“Eu tenho tanto pra lhe falar. Mas com palavras não sei dizer. Como é grande o meu amor por você”

No dia 2 de novembro fez dois anos que meu avô Lino faleceu. Ele foi o avô com quem eu tive mais contato, foi um dos meus maiores exemplos e um dos meus melhores amigos. Por coincidência do destino ou não, ele partiu um mês antes da minha mudança. Naquela época, as emoções se misturaram muito e em alguns momentos eu até pensei em desistir de sair do Brasil, pois sabia que seria muito difícil lidar com situações como essa à distância.

Mas quando meu avô ainda estava no hospital, ele disse que estava muito feliz por mim e que eu deveria aproveitar esta oportunidade única da vida. Ao mesmo tempo, meu pai dizia que não podemos mudar o percurso da vida das pessoas que a gente ama, nem mesmo estando perto delas. E foi com essa força passada pelos dois, que eu consegui enfrentar os primeiros meses de distância da minha família.

Há um ano atrás, eu escrevi o texto que segue abaixo, mas só agora tive coragem de publicá-lo. A dor da saudade ainda segue muito grande, e provavelmente nunca irá passar, mas hoje já consigo lidar melhor com ela. Então, se você está pensando em morar em outro lugar (seja outra cidade, estado ou país), tente se preparar emocionalmente para todas as possibilidades que podem acontecer. Sinto dizer, mas você enfrentará muitas perdas.

E quando digo muitas, estou me referindo também a não participação de eventos felizes, como casamentos, aniversários, festas, encontros de família e dos amigos, nascimentos dos filhos dos amigos ou de algum afilhado, festas de final de ano, etc. E claro, você também irá sentir por estar longe quando um amigo seu precisar de ajuda ou de um abraço, ou quando algum familiar estiver doente e você não puder estar presente para fazer o que for preciso, ou ainda quando alguém partir. Em alguns desses momentos você certamente irá se perguntar se realmente está valendo a pena estar tão longe.

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Eu tenho tanto pra lhe falar….

Acredito que a palavra saudade traz consigo um sentimento tão forte, que é quase impossível não compará-la com a equivalência da força da palavra amor. Sempre usei com frequência essa palavra, pois sinto falta de muitas pessoas e momentos. Mas foi no dia 01 de novembro de 2014 que eu realmente pude entender – e sentir – o tamanho da sua magnitude.

Naquela semana, eu estava em São Paulo à trabalho.  Como era final de semana, resolvi conhecer o Museu da Língua Portuguesa com dois colegas. Eu não queria sair, pois meu coração estava apertado de dor. Porém, meus colegas insistiram e eu fui lá realizar um sonho, já que há muito tempo queria conhecer o museu. Eu estava totalmente encantada com toda aquela poesia ao meu redor. Ao final daquele momento mágico, a ligação chegou. Meu avô tão querido tinha partido. Guardo até hoje as palavras do meu pai “o vozinho descansou”.

O desespero tomou conta de mim. Eu não sabia o que fazer, para onde correr. Já tínhamos nos despedido naquela semana no hospital, porém é incrível como o ser humano sempre carrega consigo a esperança de que um milagre aconteça (ainda bem que somos assim, pois é a esperança que nos move). E foi com a música “Como é grande o meu amor por você”, do Roberto Carlos, que eu disse o meu adeus pra ele. Foi essa a música que eu cantei no último momeno que estivemos juntos. Confesso que até hoje não consigo mais cantá-lá ou escutá-la. É como se um nó se formasse na minha garganta e, ao mesmo tempo, um turbilhão de lembranças toma conta da minha mente.

Antes da chegada daquela notícia, eu já tinha sofrido e chorado muito, pois a hora dele estava chegando, era algo inevitável. Contudo, a minha maior dor naquele dia foi estar longe da minha família, dos meus tios, da minha avó, dos meus primos e, principalmente, do meu pai.

O amor que sinto pelos meus pais ultrapassa qualquer palavra que tenha significado de grandeza. Mas meu pai é meu herói, meu exemplo, meu melhor amigo e um grande parceiro. E ele sentia exatamente isso pelo meu avô. Eles sempre estavam juntos fazendo todo tipo de indiada: construindo um galinheiro ou um galpão, podando uma árvore, indo ao supermercado, pescando, passeando, jogando carta…

Naquele dia, ele estava perdendo o seu pai e o seu melhor amigo, e eu não estava lá. E eu estava perdendo meu avô mais querido, meu xodó, e eu não estava lá. Foi a partir desses acontecimentos que eu pude entender a mistura de sentimentos entre dor e saudade.

Dói chegar na casa dele e não ver a sua moto estacionada na garagem. Dói sentar no sofá da área e não encontrar ele no lugar cativo servindo o chimarrão para toda a família. Dói não poder abraçá-lo e dançar alguns passos de música gauchesca, o cumprimento que sempre fazíamos. Dói não escutar as risadas dele e sentir aquelas mãos ásperas fazendo carinho no meu braço. Dói não escutar pela centésima vez as histórias de antigamente e rir como se fosse a primeira vez que elas estivessem sendo retidas do baú. Dói não ganhar de presente umas folhas de couve ou alface, ou um saco de bergamotas ou jabuticabas. Dói olhar para os passarinhos que sempre estão na árvore em frente ao sofá da área e não escutar as artes que eles aprontaram naquela semana.

Dói olhar para o fogão a lenha que ele fez e não ver fogo, pinhão, quentão ou mocotó. Dói olhar para a churrasqueira e não ver ele ali com o avental do Internacional e um sorriso largo no rosto. Dói entrar na sua marcenaria e encontrar apenas um vazio gigantesco. Dói olhar para as fotos que estão na cristaleira e ver todos os momentos que ele passou ao lado da família, e saber que a partir de agora ele não estará mais nos novos acontecimentos. Dói entrar no quarto e não encontrar ele lá tirando um cochilo depois do almoço. Dói olhar para uma vara de pesca e saber que não faremos mais nenhuma competição de quem pega o maior peixe do dia. Dói fazer qualquer evento na casa da vó e não ter ele por perto sendo o centro da organização da festa e da bagunça. Dói olhar para o balde de milho das galinhas e saber que ele não vai mais dizer para eu não atirar comida escondida para elas. Dói olhar para a minha vó e não ver ele chamando ela dos mais doces apelidos e correndo para agradá-la. Dói não ver os dois expressando todo aquele amor na frente de todos, mesmo depois de 60 anos de casados.

Acredito que o maior legado que ele deixou foi ser um exemplo para toda família e mostrar que podemos mudar a vida dos outros apenas sendo nós mesmos. Ele nunca teve muito dinheiro, mas nem por isso negava ajuda. Ele sempre mostrou que existem outras formas de fazer uma pessoa seguir em frente. Ele escutava, dava conselhos, incentivava. Não teve uma vez que não perguntou como estava o meu trabalho e, enquanto eu respondia, ele já dizia que eu seria um sucesso. Ele fazia isso com todo mundo.

Ele nunca deixava de contar uma história, uma piada, de dar uma risada, de abraçar, de olhar no olho, mostrar o quanto se importava e o quanto estava feliz por nos ver. Ele era um ser tão iluminado, que quando partiu, deixou um vazio do tamanho de uma cratera em vários corações. Ainda é impossível acreditar que ele não está mais entre nós, pois a sua presença continua sendo constante. Ele fez o bem pra tanta gente, que esta onda de coisas boas continua a se propagar. Até na cama do hospital, quando ele ainda estava lúcido, não deixou de fazer planos. Continuou elogiando, cantando, contando piadas.

Ele foi enterrado no dia que completaria 84 anos. Não por coincidência, seu aniversário era no Dia dos Finados, dia no qual o cemitério sempre está cheio de gente e de novas flores. Ele escolheu partir num dia de festa. Ele era uma festa em pessoa. Uma festa de amor, de compaixão, de amizade e de carinho.

Dói tanto lembrar, mas doeria mais ainda se não tivéssemos vivido tantos momentos juntos. Ainda nos encontramos nos meus sonhos e isso ajuda a matar um pouco da saudade. Serei eternamente grata por ele ter me ensinado o significado da palavra saudade e por saber o quanto ela pode ser intensamente sentida a cada dia.

Saudade é o amor que fica. E o amor por ti, vô Lino, será eterno ❤

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“Imagine there’s no countries. It isn’t hard to do”

Não vou expressar minha opinião política sobre o Impeachment da Dilma, mas o tópico deste post está ligado a isso. Hoje, li muitos posts no Facebook que me deixaram chateada, porém um deles me abalou profundamente. Ele dizia mais ou menos o seguinte: “A pessoa fica fazendo mimimi, mas mora nos EUA, na Alemanha, na Austrália…”. Eu reli umas duas vezes pra ver se não era coisa da minha imaginação. Infelizmente, era a realidade, e os comentários que se seguiram foram ainda piores.

Só porque uma pessoa não mora mais no seu país de origem, não significa que ela é menos cidadã, que tem menos direitos e que não pode expressar a sua opinião sobre um assunto que afeta a vida dela direta ou indiretamente.

Eu moro nos Estados Unidos sim, mas continuo pagando impostos no Brasil, justificando meu voto e fazendo declaração do imposto de renda. Eu não moro mais no Brasil, mas toda minha família e meus amigos seguem lá e eu me preocupo com o futuro deles. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileira, falo português todos os dias, mantenho minhas tradições e tenho muito orgulho disso. Eu não moro no Brasil, mas a maioria dos meus melhores amigos em San Diego são brasileiros e eles também carregam toda essa bagagem com eles. Eu não moro no Brasil, mas acompanho todos os dias as notícias do país pra saber o que está acontecendo. Eu não moro no Brasil, mas sigo defendendo o meu país e tentando explicar para as pessoas de outras nacionalidades como temos muito mais coisas para oferecer do que apenas Carnaval e caipirinha. Eu não moro no Brasil, mas torço todos os dias para que as coisas melhorem. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileira e sei exatamente o que está se passando e o sentimento que tudo isso causa. Eu não moro no Brasil, mas vivi 27 anos da minha vida nesse país repleto de encantos mil e, ao mesmo tempo, cheio de desigualdades sociais. Eu não moro no Brasil, mas posso voltar a qualquer momento, porque se tudo der errado, é lá que eu sempre serei acolhida, é lá que o meu sotaque não faz a mínima diferença, é lá que as minhas experiências profissionais valem de verdade, é lá que eu conquistei um monte de coisas boas que pra sempre vou me orgulhar.

E eu poderia não fazer nada disso. Poderia apenas ignorar a existência do Brasil e seguir com a minha vida aqui, e mesmo assim eu ainda teria o direito de opinar sobre o cenário político e econômico do meu país. Eu não abandonei o Brasil, eu não fugi, eu não mandei tudo para o espaço por causa do cenário atual. Eu mudei, porque tive uma grande oportunidade na minha vida e agradeço todos os dias por ela ter acontecido. E mesmo se tivesse abandonado tudo por não aguentar mais, ainda assim teria o direito de opinar.

Acredite, não é porque você mora em outro continente que não sofre junto, que não torce junto, que não entende o que está se passando, que só serve pra falar mal do seu país de origem e exaltar o seu local de moradia atual. Eu sempre vou estar presente, mesmo de longe, em cada mudança que acontecer. Eu mando mensagem pra minha família e pros amigos mais próximos quando vejo que tem um temporal na cidade, então me diz como eu não vou me preocupar e estar por dentro de um processo de mudança política? Eu sei que olhar de fora não é a mesma coisa que estar experienciando na pele o que está acontecendo. Mas isso não diminiu o meu direito de ser brasileira seja onde for.

Eu sonho com o dia em que todas as pessoas tenham a oportunidade de conseguir olhar para os outros sem preconceito, inveja, intolerância e pré-julgamentos. Eu sonho com o dia em que o ódio das pessoas seja transformado em sentiments bons e que gerem ações que façam a vida de alguém melhor. Já falei isto aqui uma vez e vou repetir. Você não precisa mudar de cidade, estado, país ou continente para enxergar o mundo de outra forma e respeitar a opinião do outro. Enquanto isso, sigo acreditando e torcendo pelo meu país e excluindo todos aqueles que não conseguem entender o que isso significa.

 

“Porque que eu sou apenas movimento. Sou do mundo, sou do vento. Nômade”

Devido aos últimos acontecimentos políticos e econômicos do Brasil, somados aos velhos problemas de falta de investimento em educação, saúde, segurança, empregos, etc., alguns amigos vêm falar comigo sobre o que é preciso para mudar de país e, consequentemente, de vida.

A resposta parece ser complexa, afinal você está deixando tudo para trás, então só pode ser algo muito difícil de ser feito. Mas na realidade a resporta é muito mais simples do que parece. Para ajudar nessa reflexão, sugiro que você assista ao vídeo que uma grande amiga fez contando como ela mudou de país com o marido e as duas filhas pequenas. Já adianto que concordo com 100% dos seus argumentos e faço este post com o objetivo de complementar suas ideias.

A minha casa está onde está o meu coração
Ele muda, minha casa não
No campo, em minas, terras gerais ou qualquer lugar
Onde estou, a minha casa está

Porque que eu sou apenas movimento
Sou do mundo, sou do vento
Nômade

Sei que muita gente não tem o sonho de morar em outro lugar e nem se imagina fora da sua cidade, do seu estado (então que dirá do Brasil!). Outros, já nascem com o chip que diz que eles são cidadões do mundo e gostariam de desbravar as oportunidades que podem aparecer. Eu, por exemplo, nunca tive o sonho de morar fora, sempre quis conhecer outro lugares, mas nunca me imaginei longe do meu país. Porém, os acontecimentos muitas vezes fazem com que você reveja seus conceitos e comece a cogitar uma vida melhor para si, para o seu companheiro ou para seus filhos.

Hoje, infelizmente, eu não consigo mais me imaginar no Brasil construindo uma família. Só de pensar que meus filhos não terão diversos espaços públicos para brincar, escolas públicas de qualidade, várias opções de apartamentos/condomínios com espaços para crianças sem ter que pagar o dobro do preço por isso, incentivo à prática de algum esporte ou o aprendizado de algum instrumento, empresas que oferecem empregos flexíveis para as mães e, principalmente, segurança em qualquer lugar que ele for com os amigos, eu já desisto da ideia de um dia poder começar uma família. Sei que estou sendo radical e tenho várias amigas com filhos no Brasil, porém eu acompanho a aflição delas de estarem o tempo todo com medo.

Como já disse em outros momentos, nem tudo são flores. Os Estados Unidos, assim como todos os países, tem seus problemas, algumas coisas que funcionam bem no Brasil não funcionam aqui, mas poder sair de casa sem medo de ser assaltado, machucado ou morto na rua é um tópico que supera todas as dificuldades.

Porque quando paro sou ninguém
Não declaro onde ou quem
Nômade

Meu endereço é o sítio estrelado de norte a sul
Ele muda a cada estação
Na boca do sertão, na varanda do seu olhar
Onde estou, a minha casa está

Então, o primeiro passo a ser dado é fazer o seu sonho/ideia virar realidade. É preciso ter planejamento financeiro, pesquisar bastante sobre o lugar, falar com amigos ou conhecidos que moram ou visitaram esse lugar, procurar um lugar para morar e alternativas de como se manter. Tem gente que guarda dinheiro e tira meio ano ou um ano sabático; outros vêm com visto de estudante, se matriculam em um curso e trabalham durante o tempo que estão fora da escola; outros vêm com visto de tursista e continuam tocando seus negócios no Brasil à distância; e assim por diante.

Planejamento racional de todas as necessidades que você irá ter é essencial, mas a vontade de querer mudar, de estar disposto a encarar o desafio, faz parte dos outros 50% do objetivo. E dentro da vontade está a prática do desapego e estar aberto ao novo estilo de vida que você irá levar. Não é porque você estará na Califórnia, na Tailândia ou em Sidney que nenhum problema irá acontecer e que será tudo lindo. Lembre-se que a cultura, a língua, a comida, o jeito de pensar e agir são totalmente diferentes do seu país.

Eu abri mão da minha carreira e ainda sigo na busca de um emprego na área. San Diego não é a melhor cidade dos Estados Unidos para eu me recolocar no mercado de tecnologia (nesta área o melhor seria morar em San Francisco ou Los Angeles), contudo sigo tentando. Enquanto isso, trabalho em uma loja de departamento e faço freelas. Confesso que foi difícil no início tirar da cabeça que eu estava rebaixando toda a minha escolaridade e minhas experiências profissionais. Hoje, eu vejo que estou aprendendo muita coisa nova e já consigo olhar de forma diferente para a minha carreira. Conheci pessoas, histórias de vida, aprendi novas coisas e até uma nova língua (estou cada dia melhor no espanhol). Então, mudar muitas vezes significa dar passos para frente, mesmo que eles sejam de formiguinha.

Porque quando passo sou alguém
Sou do espaço, sou do bem
Nômade

A minha carne é feita de tudo que vai e vem
Tempo, nuvem, aflição também
Encontro e perda ao mesmo tempo, eu não vou parar
Onde estou, a minha casa está

O problema de mudar é que só de pensar no esforço que será preciso empregar para colocar em prática a ideia, já faz com que muita gente desista. Mas mudar de país é algo realmente simples de ser feito, sério mesmo! Não é preciso anos de planejamento, no nosso caso levamos um ano entre a ideia e a materialização. Claro que cada caso é um caso, porém as dificuldades não podem fazer com que você se acomode. Assim como a maioria dos amigos que conheço aqui planejou sua mudança, outros vieram na cara e na coragem, só com a roupa do corpo. Sim, é muito mais difícil recomeçar assim, mas eles não ficaram sentados no sofá criando desculpas e sofrendo por antecipação sobre as coisas que iriam ter que enfrentar.

Abra sua visão, converse com amigos, vizinhos, pessoas no ônibus, no café. Faça uma lista de tudo que você irá precisar para mudar de país, assim como faça uma lista de tudo que você quer fazer nesse lugar (lugares para visitar, restaurantes, esportes…) e todos os dias ao levantar, olhe para as listas e siga sua meta. Leia livros e blogs sobre pessoas que mudaram de país e começaram uma nova vida. Entre nas comunidades no Facebook de brasileiros que vivem nesse lugar e faça perguntas, interaja, já vá se familiarizando com a realidade do lugar. Faça tudo que for possível para se sentir mais seguro sobre a sua escolha. Se der, visite esse lugar antes de fazer sua mudança definitiva, veja se ele realmente é aquilo que você imagina e que vai te fazer feliz.

É muito difícil sair da zona de conformo, mas eu garanto que depois que você faz isso uma vez, vai ficar constantemente se perguntando por que demorou tanto.

“É chato chegar a um objetivo num instante. Eu quero viver nessa metamorfose ambulante”

Ando pensando muito e escrevendo pouco, eu sei, mas um dos encontros que a minha imaginação proporcionou nesses últimos dias foi entre Raul Seixas e Cecília Meireles. Sim, parece algo estranho em um primeiro momento, porém, se você parar pra refletir, eles têm muito em comum. Os dois eram grandes poetas que faziam das palavras mágicas combinações. Toda vez que escuto Raul ou leio Cecília, sinto-me em paz, sinto-me reflexiva.  Eles nos fazem pensar sobre a vida, sobre o amor, sobre a dor e sobre todas as possibilidades.

O último livro de Cecília Meireles que li foi “Escolha seus sonhos”, que não por acaso acabou nas minhas mãos em uma biblioteca aqui de San Diego. Devorei cada crônica em menos de dois dias. Virei a última página com uma vontade louca de desbravar o mundo com um caderno e uma caneta embaixo do braço anotando cada detalhe que meus olhos pudessem ver.

Entre uma das crônicas descobri a “A arte de ser feliz”, que é uma descrição linda de todas as vistas que a autora já teve através das janelas pelas quais passou. Não é um olhar simplista descrevendo o cenário a sua frente, mas sim uma visão profunda de cada detalhe visto pelo seu coração. Aprender a olhar em profundidade é algo que leva tempo, mas Cecília sempre soube fazer isso como ninguém.

Inspirada na “Metamorfose ambulante do Raul” e no olhar para além das aparências de Cecília, gostaria de compartilhar as janelas pelas quais vi o mundo sob diferentes ângulos.

A primeira janela que tenho lembrança dava para um quintal. Eu era criança e certamente esse era o meu lugar preferido. Ali, no meio daquele gramado verde repleto de sombras projetados por um pé de Ingá, eu me sentia livre para brincar e construir o meu próprio mundo. Nessa época, existia por ali uma casinha de madeira feita pelo meu avô. Minha única reocupação era acordar pela manhã e averiguar se tinha sol para poder desfrutar do meu paraíso.

Minha segunda janela era localizada nos fundos da casa dos meus pais. Como era no segundo andar, tinha uma vista privilegiada da cidade. Gostava de sentar nela e ler meus livros ou observar o mundo acontecendo, as luzes brilhando, os pássaros seguindo o seu percurso e as árvores balançando conforme a música do vento. Ali naquela janela passei minha adolescência e comecei a ver tudo de forma diferente. Por vezes rebelde, por vezes cheia de planos, ou só relembrando os fatos passados.

Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Nesse meio tempo, surgiram outras janelas, essas eram em prédios, não tão altos assim, mas no meio de uma capital. Por elas, eu via o caótico trânsito, o correr apressado das pessoas, o sol sendo ignorado e a chuva chegando para trazer mais caos em momentos que deveria ser considerada uma benção. Por muitas vezes, eu não tinha tempo para olhar pela janela. Foram tantos os dias que não disse bom dia para o sol ou para as nuvens, e foram tantas as noites que tive como companhia a lua e as estrelas, mas estava tão compenetrada trabalhando, que não as notava.

No meio do caos, passei por duas novas janelas em duas novas casas. Numa, a qual tinha grades, eu conseguia admirar flores, folhas e gotas que lavavam a alma. Assim como também via muitos mendigos tentando encontrar um pedaço de marquise para se proteger da noite e daquele mundo sem sentido. Na outra, eu via prédios e mais prédios, porém através de uma pequena fresta entre eles, admirava o pôr do sol nos finais de semana.

Agora, minha janela é longe de tudo que já tinha visto ou imagina ver. Agora, minha janela é grande, mas a primeira vista dela é outra janela. Mesmo assim, se olhar para os lados, consigo ver o sol, os aviões e vida tranquila que por aqui acontece. Essa nova janela me proporcionou uma visão completamente diferente do mundo que eu tinha. Ela abriu novas possibilidades e mostrou que é possível sonhar com novas perspectivas, por mais difícil que seja deixar as outras janelas para trás.

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

Eu não sei quantas janelas mais vão passar pelas minhas manhãs e noites, tampouco o que elas irão me mostrar. O que eu sei, é que independente de onde ela esteja, vou aprender algo novo. Sei que posso contar com ela para todos os momentos. Sei que, ao abri-la, serei recebida com a brisa que estiver passando e escutarei os sons que por ela são abafados. Sei que, só de saber que ela está ali, eu já não estarei só.

“Eu não tenho data pra comemorar. Às vezes os meus dias são de par em par. Procurando agulha num palheiro.”

Andei afastada do blog, mas não foi por falta de tempo para escrever, e sim porque precisava resolver questões comigo mesma antes de externar minhas opinões e meus sentimentos. Nesse tempo, estudei, trabalhei bastante no voluntariado (agora são novamente duas vezes fixas por semana), fiz novos amigos e viajei. No próximo post vou relatar minha primeira trip pela Califa e trazer uma visão diferente sobre os lugares pelos quais passei. Porém, este post é para falar de um recomeço.

Recomeçar significa reencontrar ideias, projetos e uma pessoa que você havia perdido pelo caminho há algum tempo: você mesmo. Aquela pessoa que tinha sido engolida pelo stress da rotina maluca e pela zona de conforto. Ao reencontrar você mesmo, acontece um choque de mundos, quase um Big Bang. O “você antigo”, cheio de cicatrizes, manias e medos, descobre o “você novo”, completamente entusiasmado, cheio de planos e coragem. No primeiro momento, eles se estranham e até ficam emburrados um com o outro. Mas depois, eles descobrem que podem ser grandes amigos e ensinar um ao outro tudo o que sabem, criando um “você melhor”.

Acredito que uma boa viagem faz você alçar novos voos, descobrir novos horizontes, conhecer novas pessoas, aprender mais sobre o mundo e sobre si mesmo. Essa viagem não precisa ser para outro país, como foi meu caso, pode ser para a cidade vizinha, para a casa de paia de um amigo ou para o bairro mais bacana da sua cidade.

Viajar é ir além do seu portão. É dar passos para fora daquelas quatro paredes que tanto protegem e escondem você. Viajar é mais que pegar um carro ou um avião. Viajar é olhar para os lados e ver cores, amores e emoções. É sentir cheiros e sabores. É escutar barulhos, sorrisos, choros, lamentos e sonhos. Viajar é desenvolver cada um dos seus sentidos e descobrir que todos eles podem ir muito mais além. Viajar é fechar a porta e não olha para trás, é ter a coragem de um adulto e a alegria de uma criança. Viajar é descobrir o sabor da liberdade, entender o significado de responsabilidade e sentir na pele o significado da palavra experiência.

As músicas do Cazuza sempre me fizerem, de certa forma, viajar. Em “O tempo não para” é possível identificar um turbilhão de sentimentos, experiências e aprendizados. Dá para viajar apenas aumentando o volume e fechando os olhos.

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Já comentei por aqui que o sentimento inicial de um imigrante é ser só mais um na multidão, “só mais um cara”. Durante muitos dias que passam, você acredita que “está correndo na direção contrária” e sabe que isso não vai te levar a lugar algum. Não terá “pódio ou beijo de namorada” esperando na chegada. Você terá muitas pessoas perguntando por que você está triste ou nem sempre está feliz, se tem uma oportunidade de ouro nas mãos.

Muita gente tem a ilusão de que mudar de país irá resolver todos os problemas da vida, inclusive os de relacionamento. Só que você encontra muito mais espinhos nas flores pelas quais sonhava encontrar e é difícil aceitar e aprender a desviar deles. Não adianta escapar, em algum momento você irá espetar o seu dedo e isso irá doer. E mais uma coisa: os seus defeitos acabam se exaltando em momentos de grande mudança. Isso significa que você entrará em um número de conflitos maior consigo mesmo e com as pessoas mais próximas.

Claro que existem pessoas que encaram as mudanças da vida com mais facilidade. Infelizmente – ou felizmente – eu sou diferente. Toda mudança sempre foi difícil pra mim. Sofro demasiadamente por tudo. Sou ansiosa, sou apegada à pessoas e lugares, sinto saudade de tudo.

Começar do zero em um novo país é desafiador e também um pouco frustrante. Se você não sabe falar a nova língua fluentemente, você não é nada. E aí você precisa fazer novos cursos, aprender mais do mesmo (só que no novo idioma), aceitar que é preciso voltar a fazer estágio ou voluntariado, pois não têm experiência na sua área dentro da nova cultura.

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Contudo, você descobre que é muito mais forte do que pensa. Apesar de se sentir como uma criança aprendendo a falar um novo idioma e como um adolescente tentando ser aceito em um novo grupo de colegas/amigos, você descobre que é adulto e maduro, e prova para si mesmo que consegue encarar erros, desafios e possibilidades. “Você não está derrotado enquanto os dados ainda estiverem rolando”.

O grande degrau para se sentir aceito em uma nova cultura é não ter medo de errar. Não ter medo de escorregar na pronúncia, não ter medo de se perder pelas ruas, não ter medo de tentar conseguir um voluntariado ou um emprego, não ter medo de falar com as pessoas, não ter medo de pedir algum prato diferente no restaurante só porque você não entende quais são os ingredientes. Aí você vai aprendendo a sobreviver, por mais que alguns arranhões vão aparecendo no seu corpo. Machucar-se faz parte do processo.

Aprendi a assumir para as pessoas o que eu não sei. Quando alguém fala alguma coisa que eu não entendo, digo: “por favor, pode repetir?” e se ainda assim não entendo, digo “por favor, você pode me explicar? Estou aprendendo a falar inglês e em alguns momentos não entendo o que é dito”.

Aprendi a pedir ajuda. Peço para meus colegas de aula, para meus amigos, meu marido, meus clientes e meu chefe corrigirem minha pronúncia e a me ensinarem novas palavras. Não tenho mais vergonha de falar, pois a necessidade de expressar minha opinião é muito maior que a cobrança perfeccionista que existe dentro de mim. Não tenho vergonha de assumir que meus melhores amigos aqui são: o Google Maps, o Google Translater e minha bike.

Tomei vergonha na cara e comecei a cuidar mais da minha saúde. Há dois meses mudei minha alimentação, estou tentando ser mais natureba, consumir mais frutas e verduras, menos carne vermelha, farinha branca e glúten. Aprendi a fazer pão vegano, cookies integrais, a cozinhar diferentes receitas e a usar mais temperos naturais.

Fiz as pazes com os exercícios físicos e passei a correr. Imaginem que eu corria no máximo três minutos na esteira da academia e quase morria. Agora, já consigo correr 30 minutos sem parar ao ar livre. Claro que corro bem devagarinho, em um ritmo de iniciante, porém é preciso começar de algum lugar, não? Ao menos três vezes por semana eu dedico uma hora por dia ao exercício, seja correndo, andando de bike ou caminhando. E assim eu aprendi a dormir melhor, a me sentir mais disposta e descobri uma nova melhor amiga: a atividade física.

Não existe mágica. Viajar não irá mudar a sua vida, a não ser que você vá com a cabeça e o coração abertos. O primeiro passo é aceitar que mudar é errar, só a partir daí você irá começar a acertar. O tempo nunca para, então siga com ele.

O tempo não para
Não para, não, não pára

“Todos os dias é um vai e vem. A vida se repete na estação.”

Nesta semana, completarei cinco meses de vida nova em San Diego. Ontem, jantando com um casal de amigos brasileiros, contei histórias de vida das quais tomei conhecimento desde que passei a fazer parte da comunidade de imigrantes deste novo mundo. O ditado costuma diz que “sonhar não custa nada”, porém para algumas pessoas sonhar pode custar a liberdade e o próprio sonho. E foi com esse pensamento que acordei hoje de manhã e passei a sentir ainda mais intensamente a constante rotina de chegadas e partidas que presencio. A rotina da qual também passei a fazer parte.

Maria Rita descreve em frases curtas a relação entre “Encontros e Despedidas”, mas a simplicidade dos versos, na verdade, carrega uma imensidão de sentimentos que acontece a cada ida e vinda.

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Na escola que estudo, todos os dias chega um novo aluno, e todos os dias alguém também se despede. Hoje, foi a vez de um brasileiro, que passou seis meses em San Diego com a esposa e os dois filhos, dizer até logo. Ele vai com a certeza de que no próximo ano retorna para ficar de vez. Já ontem, uma menina do Cazaquistão passou a integrar a turma. Faz uma semana que ela mora em San Diego. Antes, vivia em Los Angeles com o namorado português, porém decidiu largar tudo para viver perto dos amigos, também cazaques, que moram aqui.

Nunca fui boa em despedias e desapegos. Contudo, tive que aprender, mesmo sem querer, a dizer adeus, assim como dar as boas-vindas. Ainda não consigo controlar a explosão de sentimentos que sinto quando penso na minha família que está no Brasil ou o aperto que dá no coração quando lembro daqueles que partiram para sempre, como meu avô Lino e minha avó Ana. Constantemente meus sonhos são com todos aqueles que há muito não vejo. O inconsciente saber ser poderoso e cruel. Constantemente, ele busca em nossa memória histórias e rostos para nos lembrar do mundo que existe para além da cegueira que vivemos ao tentar buscar o segredo da felicidade e da vida estável.

Há um mês, tive que me despedir da primeira grande amizade (sem ser brasileira) que fiz por aqui. A Jara voltou para Minorca, uma ilha da Espanha, pois precisa começar a faculdade e construir sua carreira. Uma menina de 19 anos, com a maturidade de uma mulher de 30, que deixou uma saudade enorme e um ensinamento gigante: “lute por aquilo que você acredita”. Ela não entendia como eu dava conta de tudo e eu até hoje busco entender de onde ela tirou coragem para ficar seis meses longe da sua família, vir para um país completamente sozinha para aprender inglês e buscar respostas para o seu futuro. Segundo ela, seus pais sempre a incentivaram a criar novos laços, a nunca ficar só na comodidade do ninho que eles construíram com tanto amor para ela. Compartilhamos livros, risadas, confidências, almoços, jantares e fotos. Aprendemos sobre amizade, distância e saudade.

Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir

Não é fácil resumir o que aprendi sobre o significado de chegar e partir nesses 150 dias, mas tentarei, assim como Maria Rita, simplificar as grandes escolhas que muitas pessoas fizeram. A simplicidade é proposital para que seja possível enxergar todo o peso das decisões tomadas que estão implícitas nas entrelinhas.

Teve gente que chegou para ficar e que: vendeu sua casa e veio com o filho adolescente com medo da violência na Polônia; vendeu seu carro, o único bem que tinha no Brasil, para tentar uma nova vida com sua namorada, mesmo que isso tenha significado passar a entregar pizza; continuou com seus negócios no México e veio com o marido e os dois filhos adolescentes para abrir novas franquias em San Diego; deixou a Itália para acompanhar a esposa, que recebeu uma oportunidade de trabalho em San Diego, e enquanto ele aguarda seu Green Card, trabalha como voluntário em um aquário na cidade; está há 15 anos morando na Califórnia e volta uma vez por ano para a China como visitante; veio da Argélia para acompanhar o marido e só vai voltar ao seu país de origem no próximo ano para realizar a cerimônia religiosa do casamento; é filipino, mas já morou na Arábia Saudita por um tempo e agora está há muitos anos em San Diego com toda a família desfrutando a poesia da vida; deixou o Iraque e está vivendo feliz há 25 anos nos Estados Unidos.

Tem gente que vem e quer voltar e que: está há 14 anos vivendo em San Diego com o marido e o filho de oito anos, mas todos os dias quer voltar para a Colômbia; está há dois meses na cidade, mas louca de vontade de voltar para o Brasil em julho, pois a vida não está sendo fácil por aqui; teve que deixar a filha de menos de um ano na Arábia Saudita para seus pais a criarem dentro das tradições, enquanto termina o mestrado nos Estados Unidos; veio estudar inglês e fazer festa por alguns meses e voltou para a França.

Tem gente que veio só olhar e que: saiu da Suíça para ficar um ano e meio em San Diego com o marido, o qual trabalha em uma empresa americana, mas como ela não consegue emprego na sua área devido ao visto, está ganhando um dinheiro extra como nanny; partiu da Guatemala há dois anos e está morando com uma tia em San Diego, mas não sabe o que fará no futuro; trabalhou durante um tempo no Brasil e resolveu tirar alguns meses sabáticos para surfar na Califórnia; está morando há um mês na casa de uma família e na metade do ano volta para a Espanha; veio do Equador, frequentou a aula durante um mês e nunca mais voltou; deixou a Síria para estudar e trabalhar em San Diego e está decidindo o que fará no próximo ano; veio da Rússia com o marido, tem medo de se relacionar com estranhos e comparece apenas a cada 15 dias na aula.

São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida

“Valeu a pena. Êh! Êh! Sou pescador de ilusões.”

Morar em outro país exige que você faça planos. Sim, a palavra exigir é forte, mas você precisa planejar seu futuro para não cair no esquecimento e na necessidade. Nas últimas semanas, estamos discutindo em aula o tema plano de carreira americano e uma coisa ficou nítida: por mais que você tivesse uma boa colocação no seu emprego anterior e experiência para pôr no currículo, ou seja, fosse alguém na sua área em seu país; ou tenha estudado longos anos, fale mais de um idioma e tenha feitos vários cursos; se você está aqui aprendendo inglês e tentando uma oportunidade de trabalho (ou seja, não tenha sido transferido da sua empresa do Brasil para cá ou não tenha chegado já com um emprego garantido), você não é ninguém. Na verdade você é só mais um na multidão de imigrantes.

Essa constatação é um soco no estômago – e no ego. No início, você fica pensando em looping e é difícil não desanimar. Por exemplo, tenho uma amiga brasileira que está cursando MBA aqui (ela tinha uma boa carreira no Brasil) e como proposta curricular precisa fazer x horas de estágio em uma empresa americana. Porém, no estágio é delegado para ela atividades extremamente simples, que estão muito abaixo das suas qualificações. Atividades essas que deveriam ser dadas para quem está iniciando na área e não para quem já tem longos anos de experiência. Ela está sofrendo com isso, assim como seus colegas. O problema não é ser estagiário, afinal quem nunca foi? O problema é ter mais de 30 anos e ter que começar do zero.

Mas não importa. Quando você muda para os EUA e não tem suporte de uma empresa, você precisa entender que a corrida está apenas começando. Claro que sua carga de experiência é importante, porém ela só vai valer realmente depois de longos meses em uma empresa, quando o seu chefe tiver confiança em você e conseguir ver o seu trabalho dando resultados.

Aqui sou apenas uma estudante de inglês e uma voluntária. Ponto. E todos os anos da Graduação e da Pós-Graduação? E os Cursos Complementares? E o vários anos de experiência de trabalho? Tudo isso ficou no Brasil. É hora de virar a página e começar uma nova história.

O sonho americano não é tão lindo assim se você realmente quer continuar a ter uma carreira. Conheço várias pessoas que são formadas na faculdade e executavam cargos importantes no seu país, contudo aqui são garçons/garçonetes e babás. E para quem não tem Graduação, que é o básico, o cenário é ainda pior. É necessário trabalhar em dois ou três empregos para conseguir se sustentar e garantir o valor mínimo por hora na Califónia, que é de $9. Vale lembrar que San Diego não é uma cidade barata. Mesmo assim, o valor do aluguel e da alimentação ainda saem mais em conta se comparados com San Francisco ou Los Angles. New York está em outro patamar, não cabe nem comparar o custo de vida por lá ( é como querer comparar Porto Alegre com Rio de Janeiro).

Se meus joelhos
Não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé
Que me traga fé

Se por alguns
Segundos eu observar
E só observar
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol
A isca e o anzol

Aí você começa a questionar o quanto vale a pena para essas pessoas saírem do seu país para tentar uma nova vida, se elas não conseguem desfrutar das belezas que San Diego tem para oferecer. E você começa a se perguntar: o que eu estou fazendo aqui? Mas aí você precisa pensar que a cultura, a situação econômica, a violência e a educação têm um impacto gigantesco para o futuro das pessoas, ainda mais quando elas têm filhos. Escutar e tentar entender a história de vida de quem o rodeia faz com que você amplie seu campo de visão e comece a agradecer mais por tudo que tem.

Tenho colegas com realidades bem difíceis por aqui. Prefiro não citar seus nomes ou seus países de origem para preservá-los, só posso dizer que não são brasileiros.

Uma colega largou seu emprego e vendeu sua casa no seu país, o único bem que tinha, para dar ao seu filho adolescente a chance de ter um futuro melhor que o seu aqui nos EUA. Como em seu país a violência está aumentando cada vez mais e o número de empregos só baixa, ela temia por seu filho, ainda mais sendo mãe solteira e não tendo outra fonte de renda. Aqui, ele está terminando o Ensino Médio e no próximo ano inicia a faculdade. Já fez amigos, está aprendendo uma segunda língua e, principalmente, está em um lugar seguro. Enquanto isso, ela está estudando inglês para conseguir um emprego, pois as suas economias acabarão e ela precisa continuar sustentando o futuro de sua família.

Além disso, uma outra colega vive aqui há anos, mas só tem o Ensino Médio. Ela trabalha em dois restaurantes todos os dias, tem apenas uma folga por semana e ganha o suficiente para viver, mas não o bastante para aproveitar. Porém, um colega na mesma situação, está finalizando o curso de inglês e no próximo mês irá começar a faculdade. Ele tem mais de 30 anos, nenhum final de semana livre, dois filhos e o sonho de ser educador físico.

Somado aos problemas de colocação no mercado de trabalho, também tenho colegas que possuem tempo para estudar, uma condição de vida boa, porém sua religião não permite que desfrutem do tempo livre. Por exemplo, uma colega mora aqui há dois anos com seu marido e um de seus irmãos e, paralelo ao curso de inglês, faz um curso técnico em informática. Seu objetivo é conseguir um emprego em San Diego. Até aí tudo bem, mas ela não aproveita nada da cidade. Ela não dirige e nem sabe andar de bicicleta por puro medo. Tampouco sai para passear sozinha, pois ela só pode sair para a rua acompanhada de um familiar ou do seu marido.

Enfim, dificuldades à parte, o importante é não deixar se abater pelo desânimo. Penso no seguinte: já que devo começar do zero, então vou organizar minha trajetória para que ela seja certeira e traga o retorno esperado. Agora, já não tenho mais todas aquelas dúvidas do que quero ser ou fazer como quando tinha aos 17 anos. Já consigo decidir com clareza minhas expectativas. Isso não significa que eu não vá escolher outro rumo quando for mais velha, mas por enquanto preciso ter foco no presente, na atual situação que estou encarando.

Ainda assim estarei
Pronto pra comemorar
Se eu me tornar
Menos faminto
E curioso
Curioso

O mar escuro
Trará o medo
Lado a lado
Com os corais
Mais coloridos

Como diz a música Pescador de Ilusões do Rappa, quando você se torna menos faminto e mais curioso para descobrir o mundo e a si próprio, mesmo que o medo apareça de um lado (e tenha certeza de que ele estará lá), do outro você terá a visão dos mais lindos corais. Esses corais são sua família, seus amigos, sua fé.

Contudo, só falar não adianta, é preciso fazer. Por isso, o primeiro passo é criar um plano para chegar até o seu grande objetivo de vida. Vale lembra que não precisa ser um adulto para fazer isso, você pode ser um adolescente, um jovem ou estar na melhor idade.

Segue o esquema que estamos trabalhando na aula e que acredito que é um bom começo para qualquer pessoa:

My long-term goal is:…….

1. First, I need to:….
2. Then, I need to:…
3. Next, I need to:…
4. After that, I need to:….
5. Finally, I will reach my long-term goal of:…..

Ainda não vou compartilhar minhas respostas, pois estou construindo os steps em aula, mas o primeiro passo já foi dado: estudar inglês. Os próximos passos serão uma consequência. Será fácil? Não. Será rápido? Não. Vai exigir paciência. Sim (e muita!). Vou desanimar em algum momento? Sim. Vou desistir? Jamais!

Uma característica muito interessante dos EUA é que aqui existem escolas públicas que são muito boas. Por exemplo, eu faço inglês na San Diego Continuing Education totalmente free. Além do curso de inglês como segundo idioma, a escola oferece alguns cursos profissionalizantes, também gratuitos, como moda e nutrição.

Existem muitos outros cursos totalmente sem custos, ou que você precisa pagar apenas o material didático ou ainda que são bem mais baratos que uma escola regular. Para conhecer todas as oportunidades da instituição San Diego Community College District, basta acessar http://sdccd.edu/.

Você também pode participar de trabalhos voluntários para melhorar seu novo idioma e aumentar sua rede de contatos. No LinkedIn é fácil de encontrar oportunidades em qualquer cidade, basta usar os filtros do próprio site. Ou você ainda pode buscar por um voluntariado em diferentes cidades dos EUA neste site http://www.volunteermatch.org/.

Se eu ousar catar
Na superfície
De qualquer manhã
As palavras
De um livro
Sem final, sem final
Sem final, sem final
Final

Nenhuma jornada é fácil. Você colocará muitas vezes seu anzol na água, irá esperar por horas e será enganado, iludido pelo peixe. Porém, às vezes, você conseguirá ser mais rápido, ousado e espero, e enfim conseguirá tirá-lo da água. Pescar ilusões faz parte da longa jornada que é viver. Pescar exige paciência e persistência. Só assim você conseguirá trazer para a superfície todos os seus sonhos e escrever o livro da sua vida.