“Quero lhe contar como eu vivi. E tudo o que aconteceu comigo. Viver é melhor que sonhar”

Nunca imaginei que outro ano fosse superar o número de desafios que 2015 me trouxe. Mas aí 2016 entrou com os dois pés na porta e mostrou que a vida é como andar em uma montanha russa de olhos vendados.

Foi em 2016 que consegui um emprego na área por aqui. Mas não foi qualquer vaga. Estou num cargo que nunca tinha trabalhado antes e isso faz com que eu me desafie a aprender coisas novas todos os dias. E o mercado no qual estou inserida é predominantemete masculino, e por isso sou testada constantemente. Além disso, tem o adicional da língua e da cultura, o que faz eu reaprender o jeito de trabalhar com comunicação a cada novo briefing que chega.

Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração…

Foi em 2016 que eu deixei o medo de dirigir de lado. Hoje, ando todos os dias pela cidade com um carrinho velho que tem sido o meu melhor amigo.

Neste ano, decidi cuidar mais de mim. Corri mais de 200km, voltei a fazer Pilates e andei muito de bike. Aprendi que a alimentação muda tudo e, por isso, deixei muitas coisas de lado e passei a ser bem mais regrada. O resultado: não fiquei mais doente e me sinto bem mais disposta.

Aprendi a julgar menos, a respeitar mais, a lidar melhor com a saudade e a distância. Perdi o medo de viajar sozinha de avião e a falar em público em outro idioma. Participei de feiras internacionais e conheci muita gente bacana de todos os lugares do mundo. Até apareci na televisão dando entrevista!

Aprendi a fazer malas pequenas e a manter uma alimentação saudável mesmo longe de casa. Aprendi a ter menos apego por coisas materiais e a optar cada vez mais por coisas usadas.

Descobri que por aqui o machismo também existe e, infelizmente, ele é bem forte. Aprendi muito sobre política americana e acompanhei de pertinho uma eleição. Assisti aos debates, li muitas notícias e escutei diversos podcasts pra ter uma opinião e um entendimento mais consistente das coisas.

Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando…

Deixe as redes sociais um pouco de lado e resolvi guardar pra mim muitas das minhas opiniões. Deixei de seguir muita gente que insiste em ter opiniões radicais e expressa violência em suas palavras. Comecei a fazer menos coisas por obrigação e a tentar agradar menos os outros.

Recebemos muitos amigos queridos e tivemos a honra de mostrar lugares incríveis pra eles. Desafiei meus pais a viajarem sozinhos e a conhecerem um mundo completamente novo. Eles aceitaram a ideia maluca e dizem que vão voltar no próximo ano.

Participei de dois festivais no meio do deserto, fui a diversos shows e trips malucas. Estou cada vez mais deixando de lado as diversas horas de programação e decidindo me entregar mais para as experiências de última hora.

Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem…

Este ano foi teimoso, difícil e desafiador. Ele quebrou muitos paradigmas, acabou com medos e fez com que eu descobrisse uma coragem que nem sabia que existia dentro de mim. Ele também machucou e foi bem cruel em alguns momentos. Ao mesmo tempo, ele se mostrou incrivelmente surpreendente e cheio de coisas boas.

A intensidade de 2016 vai me ajudar a ser alguém bem mais forte, e espero que melhor, em 2017. Já começo uma virada cheia de planos, sonhos e sem medo.

Que 2017 seja leve, cheio de aventuras, desafios, descobertas e aprendizados. E que não falte amor no coração e coragem para encarar todos os novos desafios que vão chegar.

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“Eu tenho tanto pra lhe falar. Mas com palavras não sei dizer. Como é grande o meu amor por você”

No dia 2 de novembro fez dois anos que meu avô Lino faleceu. Ele foi o avô com quem eu tive mais contato, foi um dos meus maiores exemplos e um dos meus melhores amigos. Por coincidência do destino ou não, ele partiu um mês antes da minha mudança. Naquela época, as emoções se misturaram muito e em alguns momentos eu até pensei em desistir de sair do Brasil, pois sabia que seria muito difícil lidar com situações como essa à distância.

Mas quando meu avô ainda estava no hospital, ele disse que estava muito feliz por mim e que eu deveria aproveitar esta oportunidade única da vida. Ao mesmo tempo, meu pai dizia que não podemos mudar o percurso da vida das pessoas que a gente ama, nem mesmo estando perto delas. E foi com essa força passada pelos dois, que eu consegui enfrentar os primeiros meses de distância da minha família.

Há um ano atrás, eu escrevi o texto que segue abaixo, mas só agora tive coragem de publicá-lo. A dor da saudade ainda segue muito grande, e provavelmente nunca irá passar, mas hoje já consigo lidar melhor com ela. Então, se você está pensando em morar em outro lugar (seja outra cidade, estado ou país), tente se preparar emocionalmente para todas as possibilidades que podem acontecer. Sinto dizer, mas você enfrentará muitas perdas.

E quando digo muitas, estou me referindo também a não participação de eventos felizes, como casamentos, aniversários, festas, encontros de família e dos amigos, nascimentos dos filhos dos amigos ou de algum afilhado, festas de final de ano, etc. E claro, você também irá sentir por estar longe quando um amigo seu precisar de ajuda ou de um abraço, ou quando algum familiar estiver doente e você não puder estar presente para fazer o que for preciso, ou ainda quando alguém partir. Em alguns desses momentos você certamente irá se perguntar se realmente está valendo a pena estar tão longe.

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Eu tenho tanto pra lhe falar….

Acredito que a palavra saudade traz consigo um sentimento tão forte, que é quase impossível não compará-la com a equivalência da força da palavra amor. Sempre usei com frequência essa palavra, pois sinto falta de muitas pessoas e momentos. Mas foi no dia 01 de novembro de 2014 que eu realmente pude entender – e sentir – o tamanho da sua magnitude.

Naquela semana, eu estava em São Paulo à trabalho.  Como era final de semana, resolvi conhecer o Museu da Língua Portuguesa com dois colegas. Eu não queria sair, pois meu coração estava apertado de dor. Porém, meus colegas insistiram e eu fui lá realizar um sonho, já que há muito tempo queria conhecer o museu. Eu estava totalmente encantada com toda aquela poesia ao meu redor. Ao final daquele momento mágico, a ligação chegou. Meu avô tão querido tinha partido. Guardo até hoje as palavras do meu pai “o vozinho descansou”.

O desespero tomou conta de mim. Eu não sabia o que fazer, para onde correr. Já tínhamos nos despedido naquela semana no hospital, porém é incrível como o ser humano sempre carrega consigo a esperança de que um milagre aconteça (ainda bem que somos assim, pois é a esperança que nos move). E foi com a música “Como é grande o meu amor por você”, do Roberto Carlos, que eu disse o meu adeus pra ele. Foi essa a música que eu cantei no último momeno que estivemos juntos. Confesso que até hoje não consigo mais cantá-lá ou escutá-la. É como se um nó se formasse na minha garganta e, ao mesmo tempo, um turbilhão de lembranças toma conta da minha mente.

Antes da chegada daquela notícia, eu já tinha sofrido e chorado muito, pois a hora dele estava chegando, era algo inevitável. Contudo, a minha maior dor naquele dia foi estar longe da minha família, dos meus tios, da minha avó, dos meus primos e, principalmente, do meu pai.

O amor que sinto pelos meus pais ultrapassa qualquer palavra que tenha significado de grandeza. Mas meu pai é meu herói, meu exemplo, meu melhor amigo e um grande parceiro. E ele sentia exatamente isso pelo meu avô. Eles sempre estavam juntos fazendo todo tipo de indiada: construindo um galinheiro ou um galpão, podando uma árvore, indo ao supermercado, pescando, passeando, jogando carta…

Naquele dia, ele estava perdendo o seu pai e o seu melhor amigo, e eu não estava lá. E eu estava perdendo meu avô mais querido, meu xodó, e eu não estava lá. Foi a partir desses acontecimentos que eu pude entender a mistura de sentimentos entre dor e saudade.

Dói chegar na casa dele e não ver a sua moto estacionada na garagem. Dói sentar no sofá da área e não encontrar ele no lugar cativo servindo o chimarrão para toda a família. Dói não poder abraçá-lo e dançar alguns passos de música gauchesca, o cumprimento que sempre fazíamos. Dói não escutar as risadas dele e sentir aquelas mãos ásperas fazendo carinho no meu braço. Dói não escutar pela centésima vez as histórias de antigamente e rir como se fosse a primeira vez que elas estivessem sendo retidas do baú. Dói não ganhar de presente umas folhas de couve ou alface, ou um saco de bergamotas ou jabuticabas. Dói olhar para os passarinhos que sempre estão na árvore em frente ao sofá da área e não escutar as artes que eles aprontaram naquela semana.

Dói olhar para o fogão a lenha que ele fez e não ver fogo, pinhão, quentão ou mocotó. Dói olhar para a churrasqueira e não ver ele ali com o avental do Internacional e um sorriso largo no rosto. Dói entrar na sua marcenaria e encontrar apenas um vazio gigantesco. Dói olhar para as fotos que estão na cristaleira e ver todos os momentos que ele passou ao lado da família, e saber que a partir de agora ele não estará mais nos novos acontecimentos. Dói entrar no quarto e não encontrar ele lá tirando um cochilo depois do almoço. Dói olhar para uma vara de pesca e saber que não faremos mais nenhuma competição de quem pega o maior peixe do dia. Dói fazer qualquer evento na casa da vó e não ter ele por perto sendo o centro da organização da festa e da bagunça. Dói olhar para o balde de milho das galinhas e saber que ele não vai mais dizer para eu não atirar comida escondida para elas. Dói olhar para a minha vó e não ver ele chamando ela dos mais doces apelidos e correndo para agradá-la. Dói não ver os dois expressando todo aquele amor na frente de todos, mesmo depois de 60 anos de casados.

Acredito que o maior legado que ele deixou foi ser um exemplo para toda família e mostrar que podemos mudar a vida dos outros apenas sendo nós mesmos. Ele nunca teve muito dinheiro, mas nem por isso negava ajuda. Ele sempre mostrou que existem outras formas de fazer uma pessoa seguir em frente. Ele escutava, dava conselhos, incentivava. Não teve uma vez que não perguntou como estava o meu trabalho e, enquanto eu respondia, ele já dizia que eu seria um sucesso. Ele fazia isso com todo mundo.

Ele nunca deixava de contar uma história, uma piada, de dar uma risada, de abraçar, de olhar no olho, mostrar o quanto se importava e o quanto estava feliz por nos ver. Ele era um ser tão iluminado, que quando partiu, deixou um vazio do tamanho de uma cratera em vários corações. Ainda é impossível acreditar que ele não está mais entre nós, pois a sua presença continua sendo constante. Ele fez o bem pra tanta gente, que esta onda de coisas boas continua a se propagar. Até na cama do hospital, quando ele ainda estava lúcido, não deixou de fazer planos. Continuou elogiando, cantando, contando piadas.

Ele foi enterrado no dia que completaria 84 anos. Não por coincidência, seu aniversário era no Dia dos Finados, dia no qual o cemitério sempre está cheio de gente e de novas flores. Ele escolheu partir num dia de festa. Ele era uma festa em pessoa. Uma festa de amor, de compaixão, de amizade e de carinho.

Dói tanto lembrar, mas doeria mais ainda se não tivéssemos vivido tantos momentos juntos. Ainda nos encontramos nos meus sonhos e isso ajuda a matar um pouco da saudade. Serei eternamente grata por ele ter me ensinado o significado da palavra saudade e por saber o quanto ela pode ser intensamente sentida a cada dia.

Saudade é o amor que fica. E o amor por ti, vô Lino, será eterno ❤

“Imagine there’s no countries. It isn’t hard to do”

Não vou expressar minha opinião política sobre o Impeachment da Dilma, mas o tópico deste post está ligado a isso. Hoje, li muitos posts no Facebook que me deixaram chateada, porém um deles me abalou profundamente. Ele dizia mais ou menos o seguinte: “A pessoa fica fazendo mimimi, mas mora nos EUA, na Alemanha, na Austrália…”. Eu reli umas duas vezes pra ver se não era coisa da minha imaginação. Infelizmente, era a realidade, e os comentários que se seguiram foram ainda piores.

Só porque uma pessoa não mora mais no seu país de origem, não significa que ela é menos cidadã, que tem menos direitos e que não pode expressar a sua opinião sobre um assunto que afeta a vida dela direta ou indiretamente.

Eu moro nos Estados Unidos sim, mas continuo pagando impostos no Brasil, justificando meu voto e fazendo declaração do imposto de renda. Eu não moro mais no Brasil, mas toda minha família e meus amigos seguem lá e eu me preocupo com o futuro deles. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileira, falo português todos os dias, mantenho minhas tradições e tenho muito orgulho disso. Eu não moro no Brasil, mas a maioria dos meus melhores amigos em San Diego são brasileiros e eles também carregam toda essa bagagem com eles. Eu não moro no Brasil, mas acompanho todos os dias as notícias do país pra saber o que está acontecendo. Eu não moro no Brasil, mas sigo defendendo o meu país e tentando explicar para as pessoas de outras nacionalidades como temos muito mais coisas para oferecer do que apenas Carnaval e caipirinha. Eu não moro no Brasil, mas torço todos os dias para que as coisas melhorem. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileira e sei exatamente o que está se passando e o sentimento que tudo isso causa. Eu não moro no Brasil, mas vivi 27 anos da minha vida nesse país repleto de encantos mil e, ao mesmo tempo, cheio de desigualdades sociais. Eu não moro no Brasil, mas posso voltar a qualquer momento, porque se tudo der errado, é lá que eu sempre serei acolhida, é lá que o meu sotaque não faz a mínima diferença, é lá que as minhas experiências profissionais valem de verdade, é lá que eu conquistei um monte de coisas boas que pra sempre vou me orgulhar.

E eu poderia não fazer nada disso. Poderia apenas ignorar a existência do Brasil e seguir com a minha vida aqui, e mesmo assim eu ainda teria o direito de opinar sobre o cenário político e econômico do meu país. Eu não abandonei o Brasil, eu não fugi, eu não mandei tudo para o espaço por causa do cenário atual. Eu mudei, porque tive uma grande oportunidade na minha vida e agradeço todos os dias por ela ter acontecido. E mesmo se tivesse abandonado tudo por não aguentar mais, ainda assim teria o direito de opinar.

Acredite, não é porque você mora em outro continente que não sofre junto, que não torce junto, que não entende o que está se passando, que só serve pra falar mal do seu país de origem e exaltar o seu local de moradia atual. Eu sempre vou estar presente, mesmo de longe, em cada mudança que acontecer. Eu mando mensagem pra minha família e pros amigos mais próximos quando vejo que tem um temporal na cidade, então me diz como eu não vou me preocupar e estar por dentro de um processo de mudança política? Eu sei que olhar de fora não é a mesma coisa que estar experienciando na pele o que está acontecendo. Mas isso não diminiu o meu direito de ser brasileira seja onde for.

Eu sonho com o dia em que todas as pessoas tenham a oportunidade de conseguir olhar para os outros sem preconceito, inveja, intolerância e pré-julgamentos. Eu sonho com o dia em que o ódio das pessoas seja transformado em sentiments bons e que gerem ações que façam a vida de alguém melhor. Já falei isto aqui uma vez e vou repetir. Você não precisa mudar de cidade, estado, país ou continente para enxergar o mundo de outra forma e respeitar a opinião do outro. Enquanto isso, sigo acreditando e torcendo pelo meu país e excluindo todos aqueles que não conseguem entender o que isso significa.

 

“Veraneio Vascaína vem dobrando a esquina”

Faz um tempo que não posto aqui no blog, mas a visita dos meus pais e o emprego novo acabaram sendo o meu foco no último mês.

Nesse meio tempo, aconteceram várias coisas, mas uma delas eu acho especialmente importante compartilhar com vocês. Há três semanas atrás, celebrei meu aniversário no Fanuel Street Park, localizado em Mission Beach, San Diego. O parque é muito bonito, cheio de grama e árvores, com parquinho para as crianças e em frente à baia. Lugar perfeito para fazer um churrasco com os amigos. Pois bem, foi o que pensei. Então, convidei mais de 20 amigos lindos e meus pais para comemorar comigo a chegada dos 2.9. Como em todo churrasco que fazemos por aqui, levamos a farofada e as bebidas.

O consumo de bebidas alcoólicas e o porte de garrafas de vidro são proibidos em praias e parques aqui em San Diego (apenas alguns parques permitem, mas são raros). Porém, é extremamente comum você ver as pessoas levando latinhas ou long necks dentro do cooler e servindo a bebida em copos descartáveis coloridos (aqueles famosos copos vermelhos que vemos em todos filmes de comédia americana). Então, como bons brasileiros, sempre seguimos esse mesmo modelo dos gringos malandros que levam bebida para lugares públicos.

O aniversário corria muito bem e alegre até certa hora da tarde, quando um carro da polícia, estilo carrinho de golfe, veio parar no meio da turma. Os policiais disseram que tinham recebido uma denúncia dos vizinhos de que estávamos bebendo cerveja. Àquela altura, já não tínhamos o que fazer para esconder nada, então permitimos que eles olhassem nossos coolers. Obviamente, eles encontram as cervejas e pediram uma explicação. Daí em diante nem é preciso explicar mais nada. Os policiais acabaram perguntando quem eram os donos dos coolers e começaram a fazer as multas. No fim, eu e uma amiga recebemos multa por portar garrafas de vidro e bebida alcoólica, outra amigo recebeu multa por estar portando garrafas de vidro (elas estavam vazias dentro do cooler dele) e outro amigo recebeu uma multa por estar segurando um copo com cerveja.

Não preciso nem dizer que o aniversário acabou por ali. Claro que fique muito chateada e envergonhada por meus convidados receberem multas na minha festa e por eu receber uma multa também, a primeira da minha vida, na frente dos meus pais, ainda por cima no Dia dos Pais aqui nos Estados Unidos. Mas o erro foi nosso.

Por mais incrível que pareça, os policiais foram extremamente educados e tranquilos durante todo o tempo. O trabalho deles foi muito mais de conscientização do que de aplicar uma multa. E isso é o que quero destacar neste texto. A polícia precisa dar a multa para a pessoa aprender, para doer no bolso e para ela não repetir mais esse erro. Durante todo o tempo que eles estiveram conosco, os policiais explicaram o quão perigoso é portar garrafas de vidro em parques e praias; o quanto isso pode machucar alguém, especialmente crianças e animais; o quanto é perigoso beber e dirigir, etc. Saímos todos dali com sentimento de culpa e entendemos que estávamos errados.

No meu caso e da minha amiga que estávamos portado os coolers e não fomos pegas bebendo, existe uma multa específica. Você tem uma chance de não ir pra corte prestar esclarecimentos se, dentro de cinco dias após o recebimento da multa, entrar no site que o policial indicar, pagar uma taxa de $40 e prestar trabalho voluntário. Esse trabalho voluntário consiste em assistir 2h de aula teórica e 4h de limpeza de uma praia ou parque.

O policial nos explicou que o lugar onde estávamos era perigoso tempos atrás e que foi através do trabalho da vizinhança, de denunciar e ajudar a polícia, que ele se tornou um bom lugar hoje em dia. Então, os vizinhos sempre irão fazer esse tipo de denúncia quando eles verem que alguém está desrespeitando as regras do lugar. E para isso também existe uma placa com as regras do lugar em todos os parques e praias, a qual ignoramos.

Cheguei em casa naquele dia e fui direto acessar o site indicado pelo policial. Ainda estou esperando a cartinha dizendo quando terei que assistir à aula e fazer o voluntariado. Meu amigo que foi pego com o copo de cerveja na mão não teve a mesa sorte. No caso dele, ele precisa ir direto para a corte prestar esclarecimentos e certamente o valor da multa será maior.

Talvez a cartinha nunca chegue, talvez leve mais uma mês, mas o fato é que eu não fui mais pra praia levando nenhum tipo de bebida que não seja água ou suco em garrafas plásticas. Diferente do Brasil, aqui não existem quiosques na beira da praia que vendem comida e bebida, tampouco pessoas passando com isopor e vendendo aqueles lanches tão maravilhosos como milho, queijo assado, biscoito globo, esfiha, etc. É proibido. Por isso, é muito comum cada um levar seu isopor/cooler com os seus suprimentos para o dia. É por isso também que eu digo que os gringos são muito mais farofeiros que nós, até porque eles não têm outra opção.

Mas voltando ao ponto principal, fica aqui o meu alerta. Se você for para qualquer lugar público em San Diego, não leve bebidas alcoólicas ou garrafas de vidro. E, se levar, fique consciente das consequências que isso pode acarretar. Por aqui, a famosa frase “mas eu não sabia, eu sou só turista” não funciona. Aqui não existe jeitinho, conversa ou propina. A regra é lei, sem exceção, e ela se aplica a qualquer um, independente de quem você é e de onde você vem.

 

“Porque que eu sou apenas movimento. Sou do mundo, sou do vento. Nômade”

Devido aos últimos acontecimentos políticos e econômicos do Brasil, somados aos velhos problemas de falta de investimento em educação, saúde, segurança, empregos, etc., alguns amigos vêm falar comigo sobre o que é preciso para mudar de país e, consequentemente, de vida.

A resposta parece ser complexa, afinal você está deixando tudo para trás, então só pode ser algo muito difícil de ser feito. Mas na realidade a resporta é muito mais simples do que parece. Para ajudar nessa reflexão, sugiro que você assista ao vídeo que uma grande amiga fez contando como ela mudou de país com o marido e as duas filhas pequenas. Já adianto que concordo com 100% dos seus argumentos e faço este post com o objetivo de complementar suas ideias.

A minha casa está onde está o meu coração
Ele muda, minha casa não
No campo, em minas, terras gerais ou qualquer lugar
Onde estou, a minha casa está

Porque que eu sou apenas movimento
Sou do mundo, sou do vento
Nômade

Sei que muita gente não tem o sonho de morar em outro lugar e nem se imagina fora da sua cidade, do seu estado (então que dirá do Brasil!). Outros, já nascem com o chip que diz que eles são cidadões do mundo e gostariam de desbravar as oportunidades que podem aparecer. Eu, por exemplo, nunca tive o sonho de morar fora, sempre quis conhecer outro lugares, mas nunca me imaginei longe do meu país. Porém, os acontecimentos muitas vezes fazem com que você reveja seus conceitos e comece a cogitar uma vida melhor para si, para o seu companheiro ou para seus filhos.

Hoje, infelizmente, eu não consigo mais me imaginar no Brasil construindo uma família. Só de pensar que meus filhos não terão diversos espaços públicos para brincar, escolas públicas de qualidade, várias opções de apartamentos/condomínios com espaços para crianças sem ter que pagar o dobro do preço por isso, incentivo à prática de algum esporte ou o aprendizado de algum instrumento, empresas que oferecem empregos flexíveis para as mães e, principalmente, segurança em qualquer lugar que ele for com os amigos, eu já desisto da ideia de um dia poder começar uma família. Sei que estou sendo radical e tenho várias amigas com filhos no Brasil, porém eu acompanho a aflição delas de estarem o tempo todo com medo.

Como já disse em outros momentos, nem tudo são flores. Os Estados Unidos, assim como todos os países, tem seus problemas, algumas coisas que funcionam bem no Brasil não funcionam aqui, mas poder sair de casa sem medo de ser assaltado, machucado ou morto na rua é um tópico que supera todas as dificuldades.

Porque quando paro sou ninguém
Não declaro onde ou quem
Nômade

Meu endereço é o sítio estrelado de norte a sul
Ele muda a cada estação
Na boca do sertão, na varanda do seu olhar
Onde estou, a minha casa está

Então, o primeiro passo a ser dado é fazer o seu sonho/ideia virar realidade. É preciso ter planejamento financeiro, pesquisar bastante sobre o lugar, falar com amigos ou conhecidos que moram ou visitaram esse lugar, procurar um lugar para morar e alternativas de como se manter. Tem gente que guarda dinheiro e tira meio ano ou um ano sabático; outros vêm com visto de estudante, se matriculam em um curso e trabalham durante o tempo que estão fora da escola; outros vêm com visto de tursista e continuam tocando seus negócios no Brasil à distância; e assim por diante.

Planejamento racional de todas as necessidades que você irá ter é essencial, mas a vontade de querer mudar, de estar disposto a encarar o desafio, faz parte dos outros 50% do objetivo. E dentro da vontade está a prática do desapego e estar aberto ao novo estilo de vida que você irá levar. Não é porque você estará na Califórnia, na Tailândia ou em Sidney que nenhum problema irá acontecer e que será tudo lindo. Lembre-se que a cultura, a língua, a comida, o jeito de pensar e agir são totalmente diferentes do seu país.

Eu abri mão da minha carreira e ainda sigo na busca de um emprego na área. San Diego não é a melhor cidade dos Estados Unidos para eu me recolocar no mercado de tecnologia (nesta área o melhor seria morar em San Francisco ou Los Angeles), contudo sigo tentando. Enquanto isso, trabalho em uma loja de departamento e faço freelas. Confesso que foi difícil no início tirar da cabeça que eu estava rebaixando toda a minha escolaridade e minhas experiências profissionais. Hoje, eu vejo que estou aprendendo muita coisa nova e já consigo olhar de forma diferente para a minha carreira. Conheci pessoas, histórias de vida, aprendi novas coisas e até uma nova língua (estou cada dia melhor no espanhol). Então, mudar muitas vezes significa dar passos para frente, mesmo que eles sejam de formiguinha.

Porque quando passo sou alguém
Sou do espaço, sou do bem
Nômade

A minha carne é feita de tudo que vai e vem
Tempo, nuvem, aflição também
Encontro e perda ao mesmo tempo, eu não vou parar
Onde estou, a minha casa está

O problema de mudar é que só de pensar no esforço que será preciso empregar para colocar em prática a ideia, já faz com que muita gente desista. Mas mudar de país é algo realmente simples de ser feito, sério mesmo! Não é preciso anos de planejamento, no nosso caso levamos um ano entre a ideia e a materialização. Claro que cada caso é um caso, porém as dificuldades não podem fazer com que você se acomode. Assim como a maioria dos amigos que conheço aqui planejou sua mudança, outros vieram na cara e na coragem, só com a roupa do corpo. Sim, é muito mais difícil recomeçar assim, mas eles não ficaram sentados no sofá criando desculpas e sofrendo por antecipação sobre as coisas que iriam ter que enfrentar.

Abra sua visão, converse com amigos, vizinhos, pessoas no ônibus, no café. Faça uma lista de tudo que você irá precisar para mudar de país, assim como faça uma lista de tudo que você quer fazer nesse lugar (lugares para visitar, restaurantes, esportes…) e todos os dias ao levantar, olhe para as listas e siga sua meta. Leia livros e blogs sobre pessoas que mudaram de país e começaram uma nova vida. Entre nas comunidades no Facebook de brasileiros que vivem nesse lugar e faça perguntas, interaja, já vá se familiarizando com a realidade do lugar. Faça tudo que for possível para se sentir mais seguro sobre a sua escolha. Se der, visite esse lugar antes de fazer sua mudança definitiva, veja se ele realmente é aquilo que você imagina e que vai te fazer feliz.

É muito difícil sair da zona de conformo, mas eu garanto que depois que você faz isso uma vez, vai ficar constantemente se perguntando por que demorou tanto.

“Todos os dias é um vai e vem. A vida se repete na estação.”

Nesta semana, completarei cinco meses de vida nova em San Diego. Ontem, jantando com um casal de amigos brasileiros, contei histórias de vida das quais tomei conhecimento desde que passei a fazer parte da comunidade de imigrantes deste novo mundo. O ditado costuma diz que “sonhar não custa nada”, porém para algumas pessoas sonhar pode custar a liberdade e o próprio sonho. E foi com esse pensamento que acordei hoje de manhã e passei a sentir ainda mais intensamente a constante rotina de chegadas e partidas que presencio. A rotina da qual também passei a fazer parte.

Maria Rita descreve em frases curtas a relação entre “Encontros e Despedidas”, mas a simplicidade dos versos, na verdade, carrega uma imensidão de sentimentos que acontece a cada ida e vinda.

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Na escola que estudo, todos os dias chega um novo aluno, e todos os dias alguém também se despede. Hoje, foi a vez de um brasileiro, que passou seis meses em San Diego com a esposa e os dois filhos, dizer até logo. Ele vai com a certeza de que no próximo ano retorna para ficar de vez. Já ontem, uma menina do Cazaquistão passou a integrar a turma. Faz uma semana que ela mora em San Diego. Antes, vivia em Los Angeles com o namorado português, porém decidiu largar tudo para viver perto dos amigos, também cazaques, que moram aqui.

Nunca fui boa em despedias e desapegos. Contudo, tive que aprender, mesmo sem querer, a dizer adeus, assim como dar as boas-vindas. Ainda não consigo controlar a explosão de sentimentos que sinto quando penso na minha família que está no Brasil ou o aperto que dá no coração quando lembro daqueles que partiram para sempre, como meu avô Lino e minha avó Ana. Constantemente meus sonhos são com todos aqueles que há muito não vejo. O inconsciente saber ser poderoso e cruel. Constantemente, ele busca em nossa memória histórias e rostos para nos lembrar do mundo que existe para além da cegueira que vivemos ao tentar buscar o segredo da felicidade e da vida estável.

Há um mês, tive que me despedir da primeira grande amizade (sem ser brasileira) que fiz por aqui. A Jara voltou para Minorca, uma ilha da Espanha, pois precisa começar a faculdade e construir sua carreira. Uma menina de 19 anos, com a maturidade de uma mulher de 30, que deixou uma saudade enorme e um ensinamento gigante: “lute por aquilo que você acredita”. Ela não entendia como eu dava conta de tudo e eu até hoje busco entender de onde ela tirou coragem para ficar seis meses longe da sua família, vir para um país completamente sozinha para aprender inglês e buscar respostas para o seu futuro. Segundo ela, seus pais sempre a incentivaram a criar novos laços, a nunca ficar só na comodidade do ninho que eles construíram com tanto amor para ela. Compartilhamos livros, risadas, confidências, almoços, jantares e fotos. Aprendemos sobre amizade, distância e saudade.

Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir

Não é fácil resumir o que aprendi sobre o significado de chegar e partir nesses 150 dias, mas tentarei, assim como Maria Rita, simplificar as grandes escolhas que muitas pessoas fizeram. A simplicidade é proposital para que seja possível enxergar todo o peso das decisões tomadas que estão implícitas nas entrelinhas.

Teve gente que chegou para ficar e que: vendeu sua casa e veio com o filho adolescente com medo da violência na Polônia; vendeu seu carro, o único bem que tinha no Brasil, para tentar uma nova vida com sua namorada, mesmo que isso tenha significado passar a entregar pizza; continuou com seus negócios no México e veio com o marido e os dois filhos adolescentes para abrir novas franquias em San Diego; deixou a Itália para acompanhar a esposa, que recebeu uma oportunidade de trabalho em San Diego, e enquanto ele aguarda seu Green Card, trabalha como voluntário em um aquário na cidade; está há 15 anos morando na Califórnia e volta uma vez por ano para a China como visitante; veio da Argélia para acompanhar o marido e só vai voltar ao seu país de origem no próximo ano para realizar a cerimônia religiosa do casamento; é filipino, mas já morou na Arábia Saudita por um tempo e agora está há muitos anos em San Diego com toda a família desfrutando a poesia da vida; deixou o Iraque e está vivendo feliz há 25 anos nos Estados Unidos.

Tem gente que vem e quer voltar e que: está há 14 anos vivendo em San Diego com o marido e o filho de oito anos, mas todos os dias quer voltar para a Colômbia; está há dois meses na cidade, mas louca de vontade de voltar para o Brasil em julho, pois a vida não está sendo fácil por aqui; teve que deixar a filha de menos de um ano na Arábia Saudita para seus pais a criarem dentro das tradições, enquanto termina o mestrado nos Estados Unidos; veio estudar inglês e fazer festa por alguns meses e voltou para a França.

Tem gente que veio só olhar e que: saiu da Suíça para ficar um ano e meio em San Diego com o marido, o qual trabalha em uma empresa americana, mas como ela não consegue emprego na sua área devido ao visto, está ganhando um dinheiro extra como nanny; partiu da Guatemala há dois anos e está morando com uma tia em San Diego, mas não sabe o que fará no futuro; trabalhou durante um tempo no Brasil e resolveu tirar alguns meses sabáticos para surfar na Califórnia; está morando há um mês na casa de uma família e na metade do ano volta para a Espanha; veio do Equador, frequentou a aula durante um mês e nunca mais voltou; deixou a Síria para estudar e trabalhar em San Diego e está decidindo o que fará no próximo ano; veio da Rússia com o marido, tem medo de se relacionar com estranhos e comparece apenas a cada 15 dias na aula.

São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida

“Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia. Eu não encho mais a casa de alegria. Eu não vou me adaptar.”

Esta semana o tema das aulas de inglês foi sobre “cultural shock”, ou seja, o choque cultural pelo qual passamos quando mudamos de país. O interessante foi notar que TODOS os quarenta colegas ( a turma é composta por pessoas de 26 nacionalidades diferentes) identificaram-se com os sintomas causados por esse processo de mudança. Segundo os estudos feitos sobre o assunto, passamos por cinco estágios de adaptação quando não somos mais apenas turistas. São eles: período de lua de mel, choque cultural, adaptação inicial, isolamento mental, e aceitação e integração.

1. Período de lua de mel: inicialmente, muitas pessoas ficam fascinadas e excitadas com tudo que vão conhecendo da nova cultura. Cada descoberta é uma experiência que será guardada em sua memória para sempre. Porém, esta fase só acontece uma vez, por isso é preciso aproveitá-la ao máximo. 

Quanto a esta fase, posso dizer que a vivi apenas na primeira semana, já que o choque cultural acontece muito rápido quando você tem a certeza de que vai ficar por um longo tempo em um novo país. Nos primeiros dias em San Diego, fiquei encantada com a educação das pessoas no trânsito e nos espaços públicos em geral, com o valor baixo de itens que pagamos uma verdadeira fortuna no Brasil (carros, maquiagem, cosméticos, roupas de marca, comidas…), com a pouca burocracia necessária para resolver questões complexas como alugar um carro ou uma casa, com o grande número de ciclovias na cidade, com a beleza natural, entre tantas outras coisas boas.

2. Coque cultural: as pessoas começam a ficar imersas em novos problemas como moradia, transporte, emprego, compras do dia a dia e a língua. A fatiga mental é um dos resultados do contínuo estranhamento e tentativa de entendimento da nova língua e cultura.

Acredito que esta fase é uma das mais demoradas a passar. Não tive dificuldades para me adaptar com o transporte público, com as idas ao supermercado e lojas em geral, com a procura da casa e todo o envolvimento exigido para mantê-la. Mas a língua, esta sim prega peças em você todos os dias. Nem é preciso sair de casa, pois você vai ter que lidar com ela na televisão, no rádio e na porta da sua casa (algumas vezes é o carteiro trazendo alguma entrega, o seu vizinho pedindo alguma coisa ou o síndico do prédio explicando uma nova regra) e você precisa aprender a lidar com todas estas questões.

Algumas coisas causarão por muito tempo – ou para sempre – estranhamento. A comida é a principal delas. Em San Diego é muito comum você ver restaurantes de comida mexicana (principalmente tacos) e hamburguerias. Os americanos usam muito mais o drive-thru do que as dependências do restaurante. Até as farmácias possuem drive-thru! Por isso, o almoço resume-se basicamente a lanches rápidos, muitas vezes feitos no escritório ou no carro. Esse foi um dos motivos que me fez optar por comer sempre em casa no almoço, já que não dispenso feijão, arroz e carne, ou uma massa com molho, arroz com legumes, enfim, comida de verdade! Além disso, a comida daqui não tem o mesmo sabor da comida brasileira, falta aquele gosto de comida “fresquinha”, de tempero (não estou contando pimenta, pois aqui tudo tem pimenta!), parece que as coisas são muito artificiais.

Outro choque cultural que tive aqui foi com o tamanho das coisas. Nunca se pode pedir alguma coisa grande, pois o grande é gigante (claro que, se você estiver com MUITA fome ou MUITA sede, vá em frente!). Por exemplo, um balde de pipoca grande no cinema dá para três pessoas comerem com muita tranquilidade. Acredito que esse seja um dos motivos que faça com que muitos americanos sejam obesos. Além disso, como carro é um item barato, as pessoas quase não andam a pé. Sinto-me uma estranha quando dou meus passeios de camelo ou de bike.

Ao mesmo tempo, por aqui tudo é muito correto. Você precisa seguir as regras, não dá para aplicar o “jeitinho brasileiro”. Essa diferença eu considero extremamente positiva, pois faz com que a cidade seja um local seguro para se viver. Sem contar que as pessoas são muito simpáticas e solícitas. Posso contar nos dedos os americanos que foram grosseiros comigo. Sempre que precisei, recebi ajuda e fui muito bem recebida e atendida nos lugares pelos quais passei. Ah, os americanos são muito politizados, eles discutem muito sobre os assuntos que estão acontecendo na atualidade e possuem um vasto conhecimento acerca da história do seu país. Eles realmente conhecem a sua origem e se orgulham disso.

3. Adaptação inicial: com o passar do tempo os problemas de moradia e compras, por exemplo, vão se resolvendo. A pessoa ainda não fala fluentemente a nova língua, mas já consegue expressar ideias e sentimentos básicos. 

Acredito que estou entre esta fase e a fase do choque cultural. Como tudo ainda é muito novo, o choque é grande, mas o aprendizado diário da língua faz com que você vá ganhando confiança aos poucos e passe a sentir-se um pouco melhor a cada dia.

Ainda não tenho como descrever as fases abaixo, pois não cheguei lá. Mas acho interessante compartilhar mesmo assim o que elas significam.

4. Isolamento mental: algumas pessoas ficam um longo tempo ser ver sua família e amigos e acabam sentindo-se sozinhas. Muitas vezes não conseguem expressar seus sentimentos a não ser na sua língua nativa. Isso causa frustração e perda da autoconfiança. Algumas pessoas permanecem nesta fase por um longo tempo, principalmente se não têm um emprego. 

5. Aceitação e integração: a rotina já está estabelecida. As pessoas já estão acostumadas com os hábitos, costumes, comidas e características do povo e da nova cultura. Já sentem-se confortáveis com a língua e fazem novos amigos. 

Na música “Não vou me adaptar”, de Nando Reis, o choque caudado por uma mudança é descrito de forma brilhante.

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia,
Eu não encho mais a casa de alegria.
Os anos se passaram enquanto eu dormia,
E quem eu queria bem me esquecia

Com o passar dos meses, você vai percebendo que as coisas estão mudando no seu interior. Como cada dia exige um esforço maior, mesmo que já tenha estabelecido uma rotina, você amadurece de forma mais rápida do que se estivesse no seu país, na sua zona de conforto. Existem pessoas que passam muitos anos da sua vida longe do seu país de origem e não conseguem se adaptar aos novos costumes que precisam enfrentar no seu cotidiano. Assim como tudo na vida, algumas pessoas possuem mais facilidade do que outras para enfrentar as mudanças da vida.

Confesso que alguns dias são bem sofridos para mim, pois sinto muita saudade da minha família, dos meus amigos e do meu trabalho. Nessas horas, o sentimentalismo não ajuda muito, mas é preciso absorver as novidades da forma que você é, afinal, nada vai mudar a sua essência (ainda bem!).

Eu não tenho mais a cara que eu tinha,
No espelho essa cara já não é minha.
Mas é que quando eu me toquei, achei tão estranho,
A minha barba estava desse tamanho.

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar
Não vou me adaptar!
Me adaptar!

Com o tempo, tenho certeza de que um dia vou acordar, olhar no espelho e ver uma nova pessoa. Você é feito das suas escolhas e das suas experiências. Toda a sua bagagem cultural irá afetar a sua opinião sobre os mais diversos assuntos do mundo. Por mais que eu diga muitas vezes que não vou me adaptar, em alguns dias sinto-me quase como uma nativa. E assim a vida vai seguindo o seu curso natural.

Assim como existe um estranhamento do novo país, certamente terei um estranhamento quando for visitar o Brasil, o inverso também irá acontecer. As coisas por aqui são muito diferentes. Chegou um ponto que eu decidi não comparar mais. Se a língua é diferente, a moeda é diferente, a comida é diferente, ou seja, é uma cultura totalmente diferente, por que comparar?

Vejo muitos brasileiros idolatrando a nova cultura e repudiando seu país. Fico triste com isso. Todos sabemos que o Brasil possui diversos problemas e está enfrentando uma séria crise política. Mas temos tantas coisas boas para se orgulhar! Muitos americanos, assim como muitos colegas de outros países, já me disseram que querem muito conhecer o Brasil. E os que já foram para nossa terra, dizem ter adorado. Então, por que precisamos cuspir no prato que comemos? Parte do que sou devo a minha pátria amada. E não existe choque cultural que irá apagar a minha origem. Se a situação está ruim, também cabe a nós fazermos alguma coisa para ajudar o país a mudar (mas este assunto é tema para outro post).

Obs.: o texto completo sobre cultural shock que estudei em aula está disponível online (em inglês): http://anh-tourguide.blogspot.com/2011/11/unit-2-cross-cultural-conflict.html