pregos e o martelo ainda sobre a mesa. Tudo disposto de forma como se ele só estivesse saído por alguns instantes para tomar um café.

No hospital, disse que estava muito feliz com a minha mudança e meu casamento. Até fizemos planos de criar um site para vender suas peças de madeira e seus licores de jabuticaba. Como eu teria mais tempo, poderia ajudá-lo nessa empreitada. Infelizmente não conseguimos começar a pintar esse novo quadro. Mas a astronave do futuro, depois de quase cair, ergue-se e leva você para as estrales, para um lugar mais bonito e cheio de paz.

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo E se a gente quiser ele vai pousar

Foi então que um avião branco surgiu e me trouxe um novo mundo de possibilidades. Seguindo o conselho do meu avô, escutei meu coração e vim atrás da felicidade. Acabei pousando na Biblioteca Pública de Mission Valley sem querer, em uma das minhas caminhadas de desbravamento do bairro. Foi amor à primeira vista!

A biblioteca é pequena, porém muita bonita. Nesse primeiro encontro sentei em um dos sofás e comecei a ler um livro. A partir desse dia passei a ir, pelo menos duas vezes por semana, estudar inglês nesse lugar tão inspirador. Acabei fazendo amizade com um senhor que estuda árabe e com um guarda. E foi através da amizade com o guarda que descobri a oportunidade de ser voluntária aos finais de semana.

Então, o pingo de tinta que caiu no papel virou uma gaivota e voou para encontrar seu bando. Meu primeiro dia de trabalho foi nesse domingo. Estava muito empolgada! No ensino fundamental trabalhei como voluntária na biblioteca da escola durante um ano e desde então passei a amar bibliotecas, pequenas ou grandes. Na faculdade foran muitos dias estudando e trabalhando naquela que é considerada uma das maiores da América Latina. Sempre que viajo, tento conhecer a biblioteca do lugar. Sem sombra de dúvidas a Biblioteca di Ateneo, localizada dentro de um antigo teatro em Buenos Aires, foi a mais linda que conheci até agora.

Trabalhar em uma biblioteca é ter a possibilidade de conhecer muitas histórias, de fazer amizades, de ajudar as pessoas a mergulharem ainda mais nesse mundo cheio de personagens, aventuras e lições de vida e, claro, falar inglês. Estou ajudando a vender livros antigos para a aquisição de novos. Confesso que ganhei muito mais do que doei até agora. Meu chefe, o Bob, é um senhor de mais de sessenta anos que há cinco é voluntário. Muito metódico, foi um ótimo instrutor e ficou muito feliz com a ajuda. A partir de agora, estarei todos os domingos na biblioteca construindo um pedaço da minha passarela e ajudando a colorir e a encher de palavras a vida de todos aqueles que por ali passarem.

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar Vamos todos numa linda passarela De uma aquarela que um dia enfim Descolorirá

Certamente não sabemos onde a estrada da nossa vida irá chegar. Mas não é parado em casa que vamos fazer com que os passos ao longo do seu caminho sejam menos doloridos. Nem sempre é fácil fechar a porta de casa e desbravar o mundo, mas muitas vezes ele pode ser recompensador. Agradeço todos os dias por estar feliz em viver aqui e de ter essa disposição enorme em sair e não deixar o quadro da vida descolorir tão rápido.

“Mas não precisamos saber pra onde vamos, nós só precisamos ir.”

Já me perdi em muitas curvas da Infinita Highway cantada pelo Humberto Guessinger. A complexidade do ir é muito maior do que se imagina. Você já parou pra pensar sobre o verdadeiro significado da liberdade? Sempre imaginava a liberdade como um ato, a ação de poder sair sem destino, sem lista de atividades para fazer, sem ter com o que se preocupar. Na verdade tenho até uma cena na minha cabeça do que ela representa: estar sentada na carona de um carro antigo, que está andando em uma estrada deserta e reta; o sol está se pondo no horizonte enquanto a sua cabeça está para fora da janela; sua blusa e seu cabelo balançam ao vento; seus braços estão esticados e sentem todo aquele vento gelado de alívio entrando pelos poros; você está cantando com toda a força da voz a sua música preferida; não existe medo, não existe arrependimento, não existe passado ou futuro, apenas o agora.

Contudo, meu conceito de liberdade começou a mudar nesses últimos dias e não está mais conseguindo ser representado por essa cena de filme hollywoodiano. Agora, vejo ela como um estado de espírito. Você pode “estar preso” à rotina, às obrigações, mas se você sente-se livre de espírito, então você, meu caro, é realmente livre de corpo e alma.

“Eu não tinha nada, nada a temer. Mas eu tinha medo, medo desta estrada. Olhe só! Veja você.” Pois é, a estrada toda a nossa frente dá medo, pois não sabemos o que surgirá no caminho, não sabemos até que ponto ela é reta, em que momento vira ladeira ou curva. A única certeza que temos é de que ela existe e nos chama para percorrê-la.

Têm dias que me sinto presa em algum ponto da estrada. É como se eu parasse numa encruzilhada e por ali ficasse horas tentando decidir no cara ou coroa qual rumo tomar. Nunca tinha imaginado que sentiria tanta falta da minha rotina e só agora vejo que o trabalho tomava bem mais do que metade do meu tempo. Não estou dizendo que você não deve ser responsável com suas obrigações, afinal você têm contas a pagar, filhos para sustentar, um cargo a cuidar. O grande ponto que quero chegar é que tudo isso pode ser cobrado de si mesmo de uma forma muito mais leve (obrigada pela lição, Lu Maria <3).

Você já parou pra pensar o quanto é refém de si mesmo, das suas próprias cobranças? Hoje eu posso afirmar que isso é um vício, já que estou vivendo na pele os efeitos de sua abstinência. Nessa última tarde fiquei trancada em casa, estava chovendo e não tinha como sair. Minhas atividades estavam resumidas a fazer as tarefas da casa e procurar apartamentos em alguns links que um amigo havia passado. Adivinhem se não resolvi tudo em meio turno? E o que me restou? Ficar de um lado para o outro da sala agoniada, perguntando o que estava fazendo de bom da minha vida.

No ápice do desespero, sentei em frente ao computador e comecei, enlouquecidamente, a atualizar meu LinkedIn, contatar amigos pelo Facebook, entrar em sites de freelas, mandar mensagens. Ahhhhhhh! Quando vi passaram-se horas, mas estava tão mergulhada no meu inconsciente que gritava por “ser útil”, que não percebi que na verdade não precisava ter feito isso dessa forma.

Eu posso aproveitar estes meses pra descansar e pensar com calma nos próximos passos, mas então por que não o faço? Tanta gente gostaria de estar aproveitando este ócio criativo. O problema é que eu nunca tive tempo livre e não sei MESMO como lidar com ele. É como domar um animal selvagem.

Eu amo trabalhar e amo o que faço, é muito difícil se afastar dessa paixão. Ela era a minha segurança, era aquilo que me motivava a sair da cama todos os dias e encarar a vida, era aquilo que me dava orgulho e me fazia sentir bem comigo mesma, era aquela sensação de dar e receber, de fazer alguma coisa para o outro. Só que agora preciso achar outra paixão para preencher todos esses requisitos.

Mas a vida é uma caixinha de surpresas. Não bastou eu ter trabalhado exaustivamente esse assunto na terapia, eu tive que ganhar de presente do destino um momento REAL de “desintoxicação”. Eu, por algum motivo, estou aqui suando frio por ter que descobrir o que fazer com essa tal de liberdade e eu TENHO que ser amiga dela.

“Eu vejo um horizonte trêmulo
Eu tenho os olhos úmidos
Eu posso estar completamente enganado
Posso estar correndo pro lado errado
Mas a dúvida é o preço da pureza
E é inútil ter certeza
Eu vejo as placas dizendo “Não corra”, “Não morra”, “Não fume”
Eu vejo as placas cortando o horizonte
Elas parecem facas de dois gumes”

Como diz o grande Humberto, as placas estão aí, nos dando ordens e alertando sobre os perigos que estão nos esperando a cada quilômetro da estrada. As placas são nossos pais, nossos amigos e até nossos inimigos. Mas quantas vezes deixamos de dar atenção a elas? Quantas vezes ignoramos os seus alertas? Quantas vezes cometemos erros que poderiam ter sido evitados se tivéssemos pensado antes? Quantas vezes adoecemos por atingir o nível máximo da exaustão? Quantas vezes achamos que as placas são caretas e não sabem de nada sobre a vida?

Então, meu amigo, o que posso dizer pra você é: leia as placas e não ignore aquela luzinha que está dentro de você piscando e pedindo para tirar um sonho do papel, ou aquele plano esquecido, aquela vontade reprimida. Sei que você deve achar, muitas vezes, que suas vontades são ridículas.

Se a sua vontade é aprender algo que você deveria ter feito quando criança ou adolescente e nunca fez, vai lá. Aprenda a andar de bicicleta, dê um beijo na chuva, toque uma campainha e saia correndo, dê um sorriso para um estranho e fique envergonhado, compre um sonho na padaria e suje até o nariz de açúcar. Entregue-se, nem que seja de vez em quando, para essas vontades bobas. Elas são a sua liberdade. Elas são a sua felicidade.

 

“Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado.”

Como dizia o genial Raul Seixas, o mundo é muito grande para se ficar “sentado no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”. Meu pai me apresentou essa grande obra quando eu ainda era uma criança e desde então ela passou a fazer parte do meu lema de vida.

Nessa primeira semana que passei em San Diego, posso dizer que até consegui fazer bastante coisas sozinha. Claro que minha exploração ficou bem limitada à região onde moro, mas só pelo fato de ter coragem de sair e desbravar o novo, já é um grande passo. Posso dizer que relembrei a mesma sensação que tive quando mudei para Porto Alegre, só que em uma proporção bem maior.

No primeiro e no segundo dia fui conhecer o que tinha na primeira quadra do apartamento, que possui um shopping a céu aberto com várias lojas; no terceiro dia caminhei um pouco mais longe, duas quadras, e descobri a biblioteca pública do bairro (este lugar mais que especial merece um post à parte); no quarto dia estava chovendo, então resolvi ficar em casa dando uma de Maria; e no quinto dia andei várias quadras além e acabei parando em outro shopping.

Bom, vale dizer que estamos num condomínio que fica em frente a um centro comercial, então dediquei duas tardes para ir à lojas como a Ikea e o Costco. Por aqui as pessoas costumam andar muito de carro, até porque Mission Valey fica uns 15 minutos do centro, mas todas as ruas possuem calçadas, então é muito fácil se locomover a pé ou de bicicleta.

Claro que bate uma insegurança ao sair da sua zona de conforto (no meu caso, criei um vínculo com o apartamento e transformei ele no meu lar atual, no meu refúgio) principalmente nesses primeiros dias. Dá medo de não saber como as pessoas serão com você ou como você vai se sair em certas situações. No Costco, por exemplo, passei por um momento de aperto que acabou virando uma grande lição.

O Cotsco é um supermercado que vende produtos em grandes quantidades. Nem preciso dizer que fiquei fascinada com o tamanho dos pacotes e das embalagens, sem contar que a cada corredor tem entre dois e três promotores oferecendo prova grátis das mais variadas comidas. Ou seja, tudo isso me deixou muito animada, nem vi a hora passar de tanta novidade presente em cada prateleira.

Ao chegar a minha vez de pagar no caixa, o atendente pediu o cartão da loja. Como eu não o tinha, ele disse que então não poderia levar as mercadorias. Uma senhora que estava atrás de mim na fila se compadeceu da situação, pois expliquei que estava há menos de uma semana na cidade e não sabia como funcionava as regras dos supermercados. Ela acabou passando o seu cartão de sócia para mim e finalmente consegui trazer minhas compras para casa.

Aqui vale um adendo. Vários supermercados americanos não dão sacolas plásticas, sendo assim, ou você leva sua sacola de pano/plástico ou coloca as compras nas caixas que estão disponíveis na saída do estabelecimento. Isso eu também aprendi só depois de já ter pago tudo, então coloquei as coisas numa caixa e vim abraçada com ela até em casa (ainda bem que me contive e trouxe poucas coisas!).

Após passado o aperto, vim direto para o meu porto seguro, nervosa, como se tivesse culpa de alguma coisa. No fim, entendi que essas situações vão acontecer diariamente e será preciso lidar com elas. Fiquei muito feliz de saber que as pessoas por aqui são solidárias. Jamais imaginava que algum estranho iria me ajudar dessa forma.

Apesar do susto, não fiquei com medo de sair e continuei, dia a dia, encarando as ruas e as pessoas. Muitos moradores daqui têm bichos de estimação e descobri que eles são uma ótima porta de entrada para se fazer amizades. Nas lojas de roupas as pessoas também vêm falar com você para pedir ou dar opiniões e isso é muito legal!

Resumindo, as pessoas daqui gostam de se comunicar e trocar experiências. Como a Califórnia é uma região de praias e recebe muitos turistas, os moradores daqui estão acostumados com gente nova e gostam de ajudar (já paramos várias vezes para pedir informações e sempre fomos atendidos).

Estou extremamente feliz com a receptividade californiana 🙂

“É pau, é pedra, é o fim do caminho. É um resto de toco, é um pouco sozinho”

Tom Jobim e sua genial forma de escrever casou tão bem com a voz única de Elis Regina, que é impossível não se emocionar toda vez que se escuta “Águas de Março”. É toda a vida acontecendo no final do verão com “A promessa de vida no teu coração”, que a vontade de viver esse momento torna-se irresistível.

E são as promessas de vida que nos dão coragem na hora que nos sentimos mais sozinhos. Quando estava saindo de casa para ir ao aeroporto, minha mãe entregou-me uma carta. Esse gesto já me fez chorar, pois ela não costuma expressar seus sentimentos dessa forma. Peguei aquele pedaço de papel como se fosse o maior tesouro que estava levando em minhas malas e guardei, pois queria ler na hora certa.

No terceiro dia que estava aqui em San Diego, bateu aquele aperto no peito, era uma tristeza de saudade. Sei que parece precoce, mas quando tudo e todos são diferentes daquilo que você viveu diariamente durante 27 anos de sua vida, em alguns momentos bate a dúvida: “O que estou fazendo aqui?”.

Foi então que li e reli a carta dela. A cada parágrafo uma lágrima, uma saudade e um conforto. Tenho certeza que minha mãe foi a pessoa que mais sofreu com minha mudança, mas desde o início ela apoiou, mesmo com o coração despedaçado.

Para me sentir ainda mais abraçada, reli a carta que minha melhor amiga Luciana escreveu antes da viagem. Foi nesse momento, depois do mais puro amor expresso em palavras, que tudo voltou a fazer sentido e vi que não estava mais sozinha.

No fim, entendi que todo o resto que trouxe na bagagem não tinha muita importância. Roupas e sapatos podem ser comprados novamente, aqui é tudo muito bom e barato.  Mas cartas e objetos pessoais, aqueles que possuem algum significado sentimental para você, são os itens que realmente fazem a diferença quando se está longe de casa.

Muitos amigos disseram-me que a distância é só um número. Essa é a mais pura verdade. Todos os dias falo com meus pais e amigos por Skype, e-mail, Whatsapp, Facebook, Twitter e Instagram. É como se todos estivessem aqui perto, mesmo estando longe. Meu pai tornou-se entusiasta digital desde que falei sobre a mudança. Hoje ele passa metade do dia no celular falando comigo e com outros parentes que moram longe, e está feliz da vida por descobrir a cada instante uma novidade (não preciso nem dizer que cada mensagem vem com uma foto em anexo e um emoticon <3).

Um dos meus maiores medos da mudança era que as pessoas fossem me esquecer, mas descobri que sempre estamos perto de quem amamos. Além disso, essa mudança está abrindo novas possibilidades para meus pais e amigos, que podem vir me visitar. Sem contar que meus pais estão aprendendo mil funcionalidades tecnológicas depois dos 50 anos, comprovando que não existe idade para conhecer coisas novas e surpreender.

Toda mudança, quando é pra melhor, ensina coisas novas para as pessoas que nos rodeiam. Ou seja, a sua mudança pode fazer o bem para muitas pessoas. Não é só você que cresce, é todo o jardim que está a sua volta.