“Imagine there’s no countries. It isn’t hard to do”

Não vou expressar minha opinião política sobre o Impeachment da Dilma, mas o tópico deste post está ligado a isso. Hoje, li muitos posts no Facebook que me deixaram chateada, porém um deles me abalou profundamente. Ele dizia mais ou menos o seguinte: “A pessoa fica fazendo mimimi, mas mora nos EUA, na Alemanha, na Austrália…”. Eu reli umas duas vezes pra ver se não era coisa da minha imaginação. Infelizmente, era a realidade, e os comentários que se seguiram foram ainda piores.

Só porque uma pessoa não mora mais no seu país de origem, não significa que ela é menos cidadã, que tem menos direitos e que não pode expressar a sua opinião sobre um assunto que afeta a vida dela direta ou indiretamente.

Eu moro nos Estados Unidos sim, mas continuo pagando impostos no Brasil, justificando meu voto e fazendo declaração do imposto de renda. Eu não moro mais no Brasil, mas toda minha família e meus amigos seguem lá e eu me preocupo com o futuro deles. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileira, falo português todos os dias, mantenho minhas tradições e tenho muito orgulho disso. Eu não moro no Brasil, mas a maioria dos meus melhores amigos em San Diego são brasileiros e eles também carregam toda essa bagagem com eles. Eu não moro no Brasil, mas acompanho todos os dias as notícias do país pra saber o que está acontecendo. Eu não moro no Brasil, mas sigo defendendo o meu país e tentando explicar para as pessoas de outras nacionalidades como temos muito mais coisas para oferecer do que apenas Carnaval e caipirinha. Eu não moro no Brasil, mas torço todos os dias para que as coisas melhorem. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileira e sei exatamente o que está se passando e o sentimento que tudo isso causa. Eu não moro no Brasil, mas vivi 27 anos da minha vida nesse país repleto de encantos mil e, ao mesmo tempo, cheio de desigualdades sociais. Eu não moro no Brasil, mas posso voltar a qualquer momento, porque se tudo der errado, é lá que eu sempre serei acolhida, é lá que o meu sotaque não faz a mínima diferença, é lá que as minhas experiências profissionais valem de verdade, é lá que eu conquistei um monte de coisas boas que pra sempre vou me orgulhar.

E eu poderia não fazer nada disso. Poderia apenas ignorar a existência do Brasil e seguir com a minha vida aqui, e mesmo assim eu ainda teria o direito de opinar sobre o cenário político e econômico do meu país. Eu não abandonei o Brasil, eu não fugi, eu não mandei tudo para o espaço por causa do cenário atual. Eu mudei, porque tive uma grande oportunidade na minha vida e agradeço todos os dias por ela ter acontecido. E mesmo se tivesse abandonado tudo por não aguentar mais, ainda assim teria o direito de opinar.

Acredite, não é porque você mora em outro continente que não sofre junto, que não torce junto, que não entende o que está se passando, que só serve pra falar mal do seu país de origem e exaltar o seu local de moradia atual. Eu sempre vou estar presente, mesmo de longe, em cada mudança que acontecer. Eu mando mensagem pra minha família e pros amigos mais próximos quando vejo que tem um temporal na cidade, então me diz como eu não vou me preocupar e estar por dentro de um processo de mudança política? Eu sei que olhar de fora não é a mesma coisa que estar experienciando na pele o que está acontecendo. Mas isso não diminiu o meu direito de ser brasileira seja onde for.

Eu sonho com o dia em que todas as pessoas tenham a oportunidade de conseguir olhar para os outros sem preconceito, inveja, intolerância e pré-julgamentos. Eu sonho com o dia em que o ódio das pessoas seja transformado em sentiments bons e que gerem ações que façam a vida de alguém melhor. Já falei isto aqui uma vez e vou repetir. Você não precisa mudar de cidade, estado, país ou continente para enxergar o mundo de outra forma e respeitar a opinião do outro. Enquanto isso, sigo acreditando e torcendo pelo meu país e excluindo todos aqueles que não conseguem entender o que isso significa.

 

“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas.”

Há algum tempo atrás, Chico Buarque retratou na música “Mulheres de Atenas” os valores aceitos e impostos por uma sociedade machista, e o modelo de herói interpretado pelos homens. Infelizmente, as Mulheres de Atenas são atemporais e uma realidade, já que ainda precisamos enfrentar diariamente o assédio, as piadinhas sem graça, os baixos salários, a violência doméstica, as cobranças sem sentido e tantos outros problemas que há décadas fazem parte do cotidiano feminino.

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas

Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas; cadenas

Talvez algumas pessoas não entendam a ironia da música, mas mirar-se nas Mulheres de Atenas é fazer exatamente o contrário: a ideia é que possamos refletir sobre toda a submissão sofrida e as regras impostas às Mulheres de Atenas, e então acordar e lutar para que esta realidade não se repita mais.

Em muitos lugares e culturas, desde o início dos tempos, podemos ver mulheres sendo tratadas como objetos, escravas de uma vida já pré-determinada: nascer, tornar-se uma mocinha, casar, ser uma boa esposa, ter filhos, ser uma boa mãe, cuidar muito bem da casa, por vezes trabalhar e depois morrer.

E assim, geração após geração, fomos sendo educadas pelas nossas famílias dentro desse modelo e impactadas por brincadeiras e brinquedos relacionados à vida de uma dona de casa (casinha, panelinhas, ferro de passar roupa, bonecas…) e à vida de uma “mulherzinha” frágil e que tem sempre o mesmo sonho (vejam a Barbie, por exemplo, apesar de ser dita moderna e fashionista, ela é o exemplo de uma mulher que trabalha e é independente financeiramente, mas o grande sonho da sua vida é casar de véu e grinalda com o Ken, um homem perfeito,bonito, malhado e jovem).

Muitas meninas, desde pequenas, acabam fazendo mais trabalhos domésticos em casa do que seus irmãos homens, por exemplo. Por vezes aprendem a dirigir só depois dos irmãos ou só quando arrumam um namorado. Algumas meninas também são incentivadas a se cuidar quando o assunto é relacionamento. Devem escolher bem seus namorados e não sair ficando com qualquer um. Enquanto com os homens é o contrário: quanto mais mulheres você “pegar”, melhor, você será um “galo”, um “garanhão”. Em compensação, se você for uma mulher e fizer o mesmo, será “fácil”, uma “galinha”. Viram a diferença?

Meu ponto aqui não é julgar a educação dada pelas famílias, tampouco a escolha que muitas mulheres fazem por vontade própria de casarem, serem donas de casa e mães. Pelo contrário, respeito muito cada decisão que uma mulher toma. O grande ponto que estou discutindo aqui é o histórico da associação da mulher com a submissão ao homem e as diferenças de direitos de ambos os sexos.

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos
Bravos guerreiros de Atenas

Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar um carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas, Helenas

Mulheres de Atenas não podem ter gostos ou vontades. Não podem gostar de outras mulheres; não podem trabalhar em cargos superiores ou com tarefas ditas masculinas (como mecânica, marcenaria, motorista, na área de tecnologia…); não podem nem pensar em outro homem se é casada, mas seu marido pode sair com outras mulheres e está tudo bem, a sociedade aceita; não podem optar por não ter filhos, elas serão muito questionadas por isso. Apenas devem “seguir as regras” e temer o julgamento do seu marido e da sociedade.

Mês passado li o “O Primo Basílio”, da Eça de Queiroz. Uma obra clássica de 1878 que retrata em detalhes a vida das mulheres daquela época, especialmente de Luísa, a personagem principal. Cada vez que pisava na calçada, ela era observada pelos vizinhos e vigiada pelos amigos do marido. O tempo todo precisava dizer para onde iria e com quem se encontraria. E assim, com todas as proibições e julgamentos (e no fim após uma paixão pelo primo), acabou morrendo na solidão da sua casa, imersa em sonhos que jamais poderia realizar, pois era uma mulher. Ela não podia separar-se do marido, ela não podia trabalhar, ela não podia sequer usar outra roupa se não vestidos!

Claro que o mundo evoluiu, as mulheres conquistaram muitos direitos, mas mesmo assim continuamos a presenciar situações arcaicas. Por isso, acredito que sempre é interessante ler obras desse gênero para entender o passado e olhar com olhos mais críticos o presente.

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas:
Geram pros seus maridos
Os novos filhos de Atenas

Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas
Não tem sonhos, só tem presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas, morenas

Já estamos em 2015 e ainda precisamos enfrentar muitos dos problemas passados pelas Mulheres de Atenas e por Luísa. No último Dia Internacional da Mulher, além dos comerciais emotivos, também vi muitos relatos de amigas e conhecidas descrevendo situações nas quais sofreram assédio na rua. Que bom que agora podemos tornar este assunto de conhecimento público, mas é chocante saber que isso ainda acontece.

Mas não pensem que as buzinadas, os assobios e as cantadas nojentas recebidas na rua acontecem apenas no Brasil. Os americanos são ainda mais descarados. Inclusive discuti o assunto com uma amiga brasileira que mora em San Diego também e ela diz ter o mesmo sentimento.

Claro que existem diferenças. Apesar do americano abordar mais as mulheres que os brasileiros, eles são “mais educados”. Dificilmente você escuta um “gostosa” ou “delícia”, é mais comum um “bonita” ou “sexy”. Independente das “cantadas” serem mais brandas em um lugar se comparado ao outro, o fato é que não somos obrigadas a passar por esse tipo de constrangimento.

Esses dias um amigo que mora aqui disse que eu deveria usar uma aliança no dedo para mostrar que sou casada e inibir abordagens. Oi? Agora eu preciso mostrar de alguma forma para a sociedade que sou casada para não ser assediada? E o RESPEITO fica aonde?

Confesso que sou bastante revoltada com o assunto. Quando os homens vão entender que a maioria das mulheres não gostam desse tipo de coisa? Que não faz bem para o nosso ego, pelo contrário, que essa atitude infantil causa medo e nojo? Daqui há quantos anos vamos poder sair na rua bem arrumadas, de saia, de vestido ou de calça mais colada sem que os homens entendam que “estamos vestidas assim, porque estamos pedindo para chamar a atenção e escutar palavras esdrúxulas”, ou pior ainda: receber passadas de mão?

Mulheres adoram elogios sim, mas assédio é ago totalmente diferente. Elogio é aquilo que elas recebem de seus parceiros ou de uma paquera no barzinho, na balada, e não de estranhos que praticamente as comem com os olhos na rua e falam coisas obscenas.

Uma amiga relatou no Facebook que um homem passou a mão na sua bunda, do nada, como se ele tivesse direito de encostar no seu corpo. Gente, que mundo é este? Muitas mulheres têm mais medo de sofrer algum abuso na rua do que de serem assaltadas, tamanho é a proporção deste absurdo.

Pelo menos aqui nos Estados Unidos existe uma lei em que a mulher pode prestar queixa de assédio na delegacia mesmo sem testemunhas. Infelizmente, no Brasil muitas queixas são recebidas por policiais homens que, por vezes, tratam o assunto como uma besteira ou um barraco. A vítima certamente sentirá medo ou trauma por muito tempo, enquanto o acusado seguirá livre pelas ruas fazendo o mesmo com outras mulheres.

Por toda desigualdade que ainda existe, por todo preconceito, por toda falta de entendimento do sexo feminino que eu digo: BASTA! Apoio às mulheres que brigam para serem tratadas com respeito, para terem os mesmos direitos que os homens e por não serem julgadas por suas escolhas. Estou do lado das mulheres que mostram o dedo do meio para os caras que fazem piadas de mal gosto na rua, que prestam queixa à polícia por assédio ou que queimam o sutiã para mostrar ao mundo que possuem voz e valor. Apoio às mulheres que têm diferentes opções sexuais e diferentes escolhas religiosas. Apoio às mulheres que optaram por serem ou não mães, afinal, cada uma escolhe aquilo que irá deixá-las mais felizes. Enfim, apoio e respeito às mulheres pelo simples fato de serem mulheres e enfrentarem todos os dias diversos desafios. Espero, do fundo do meu coração, poder olhar para trás e ver que todos estes problemas que ainda sofremos foram sanados.

Espero, do fundo do meu coração, que as próximas gerações de mulheres não precisem passar por mais nenhum preconceito ou assédio e que até lá todas as pessoas entendam o significado das palavras RESPEITO e IGUALDADE.