“And as I looked around, I began to notice. That we were nothing like the rest”

Acredito que um dos melhores presentes que a Califórnia me deu foi a sensação de ser livre e a oportunidade de poder viajar com frequência. Por mais que eu tenha uma vida cheia de obrigações, aqui, eu posso conhecer lugares incríveis sem precisar viajar milhares de quilômetros. Aqui, eu posso planejar trips que jamais imaginaria fazer alguma vez na vida e gastar muito pouco dinheiro.

Faz um ano e quatro meses que estamos morando na Califórnia e já conhecemos muitos lugares, pois é barato e fácil viajar. San Diego está numa região bem localizada, por isso muitas vezes é só preciso pegar o carro, dirigir uma ou duas horas e o seu destino estará logo ali. Dependendo do tempo e da grana que se têm, às vezes não é nem preciso passar a noite no lugar, gastando com hospedagem, por exemplo. Dá para fazer o famoso “bate e volta”.

Ano passado, conhecemos Palm Springs, Joshua Tree, Salton Sea, Temecula, Big Bear, Mammoth, Santa Bárbara, Oceanside, Malibu, Laguna Beach, Santa Mônica, Trestels e até Tijuana e Ensenada, cidades localizadas no México. Este ano, já fomos para San Francisco e Los Angeles. Porém, também tivemos a oportunidade única de ir ao Coachella, um dos maiores e mais famosos festivais de música dos Estados Unidos. O festival, que começou oficialmente em 1999, acontece anualmente na cidade de Índio, na Califórnia, e tem a duração de dois finais de semana (contando sexta, sábado e domingo).

I heard them calling in the distance
So I packed my things and ran
Far away from all the trouble
I had caused with my two hands
Alone we traveled on with nothing but a shadow
We fled far away

Assim que os ingressos foram colocados à venda, no final do ano passado, garantimos a nossa presença. Logo depois, começamos a pesquisar algumas casas, pois iríamos com uma turma grande de amigos. Porém, no fim optamos por alugar um RV (o motorhome daqui) e ficar em um camping próximo ao evento. Certamente essa foi a melhor escolha que poderíamos ter feito. O RV tem um custo-benefício exelente se comparado com o aluguel de um motel (hotel barato daqui) ou de uma casa, já que os preços triplicam na época do evento. Fomos em 6 pessoas (mas existem opções para turmas maiores e menores) e todos dormiram confortavelmente. O RV oferece todo o conforto de uma casa sobre quatro rodas (banheiro, cozinha, ar-condicionado, camas, sofás, armários) e não gasta muita gasolina. Fomos e voltamos do evento, que fica a duas horas e meia de San Diego, e gastamos 3/4 de tanque. Você também pode levar toda a sua comida, já que tem geladeira, pia e fogão pra cozinhar. Por isso, fizemos um bom rancho antes de ir e comíamos bem todas às manhãs, antes de sair e quando voltávamos. Assim, gastávamos muito pouco comendo no evento (as coisas não são muito caras. A média fica entre $7 e $10 por um lanche, $2 por uma garrafa de água e $10 por um copo de cerveja).

O camping foi outro grande acerto da trip. Ficamos a 30 minutos do evento, mas tínhamos uma infraestrutura maravilhosa: piscina, jacuzi, banheiros com chuveiros, café da manhã, sem contar todo o sistema de água, luz e esgoto oferecidos para os RVs. Todos os dias, o camping disponibilizava um ônibus (em horários específicos) para levar e buscar os hóspedes que estavam ali apenas pelo Coachella. Claro que pagamos pelo serviço, mas a economia foi bem grande se compararmos com a grana que gastaríamos com estacionamento (fora o cansaço e o perigo em voltar dirigindo) ou com Uber, que chegava a custar quatro vezes mais que uma corrida normal devido a quantidade de gente que estava buscando o serviço.

Enfim, a experiência com o motorhome foi tão positiva, que já estamos planejando fazer outras trips com ele. E agora, eu também passei a entender o porquê de muitas pessoas optarem por morar em um RV.Você tem tudo que precisa e ainda pode levar a sua casa para qualquer lugar do mundo. Na Califórnia, existem dezenas de pessoas que fazem isso, inclusive existem campings em vários lugares onde é possível pagar uma taxa mensal para poder estacionar a “sua casa”. Também é comum ver vários RVs nos estacionamentos públicos das praias e dos parques de San Diego.

Hold your horses now
(Sleep until the sun goes down)
Through the woods we ran
(Deep into the mountain sound)
Hold your horses now
(Sleep until the sun goes down)
Through the woods we ran

Agora, falando sobre o Coachella…..Por mais que eu tivesse visto fotos e lido algumas matérias sobre o festival, nenhuma descrição conseguiu representar a sua verdadeira grandiosidade. Desde o momento que eu desci do ônibus e caminhei até a entrada final (o que leva meia hora) eu não estava acreditando que aquele lugar no meio do deserto era real, parecia uma miragem.

Imagine que em média 200 mil pessoas passam pelo festival durante os dois finais de semana, o que é MUITA gente! Então, para oferecer o melhor serviço para toda essa galera, existem dezenas de barraquinhas de comida, lojinhas, banheiros, além de muitas pessoas trabalhando ao redor do lugar como seguranças, médicos e enfermeiros, e diversos outros funcionários que ajudam você a achar o seu estacionamento, seu acampamento (o Coachella tem um espaço para camping, mas é mais caro), seus amigos…

Os portões abrem às 11h da manhã e o festival termina às 2 da madrugada na sexta e no sábado, e à 1h no domingo. Acha pouco? Nós geralmente chegávamos às 15h e ficávamos até o final, o que dava uma média de 10/11 horas de evento aproveitado, o que foi MUITO para o nosso corpo. Aí tem um ponto importante: eu fiquei extremamente feliz por estar fazendo exercícios físicos nos últimos meses, pois você precisa ter um mínimo de preparo físico para conseguir curtir o festival ao longo dos três dias.

Como são dezenas de bandas tocando ao mesmo tempo e o lugar é ENORME, você caminha de um lado para o outro o tempo todo. Claro que dá para sentar, deitar e até dormir na grama, mas não dá pra ficar muito tempo no descanso, pois o mundo Coachella não pára pra você se recuperar.

Além dos palcos principais e das grandes tendas, existem tendas menores de música eletrônica que sempre estão com algum DJ fazendo a festa. Eu, que estava mais pelos shows de rock, indie e acústicos, acabei me rendendo em muitos momentos.

Um ponto que nos convenceu a não chegar muito cedo todos os dias, além do cansaço, foi o calor. Imagine que o festival é no meio do deserto e as temperaturas chegam aos 40 graus. Por isso, não dá para esquecer do protetor solar para o rosto, lábios e corpo, além de estar o tempo todo tomando água. À noite, ficava mais fresco, em torno de 20 graus, e era preciso sempre levar um casaquinho.

Some had scars and some had scratches
It made me wonder about their past
And as I looked around I began to notice
That we were nothing like the rest

Como é permitida a entrada de crianças e menores, as áreas que vendem bebidas álcóolicas para maiores de 21 anos são fechadas. Ou seja, você precisa, todos os dias, mostrar seu documento, pegar uma pulseirinha (todos os dias a cor da pulseirinha muda) e depois parar nas filas para entrar nesses lugares. Eu vi poucas crianças, mas a quantidade de adolescentes é realmente impressionante se comparada com pessoas mais velhas.

Nos três dias do evento, não vi nenhuma briga ou confusão, apenas algumas pessoas passando mal do calor e da bebida, o que é perfeitamente normal em qualquer festival ao ar livre. Nem nos maiores shows, como no do Guns N’ Roses, por exemplo, fomos empurrados ou nos sentimos apertados/sufocados. As pessoas respeitam o seu espaço. Por isso, era comum ver no meio da multidão que estava assistindo a um show, pessoas sentadas ou deitadas e todo mundo passando ao redor e respeitando a opção delas de não estarem de pé.

O que me deixou mais encantada com toda a experiência foi a atmosfera do lugar. Ver o pôr do sol era o momento mais incrível do dia, pois você olhava ao redor e via muitas montanhas e palmeiras, milhares de pessoas cantando, sorrindo, dançando e não se importando com o que o mundo estava pensando sobre elas naquele momento.

Além da música, o Coachella é um festival de arte. Você encontra esculturas, luminosos, construções e letreiros por todos os lugares. É inspirador estar ali, mesmo quando você não está vendo algum show, pois a arte toma conta do lugar e de você. O jeito de vestir das pessoas também é algo à parte. O look padrão é o estilo hippie chic, mas todo mundo encontra a sua forma de deixar o visual com um toque pessoal. Ao mesmo tempo, existem pessoas que vão fantasiadas (vi muitos unicórnios, alguns super-heróis, um minion e até um pikachu), outras seguem um estilo gótico, outras ainda optam pela linha nudes.

Amei a experiência e recomendo pra todo mundo. Se você tiver a oportunidade de ir ao Coachella, vá! Você estará no fim do mundo sentindo por todos os seus poros uma energia que mistura música, arte e pessoas dos mais variados estilos e lugares. Depois, você terá uma vida inteira para recordar e contar as histórias que viveu, as bandas que conheceu e os amigos que fez ❤

Whoa-oh-oh-oh-oh We sleep until the sun goes down Whoa-oh, whoa-oh We sleep until the sun goes downWhoa-oh-oh-oh
We sleep until the sun goes down

La la la, whoa-oh-oh-oh-oh
La la la, we sleep until the sun goes down
La la la, whoa-oh, whoa-oh
La la la, we sleep until the sun goes

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“There’s a battle outside. And it is ragin. It’ll soon shake your windows. And rattle your walls. For the times they are a-changin”

Em 1964 Bob Dylan gravou “The Times They Are A-Changin”, mas parece que a cada ano a letra se torna mais atual. Essa música ganhou um significado maior para mim quando assisti o filme “Watchmen”. A abertura é feita com cenas de super-heróis, políticos e policiais milimetricamente casadas com cada verso de Dylan. Assim como o filme, a canção traz uma mensagem de protesto apresentando as mudanças que estavam acontecendo na sociedade da época, os valores que estavam sendo deixados para trás, o novo que estava por vir e quem foram os que relutaram em aceitar tais mudanças. Tudo isso expresso através da inversão na ordem das ações, mostrando aos jovens que os novos tempos estavam chegando e que as pessoas deveriam se preparar para isso.

Come gather ‘round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You’ll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin’
Then you better start swimmin’
Or you’ll sink like a stone
For the times they are a-changin’.

E é exatamente sobre o tema “mudança” que quero falar neste post. Neste último mês alterei totalmente minha rotina por conta dos cursos que comecei a fazer. Já não tenho tempo livre na agenda e isto faz de mim a pessoa mais feliz do mundo, pois quando não sobra tempo para muitas distrações, o foco nos objetivos é maior e os maus pensamentos são afastados.

Quando vi, já era a semana do meu aniversário, a primeira comemoração de um novo ano de vida em San Diego. Sempre amei comemorar meu aniversário e fazer alguma festa. Porém, este ano o sentimento era muito mais de gratidão por tudo que havia acontecido no último ano, do que de dar às boas-vindas a uma nova fase. Eu queria ir apenas em um lugar bacana com as pessoas que realmente importam para mim aqui em San Diego. E foi exatamente isso que aconteceu.

Come mothers and fathers
Throughout the land
And don’t criticize
What you can’t understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin(g)’.
Please get out of the new one
If you can’t lend your hand
For the times they are a-changin’.

Pela primeira vez senti que o peso da idade começou a fazer sentido. Além de aparecerem os primeiros cabelos brancos, agora sinto, mais do que nunca, que realmente comecei a amadurecer e a perceber o que realmente tem valor. Experiência de vida tem muito mais a ver com o tamanho das pedras no caminho que você precisa desviar, do que com o número de velas que você apaga na hora do parabéns. Por tudo isso, sou extremamente grata pelos 28 anos terem me mostrado o real significado das palavras coragem e serenidade.

Se não fossem por elas, não teria passado pelo momento mais difícil da minha jornada aqui em San Diego com a maturidade necessária. Ontem, acompanhei meu marido ao hospital achando que ele estava com dor de estômago, quando na verdade era apendicite. Para quem imaginava sair de lá 2h depois com uma lista de remédios e acabou recebendo um saco plástico para guardar todos os pertences pessoais dele antes de vê-lo entrar em uma sala de cirurgia, a probabilidade de surtar era bem grande.

Confesso que não fui forte o suficiente e tremi de medo na primeira hora. Mas a vida é cheia de anjos chamados amigos e foram eles os responsáveis por me darem a força que eu precisava. Depois de toda a energia enviada do Brasil e daqui, no fim tudo acabou dando certo. Passado o susto, fica mais fácil analisar todo o cenário e refletir sobre as lições aprendidas (mania de Gerente de Projetos).

Se tremi de medo, foi porque eu era a única responsável naquele momento pela vida de uma das pessoas que mais amo neste mundo. Eu sei que posso contar com toda nossa família e todos os nossos amigos, porém essa foi a primeira prova que tivemos que passar aqui como marido e mulher tendo que tomar uma decisão sozinhos, provando que um é responsável pelo outro e que não existe mais ninguém que possa fazer isto por nós. O peso da responsabilidade caiu sobre os meus ombros, mas ao vê-lo na sala de recuperação com o melhor diagnóstico possível, o alívio e o sentimento de dever cumprido vieram na hora. A decisão tomada realmente tinha sido a mais sensata.

The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin’.
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin’.

Então, meu amigos, a idade vai chegado e toda a bagagem que você adquiriu ao longo da vida passa do status “peso/dor” para “respostas/coragem”. Aquele momento de sofrimento lá no passado será a coragem que você construiu para conseguir suportar outra tsunami lá no futuro. O aprendizado de ontem será a resposta que alguém que você ama precisará amanhã. E assim a montanha russa da vida vai seguindo com seus altos e baixos e você segue segurando firme em um dos carrinhos. Afinal, de que adianta viver se não para sentir todas as emoções que a vida pode proporcionar?

Os 28 anos de gratidão finalmente chegaram. Agradeço a cada pessoa que caminhou ao meu lado, que me segurou no colo, que me derrubou, que me empurrou para frente ou para trás. Foi através de todo esse sacolejo que criei a minha bagagem e agora estou usufruindo da melhor forma possível de todos as suas ferramentas.

“Todos os dias é um vai e vem. A vida se repete na estação.”

Nesta semana, completarei cinco meses de vida nova em San Diego. Ontem, jantando com um casal de amigos brasileiros, contei histórias de vida das quais tomei conhecimento desde que passei a fazer parte da comunidade de imigrantes deste novo mundo. O ditado costuma diz que “sonhar não custa nada”, porém para algumas pessoas sonhar pode custar a liberdade e o próprio sonho. E foi com esse pensamento que acordei hoje de manhã e passei a sentir ainda mais intensamente a constante rotina de chegadas e partidas que presencio. A rotina da qual também passei a fazer parte.

Maria Rita descreve em frases curtas a relação entre “Encontros e Despedidas”, mas a simplicidade dos versos, na verdade, carrega uma imensidão de sentimentos que acontece a cada ida e vinda.

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Na escola que estudo, todos os dias chega um novo aluno, e todos os dias alguém também se despede. Hoje, foi a vez de um brasileiro, que passou seis meses em San Diego com a esposa e os dois filhos, dizer até logo. Ele vai com a certeza de que no próximo ano retorna para ficar de vez. Já ontem, uma menina do Cazaquistão passou a integrar a turma. Faz uma semana que ela mora em San Diego. Antes, vivia em Los Angeles com o namorado português, porém decidiu largar tudo para viver perto dos amigos, também cazaques, que moram aqui.

Nunca fui boa em despedias e desapegos. Contudo, tive que aprender, mesmo sem querer, a dizer adeus, assim como dar as boas-vindas. Ainda não consigo controlar a explosão de sentimentos que sinto quando penso na minha família que está no Brasil ou o aperto que dá no coração quando lembro daqueles que partiram para sempre, como meu avô Lino e minha avó Ana. Constantemente meus sonhos são com todos aqueles que há muito não vejo. O inconsciente saber ser poderoso e cruel. Constantemente, ele busca em nossa memória histórias e rostos para nos lembrar do mundo que existe para além da cegueira que vivemos ao tentar buscar o segredo da felicidade e da vida estável.

Há um mês, tive que me despedir da primeira grande amizade (sem ser brasileira) que fiz por aqui. A Jara voltou para Minorca, uma ilha da Espanha, pois precisa começar a faculdade e construir sua carreira. Uma menina de 19 anos, com a maturidade de uma mulher de 30, que deixou uma saudade enorme e um ensinamento gigante: “lute por aquilo que você acredita”. Ela não entendia como eu dava conta de tudo e eu até hoje busco entender de onde ela tirou coragem para ficar seis meses longe da sua família, vir para um país completamente sozinha para aprender inglês e buscar respostas para o seu futuro. Segundo ela, seus pais sempre a incentivaram a criar novos laços, a nunca ficar só na comodidade do ninho que eles construíram com tanto amor para ela. Compartilhamos livros, risadas, confidências, almoços, jantares e fotos. Aprendemos sobre amizade, distância e saudade.

Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir

Não é fácil resumir o que aprendi sobre o significado de chegar e partir nesses 150 dias, mas tentarei, assim como Maria Rita, simplificar as grandes escolhas que muitas pessoas fizeram. A simplicidade é proposital para que seja possível enxergar todo o peso das decisões tomadas que estão implícitas nas entrelinhas.

Teve gente que chegou para ficar e que: vendeu sua casa e veio com o filho adolescente com medo da violência na Polônia; vendeu seu carro, o único bem que tinha no Brasil, para tentar uma nova vida com sua namorada, mesmo que isso tenha significado passar a entregar pizza; continuou com seus negócios no México e veio com o marido e os dois filhos adolescentes para abrir novas franquias em San Diego; deixou a Itália para acompanhar a esposa, que recebeu uma oportunidade de trabalho em San Diego, e enquanto ele aguarda seu Green Card, trabalha como voluntário em um aquário na cidade; está há 15 anos morando na Califórnia e volta uma vez por ano para a China como visitante; veio da Argélia para acompanhar o marido e só vai voltar ao seu país de origem no próximo ano para realizar a cerimônia religiosa do casamento; é filipino, mas já morou na Arábia Saudita por um tempo e agora está há muitos anos em San Diego com toda a família desfrutando a poesia da vida; deixou o Iraque e está vivendo feliz há 25 anos nos Estados Unidos.

Tem gente que vem e quer voltar e que: está há 14 anos vivendo em San Diego com o marido e o filho de oito anos, mas todos os dias quer voltar para a Colômbia; está há dois meses na cidade, mas louca de vontade de voltar para o Brasil em julho, pois a vida não está sendo fácil por aqui; teve que deixar a filha de menos de um ano na Arábia Saudita para seus pais a criarem dentro das tradições, enquanto termina o mestrado nos Estados Unidos; veio estudar inglês e fazer festa por alguns meses e voltou para a França.

Tem gente que veio só olhar e que: saiu da Suíça para ficar um ano e meio em San Diego com o marido, o qual trabalha em uma empresa americana, mas como ela não consegue emprego na sua área devido ao visto, está ganhando um dinheiro extra como nanny; partiu da Guatemala há dois anos e está morando com uma tia em San Diego, mas não sabe o que fará no futuro; trabalhou durante um tempo no Brasil e resolveu tirar alguns meses sabáticos para surfar na Califórnia; está morando há um mês na casa de uma família e na metade do ano volta para a Espanha; veio do Equador, frequentou a aula durante um mês e nunca mais voltou; deixou a Síria para estudar e trabalhar em San Diego e está decidindo o que fará no próximo ano; veio da Rússia com o marido, tem medo de se relacionar com estranhos e comparece apenas a cada 15 dias na aula.

São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida

“A vida vem em ondas como um mar. Num indo e vindo infinito.”

Planejar. Esse verbo por muito tempo guiou os meus dias. Todas as manhãs, levantava da cama sabendo exatamente o que faria, em qual horário e com quem. Perdi muitas noites de sono repassando os fatos do dia, culpando-me por ter esquecido de fazer alguma tarefa no trabalho (não respondi o e-mail x, preciso ligar para fulano, tenho que cobrar ciclano…) e tentando dizer para mim mesma que precisava priorizar alguns compromissos pessoais (esqueci de marcar minha mão pela terceira vez na semana, não mandei mensagem para a fulana, preciso confirmar presença no aniversário do ciclano…). E assim os dias passavam e eu naquela roda gigante maluca que não saia do lugar, e que cada vez mais consumia meu sono e minha saúde.

Saber planejar é crucial para a sua carreira, ainda mais quando você trabalha como gerente de projetos. Planejar é essencial para você aprender a priorizar o que realmente é importante. O problema é quando você quer planejar e controlar tudo que acontece ao seu redor.

Este novo momento da vida está me ensinando a não fazer muitos planos para o meu dia. Confesso que no início é extremamente complicado, mas com o tempo você descobre que pode ter um dia maravilho que não teria se tivesse planejado.

Esta semana era “Spring Breack” na minha escola. Semana passada estava preocupada pensando que teria minha rotina interrompida, mais uma vez. Aproveitei as manhãs para estudar, mas na quarta-feira decidi ir à biblioteca do meu bairro, afinal é sempre bom mudar de ares. No fim, ela estava fechada devido a um feriado específico. Decidi mandar mensagem para um colega que mora ali perto e fomos tomar banho de piscina, jantar e ele acabou aqui em casa à noite tomando um drink comigo e com o meu marido. Em outra tarde, decidi que me dedicaria a fazer novas receitas e passei o dia em função de pães e geléias.

Como Lulu Santos muito bem disse, a vida é como uma onda. Cada momento é composto por uma onda específica. Por vezes, ela é grande, bonita e perfeita, e você consegue surfar sobre ela; já em outros momentos, ela é traiçoeira e arrasta você para o fundo do mar, mas você precisa ter coragem para vencê-la e recomeçar tudo outra vez; por outras, ela é tão tranquila que você mal a percebe. Mas não importa a sua intensidade, cada momento está ali, acontecendo e convidando você para desfrutá-lo. Mas se você perder uma dessas ondas, não adianta chorar, pois ela não voltará. O mar não vai parar para você recuperá-la. É preciso erguer a cabeça e seguir adiante, buscando novas oportunidades, novas ondas que poderão trazer aquilo que você espera.

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará

A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito

Tenho uma lista de tarefas que preciso fazer toda semana e em dias específicos, mas como tenho tempo livre nesses espaços, procuro deixa a vida levar. Os finais de semana são os mais incríveis. Dificilmente marcamos compromissos, os eventos vão acontecendo com o desenrolar do dia. Sábado passado começamos o dia na praia, encontramos alguns amigos, fomos parar numa raive, depois pegamos uma jacuzzi na casa de um casal de amigos e terminamos a noite comendo o melhor hambúrguer das redondezas em um restaurante muito bacana. Resumindo, conhecemos pessoas novas, degustamos novos sabores, demos muitas risadas, aproveitamos cada minuto do dia e tudo isso sem fazer nenhum planejamento prévio.

Sempre me cobrei muito para que cada coisa fosse feita com perfeição. E, quando dava errado, senti-me a pessoa mais frustrada do mundo. Porém, nunca me dei tempo para melhorar. Agora, e com ajuda da terapia feita no ano passado, passei a entender que todos os acontecimentos intensos da nossa vida precisam de maturação, assim com um bom vinho.

Após passar por um momento triste, como a perda de uma pessoa querida, por exemplo, você precisa se dar um tempo para chora e sofrer. Depois, você precisa refletir sobre esse luto e entender o quanto ele significa na sua vida, retirando todos os pontos que possam ajudá-lo a ser uma pessoa melhor. Só depois disso você segue adiante. O mesmo ciclo acontece com as coisas boas, como uma promoção no trabalho, por exemplo. Você deve ter o tempo de comemorar e de sorrir, mas depois deve processar a novidade, entender o que fez chegar até ali e como esses pontos positivos podem ser aplicados em outros aspectos da sua vida.

Estamos mudando o tempo todo, o mundo muda o tempo todo. Nunca vamos conseguir acompanhar tudo na mesma velocidade, mas precisamos desacelerar para poder conseguir seguir na maratona com a cabeça e o coração em ordem. Quando os dois estão em conflito, a vida vira um caos!

Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo

Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre

Como uma onda no mar

Mas não se engane, não é fácil. Todo processo de mudança e amadurecimento é doloroso, muito doloroso. Tem momentos que você tem vontade de sair correndo para o colo da sua mãe como uma criança assustada e desprotegida. Contudo, você não pode. Sua mãe mora longe, ou está viajando, ou infelizmente ela já não está mais aqui.

Claro que você pode se dar a esse luxo de vez em quando, mas não sempre. Você é um adulto e precisa aprender a controlar suas birras internas, seu conflitos, seus momentos de decepção, de perdas, de erros. Ser adulto exige tomadas de decisões, escolhas que nem sempre serão as certas, mas quando são podem abrir um novo mundo para você. Porém, o mais importante de tudo é saber que: ser adulto é aprender a entender a emoções e senti-las, desfrutando a sua intensidade. Esconder sentimentos é para os fracos, os verdadeiros corajosos são aqueles que admitem sentir.

A vida vai e vem como uma onda no mar. Aproveite a brisa, a areia, o sal, a água e tudo mais que ela pode lhe dar, assim como o mar. Faça planos, mas não exagere. Nunca sabemos se o dia de amanhã chegará para perdermos tempo levando uma vida tão certinha e regrada. Toda pitada de loucura faz bem para a alma.

“Caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento. No sol de quase dezembro, eu vou.”

Dois meses passaram, mas parece que foram doze. Todos os dias a vida é tão cheia de descobertas, que você aproveita muito mais cada minuto e tenta absorver ao máximo a experiência, pois sabe que ela passa rápido e escorre pelas mãos. Ah quem dera poder viver para sempre assim!

Ao mesmo tempo, você despende mais energia por pensar potencialmente em tudo, em cada escolha e em cada saudade. Os sentimentos ficam muito intensos. Por vezes você está muito feliz, como se fosse a pessoa mais abençoada do mundo. Por vezes você está tão triste, que as lágrimas chegam sem avisar, molham o rosto e lavam a alma.

Você caminha sentindo-se nu, como diria Caetano: “sem lenço e sem documento”. Você não consegue esconder aquilo que está estampado no seu rosto. Você está sedento por amor e por carinho. Você está sentido-se o ser mais frágil do mundo. Contudo, você está sozinho e precisa ser forte. O sol e a lua são seus mais fiéis companheiros. Quem muito caminha por aí sabe do que estou falando.

Quando você está longe, por mais que esteja cercado de pessoas, sente-se só. Mas você precisa ter em sua vida um momentos para ser só, pois é assim que se consegue crescer e sobreviver ao novo. Você está longe, mas queria estar perto e também queria estar onde está. Será que a vida é assim tão bipolar? Ou será que você faz dela este caos?

Mesmo longe, você não deixa de acompanhar as notícias e saber sobre tudo que está acontecendo por lá, por mais que não possa fazer muita coisa daqui. A maioria das notícias se repetem todos os dias: violência, corrupção, futilidades, milagres e curiosidades. O mundo vai seguindo, as pessoas vão sobrevivendo, fazendo suas festas, comemorando suas conquistas, chorando suas decepções, mas você não está lá. Você não pode fazer nada além de mandar uma mensagem ou dizer algumas palavras. Você não pode dar um abraço ou simplesmente mostrar que se importa através do brilho do olhar.  Mas você sente, você sofre, você torce, você se preocupa e você se orgulha.

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou

As fotos enviadas pelos entes queridos acalmam o coração e mostram que eles seguem vivendo um dia por vez, assim como você. Eles continuam enchendo a vida de cores, de amores, de sabores e de canções. E você segue buscando ser forte e criando a sua nova rotina, conhecendo novas personalidades e espaços. As pessoas seguem casando e acreditando no amor. As pessoas seguem estudando e acreditando na sabedoria. As pessoas seguem trabalhando e acreditando que podem fazer alguma diferença no mundo. E você segue acreditando que está, de alguma forma, presente.

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não

Descobri que praticar hiking é uma forma de estar perto da natureza e ao mesmo tempo em contato com o seu eu. Caminhar por trilhas desconhecidas sem saber onde se vai chegar dá medo sim. Ao mesmo tempo, você sabe que alguém já passou por ali, pois vê as pegadas, e isso dá segurança e esperança de que pode seguir. San Diego oferece paisagens cheias de montanhas, pedras, plantas rasteiras, muito sol e algum vento. Todo final de semana você pode escolher uma nova trilha, pois a cidade é abençoada com muita natureza a ser desbravada.

Você sente que cada passo trilhado é um a menos e que cada metro de subida é uma vitória. A recompensa está logo ali, mas parece nunca chegar. Porém, você não desiste. Por mais que as pedras façam você tropeçar ou resvalar, por mais que a boca fique seca e implore por mais água, por mais que suas pernas digam chega, você segue, pois sabe que seus olhos precisam daquela recompensa. E quando você chega ao cume, seu coração se enche de alegria. Você sente como nunca que quer seguir vivendo para ver mais, aprender mais e aproveitar mais.

Momentos como esses são inesquecíveis. Durante todo o tempo de caminhada você vai pensando em tudo e em nada. Você fala consigo mesmo e, por vezes, até com um ser superior. Você incentiva a si mesmo, você precisa acreditar em si mesmo. Corpo e mente trabalham juntos, já que um depende do outro, um dá força para o outro. E assim, passo a passo, você vai chegando ao seu destino final.

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou

A volta é bem mais tranquila, você já conhece o caminho e os obstáculos, e então passa a apreciar com calma a paisagem e tenta gravar os detalhes em sua memória. O ponto de chegada, aquele mesmo da partida que causava tanto entusiamo e incertezas no início, agora é a mais pura sensação de dever cumprido e relaxamento.

A ida sempre é mais difícil, ela é incerta, ela prega armadilhas, ela é, por vezes, traiçoeira. Mas a volta traz outro vigor. Os calos nos pés podem doer mais, mas mesmo assim você sabe que está no caminho certo e que a chegada reserva a recompensa que faz você querer repetir a dose.

Claro que nem todo caminho que você traça tem o mesmo trajeto na volta. Ainda não sei se a vida aqui será permanente, se traçaremos novas trilhas ou voltaremos para o início. Por enquanto só sei que eu vou vivendo passo a passo, minuto a minuto, dia a dia, sem nenhum lenço e com apenas um documento. Estou aproveitando cada brisa. Não me importo com os grãos de areia que ficam dentro do sapato, tampouco com os outros que vão passando correndo por mim. Cada um tem o seu ritmo. Cada um tem o seu objetivo de vida. Cada um tem o seu limite.

Por enquanto eu sigo contra o vento e assim eu vou.

“Leste oeste norte e sul, onde um homem se situa. Quando o sol sobre o azul ou quando no mar a lua.”

Adriana Calcanhoto colocou muito bem em “Maresia” a posição a qual pertence o homem no mundo: todo lugar. Em uma aula na faculdade, lembro de ter lido um texto sobre o sentido de pertencimento a um lugar. Existem pessoas que já nascem entendendo que são cidadãs do mundo, diria que marinheiras. Já outras, sofrem por deixar suas raízes e demoram muito, ou às vezes nunca conseguem, sentir-se pertencente a um novo lugar, a uma nova cultura.

Ah, se eu fosse marinheiro
Seria doce meu lar
Não só o Rio de Janeiro
A imensidão e o mar

Quando você é uma dessas pessoas que precisa colocar tijolo por tijolo na construção da consciência de que pertence ao mundão velho de meu Deus, passa a perceber que tudo fica mais fácil ao se criar um ambiente acolhedor. Por isso, a primeira coisa que comprei quando cheguei em San Diego foi uma planta. Quer dizer, não e uma simples planta, é o Axl, o nosso bonsai. Confesso que não sei a qual família de bonsais ele pertence, só sei explicar que suas raízes são bem gordinhas e suas folhas também. Sempre quisemos ter um, mas não imaginava comprá-lo assim, por impulso.

Acho que estava com tanto medo de me sentir sozinha durante o dia, que quando olhei pra ele ali na prateleira das folhagens, pedindo para sair daquele agito e ganhar um lar, compreendi que faríamos companhia um para o outro durante as nossas horas de silêncio. Hoje ele faz parte da minha rotina e ajuda a criar o sentimento de que existe outro ser vivo por perto quando estou sozinha em casa. Sei que isso parece loucura, mas a distância faz dessas com as pessoas.

Não foi  fácil passar pelas festas de final de ano aqui. Natal e Ano Novo são sinônimos de família e amigos reunidos, festejando, comendo, rezando, abraçando e trocando sorrisos. Nós aqui improvisamos as datas e conseguimos passá-las sem nos sentirmos tão sozinhos, seja um acolhendo o outro, seja os amigos brasileiros e americanos que fizemos por aqui nos recebendo em suas casa.

A grande questão é que, quando você já é um marinheiro, seu coração não parte tão facilmente com os rompimentos impostos pela vida. Ele já está calejado pelas andanças mar afora (ou adentro).

Ah, se eu fosse marinheiro
Era eu quem tinha partido
Mas meu coração ligeiro
Não se teria partido

Ou se partisse colava
Com cola de maresia
Eu amava e desamava
Sem peso e com poesia

Mas o marinheiro só é forte assim, porque ele tem maturidade. Ele sabe que uma vez amado jamais será esquecido, por maior que seja a distância ou o tempo. Ele sabe que o mar nem sempre é calmo e existem muitas tempestades no caminho. Ele sabe que é preciso ter coragem para enfrentar ondas gigantes. Ele sabe que é preciso ter paciência para chegar até o seu destino. Ele sabe que existe uma rota a ser traçada e que nem sempre ela será a melhor ou a mais certeira. Ele sabe que a solidão é sua companheira. Ele sabe que nem sempre o mar dará para ele aquilo que ele quer.

Porém, ele também sabe que em cada porto poderá descobrir novos amores. Que depois de toda tempestade o céu oferece uma paisagem sem igual e que o mar poderá surpreendê-lo com muito mais do que ele planejava encontrar. Ele sabe que pode contar com seu conhecimento e seu coração para chegar onde quer. Que o mar pode dar felicidade em abundância, sustento e aprendizado. Ele sabe que com o tempo ele se tornará um marinheiro melhor e poderá ensinar outros homens a seguirem pelo mesmo caminho.

Não buscaria conforto
Nem juntaria dinheiro
Um amor em cada porto
Ah, se eu fosse marinheiro.

Com o passar do tempo você começa a descobrir as melhores rotas, conhecer seus novos companheiros de viagem, escutar novas histórias e ver nossos lugares. Nesse primeiro mês mantivemos nossa agenda bem cheia e já fizemos alguns bons amigos. Na próxima semana vamos nos mudar em definitivo para nosso apartamento e aí sim começaremos a fixar nossas raízes. Por enquanto, posso dizer que vamos jogar a âncora, mas sem ter nenhuma certeza de quanto tempo ela ficará parada.

Enquanto isso, seguimos velejando com cautela, desviando já de longe de qualquer pedra que possa aparecer no horizonte, aprendendo a confiar em nossos novos guias. Ficamos parados quando sentimos que o mar pode trazer perigo, esperamos a onda passar sem acelerar e contemplamos o horizonte esperançosos.

Enquanto não somos marinheiros, seguimos apenas uma direção, aquela que parece ser a mais segura. Enquanto não somos marinheiros, seguimos desbravando o mar sem muita ousadia. Enquanto não somos marinheiros, seguimos chorando na calada da noite com as fotografias dos nossos amores escondidas embaixo do travesseiro.

“É pau, é pedra, é o fim do caminho. É um resto de toco, é um pouco sozinho”

Tom Jobim e sua genial forma de escrever casou tão bem com a voz única de Elis Regina, que é impossível não se emocionar toda vez que se escuta “Águas de Março”. É toda a vida acontecendo no final do verão com “A promessa de vida no teu coração”, que a vontade de viver esse momento torna-se irresistível.

E são as promessas de vida que nos dão coragem na hora que nos sentimos mais sozinhos. Quando estava saindo de casa para ir ao aeroporto, minha mãe entregou-me uma carta. Esse gesto já me fez chorar, pois ela não costuma expressar seus sentimentos dessa forma. Peguei aquele pedaço de papel como se fosse o maior tesouro que estava levando em minhas malas e guardei, pois queria ler na hora certa.

No terceiro dia que estava aqui em San Diego, bateu aquele aperto no peito, era uma tristeza de saudade. Sei que parece precoce, mas quando tudo e todos são diferentes daquilo que você viveu diariamente durante 27 anos de sua vida, em alguns momentos bate a dúvida: “O que estou fazendo aqui?”.

Foi então que li e reli a carta dela. A cada parágrafo uma lágrima, uma saudade e um conforto. Tenho certeza que minha mãe foi a pessoa que mais sofreu com minha mudança, mas desde o início ela apoiou, mesmo com o coração despedaçado.

Para me sentir ainda mais abraçada, reli a carta que minha melhor amiga Luciana escreveu antes da viagem. Foi nesse momento, depois do mais puro amor expresso em palavras, que tudo voltou a fazer sentido e vi que não estava mais sozinha.

No fim, entendi que todo o resto que trouxe na bagagem não tinha muita importância. Roupas e sapatos podem ser comprados novamente, aqui é tudo muito bom e barato.  Mas cartas e objetos pessoais, aqueles que possuem algum significado sentimental para você, são os itens que realmente fazem a diferença quando se está longe de casa.

Muitos amigos disseram-me que a distância é só um número. Essa é a mais pura verdade. Todos os dias falo com meus pais e amigos por Skype, e-mail, Whatsapp, Facebook, Twitter e Instagram. É como se todos estivessem aqui perto, mesmo estando longe. Meu pai tornou-se entusiasta digital desde que falei sobre a mudança. Hoje ele passa metade do dia no celular falando comigo e com outros parentes que moram longe, e está feliz da vida por descobrir a cada instante uma novidade (não preciso nem dizer que cada mensagem vem com uma foto em anexo e um emoticon <3).

Um dos meus maiores medos da mudança era que as pessoas fossem me esquecer, mas descobri que sempre estamos perto de quem amamos. Além disso, essa mudança está abrindo novas possibilidades para meus pais e amigos, que podem vir me visitar. Sem contar que meus pais estão aprendendo mil funcionalidades tecnológicas depois dos 50 anos, comprovando que não existe idade para conhecer coisas novas e surpreender.

Toda mudança, quando é pra melhor, ensina coisas novas para as pessoas que nos rodeiam. Ou seja, a sua mudança pode fazer o bem para muitas pessoas. Não é só você que cresce, é todo o jardim que está a sua volta.