“Sem trabalho eu não sou nada. Não tenho dignidade. Não sinto o meu valor. Não tenho identidade”

Depois de um ano e quatro meses morando em San Diego, finalmente, posso dizer: consegui um emprego na minha área! Mas para chegar até aqui foram muitos os passos dados, dezenas de tentativas e vários momentos de frustração. Ao mesmo tempo, foi um período de intenso aprendizado, autoconhecimento e determinação.

Algumas pessoas que acompanham o blog conhecem um pouco da minha saga, então vou tentar resumir o processo todo em um parágrafo. Levei seis meses para ter em mãos a permissão de trabalho (concedida para vistos específicos), um mês e meio para conseguir emprego na parte de serviços (que é o forte de San Diego) e oito meses para conquistar um emprego na minha área.

Confesso que durante os dois primeiros meses que eu entrei na loja, dei um tempo para as buscas, pois queria me focar no novo trabalho, lidar com a nova rotina e aprender todos os processos da empresa para conseguir manter o meu cargo e o meu salário. Depois do período de adaptação, voltei aos meus objetivos pessoais.

Muita gente tem a ilusão de que com a permissão de trabalho tudo é muito mais fácil, mas não é bem assim. O documento abre mais portas para você conseguir emprego na parte de serviços, com toda certeza, porém para vagas especializadas, é tão difícil quanto. Além disso, o documento não interfere no salário. O valor mínimo pago na Califórnia é $10 por hora e esse é o padrão da maioria das lojas, supermercados, bares, restaurantes e serviços em geral. Quem trabalha em restaurante ou bar consegue ganhar mais, pois recebe gorjetas. Quem é babá geralmente consegue fazer entre $12 e $15 por hora.

Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade

Então, se você vem de um histórico no Brasil com um bom cargo, salário, férias e todas as regalias das leis trabalhistas, pode começar a praticar o desapego e a paciência, caso você venha sem emprego na sua área previamente acertado por aqui.

Quero alertar que este não é um post para desanimar ninguém, muito pelo contrário. Quero é mostrar a realidade americana e a importância de se planejar e ter persistência. O sonho de morar em outro país e fazer dinheiro é algo que exige muito empenho. O mundo todo passa por uma crise, então realmente não está fácil conseguir emprego, agora imagine para quem não tem documentos.

Acredito seja mais fácil conseguir emprego em outros estados americanos ou países não tão turísticos, contudo a Califórnia recebe todos os anos milhares de imigrantes do mundo todo que estão tentando, assim como nós, uma vida melhor e isso faz com que a disputa por um cargo seja maior e, consequentemente, o valor por hora baixe. Sei de pessoas que trabalham com “bicos” por aqui e recebem muito menos dinheiro hoje do que há 5 anos atrás. Ser babá por aqui pagava muito bem tempos atrás. Hoje, vejo anúncio oferecendo $10, $12 e, em poucos casos, $15 a hora. E ainda tem gente que trabalha por menos, porque realmente precisa.

Ainda considero os EUA como um lugar cheio de oportunidades, mas aqui, assim como em qualquer lugar do mundo, você precisa ter referências, experiência, inglês fluente (isso varia de acordo com a função), carro próprio (varia também) e provar que é dedicado, comprometido e bom naquilo que faz para conquistar a confiança.

Eu tenho o meu ofício
Tem gente que não tem nada
E outros que tem mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar

Os americanos são bem exigentes em termos de pontualidade, produtividade e rapidez. E, como isso é cultural, eles sempre desconfiam de quem vem de outros países, outras culturas, pois muitas vezes não sabem como é a cobrança e a entrega do trabalho por lá. Por sorte, viemos de um país onde a maioria das pessoas trabalha muito, então pra nós é normal já chegar, fazer acontecer e entregar mais que o esperado. Por isso, o brasileiro, na maioria das vezes, tem um crédito grande por aqui.

Eu tentei indicação (obrigada ao sócios da W3Haus por serem tão queridos e continuarem ajudando os ex-funcionários com tanto carinho e empenho) e consegui uma entrevista. Infelizmente, não deu e eu não consegui descobrir o motivo para poder melhorar nas próximas oportunidades.

Depois disso, só consegui fazer mais uma entrevista presencial em um cargo próximo à área, mas como era muito técnico e eu não sou formada em Análise de Sistemas, não deu também. Daí em diante fiz mais uma entrevista por telefone para um cargo semelhante e não consegui mais nada.

Dedicada de uma a duas tardes ou manhãs por semana, dependendo do meu horário na loja, para enviar currículos. Foram quase duzentas tentativas. Fui em duas agências de emprego pra ver se conseguia ajuda ( e aqui agradeço de coração aos sócios da Brivia e da 3yz pelo envio de referências, vocês continuam fazendo a diferença na minha carreira e na minha vida <3). Porém, até hoje não recebi uma vaga deles.

Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
De todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar

Quando as minhas alternativas já estavam se esgotando e eu estava até pensando em começar a procurar emprego em outras cidades e, com isso, ter que me mudar, apareceu uma vaga em um dos sites que eu sempre buscava. Apliquei, fui chamada para uma entrevista, depois para uma segunda e então veio a tão sonhada resposta: sim, você está contratada!

Passado quase um mês, ainda não acredito que é verdade. Nas duas primeiras semanas, achei melhor não contar pra quase ninguém (vai saber se ia dar certo). Hoje, digo com todo orgulho que consegui e, por mais que pensasse em desistir em alguns momentos, eu continuei.

Acredito muito que quem faz o bem, recebe o bem, e uma hora ou outra chega a sua vez de brilhar na vida. Eu só não sabia que demorava tanto! Mas a Califórnia tem me ajudado todos os dias a aprender o significado de PACIÊNCIA e PERSEVERANÇA.

Obs.: vou contar mais detalhes sobre o processo de busca por emprego por aqui na página da Família nos Estados Unidos. Curtam lá 😉

“Garota, eu vou pra Califórnia. Viver a vida sobre as ondas. Vou ser artista de cinema. O meu destino é ser star”

Três meses e meio passaram-se desde o último post. Um longo intervalo para quem tinha se comprometido a escrever semanalmente suas experiências. Mas a vida é imprevisível e acabamos nos perdendo no turbilhão de atividades diárias e descontinuando aquilo que seria uma prioridade.

Foram tantas coisas que aconteceram nesse tempo, que serão necessários vários posts para colocar as experiências em dia. Pensei muito no post de “retomada”, porém, antes de falar sobre as três semanas que passei no Brasil, as novas trips feitas, as visitas recebidas e os novos cursos, vou falar de algo que tem ocupado boa parte do meu tempo e tem sido meu grande objetivo atual: conseguir um emprego. Acredito também que este tópico pode ajudar muitas pessoas que estão na mesma situação.

Eu dou a volta, pulo o muro
Mergulho no escuro
Sarto de banda
Na Califórnia é diferente, irmão
É muito mais do que um sonho

Sim, a Califórnia é um sonho de lugar, contudo nenhum recomeço é simples, ainda mais quando se trata de se recolocar no mercado de trabalho em outro país. Desde que voltei do Brasil, há um mês, tenho procurado um emprego na minha área. Antes da viagem, já deixei meu currículo e minha carta de apresentação prontos e validados pelo conselheiro da escola de inglês.

Aqui, todo tipo de informação pessoal é proibida de ser passada para o empregador, tanto no currículo, quanto na entrevista. Claro que existem meios do recrutador conseguir algumas informações pessoais suas, mas é algo que cabe muito mais ao entrevistado se sentir a vontade para falar enquanto se apresenta. Um site que me ajudou muito a criar o currículo e a carta foi o da escola de inglês, o qual possui vários modelos para fazer download.

A primeira coisa que fiz após ter o currículo pronto foi criar um perfil em inglês no LinkedIn. Depois, comecei a procura pelo ponto mais óbvio: Google. Listei todas as agências digitais da cidade e entrei nos seus respectivos sites verificando se havia vaga na minha área. As que tinham, entrava em contato. Como não obtive retorno de nenhuma (a não ser um e-mail automático de retorno), comecei a enviar meu currículo também para as agências que não possuíam vagas abertas. Paralelo a isso, me cadastrei em alguns sites como Monster, IndeedSimply Hired, entre outros, para procurar e receber news de vagas não só de agências, mas também de empresas privadas.

A vida passa lentamente
E a gente vai tão de repente
Tão de repente que não sente
Saudades do que já passou

Eu dou a volta, pulo o muro
Mergulho no escuro
Sarto de banda
Na minha vida ninguém manda não
Eu vou além desse sonho

É tanta coisa nova todos os dias acontecendo por aqui que realmente às vezes fica difícil sentir saudades do que passou desde que chegamos. Cada passo é um mergulho no escuro. E a coragem? Desde que comecei esta jornada de retorno a minha carreira, acabei desviando do meu caminho e enviando alguns currículos para trabalhar no comércio. Por mais que não seja minha área, é uma experiência que pode agregar conhecimento, experiência e, claro, dinheiro enquanto não consigo o meu emprego dos sonhos. Aproveitei que agora algumas empresas estão com vagas temporárias para as grandes festas de final de ano (Dia de Ação de Graças e Natal) e tentei arriscar. Acabei conseguindo duas entrevistas.

Em uma das entrevistas o processo foi feito em grupo. Imagina você sendo entrevistado em outro idioma, com outros três “concorrentes”, sendo o único estrangeiro e sem experiência nenhuma no varejo? O medo bateu logo que cheguei. Respirei fundo antes de entrar na sala e resolvi confiar no meu taco. Pensei “Mais que um não eu não recebo”e “Já ganhei pontos só por ter sido chamada e estar aqui”.

Assim como o currículo é diferente, as entrevistas também são. O foco aqui é totalmente profissional, sem perguntas pessoais, e o recrutador testa sua experiência através de perguntas em que você deve dizer o que faria se acontecesse uma situação x na empresa. Ou quando você fala das suas características, ele pede para citar exemplos disso no seu último trabalho. Na escola recebemos uma lista de perguntas padrões para nos preparamos antes de uma entrevista. Seguem abaixo:

“Please tell me about yourself”: aqui não é pra falar da sua vida pessoal, mas sim para se vender, dizer no que você é bom, quais são suas principais características e descrever resumidamente as funções exercidas nos últimos anos.

“Where do you see yourself in five years?”: dizer qual o cargo que quer alcançar na empresa, mas não esquecer de falar que é através do cargo que você está se candidatando que vai conseguir a experiência necessária para chegar no seu objetivo final.

“Why do you want to work here?”: uma das principais perguntas feitas por aqui. Por isso, é importante dar uma boa pesquisada sobre a empresa antes da entrevista e ter os dados na ponta da língua, mostrando o seu conhecimento sobre ela.

“What are your weaknesses?”: quando for falar de um ponto fraco, já diga o que está fazendo para melhorá-lo. No meu caso, falo do inglês, que ainda não é perfeito, mas que continuo fazendo aulas todos os dias para aprimorar.

“Do you have any questions for me?”: aqui você sempre tem que ter pelo menos umas duas perguntas prontas para fazer e elas não podem ser sobre benefícios e valores, mas sim sobre a rotina de trabalho, quais são os próximos passos do processo, quais as oportunidades de crescimento, etc. Seguem algumas sugestões: “Does this job usually lead to other positions?”, “What are the opportunities for advancement?”, “How would you describe a typical day for this position?”, “How are employees evaluated in your company?”, “If I were offered a job, how soon would you like me to begin?”, “What is the next step in the interview process?”.

Outras perguntas que podem surgir: “Tell me about a difficult situation you had to handle”, “How would your peers or co-workers describe you?”,  “What are your strengths?”, “How are your English skills?”, “Are you available to work nights and weekends?”.

Garota, eu vou pra Califórnia
Viver a vida sobre as ondas
Vou ser artista de cinema
O meu destino é ser star

O saldo final até agora para a minha área foi só uma entrevista por telefone. Assim como no Brasil, tudo é muito mais fácil quando se tem um amigo ou conhecido que possa recomendar você para a vaga. Por isso, o processo de entrar em contato por conta própria com as empresas é muito mais lento.

Nesse meio tempo, acabei participando de um evento de Project Manager na escola onde faço o curso na mesma temática para fazer alguns contatos. Paralelo a isso, tenho feito alguns amigos nos cursos de marketing. Quando as pessoas são da minha área ou possuem uma rede grande de contatos, pergunto se posso adicioná-las no LinkedIn. No LinkedIn também estou buscando profissionais de RH da minha área e enviando e-mail me apresentando e perguntando se eles sabem de alguma vaga que se encaixe no meu perfil.

Sei que a descrição do processo parece simples, mas não é. Alguns sites pedem para você fazer um cadastro completo (que incluiu toda sua experiência profissional, educação, cursos, 90 perguntas de múltipla escolha sobre situações que podem acontecer no dia a dia da empresa, etc.) e você acaba perdendo uma hora só para se candidatar a uma vaga. E, para cada e-mail enviado, é preciso mudar algumas características do currículo e reescrever a carta de apresentação. O processo é lento e exige muita paciência.

Já bateu o pensamento de que é meio frustrante dar vários passos atrás para recomeçar. De cada 20 currículos que você envia, somente um dá retorno. Às vezes, nenhum. Você até tem chance sim de ser star na Califórnia, mas precisa lutar muito para ter seu lugar de destaque ao sol. Ninguém disse que seria tão difícil recomeçar. Porém, também ninguém falou que seria possível fazer melhor quando se tem uma segunda chance, e que nunca é tarde pra aprender a ser mais humilde e otimista.