“Eu não tenho data pra comemorar. Às vezes os meus dias são de par em par. Procurando agulha num palheiro.”

Andei afastada do blog, mas não foi por falta de tempo para escrever, e sim porque precisava resolver questões comigo mesma antes de externar minhas opinões e meus sentimentos. Nesse tempo, estudei, trabalhei bastante no voluntariado (agora são novamente duas vezes fixas por semana), fiz novos amigos e viajei. No próximo post vou relatar minha primeira trip pela Califa e trazer uma visão diferente sobre os lugares pelos quais passei. Porém, este post é para falar de um recomeço.

Recomeçar significa reencontrar ideias, projetos e uma pessoa que você havia perdido pelo caminho há algum tempo: você mesmo. Aquela pessoa que tinha sido engolida pelo stress da rotina maluca e pela zona de conforto. Ao reencontrar você mesmo, acontece um choque de mundos, quase um Big Bang. O “você antigo”, cheio de cicatrizes, manias e medos, descobre o “você novo”, completamente entusiasmado, cheio de planos e coragem. No primeiro momento, eles se estranham e até ficam emburrados um com o outro. Mas depois, eles descobrem que podem ser grandes amigos e ensinar um ao outro tudo o que sabem, criando um “você melhor”.

Acredito que uma boa viagem faz você alçar novos voos, descobrir novos horizontes, conhecer novas pessoas, aprender mais sobre o mundo e sobre si mesmo. Essa viagem não precisa ser para outro país, como foi meu caso, pode ser para a cidade vizinha, para a casa de paia de um amigo ou para o bairro mais bacana da sua cidade.

Viajar é ir além do seu portão. É dar passos para fora daquelas quatro paredes que tanto protegem e escondem você. Viajar é mais que pegar um carro ou um avião. Viajar é olhar para os lados e ver cores, amores e emoções. É sentir cheiros e sabores. É escutar barulhos, sorrisos, choros, lamentos e sonhos. Viajar é desenvolver cada um dos seus sentidos e descobrir que todos eles podem ir muito mais além. Viajar é fechar a porta e não olha para trás, é ter a coragem de um adulto e a alegria de uma criança. Viajar é descobrir o sabor da liberdade, entender o significado de responsabilidade e sentir na pele o significado da palavra experiência.

As músicas do Cazuza sempre me fizerem, de certa forma, viajar. Em “O tempo não para” é possível identificar um turbilhão de sentimentos, experiências e aprendizados. Dá para viajar apenas aumentando o volume e fechando os olhos.

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Já comentei por aqui que o sentimento inicial de um imigrante é ser só mais um na multidão, “só mais um cara”. Durante muitos dias que passam, você acredita que “está correndo na direção contrária” e sabe que isso não vai te levar a lugar algum. Não terá “pódio ou beijo de namorada” esperando na chegada. Você terá muitas pessoas perguntando por que você está triste ou nem sempre está feliz, se tem uma oportunidade de ouro nas mãos.

Muita gente tem a ilusão de que mudar de país irá resolver todos os problemas da vida, inclusive os de relacionamento. Só que você encontra muito mais espinhos nas flores pelas quais sonhava encontrar e é difícil aceitar e aprender a desviar deles. Não adianta escapar, em algum momento você irá espetar o seu dedo e isso irá doer. E mais uma coisa: os seus defeitos acabam se exaltando em momentos de grande mudança. Isso significa que você entrará em um número de conflitos maior consigo mesmo e com as pessoas mais próximas.

Claro que existem pessoas que encaram as mudanças da vida com mais facilidade. Infelizmente – ou felizmente – eu sou diferente. Toda mudança sempre foi difícil pra mim. Sofro demasiadamente por tudo. Sou ansiosa, sou apegada à pessoas e lugares, sinto saudade de tudo.

Começar do zero em um novo país é desafiador e também um pouco frustrante. Se você não sabe falar a nova língua fluentemente, você não é nada. E aí você precisa fazer novos cursos, aprender mais do mesmo (só que no novo idioma), aceitar que é preciso voltar a fazer estágio ou voluntariado, pois não têm experiência na sua área dentro da nova cultura.

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Contudo, você descobre que é muito mais forte do que pensa. Apesar de se sentir como uma criança aprendendo a falar um novo idioma e como um adolescente tentando ser aceito em um novo grupo de colegas/amigos, você descobre que é adulto e maduro, e prova para si mesmo que consegue encarar erros, desafios e possibilidades. “Você não está derrotado enquanto os dados ainda estiverem rolando”.

O grande degrau para se sentir aceito em uma nova cultura é não ter medo de errar. Não ter medo de escorregar na pronúncia, não ter medo de se perder pelas ruas, não ter medo de tentar conseguir um voluntariado ou um emprego, não ter medo de falar com as pessoas, não ter medo de pedir algum prato diferente no restaurante só porque você não entende quais são os ingredientes. Aí você vai aprendendo a sobreviver, por mais que alguns arranhões vão aparecendo no seu corpo. Machucar-se faz parte do processo.

Aprendi a assumir para as pessoas o que eu não sei. Quando alguém fala alguma coisa que eu não entendo, digo: “por favor, pode repetir?” e se ainda assim não entendo, digo “por favor, você pode me explicar? Estou aprendendo a falar inglês e em alguns momentos não entendo o que é dito”.

Aprendi a pedir ajuda. Peço para meus colegas de aula, para meus amigos, meu marido, meus clientes e meu chefe corrigirem minha pronúncia e a me ensinarem novas palavras. Não tenho mais vergonha de falar, pois a necessidade de expressar minha opinião é muito maior que a cobrança perfeccionista que existe dentro de mim. Não tenho vergonha de assumir que meus melhores amigos aqui são: o Google Maps, o Google Translater e minha bike.

Tomei vergonha na cara e comecei a cuidar mais da minha saúde. Há dois meses mudei minha alimentação, estou tentando ser mais natureba, consumir mais frutas e verduras, menos carne vermelha, farinha branca e glúten. Aprendi a fazer pão vegano, cookies integrais, a cozinhar diferentes receitas e a usar mais temperos naturais.

Fiz as pazes com os exercícios físicos e passei a correr. Imaginem que eu corria no máximo três minutos na esteira da academia e quase morria. Agora, já consigo correr 30 minutos sem parar ao ar livre. Claro que corro bem devagarinho, em um ritmo de iniciante, porém é preciso começar de algum lugar, não? Ao menos três vezes por semana eu dedico uma hora por dia ao exercício, seja correndo, andando de bike ou caminhando. E assim eu aprendi a dormir melhor, a me sentir mais disposta e descobri uma nova melhor amiga: a atividade física.

Não existe mágica. Viajar não irá mudar a sua vida, a não ser que você vá com a cabeça e o coração abertos. O primeiro passo é aceitar que mudar é errar, só a partir daí você irá começar a acertar. O tempo nunca para, então siga com ele.

O tempo não para
Não para, não, não pára

“Mas não precisamos saber pra onde vamos, nós só precisamos ir.”

Já me perdi em muitas curvas da Infinita Highway cantada pelo Humberto Guessinger. A complexidade do ir é muito maior do que se imagina. Você já parou pra pensar sobre o verdadeiro significado da liberdade? Sempre imaginava a liberdade como um ato, a ação de poder sair sem destino, sem lista de atividades para fazer, sem ter com o que se preocupar. Na verdade tenho até uma cena na minha cabeça do que ela representa: estar sentada na carona de um carro antigo, que está andando em uma estrada deserta e reta; o sol está se pondo no horizonte enquanto a sua cabeça está para fora da janela; sua blusa e seu cabelo balançam ao vento; seus braços estão esticados e sentem todo aquele vento gelado de alívio entrando pelos poros; você está cantando com toda a força da voz a sua música preferida; não existe medo, não existe arrependimento, não existe passado ou futuro, apenas o agora.

Contudo, meu conceito de liberdade começou a mudar nesses últimos dias e não está mais conseguindo ser representado por essa cena de filme hollywoodiano. Agora, vejo ela como um estado de espírito. Você pode “estar preso” à rotina, às obrigações, mas se você sente-se livre de espírito, então você, meu caro, é realmente livre de corpo e alma.

“Eu não tinha nada, nada a temer. Mas eu tinha medo, medo desta estrada. Olhe só! Veja você.” Pois é, a estrada toda a nossa frente dá medo, pois não sabemos o que surgirá no caminho, não sabemos até que ponto ela é reta, em que momento vira ladeira ou curva. A única certeza que temos é de que ela existe e nos chama para percorrê-la.

Têm dias que me sinto presa em algum ponto da estrada. É como se eu parasse numa encruzilhada e por ali ficasse horas tentando decidir no cara ou coroa qual rumo tomar. Nunca tinha imaginado que sentiria tanta falta da minha rotina e só agora vejo que o trabalho tomava bem mais do que metade do meu tempo. Não estou dizendo que você não deve ser responsável com suas obrigações, afinal você têm contas a pagar, filhos para sustentar, um cargo a cuidar. O grande ponto que quero chegar é que tudo isso pode ser cobrado de si mesmo de uma forma muito mais leve (obrigada pela lição, Lu Maria <3).

Você já parou pra pensar o quanto é refém de si mesmo, das suas próprias cobranças? Hoje eu posso afirmar que isso é um vício, já que estou vivendo na pele os efeitos de sua abstinência. Nessa última tarde fiquei trancada em casa, estava chovendo e não tinha como sair. Minhas atividades estavam resumidas a fazer as tarefas da casa e procurar apartamentos em alguns links que um amigo havia passado. Adivinhem se não resolvi tudo em meio turno? E o que me restou? Ficar de um lado para o outro da sala agoniada, perguntando o que estava fazendo de bom da minha vida.

No ápice do desespero, sentei em frente ao computador e comecei, enlouquecidamente, a atualizar meu LinkedIn, contatar amigos pelo Facebook, entrar em sites de freelas, mandar mensagens. Ahhhhhhh! Quando vi passaram-se horas, mas estava tão mergulhada no meu inconsciente que gritava por “ser útil”, que não percebi que na verdade não precisava ter feito isso dessa forma.

Eu posso aproveitar estes meses pra descansar e pensar com calma nos próximos passos, mas então por que não o faço? Tanta gente gostaria de estar aproveitando este ócio criativo. O problema é que eu nunca tive tempo livre e não sei MESMO como lidar com ele. É como domar um animal selvagem.

Eu amo trabalhar e amo o que faço, é muito difícil se afastar dessa paixão. Ela era a minha segurança, era aquilo que me motivava a sair da cama todos os dias e encarar a vida, era aquilo que me dava orgulho e me fazia sentir bem comigo mesma, era aquela sensação de dar e receber, de fazer alguma coisa para o outro. Só que agora preciso achar outra paixão para preencher todos esses requisitos.

Mas a vida é uma caixinha de surpresas. Não bastou eu ter trabalhado exaustivamente esse assunto na terapia, eu tive que ganhar de presente do destino um momento REAL de “desintoxicação”. Eu, por algum motivo, estou aqui suando frio por ter que descobrir o que fazer com essa tal de liberdade e eu TENHO que ser amiga dela.

“Eu vejo um horizonte trêmulo
Eu tenho os olhos úmidos
Eu posso estar completamente enganado
Posso estar correndo pro lado errado
Mas a dúvida é o preço da pureza
E é inútil ter certeza
Eu vejo as placas dizendo “Não corra”, “Não morra”, “Não fume”
Eu vejo as placas cortando o horizonte
Elas parecem facas de dois gumes”

Como diz o grande Humberto, as placas estão aí, nos dando ordens e alertando sobre os perigos que estão nos esperando a cada quilômetro da estrada. As placas são nossos pais, nossos amigos e até nossos inimigos. Mas quantas vezes deixamos de dar atenção a elas? Quantas vezes ignoramos os seus alertas? Quantas vezes cometemos erros que poderiam ter sido evitados se tivéssemos pensado antes? Quantas vezes adoecemos por atingir o nível máximo da exaustão? Quantas vezes achamos que as placas são caretas e não sabem de nada sobre a vida?

Então, meu amigo, o que posso dizer pra você é: leia as placas e não ignore aquela luzinha que está dentro de você piscando e pedindo para tirar um sonho do papel, ou aquele plano esquecido, aquela vontade reprimida. Sei que você deve achar, muitas vezes, que suas vontades são ridículas.

Se a sua vontade é aprender algo que você deveria ter feito quando criança ou adolescente e nunca fez, vai lá. Aprenda a andar de bicicleta, dê um beijo na chuva, toque uma campainha e saia correndo, dê um sorriso para um estranho e fique envergonhado, compre um sonho na padaria e suje até o nariz de açúcar. Entregue-se, nem que seja de vez em quando, para essas vontades bobas. Elas são a sua liberdade. Elas são a sua felicidade.

 

“Foi por medo de avião, que eu segurei pela primeira vez a tua mão.”

Belchior falava de medos há muitos anos atrás, quando eu nem sabia o significado pleno da palavra. O medo do novo, da insegurança, do outro, do dia, da noite e, claro, de avião. Para qualquer lado que olhamos, lá está ele, o medo, espreitando-nos e pronto para dar o bote a qualquer deslize, a qualquer sinal de dúvida.

Há três meses atrás, quando recebi a notícia que iria morar em San Diego, a primeira coisa que senti foi medo (a terapia me ensinou que devemos falar dos sentimentos, por isso vou abrir meu coração em cada post que aqui for publicado).

Durante muitos dias refleti sobre os impactos dessa mudança e de tudo que estaria abrindo mão. Permiti-me chegar ao fundo do poço, sofrendo por deixar para trás minha família, meus amigos, meu trabalho, minha casa, minhas coisas e tudo mais que fazia parte da minha rotina, tudo aquilo que estava sob o meu controle e me deixava segura. Depois de tantas lágrimas, decidi que pensaria apenas na coisas boas que o futuro reservava.

Mas por que sofrer tanto? Porque descobri que toda mudança é um luto e que todo luto deve ser sentido, pois só depois de vivê-lo é que conseguimos dar os próximos passos e encarar de peito aberto tudo que está por vir. Porque descobri que não estamos seguros nunca e que não tem como prever o que irá acontecer. Podemos e devemos sim fazer planos, mas não sabemos os obstáculos que vão surgir no meio do caminho para realizá-los. A segurança e o controle são pura ilusão.

Sei que essas palavras podem parecer clichês ou saídas de um livro de auto-ajuda, mas o fato é que são a mais pura realidade (e aqui está falando uma pessoa que sofre crises constantes de ansiedade por querer controlar tudo o tempo todo). Levei meses para entender o significado disso tudo e é muito difícil aceitar que você simplesmente precisa viver o hoje. Claro que se deve planejar o futuro, mas sem sofrer por antecipação com o que ele irá reservar e entender que não adianta mais se martirizar pelo passado, apenas tirar de bom tudo que ele ensinou.

Quando chegou o grande dia de partir, tinha dois corações no aeroporto: o que queria ficar acolhido no seio da família e o que queria desbravar o mundo, mesmo conhecendo muito pouco a seu respeito. Por estranho que pareça, após as lágrimas da despedida, estava muito feliz em ter conseguido entrar nos três aviões que me aguardavam ao longo das 15h de viagem. Nunca tinha feito uma viagem tão longa e estava com medo de ter alguma crise de pânico do avião (como explicar para o seu inconsciente claustrofóbico que você não pode abrir uma janela pra pegar um ar durante 9h e 6h seguidas?)

Tudo correu muito bem até chegarmos no John F. Kennedy International Airport. Foi aí que tive uma de minhas crises, a primeira de muito tempo. Quem tem crises de pânico sabe bem como é: falta de ar, boca seca, coração acelerado, calor e desespero, muito desespero. A vontade de sair correndo daquela fila enorme da imigração era maior que eu. Por alguns minutos estava totalmente apavorada. Foi aí que tive que recorrer ao meus calmantes e às doces palavras do meu marido. Então tudo começou a ficar calmo novamente e o ar tornou-se abundante. No fim, acabei fazendo amizade com uma senhora brasileira que estava na fila e esqueci da crise.

À noite parei para refletir o motivo do desespero. Acho que foi porque realmente estava começando a entender que agora seria moradora de outro país, que teria que enfrentar uma nova língua, uma nova cultura, que eu estava realmente começando a viver uma nova vida e que deveria encará-la. Claro que eu já tinha refletido muito sobre isso, mas quando realmente se vive a situação é totalmente diferente.

Passado o susto, ao descer no San Diego International Airport fiquei emocionada, tudo aquilo realmente estava acontecendo. Até agora não acredito que estou aqui no Mission Valley, sentada no sofá de um hotel escrevendo este post. Logo eu, que sempre sonhei pequeno, que lutei tanto para conquistar bens materiais que hoje nem estão mais aqui comigo.

Realizar sonhos implica em desapegos muito maiores que se possa imaginar, mas para quem é do bem e tem fé, tudo pode acontecer.

Hello, California!