“Quero lhe contar como eu vivi. E tudo o que aconteceu comigo. Viver é melhor que sonhar”

Nunca imaginei que outro ano fosse superar o número de desafios que 2015 me trouxe. Mas aí 2016 entrou com os dois pés na porta e mostrou que a vida é como andar em uma montanha russa de olhos vendados.

Foi em 2016 que consegui um emprego na área por aqui. Mas não foi qualquer vaga. Estou num cargo que nunca tinha trabalhado antes e isso faz com que eu me desafie a aprender coisas novas todos os dias. E o mercado no qual estou inserida é predominantemete masculino, e por isso sou testada constantemente. Além disso, tem o adicional da língua e da cultura, o que faz eu reaprender o jeito de trabalhar com comunicação a cada novo briefing que chega.

Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração…

Foi em 2016 que eu deixei o medo de dirigir de lado. Hoje, ando todos os dias pela cidade com um carrinho velho que tem sido o meu melhor amigo.

Neste ano, decidi cuidar mais de mim. Corri mais de 200km, voltei a fazer Pilates e andei muito de bike. Aprendi que a alimentação muda tudo e, por isso, deixei muitas coisas de lado e passei a ser bem mais regrada. O resultado: não fiquei mais doente e me sinto bem mais disposta.

Aprendi a julgar menos, a respeitar mais, a lidar melhor com a saudade e a distância. Perdi o medo de viajar sozinha de avião e a falar em público em outro idioma. Participei de feiras internacionais e conheci muita gente bacana de todos os lugares do mundo. Até apareci na televisão dando entrevista!

Aprendi a fazer malas pequenas e a manter uma alimentação saudável mesmo longe de casa. Aprendi a ter menos apego por coisas materiais e a optar cada vez mais por coisas usadas.

Descobri que por aqui o machismo também existe e, infelizmente, ele é bem forte. Aprendi muito sobre política americana e acompanhei de pertinho uma eleição. Assisti aos debates, li muitas notícias e escutei diversos podcasts pra ter uma opinião e um entendimento mais consistente das coisas.

Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando…

Deixe as redes sociais um pouco de lado e resolvi guardar pra mim muitas das minhas opiniões. Deixei de seguir muita gente que insiste em ter opiniões radicais e expressa violência em suas palavras. Comecei a fazer menos coisas por obrigação e a tentar agradar menos os outros.

Recebemos muitos amigos queridos e tivemos a honra de mostrar lugares incríveis pra eles. Desafiei meus pais a viajarem sozinhos e a conhecerem um mundo completamente novo. Eles aceitaram a ideia maluca e dizem que vão voltar no próximo ano.

Participei de dois festivais no meio do deserto, fui a diversos shows e trips malucas. Estou cada vez mais deixando de lado as diversas horas de programação e decidindo me entregar mais para as experiências de última hora.

Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem…

Este ano foi teimoso, difícil e desafiador. Ele quebrou muitos paradigmas, acabou com medos e fez com que eu descobrisse uma coragem que nem sabia que existia dentro de mim. Ele também machucou e foi bem cruel em alguns momentos. Ao mesmo tempo, ele se mostrou incrivelmente surpreendente e cheio de coisas boas.

A intensidade de 2016 vai me ajudar a ser alguém bem mais forte, e espero que melhor, em 2017. Já começo uma virada cheia de planos, sonhos e sem medo.

Que 2017 seja leve, cheio de aventuras, desafios, descobertas e aprendizados. E que não falte amor no coração e coragem para encarar todos os novos desafios que vão chegar.

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“Eu tenho tanto pra lhe falar. Mas com palavras não sei dizer. Como é grande o meu amor por você”

No dia 2 de novembro fez dois anos que meu avô Lino faleceu. Ele foi o avô com quem eu tive mais contato, foi um dos meus maiores exemplos e um dos meus melhores amigos. Por coincidência do destino ou não, ele partiu um mês antes da minha mudança. Naquela época, as emoções se misturaram muito e em alguns momentos eu até pensei em desistir de sair do Brasil, pois sabia que seria muito difícil lidar com situações como essa à distância.

Mas quando meu avô ainda estava no hospital, ele disse que estava muito feliz por mim e que eu deveria aproveitar esta oportunidade única da vida. Ao mesmo tempo, meu pai dizia que não podemos mudar o percurso da vida das pessoas que a gente ama, nem mesmo estando perto delas. E foi com essa força passada pelos dois, que eu consegui enfrentar os primeiros meses de distância da minha família.

Há um ano atrás, eu escrevi o texto que segue abaixo, mas só agora tive coragem de publicá-lo. A dor da saudade ainda segue muito grande, e provavelmente nunca irá passar, mas hoje já consigo lidar melhor com ela. Então, se você está pensando em morar em outro lugar (seja outra cidade, estado ou país), tente se preparar emocionalmente para todas as possibilidades que podem acontecer. Sinto dizer, mas você enfrentará muitas perdas.

E quando digo muitas, estou me referindo também a não participação de eventos felizes, como casamentos, aniversários, festas, encontros de família e dos amigos, nascimentos dos filhos dos amigos ou de algum afilhado, festas de final de ano, etc. E claro, você também irá sentir por estar longe quando um amigo seu precisar de ajuda ou de um abraço, ou quando algum familiar estiver doente e você não puder estar presente para fazer o que for preciso, ou ainda quando alguém partir. Em alguns desses momentos você certamente irá se perguntar se realmente está valendo a pena estar tão longe.

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Eu tenho tanto pra lhe falar….

Acredito que a palavra saudade traz consigo um sentimento tão forte, que é quase impossível não compará-la com a equivalência da força da palavra amor. Sempre usei com frequência essa palavra, pois sinto falta de muitas pessoas e momentos. Mas foi no dia 01 de novembro de 2014 que eu realmente pude entender – e sentir – o tamanho da sua magnitude.

Naquela semana, eu estava em São Paulo à trabalho.  Como era final de semana, resolvi conhecer o Museu da Língua Portuguesa com dois colegas. Eu não queria sair, pois meu coração estava apertado de dor. Porém, meus colegas insistiram e eu fui lá realizar um sonho, já que há muito tempo queria conhecer o museu. Eu estava totalmente encantada com toda aquela poesia ao meu redor. Ao final daquele momento mágico, a ligação chegou. Meu avô tão querido tinha partido. Guardo até hoje as palavras do meu pai “o vozinho descansou”.

O desespero tomou conta de mim. Eu não sabia o que fazer, para onde correr. Já tínhamos nos despedido naquela semana no hospital, porém é incrível como o ser humano sempre carrega consigo a esperança de que um milagre aconteça (ainda bem que somos assim, pois é a esperança que nos move). E foi com a música “Como é grande o meu amor por você”, do Roberto Carlos, que eu disse o meu adeus pra ele. Foi essa a música que eu cantei no último momeno que estivemos juntos. Confesso que até hoje não consigo mais cantá-lá ou escutá-la. É como se um nó se formasse na minha garganta e, ao mesmo tempo, um turbilhão de lembranças toma conta da minha mente.

Antes da chegada daquela notícia, eu já tinha sofrido e chorado muito, pois a hora dele estava chegando, era algo inevitável. Contudo, a minha maior dor naquele dia foi estar longe da minha família, dos meus tios, da minha avó, dos meus primos e, principalmente, do meu pai.

O amor que sinto pelos meus pais ultrapassa qualquer palavra que tenha significado de grandeza. Mas meu pai é meu herói, meu exemplo, meu melhor amigo e um grande parceiro. E ele sentia exatamente isso pelo meu avô. Eles sempre estavam juntos fazendo todo tipo de indiada: construindo um galinheiro ou um galpão, podando uma árvore, indo ao supermercado, pescando, passeando, jogando carta…

Naquele dia, ele estava perdendo o seu pai e o seu melhor amigo, e eu não estava lá. E eu estava perdendo meu avô mais querido, meu xodó, e eu não estava lá. Foi a partir desses acontecimentos que eu pude entender a mistura de sentimentos entre dor e saudade.

Dói chegar na casa dele e não ver a sua moto estacionada na garagem. Dói sentar no sofá da área e não encontrar ele no lugar cativo servindo o chimarrão para toda a família. Dói não poder abraçá-lo e dançar alguns passos de música gauchesca, o cumprimento que sempre fazíamos. Dói não escutar as risadas dele e sentir aquelas mãos ásperas fazendo carinho no meu braço. Dói não escutar pela centésima vez as histórias de antigamente e rir como se fosse a primeira vez que elas estivessem sendo retidas do baú. Dói não ganhar de presente umas folhas de couve ou alface, ou um saco de bergamotas ou jabuticabas. Dói olhar para os passarinhos que sempre estão na árvore em frente ao sofá da área e não escutar as artes que eles aprontaram naquela semana.

Dói olhar para o fogão a lenha que ele fez e não ver fogo, pinhão, quentão ou mocotó. Dói olhar para a churrasqueira e não ver ele ali com o avental do Internacional e um sorriso largo no rosto. Dói entrar na sua marcenaria e encontrar apenas um vazio gigantesco. Dói olhar para as fotos que estão na cristaleira e ver todos os momentos que ele passou ao lado da família, e saber que a partir de agora ele não estará mais nos novos acontecimentos. Dói entrar no quarto e não encontrar ele lá tirando um cochilo depois do almoço. Dói olhar para uma vara de pesca e saber que não faremos mais nenhuma competição de quem pega o maior peixe do dia. Dói fazer qualquer evento na casa da vó e não ter ele por perto sendo o centro da organização da festa e da bagunça. Dói olhar para o balde de milho das galinhas e saber que ele não vai mais dizer para eu não atirar comida escondida para elas. Dói olhar para a minha vó e não ver ele chamando ela dos mais doces apelidos e correndo para agradá-la. Dói não ver os dois expressando todo aquele amor na frente de todos, mesmo depois de 60 anos de casados.

Acredito que o maior legado que ele deixou foi ser um exemplo para toda família e mostrar que podemos mudar a vida dos outros apenas sendo nós mesmos. Ele nunca teve muito dinheiro, mas nem por isso negava ajuda. Ele sempre mostrou que existem outras formas de fazer uma pessoa seguir em frente. Ele escutava, dava conselhos, incentivava. Não teve uma vez que não perguntou como estava o meu trabalho e, enquanto eu respondia, ele já dizia que eu seria um sucesso. Ele fazia isso com todo mundo.

Ele nunca deixava de contar uma história, uma piada, de dar uma risada, de abraçar, de olhar no olho, mostrar o quanto se importava e o quanto estava feliz por nos ver. Ele era um ser tão iluminado, que quando partiu, deixou um vazio do tamanho de uma cratera em vários corações. Ainda é impossível acreditar que ele não está mais entre nós, pois a sua presença continua sendo constante. Ele fez o bem pra tanta gente, que esta onda de coisas boas continua a se propagar. Até na cama do hospital, quando ele ainda estava lúcido, não deixou de fazer planos. Continuou elogiando, cantando, contando piadas.

Ele foi enterrado no dia que completaria 84 anos. Não por coincidência, seu aniversário era no Dia dos Finados, dia no qual o cemitério sempre está cheio de gente e de novas flores. Ele escolheu partir num dia de festa. Ele era uma festa em pessoa. Uma festa de amor, de compaixão, de amizade e de carinho.

Dói tanto lembrar, mas doeria mais ainda se não tivéssemos vivido tantos momentos juntos. Ainda nos encontramos nos meus sonhos e isso ajuda a matar um pouco da saudade. Serei eternamente grata por ele ter me ensinado o significado da palavra saudade e por saber o quanto ela pode ser intensamente sentida a cada dia.

Saudade é o amor que fica. E o amor por ti, vô Lino, será eterno ❤

“Já na garagem o pé no breque, o Cadillac ao lado do meu Calhambeque”

Este certamente é um dos posts mais difíceis que já escrevi, pois ele me faz relembrar um grande trauma que eu tinha: o de dirigir.

Aos 18 anos, assim como a maioria dos jovens, eu fui ao CFC fazer a minha carteira de motorista. Eu nunca tinha dirigido na vida, mas adorava pegar a estrada e imaginar aquela sensação de liberdade sentida pelo motorista. Passei de primeira na prova teória. Na primeira aula prática, eu já fui bem e, a cada dia, me sentia mais confiante. Tudo parecia se encaminhar como manda o roteiro, até chegar o dia da prova. Eu fiquei tão apavorada, que nem saí da primeira parte, a do estacionamento, aquela mesma parte que há uma semana atrás eu tirava de letra.

O pânico da prova seguiu por mais três tentativas. Meu pé tremia tanto, que mal parava na embreagem. Assim, eu apagava o carro e já perdia pontos, o que me deixava ainda mais nervosa e com maiores chances de errar de novo. Na última vez, eu aceitei a derrota e decidi dar um tempo. Nessa época, eu já estava com 19 anos, fazia faculdade e trabalhava em dois lugares.

Quando percebi, não tinha mais tempo de encaixar as aulas e provas de direção na minha rotina. No fim, eu já nem me importava com o fato de não dirigir, pois tinha à disposição transporte público para todos os lugares que eu precisava ir. Além disso, eu sempre estava lendo e estudando durante um percurso e outro, então era bom eu ter esse tempo “livre”. Eu também contava com a sorte de ganhar algumas caronas do meu pai quando perdia o ônibus na saída da faculdade, ou quando precisava começar a trabalhar às 7h15 na escola perto da nossa casa.

A única coisa que realmente me incomodava eram as pessoas, muitas vezes amigos próximos, que cobram isso de mim. Eu preferia ficar só escutando e não dizer nada, do que contar todo o meu trauma; explicar o quanto os avaliadores eram rígidos e pareciam fazer isso de propósito pra você errar e pagar de novo pra fazer a prova; do quanto era frustrante pra mim escutar que a prova prática era fácil e era ridículo as pessoas rodarem tanto; do quanto era vergonhoso eu ter que apresentar minha identidade e não minha carteira de motorista na entrada das festas; do quanto eu tinha que explicar e explicar que realmente dava pra se virar pegando ônibus, trem e táxi. E cada vez que uma coisa dessas acontecia, eu alimentava ainda mais aquele trauma de não dirigir. Eu me sentia um ET no meio de todo mundo. Não sabia como explicar que cada pessoa tem um processo de aprendizagem diferente e que eu não era inferior a ninguém por não ter uma carteira de motorista.

E assim se passaram 8 anos até eu começar a sentir a necessidade de ter um carro. Nessa época, eu morava em Porto Alegre e depender de ônibus ou táxi estava ficando cava vez mais perigoso. Eu também estava fazendo terapia e esse era um dos tópicos trabalhados durante os encontros. Foi então que comecei a repensar sobre tudo e pesquisar CFC’s perto de casa. Já estava tomando coragem para ir lá e encarar todo o pesadelo de novo, quando surgiu a oportunidade de morarmos em San Diego.

Quando cheguei aqui, o primeiro projeto pessoal que eu tinha era tirar a minha carteira de motorista. Mas eu não imaginava que o processo seria tão simples e que o trauma seria muito fácil de ser superado. Aqui na Califórnia, o processo de aquisição da driver license é bem simples: você paga $30 e faz a prova teória e a prova prática. Simples assim mesmo. Sem aulas, sem meses de preparacão, sem tanta burocracia.

O mais difícil do processo é separar os papéis solicitados, principalmente no caso do motorista ser um imigrante, e à espera da carteira, que pode demorar até dois meses pra chegar na sua casa. As provas são feitas em dias separados e você pode fazer o agendamento online ou por telefone.

Não existe aula teórica. Você pega a cartilha com as leis de trânsito da Califórnia (sim, porque cada estado tem leis diferentes e, se você for morar em outro lugar, vai precisar fazer a carteira de motorista naquele local) gratuitamente em qualquer DMV ou comprar um livro com as regras de trânsito e estudar de casa. A prova teórica não precisa ser feita em inglês, você pode perguntar se o DVM têm a versão na sua língua. Para a nossa sorte tinha, mas era português de Portugal.

A prova prática é a mesma coisa. Você pode pagar para ter aulas de direção se quiser, mas a maioria das pessoas aprende a dirigir aqui com algum conhecido. E é totalmente legal isso, até porque você ganha a carteira provisória assim que passa na prova teórica. Você pode praticar à vontade, desde que sempre esteja acompanhado por uma pessoa que já tenha a carteira de motorista daquele estado.

Antes de fazer a prova prática, o próprio DVM recomenda ao motorista assistir aos vídeos disponíveis no YouTube para ver as dicas e saber mais sobre as regras. Para quem não tem carteira e está fazendo o processo pela primeira vez na vida, eles recomendam que a pessoa tenha pelo menos 100h de “aula” prática antes de fazer a prova. E para quem já tem carteira, assim que passa na prova teórica, já pode agendar a prática.

A prova prática é bem mais simples do que no Brasil. Pra começar, você faz a prova no seu próprio carro. Se você não tem carro, pode alugar um em qualquer lugar. O DVM não disponibiliza carros para fazer a prova e você precisa estar com a documentação em dia, pois todos os papéis são verificados no dia.

Depois que os papéis são checados, você é enviado para uma fila específica ao lado do prédio do DMV, onde deve esperar o examinador. Antes de entrar no carro, o examinador verifica se as setas, luzes de freio, buzina e demais itens básicos do carro estão funcionando. Estando tudo certo, é hora de dar uma volta na quadra. O percurso dura em torno de 15 minutos e o avaliador examina se você troca de pista corretamente, dá sinal, segue o limite de velocidade, sabe estacionar o carro e dar ré, sabe como fazer uma conversão levando em consideração a ciclovia, respeita os sinais de trânsito, a faixa de segurança, etc. É bem simples mesmo.

Para quem quiser mais informações, aqui está o link do site oficial do DMV californiano.

Resumindo a história, depois de chegar aqui, em três meses eu já tinha a minha carteira provisória e comecei a dirigir, sempre acompanhada do meu marido, que já tinha a carteira da Califórnia. Quando eu estava quase completando um ano de carteira provisória, fui fazer a prova prática, até porque a data de validade dela é de um ano. Não preciso nem dizer que nem dormi na semana anteiror. Fui pra prova tremendo, cometi alguns pequenos deslizes (a maioria por ser cuidadosa demais), mas passei. Quando a avaliadora disse que eu tinha passado, eu quase dei um abraço nela. Assim que ela saiu do carro, comecei a chorar de emoção. Eu finalmente tinha conseguido tirar a carteira de motorista depois de 11 anos!

O processo também se tornou menos traumático, pois os motoristas de San Diego são muito educados. Claro que sempre tem gente que não liga a seta ou faz alguma bizarrice, mas é difícil alguém buzinar, não dar passagem ou brigar. O número de acidentes também é bem menor. O único lugar que é mais assustador de dirigir é nas hayways (freeways daqui), pois os americanos passam fácil dos 100km/h e você precisa estar bem atento às saídas que precisa tomar, se não é preciso fazer um retorno bem grande até conseguir voltar para o mesmo lugar.

Pra completar, há três meses atrás comprei meu primeiro carro. Ele é pequeno, bem usadinho, mas tem sido um grande companheiro. Agora, vou para todos os lugares que preciso sem depender de ninguém. Confesso que nas primeiras duas semanas que eu estava dirigindo ele sozinha, ficava muito nervosa.

Ainda bem que tudo na vida é questão de costume. Ainda fico apreensiva quando tenho que ir para um lugar mais distante e que não conheço, mas é mais aquela tensão de ter que ficar sempre atenta a todos os movimentos que estão acontecendo ao seu redor e usar o GPS (ainda estamos tentando nos acertar).

Tenho sido constantemente a motorista da rodada, pois eu mesma disse que de agora em diante é a minha vez de não beber e levar meus amigos (ou minhas cobaias hahaha) para os bares, jantinhas, festas, etc., e depois para casa em segurança. Nos finais de semana, meu marido quase não está mais dirigindo, pois prefere passar a vez pra mim.

E assim vou seguindo, dia após dia, tentando superar os meus medos e provando pra mim mesma que nunca é tarde para realizar um projeto de vida e de dar a volta por cima.

“Veraneio Vascaína vem dobrando a esquina”

Faz um tempo que não posto aqui no blog, mas a visita dos meus pais e o emprego novo acabaram sendo o meu foco no último mês.

Nesse meio tempo, aconteceram várias coisas, mas uma delas eu acho especialmente importante compartilhar com vocês. Há três semanas atrás, celebrei meu aniversário no Fanuel Street Park, localizado em Mission Beach, San Diego. O parque é muito bonito, cheio de grama e árvores, com parquinho para as crianças e em frente à baia. Lugar perfeito para fazer um churrasco com os amigos. Pois bem, foi o que pensei. Então, convidei mais de 20 amigos lindos e meus pais para comemorar comigo a chegada dos 2.9. Como em todo churrasco que fazemos por aqui, levamos a farofada e as bebidas.

O consumo de bebidas alcoólicas e o porte de garrafas de vidro são proibidos em praias e parques aqui em San Diego (apenas alguns parques permitem, mas são raros). Porém, é extremamente comum você ver as pessoas levando latinhas ou long necks dentro do cooler e servindo a bebida em copos descartáveis coloridos (aqueles famosos copos vermelhos que vemos em todos filmes de comédia americana). Então, como bons brasileiros, sempre seguimos esse mesmo modelo dos gringos malandros que levam bebida para lugares públicos.

O aniversário corria muito bem e alegre até certa hora da tarde, quando um carro da polícia, estilo carrinho de golfe, veio parar no meio da turma. Os policiais disseram que tinham recebido uma denúncia dos vizinhos de que estávamos bebendo cerveja. Àquela altura, já não tínhamos o que fazer para esconder nada, então permitimos que eles olhassem nossos coolers. Obviamente, eles encontram as cervejas e pediram uma explicação. Daí em diante nem é preciso explicar mais nada. Os policiais acabaram perguntando quem eram os donos dos coolers e começaram a fazer as multas. No fim, eu e uma amiga recebemos multa por portar garrafas de vidro e bebida alcoólica, outra amigo recebeu multa por estar portando garrafas de vidro (elas estavam vazias dentro do cooler dele) e outro amigo recebeu uma multa por estar segurando um copo com cerveja.

Não preciso nem dizer que o aniversário acabou por ali. Claro que fique muito chateada e envergonhada por meus convidados receberem multas na minha festa e por eu receber uma multa também, a primeira da minha vida, na frente dos meus pais, ainda por cima no Dia dos Pais aqui nos Estados Unidos. Mas o erro foi nosso.

Por mais incrível que pareça, os policiais foram extremamente educados e tranquilos durante todo o tempo. O trabalho deles foi muito mais de conscientização do que de aplicar uma multa. E isso é o que quero destacar neste texto. A polícia precisa dar a multa para a pessoa aprender, para doer no bolso e para ela não repetir mais esse erro. Durante todo o tempo que eles estiveram conosco, os policiais explicaram o quão perigoso é portar garrafas de vidro em parques e praias; o quanto isso pode machucar alguém, especialmente crianças e animais; o quanto é perigoso beber e dirigir, etc. Saímos todos dali com sentimento de culpa e entendemos que estávamos errados.

No meu caso e da minha amiga que estávamos portado os coolers e não fomos pegas bebendo, existe uma multa específica. Você tem uma chance de não ir pra corte prestar esclarecimentos se, dentro de cinco dias após o recebimento da multa, entrar no site que o policial indicar, pagar uma taxa de $40 e prestar trabalho voluntário. Esse trabalho voluntário consiste em assistir 2h de aula teórica e 4h de limpeza de uma praia ou parque.

O policial nos explicou que o lugar onde estávamos era perigoso tempos atrás e que foi através do trabalho da vizinhança, de denunciar e ajudar a polícia, que ele se tornou um bom lugar hoje em dia. Então, os vizinhos sempre irão fazer esse tipo de denúncia quando eles verem que alguém está desrespeitando as regras do lugar. E para isso também existe uma placa com as regras do lugar em todos os parques e praias, a qual ignoramos.

Cheguei em casa naquele dia e fui direto acessar o site indicado pelo policial. Ainda estou esperando a cartinha dizendo quando terei que assistir à aula e fazer o voluntariado. Meu amigo que foi pego com o copo de cerveja na mão não teve a mesa sorte. No caso dele, ele precisa ir direto para a corte prestar esclarecimentos e certamente o valor da multa será maior.

Talvez a cartinha nunca chegue, talvez leve mais uma mês, mas o fato é que eu não fui mais pra praia levando nenhum tipo de bebida que não seja água ou suco em garrafas plásticas. Diferente do Brasil, aqui não existem quiosques na beira da praia que vendem comida e bebida, tampouco pessoas passando com isopor e vendendo aqueles lanches tão maravilhosos como milho, queijo assado, biscoito globo, esfiha, etc. É proibido. Por isso, é muito comum cada um levar seu isopor/cooler com os seus suprimentos para o dia. É por isso também que eu digo que os gringos são muito mais farofeiros que nós, até porque eles não têm outra opção.

Mas voltando ao ponto principal, fica aqui o meu alerta. Se você for para qualquer lugar público em San Diego, não leve bebidas alcoólicas ou garrafas de vidro. E, se levar, fique consciente das consequências que isso pode acarretar. Por aqui, a famosa frase “mas eu não sabia, eu sou só turista” não funciona. Aqui não existe jeitinho, conversa ou propina. A regra é lei, sem exceção, e ela se aplica a qualquer um, independente de quem você é e de onde você vem.

 

“Sem trabalho eu não sou nada. Não tenho dignidade. Não sinto o meu valor. Não tenho identidade”

Depois de um ano e quatro meses morando em San Diego, finalmente, posso dizer: consegui um emprego na minha área! Mas para chegar até aqui foram muitos os passos dados, dezenas de tentativas e vários momentos de frustração. Ao mesmo tempo, foi um período de intenso aprendizado, autoconhecimento e determinação.

Algumas pessoas que acompanham o blog conhecem um pouco da minha saga, então vou tentar resumir o processo todo em um parágrafo. Levei seis meses para ter em mãos a permissão de trabalho (concedida para vistos específicos), um mês e meio para conseguir emprego na parte de serviços (que é o forte de San Diego) e oito meses para conquistar um emprego na minha área.

Confesso que durante os dois primeiros meses que eu entrei na loja, dei um tempo para as buscas, pois queria me focar no novo trabalho, lidar com a nova rotina e aprender todos os processos da empresa para conseguir manter o meu cargo e o meu salário. Depois do período de adaptação, voltei aos meus objetivos pessoais.

Muita gente tem a ilusão de que com a permissão de trabalho tudo é muito mais fácil, mas não é bem assim. O documento abre mais portas para você conseguir emprego na parte de serviços, com toda certeza, porém para vagas especializadas, é tão difícil quanto. Além disso, o documento não interfere no salário. O valor mínimo pago na Califórnia é $10 por hora e esse é o padrão da maioria das lojas, supermercados, bares, restaurantes e serviços em geral. Quem trabalha em restaurante ou bar consegue ganhar mais, pois recebe gorjetas. Quem é babá geralmente consegue fazer entre $12 e $15 por hora.

Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade

Então, se você vem de um histórico no Brasil com um bom cargo, salário, férias e todas as regalias das leis trabalhistas, pode começar a praticar o desapego e a paciência, caso você venha sem emprego na sua área previamente acertado por aqui.

Quero alertar que este não é um post para desanimar ninguém, muito pelo contrário. Quero é mostrar a realidade americana e a importância de se planejar e ter persistência. O sonho de morar em outro país e fazer dinheiro é algo que exige muito empenho. O mundo todo passa por uma crise, então realmente não está fácil conseguir emprego, agora imagine para quem não tem documentos.

Acredito seja mais fácil conseguir emprego em outros estados americanos ou países não tão turísticos, contudo a Califórnia recebe todos os anos milhares de imigrantes do mundo todo que estão tentando, assim como nós, uma vida melhor e isso faz com que a disputa por um cargo seja maior e, consequentemente, o valor por hora baixe. Sei de pessoas que trabalham com “bicos” por aqui e recebem muito menos dinheiro hoje do que há 5 anos atrás. Ser babá por aqui pagava muito bem tempos atrás. Hoje, vejo anúncio oferecendo $10, $12 e, em poucos casos, $15 a hora. E ainda tem gente que trabalha por menos, porque realmente precisa.

Ainda considero os EUA como um lugar cheio de oportunidades, mas aqui, assim como em qualquer lugar do mundo, você precisa ter referências, experiência, inglês fluente (isso varia de acordo com a função), carro próprio (varia também) e provar que é dedicado, comprometido e bom naquilo que faz para conquistar a confiança.

Eu tenho o meu ofício
Tem gente que não tem nada
E outros que tem mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar

Os americanos são bem exigentes em termos de pontualidade, produtividade e rapidez. E, como isso é cultural, eles sempre desconfiam de quem vem de outros países, outras culturas, pois muitas vezes não sabem como é a cobrança e a entrega do trabalho por lá. Por sorte, viemos de um país onde a maioria das pessoas trabalha muito, então pra nós é normal já chegar, fazer acontecer e entregar mais que o esperado. Por isso, o brasileiro, na maioria das vezes, tem um crédito grande por aqui.

Eu tentei indicação (obrigada ao sócios da W3Haus por serem tão queridos e continuarem ajudando os ex-funcionários com tanto carinho e empenho) e consegui uma entrevista. Infelizmente, não deu e eu não consegui descobrir o motivo para poder melhorar nas próximas oportunidades.

Depois disso, só consegui fazer mais uma entrevista presencial em um cargo próximo à área, mas como era muito técnico e eu não sou formada em Análise de Sistemas, não deu também. Daí em diante fiz mais uma entrevista por telefone para um cargo semelhante e não consegui mais nada.

Dedicada de uma a duas tardes ou manhãs por semana, dependendo do meu horário na loja, para enviar currículos. Foram quase duzentas tentativas. Fui em duas agências de emprego pra ver se conseguia ajuda ( e aqui agradeço de coração aos sócios da Brivia e da 3yz pelo envio de referências, vocês continuam fazendo a diferença na minha carreira e na minha vida <3). Porém, até hoje não recebi uma vaga deles.

Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
De todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar

Quando as minhas alternativas já estavam se esgotando e eu estava até pensando em começar a procurar emprego em outras cidades e, com isso, ter que me mudar, apareceu uma vaga em um dos sites que eu sempre buscava. Apliquei, fui chamada para uma entrevista, depois para uma segunda e então veio a tão sonhada resposta: sim, você está contratada!

Passado quase um mês, ainda não acredito que é verdade. Nas duas primeiras semanas, achei melhor não contar pra quase ninguém (vai saber se ia dar certo). Hoje, digo com todo orgulho que consegui e, por mais que pensasse em desistir em alguns momentos, eu continuei.

Acredito muito que quem faz o bem, recebe o bem, e uma hora ou outra chega a sua vez de brilhar na vida. Eu só não sabia que demorava tanto! Mas a Califórnia tem me ajudado todos os dias a aprender o significado de PACIÊNCIA e PERSEVERANÇA.

Obs.: vou contar mais detalhes sobre o processo de busca por emprego por aqui na página da Família nos Estados Unidos. Curtam lá 😉

“And as I looked around, I began to notice. That we were nothing like the rest”

Acredito que um dos melhores presentes que a Califórnia me deu foi a sensação de ser livre e a oportunidade de poder viajar com frequência. Por mais que eu tenha uma vida cheia de obrigações, aqui, eu posso conhecer lugares incríveis sem precisar viajar milhares de quilômetros. Aqui, eu posso planejar trips que jamais imaginaria fazer alguma vez na vida e gastar muito pouco dinheiro.

Faz um ano e quatro meses que estamos morando na Califórnia e já conhecemos muitos lugares, pois é barato e fácil viajar. San Diego está numa região bem localizada, por isso muitas vezes é só preciso pegar o carro, dirigir uma ou duas horas e o seu destino estará logo ali. Dependendo do tempo e da grana que se têm, às vezes não é nem preciso passar a noite no lugar, gastando com hospedagem, por exemplo. Dá para fazer o famoso “bate e volta”.

Ano passado, conhecemos Palm Springs, Joshua Tree, Salton Sea, Temecula, Big Bear, Mammoth, Santa Bárbara, Oceanside, Malibu, Laguna Beach, Santa Mônica, Trestels e até Tijuana e Ensenada, cidades localizadas no México. Este ano, já fomos para San Francisco e Los Angeles. Porém, também tivemos a oportunidade única de ir ao Coachella, um dos maiores e mais famosos festivais de música dos Estados Unidos. O festival, que começou oficialmente em 1999, acontece anualmente na cidade de Índio, na Califórnia, e tem a duração de dois finais de semana (contando sexta, sábado e domingo).

I heard them calling in the distance
So I packed my things and ran
Far away from all the trouble
I had caused with my two hands
Alone we traveled on with nothing but a shadow
We fled far away

Assim que os ingressos foram colocados à venda, no final do ano passado, garantimos a nossa presença. Logo depois, começamos a pesquisar algumas casas, pois iríamos com uma turma grande de amigos. Porém, no fim optamos por alugar um RV (o motorhome daqui) e ficar em um camping próximo ao evento. Certamente essa foi a melhor escolha que poderíamos ter feito. O RV tem um custo-benefício exelente se comparado com o aluguel de um motel (hotel barato daqui) ou de uma casa, já que os preços triplicam na época do evento. Fomos em 6 pessoas (mas existem opções para turmas maiores e menores) e todos dormiram confortavelmente. O RV oferece todo o conforto de uma casa sobre quatro rodas (banheiro, cozinha, ar-condicionado, camas, sofás, armários) e não gasta muita gasolina. Fomos e voltamos do evento, que fica a duas horas e meia de San Diego, e gastamos 3/4 de tanque. Você também pode levar toda a sua comida, já que tem geladeira, pia e fogão pra cozinhar. Por isso, fizemos um bom rancho antes de ir e comíamos bem todas às manhãs, antes de sair e quando voltávamos. Assim, gastávamos muito pouco comendo no evento (as coisas não são muito caras. A média fica entre $7 e $10 por um lanche, $2 por uma garrafa de água e $10 por um copo de cerveja).

O camping foi outro grande acerto da trip. Ficamos a 30 minutos do evento, mas tínhamos uma infraestrutura maravilhosa: piscina, jacuzi, banheiros com chuveiros, café da manhã, sem contar todo o sistema de água, luz e esgoto oferecidos para os RVs. Todos os dias, o camping disponibilizava um ônibus (em horários específicos) para levar e buscar os hóspedes que estavam ali apenas pelo Coachella. Claro que pagamos pelo serviço, mas a economia foi bem grande se compararmos com a grana que gastaríamos com estacionamento (fora o cansaço e o perigo em voltar dirigindo) ou com Uber, que chegava a custar quatro vezes mais que uma corrida normal devido a quantidade de gente que estava buscando o serviço.

Enfim, a experiência com o motorhome foi tão positiva, que já estamos planejando fazer outras trips com ele. E agora, eu também passei a entender o porquê de muitas pessoas optarem por morar em um RV.Você tem tudo que precisa e ainda pode levar a sua casa para qualquer lugar do mundo. Na Califórnia, existem dezenas de pessoas que fazem isso, inclusive existem campings em vários lugares onde é possível pagar uma taxa mensal para poder estacionar a “sua casa”. Também é comum ver vários RVs nos estacionamentos públicos das praias e dos parques de San Diego.

Hold your horses now
(Sleep until the sun goes down)
Through the woods we ran
(Deep into the mountain sound)
Hold your horses now
(Sleep until the sun goes down)
Through the woods we ran

Agora, falando sobre o Coachella…..Por mais que eu tivesse visto fotos e lido algumas matérias sobre o festival, nenhuma descrição conseguiu representar a sua verdadeira grandiosidade. Desde o momento que eu desci do ônibus e caminhei até a entrada final (o que leva meia hora) eu não estava acreditando que aquele lugar no meio do deserto era real, parecia uma miragem.

Imagine que em média 200 mil pessoas passam pelo festival durante os dois finais de semana, o que é MUITA gente! Então, para oferecer o melhor serviço para toda essa galera, existem dezenas de barraquinhas de comida, lojinhas, banheiros, além de muitas pessoas trabalhando ao redor do lugar como seguranças, médicos e enfermeiros, e diversos outros funcionários que ajudam você a achar o seu estacionamento, seu acampamento (o Coachella tem um espaço para camping, mas é mais caro), seus amigos…

Os portões abrem às 11h da manhã e o festival termina às 2 da madrugada na sexta e no sábado, e à 1h no domingo. Acha pouco? Nós geralmente chegávamos às 15h e ficávamos até o final, o que dava uma média de 10/11 horas de evento aproveitado, o que foi MUITO para o nosso corpo. Aí tem um ponto importante: eu fiquei extremamente feliz por estar fazendo exercícios físicos nos últimos meses, pois você precisa ter um mínimo de preparo físico para conseguir curtir o festival ao longo dos três dias.

Como são dezenas de bandas tocando ao mesmo tempo e o lugar é ENORME, você caminha de um lado para o outro o tempo todo. Claro que dá para sentar, deitar e até dormir na grama, mas não dá pra ficar muito tempo no descanso, pois o mundo Coachella não pára pra você se recuperar.

Além dos palcos principais e das grandes tendas, existem tendas menores de música eletrônica que sempre estão com algum DJ fazendo a festa. Eu, que estava mais pelos shows de rock, indie e acústicos, acabei me rendendo em muitos momentos.

Um ponto que nos convenceu a não chegar muito cedo todos os dias, além do cansaço, foi o calor. Imagine que o festival é no meio do deserto e as temperaturas chegam aos 40 graus. Por isso, não dá para esquecer do protetor solar para o rosto, lábios e corpo, além de estar o tempo todo tomando água. À noite, ficava mais fresco, em torno de 20 graus, e era preciso sempre levar um casaquinho.

Some had scars and some had scratches
It made me wonder about their past
And as I looked around I began to notice
That we were nothing like the rest

Como é permitida a entrada de crianças e menores, as áreas que vendem bebidas álcóolicas para maiores de 21 anos são fechadas. Ou seja, você precisa, todos os dias, mostrar seu documento, pegar uma pulseirinha (todos os dias a cor da pulseirinha muda) e depois parar nas filas para entrar nesses lugares. Eu vi poucas crianças, mas a quantidade de adolescentes é realmente impressionante se comparada com pessoas mais velhas.

Nos três dias do evento, não vi nenhuma briga ou confusão, apenas algumas pessoas passando mal do calor e da bebida, o que é perfeitamente normal em qualquer festival ao ar livre. Nem nos maiores shows, como no do Guns N’ Roses, por exemplo, fomos empurrados ou nos sentimos apertados/sufocados. As pessoas respeitam o seu espaço. Por isso, era comum ver no meio da multidão que estava assistindo a um show, pessoas sentadas ou deitadas e todo mundo passando ao redor e respeitando a opção delas de não estarem de pé.

O que me deixou mais encantada com toda a experiência foi a atmosfera do lugar. Ver o pôr do sol era o momento mais incrível do dia, pois você olhava ao redor e via muitas montanhas e palmeiras, milhares de pessoas cantando, sorrindo, dançando e não se importando com o que o mundo estava pensando sobre elas naquele momento.

Além da música, o Coachella é um festival de arte. Você encontra esculturas, luminosos, construções e letreiros por todos os lugares. É inspirador estar ali, mesmo quando você não está vendo algum show, pois a arte toma conta do lugar e de você. O jeito de vestir das pessoas também é algo à parte. O look padrão é o estilo hippie chic, mas todo mundo encontra a sua forma de deixar o visual com um toque pessoal. Ao mesmo tempo, existem pessoas que vão fantasiadas (vi muitos unicórnios, alguns super-heróis, um minion e até um pikachu), outras seguem um estilo gótico, outras ainda optam pela linha nudes.

Amei a experiência e recomendo pra todo mundo. Se você tiver a oportunidade de ir ao Coachella, vá! Você estará no fim do mundo sentindo por todos os seus poros uma energia que mistura música, arte e pessoas dos mais variados estilos e lugares. Depois, você terá uma vida inteira para recordar e contar as histórias que viveu, as bandas que conheceu e os amigos que fez ❤

Whoa-oh-oh-oh-oh We sleep until the sun goes down Whoa-oh, whoa-oh We sleep until the sun goes downWhoa-oh-oh-oh
We sleep until the sun goes down

La la la, whoa-oh-oh-oh-oh
La la la, we sleep until the sun goes down
La la la, whoa-oh, whoa-oh
La la la, we sleep until the sun goes

“Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer”

 

Eu penso em tantas coisas diariamente para escrever aqui e tentar ajudar quem está passando por esta fase constante de aprendizados e transformações, mas fico criando mil desculpas para não publicar. A principal delas é:”o que as pessoas vão pensar?”. E depois vêm os acompanhamentos: “o que elas vão dizer? será que vou conseguir transmitir o que quero? será que elas vão achar interessante? será que não estou sendo chata?”

Motivada por esse complexo de perfeição, que tanto faziam parte das minhas crises de ansiedade, vou começar a publicar aqui mais informações sobre as cenas cotidianas, independente de quem ache interessante ou não. Desde o início deixei claro que este blog não era para falar sobre roteiros de passeios, dar dicas de restaurantes ou de festas, até porque existem dezenas de blogs que fazem isto e tenho um projeto paralelo relacionado à dicas específicas de San Diego. Este espaço é para falar de impressões, de sentimentos, de observações e vivências de alguém que deixou tudo para trás e resolveu começar de novo. Aqui é a vida real, sem máscaras, sem maquiagem e sem filtros.

Esses dias estava trocando mensagens com as minhas melhores amigas sobre rotina e uma delas comentou “Como é engraçado, se tem rotina aí também!”. Eu dei risada e depois comecei a pensar sobre esse tópico.

Sim, sou uma privilegiada por morar perto de uma praia, na Califórnia, mas aqui temos também que trabalhar, pagar contas, estudar, fazer supermercado, ir ao médico, resolver problemas burocráticos no banco e no DMV (Detran daqui), lavar roupa, levar o lixo pra rua, fazer comida, limpar a casa…. Enfim, tarefas padrões que devem ser feitas em qualquer lugar do mundo e que criam, querendo ou não, uma rotina, já que você precisa se organizar para fazer tudo o que precisa e sem deixar as coisas acumularem.

E em tudo que eu faço
Existe um porquê
Eu sei que eu nasci
Eu sei que eu nasci pra saber

Confesso que tem um lado meu que gosta de rotina, pois ela é sinônimo de segurança. Porém, aqui eu aprendi a diversificá-la. Agora que é inverno, não consigo ir muitas vezes para a praia. Mesmo assim, pelo menos a cada 15 dias tento ver o mar, seja num passeio de final de semana, seja nos dias de pedalada. Quando vejo o mar, bate um sentimento de que estou de férias, livre de qualquer problema ou compromisso, aberta para receber energias boas e deixar ir embora aqueles pensamentos ruins.

Como o meu trabalho tem variações constantes de horários, toda semana eu preciso reorganizar minhas tarefas rotineiras e isto já me ajuda a tentar escapar da rotina enjessada, aquela na qual você faz sempre as mesmas coisas nos mesmo horários, encontra sempre as mesmas pessoas no ônibus, no trabalho, na hora do exercício. Estou sempre pegando o ônibus em horários diferentes, pedalando em momentos diferentes, trabalhando com pessoas diferentes (como a escala muda para todo mundo, nem sempre são os mesmos colegas que estão ao meu lado). A única coisa que não muda são os horários das aulas de inglês. Contudo, toda semana entra algum colega novo na escola e este pequeno detalhe já muda tudo, pois sempre se aprende algo interesante com quem é de outro país.

Todos os finais de semana também tentamos fazer coisas diferentes, com grupos de amigos diferentes, e decidimos no máximo com um dia de antecedência a programação. Praticar o desapego de agendas fechadas e repetição de atividades consideradas de lazar também é  uma forma sair da rotina.

Porém, por aqui parece que se entregar para a rotina é perder um tempo precioso, pois existe uma cobrança própria de aproveitar ao máximo cada segundo neste lugar incrível. Infelizmente, não dá pra passar o dia na praia tomando sol, pegando onda, lendo um livro, tirando fotos, cantando com os artistas de rua, fazendo novos amigos. Por isso mesmo, tento fazer logo o que é preciso para conseguir ter um tempo de folga e curtir San Diego. Mas quando dá para deixar de lado as obrigações, eu deixo e vou lá viver a Califórnia. Afinal, a gente nunca sabe quando terá esta oportunidade novamente.

E fui andando sem pensar em voltar
E sem ligar pro que me aconteceu
Um belo dia vou lhe telefonar
Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu

Quando paramos para pensar, a rotina nada mais é do que a repetição constante de ações que nos são conhecidas e, por isso, parecem seguras. Mas não significa que elas são de fato seguras. Em um belo dia, algo pode acontecer e acabar, ou reinventar, o processo daquela ação que era tão conhecida.

Pode ser que a sua empresa mude de endereço e você precise rever todos os trajetos para chegar ao novo local (além de onde estacionar o carro, ou qual ônibus pegar, ou ainda ver quais restaurantes próximos aceitam o vale-refeição). Pode ser que os horários da sua aula de box/yoga/pilates/dança mudem e você precise reorganizar sua agenda. Pode ser que você quebre um braço e precise reaprender a fazer coisas simples da vida até tirar o gesso. Pode ser que…

A infinidade de “pode ser que” é tamanha, que o ser humano acaba criando uma rotina para não enlouquecer pensando em todas as possibilidades de mudança que a vida pode proporcionar. E hoje estou falando apenas de mudanças simples de rotina, nem vou entrar no mérito de mudancas que incluem grandes perdas.

No ar que eu respiro, uu
Eu sinto prazer
De ser quem eu sou
De estar onde estou

Então, independente do lugar do mundo que você esteja, vai existir rotina, cabe a você tentar fazer com ela seja boa – ou menos pior. E também cabe a você, e somente a você, tentar diversificar as formas de encarar as atividades repetitivas que precisam ser feitas.

Você pode começar, assim como eu, trocando a cozinha da sua casa por um café na hora de fazer algum freela, homework ou homeoffice. Sempre dá pra fazer uma amizade ou ao menos descobrir um novo café. Quando for ao supermercado, tente trocar algum item que você sempre compra por algo que nunca provou (claro que seguindo a mesma faixa de preço). Esses tempos comprei um chips de batata doce (pra matar a vontade do chips tradicional) e amei! Experimentar novos sabores, na maioria das vezes, é algo muito prazeroso. Quando estiver indo para o trabalho, coloque uma playlist que nunca escutou para rodar. O Spotify é gratuito e oferece uma lista enorme de opções (além de funcionar em qualquer celular)! Dê uma chance para um título alternativo de filme ao invés de assistir sempre aos mesmos estilos. Tenho certeza que você vai se surpreender com o cinema “Lado B”.

Poderia passar o dia listando sugestões de coisas que podem ser feitas de forma diferente, mas basta dizer que é preciso abrir os olhos e o coração todos os dias para ver o mundo sob outro ângulo. Não é preciso morar do outro lado do mundo para experimentar, todos os dias, algo diferente.

Toda mudança começa com simples ações 🙂