“Ô pacato cidadão, te chamei a atenção não foi à toa, não”

É fato que trabalho é trabalho em qualquer lugar do mundo. Contudo, cada país tem suas prórpias leis e regras que devem ser respeitadas e seguidas.

Nos Estados Unidos, a United States Labor Law regula os direitos e deveres dos empregados e uniões, porém existem leis trabalhistas específicas para cada estado, assim como salários, taxas e regras de trânsito, por exemplo. Por isso, antes de procurar emprego, sempre é bom saber quais são os seus direitos e deveres naquele lugar específico.

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A maioria dos pontos que vou citar aqui, eu vivenciei na época que trabalhava na loja. Como ela pertence a uma rede grande e possui milhares de funcionários em todo país, eu via muitos desses casos acontecendo com os meus colegas diariamente.

  • O valor mínimo pago por hora de trabalho na Califórnia é $10. Geralmente, esse é o valor pago pela maioria dos estabelecimentos comerciais. Funcionários de bares e restaurantes podem receber um valor por hora menor, pois ganham 20% em gorgeta, mas alguns lugares pagam o valor mínimo de $10 + gorgetas. Para cada profissão também existe uma média de valor anual (aqui nos EUA o salário sempre é dito em valor anual e não mensal como no Brasil) e é importante fazer esta pesquisa antes de aceitar qualquer proposta.
  • Não existe 13o salário. Porém, muitas empresas (especialmente as grandes) fazem avaliação do funcionário no final do ano e, se ele se destacou e atingiu as metas estabelecidas, pode ganhar bônus e aumento de salário.
  • Muitas empresas pagam os funcionários a cada 15 dias. Funcionários de bares e restaurantes costumam receber semanalmente.
  • A licença maternidade não é remunerada e a mulher pode ficar afastada até 12 semanas. Já soube de casos em que as mães optaram por voltar antes desse tempo, porque precisavam do dinheiro e também porque tinham medo de perder o seu cargo.
  • Cada empresa também define o número de dias que o funcionário pode se ausentar por motivos de doença, o chamado “call sick”. Claro que, se a doença for grave, aí entram outras leis, mas se passar dos dias acordados, o funcionário fica sem receber durante o período que estiver ausente. De forma geral, você tem tantos dias por ano (na maioria das empresas são 8 dias por ano no primeiro ano de trabalho e depois vai aumentando) para ficar doente e não ter desconto no salário.
  • Cada empresa determina quantos dias de férias os seus funcionários terão direito. Esse tempo pode variar de 10 a 20 dias após um ano de trabalho. Empresas maiores podem usar a seguinte regra: a cada ano completado na empresa, o funcionário passa a ganhar 1 dia a mais de férias por ano. As férias podem ou não ser pagas e isso é definido no acordo que o funcionário fez com a empresa.
  • Nos Estados Unidos não existem tantos feriados como no Brasil e os americanos não dão muita importância pra eles. Por isso, é bem comum as pessoas trabalharem durante os feriados e isso significa ganhar a mesma coisa do que nos outros dias. Os feriados em que as pessoas realmente param são o Dia da Independência, Acão de Graças e Natal.
  • As taxas mensais descontadas do salário são de 6.2%, que é retido para o Social Security (aposentadoria), e 1.45%, que vai para o Medicare (saúde). O valor descontado do imposto de renda depede do valor que você ganha, quantos dependentes tem, estado civil, possíveis deduções, isenções e créditos.
  • O total de horas semanais trabalhadas varia conforme a área, pois é possível fazer meio turno de 20h ou turno integral de 40h. O pagamento das horas extras também depende da empresa, que escolhe se vai ser em dinheiro ou folga. Diferente do Brasil, aqui não existe adicional por trabalho realizado durante o final de semana. Ou seja, se você trabalha sábado e domingo, continua ganhando o valor hora acordado por hora e ponto. Porém, quando o empregado trabalha mais que as horas do seu turno parcial ou integral, a empresa precisa pagar 1.5 vezes o valor da hora do empregado.
  • O horário de almoço varia entre 30 minutos e 1 hora, e os intervalos de 15 minutos geralmente acontecem a cada 4 horas de trabalho (era assim na loja). Na empresa onde trabalho agora, o almoço tem duração de 30 minutos e a cada hora eu tenho direto a alguns minutos de pausa. No fim, o que acaba acontecendo na maioria dos escritórios, é que as pessoas levam sua própria comida para não perderem tempo de locomoção até um restaurante. Eu levo todos os dias o meu almoço, pois não tenho muitas opções de restaurantes ao redor da empresa. Ou seja, marmita é algo comum por aqui e ninguém tem vergonha de tirar seu pote da bolsa e colocar na geladeira/microondas. Mas almoçar na frente do computador significa para todos os seus colegas que você está trabalhando. Então, não estranhe se eles vierem falar de trabalho enquanto você está comendo. Já tive que esquentar a marmita várias vezes por causa disso 😉
  • Aqui, não existe recisão como no Brasil. Se você sai da empresa por vontade própria, irá receber o que está sendo devido de horas trabalhadas e era isso. Mas você deve avisar sobre a sua saída com pelo menos duas semanas de antecedência, assim a empresa consegue achar outra pessoa ou realocar alguém para cobrir o seu lugar. É tipo um acordo de cavalheiros. Alguns estados adotam o sistema empregatício “at will”, onde empregadores podem demitir sem justa causa e sem necessidade de aviso prévio. Em caso de demissão em massa (mais de 50 empregados), as leis empregatícias exigem que o anúncio seja dado com 60 dias de antecedência e os empregados devem ser pagos no próximo dia de pagamento seguinte à data oficial da demissão.

Pacato cidadão
Ô pacato da civilização
Pacato cidadão
Ô pacato da civilização

No início, a gente acha que não tem direito nenhum, mas depois se dá conta que nem o empregado e nem o empregador pagam tantos impostos, e que a flexibilidade das regras permite com que a relação entre ambas as partes seja muito melhor. Eu não sou especialista em leis trabalhistas. Por isso, se você tem dúvidas, vale dar uma pesquisada na internet ou falar com um advogado 😉

“Sem trabalho eu não sou nada. Não tenho dignidade. Não sinto o meu valor. Não tenho identidade”

Depois de um ano e quatro meses morando em San Diego, finalmente, posso dizer: consegui um emprego na minha área! Mas para chegar até aqui foram muitos os passos dados, dezenas de tentativas e vários momentos de frustração. Ao mesmo tempo, foi um período de intenso aprendizado, autoconhecimento e determinação.

Algumas pessoas que acompanham o blog conhecem um pouco da minha saga, então vou tentar resumir o processo todo em um parágrafo. Levei seis meses para ter em mãos a permissão de trabalho (concedida para vistos específicos), um mês e meio para conseguir emprego na parte de serviços (que é o forte de San Diego) e oito meses para conquistar um emprego na minha área.

Confesso que durante os dois primeiros meses que eu entrei na loja, dei um tempo para as buscas, pois queria me focar no novo trabalho, lidar com a nova rotina e aprender todos os processos da empresa para conseguir manter o meu cargo e o meu salário. Depois do período de adaptação, voltei aos meus objetivos pessoais.

Muita gente tem a ilusão de que com a permissão de trabalho tudo é muito mais fácil, mas não é bem assim. O documento abre mais portas para você conseguir emprego na parte de serviços, com toda certeza, porém para vagas especializadas, é tão difícil quanto. Além disso, o documento não interfere no salário. O valor mínimo pago na Califórnia é $10 por hora e esse é o padrão da maioria das lojas, supermercados, bares, restaurantes e serviços em geral. Quem trabalha em restaurante ou bar consegue ganhar mais, pois recebe gorjetas. Quem é babá geralmente consegue fazer entre $12 e $15 por hora.

Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade

Então, se você vem de um histórico no Brasil com um bom cargo, salário, férias e todas as regalias das leis trabalhistas, pode começar a praticar o desapego e a paciência, caso você venha sem emprego na sua área previamente acertado por aqui.

Quero alertar que este não é um post para desanimar ninguém, muito pelo contrário. Quero é mostrar a realidade americana e a importância de se planejar e ter persistência. O sonho de morar em outro país e fazer dinheiro é algo que exige muito empenho. O mundo todo passa por uma crise, então realmente não está fácil conseguir emprego, agora imagine para quem não tem documentos.

Acredito seja mais fácil conseguir emprego em outros estados americanos ou países não tão turísticos, contudo a Califórnia recebe todos os anos milhares de imigrantes do mundo todo que estão tentando, assim como nós, uma vida melhor e isso faz com que a disputa por um cargo seja maior e, consequentemente, o valor por hora baixe. Sei de pessoas que trabalham com “bicos” por aqui e recebem muito menos dinheiro hoje do que há 5 anos atrás. Ser babá por aqui pagava muito bem tempos atrás. Hoje, vejo anúncio oferecendo $10, $12 e, em poucos casos, $15 a hora. E ainda tem gente que trabalha por menos, porque realmente precisa.

Ainda considero os EUA como um lugar cheio de oportunidades, mas aqui, assim como em qualquer lugar do mundo, você precisa ter referências, experiência, inglês fluente (isso varia de acordo com a função), carro próprio (varia também) e provar que é dedicado, comprometido e bom naquilo que faz para conquistar a confiança.

Eu tenho o meu ofício
Tem gente que não tem nada
E outros que tem mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar

Os americanos são bem exigentes em termos de pontualidade, produtividade e rapidez. E, como isso é cultural, eles sempre desconfiam de quem vem de outros países, outras culturas, pois muitas vezes não sabem como é a cobrança e a entrega do trabalho por lá. Por sorte, viemos de um país onde a maioria das pessoas trabalha muito, então pra nós é normal já chegar, fazer acontecer e entregar mais que o esperado. Por isso, o brasileiro, na maioria das vezes, tem um crédito grande por aqui.

Eu tentei indicação (obrigada ao sócios da W3Haus por serem tão queridos e continuarem ajudando os ex-funcionários com tanto carinho e empenho) e consegui uma entrevista. Infelizmente, não deu e eu não consegui descobrir o motivo para poder melhorar nas próximas oportunidades.

Depois disso, só consegui fazer mais uma entrevista presencial em um cargo próximo à área, mas como era muito técnico e eu não sou formada em Análise de Sistemas, não deu também. Daí em diante fiz mais uma entrevista por telefone para um cargo semelhante e não consegui mais nada.

Dedicada de uma a duas tardes ou manhãs por semana, dependendo do meu horário na loja, para enviar currículos. Foram quase duzentas tentativas. Fui em duas agências de emprego pra ver se conseguia ajuda ( e aqui agradeço de coração aos sócios da Brivia e da 3yz pelo envio de referências, vocês continuam fazendo a diferença na minha carreira e na minha vida <3). Porém, até hoje não recebi uma vaga deles.

Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
De todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar

Quando as minhas alternativas já estavam se esgotando e eu estava até pensando em começar a procurar emprego em outras cidades e, com isso, ter que me mudar, apareceu uma vaga em um dos sites que eu sempre buscava. Apliquei, fui chamada para uma entrevista, depois para uma segunda e então veio a tão sonhada resposta: sim, você está contratada!

Passado quase um mês, ainda não acredito que é verdade. Nas duas primeiras semanas, achei melhor não contar pra quase ninguém (vai saber se ia dar certo). Hoje, digo com todo orgulho que consegui e, por mais que pensasse em desistir em alguns momentos, eu continuei.

Acredito muito que quem faz o bem, recebe o bem, e uma hora ou outra chega a sua vez de brilhar na vida. Eu só não sabia que demorava tanto! Mas a Califórnia tem me ajudado todos os dias a aprender o significado de PACIÊNCIA e PERSEVERANÇA.

Obs.: vou contar mais detalhes sobre o processo de busca por emprego por aqui na página da Família nos Estados Unidos. Curtam lá 😉