“Imagine there’s no countries. It isn’t hard to do”

Não vou expressar minha opinião política sobre o Impeachment da Dilma, mas o tópico deste post está ligado a isso. Hoje, li muitos posts no Facebook que me deixaram chateada, porém um deles me abalou profundamente. Ele dizia mais ou menos o seguinte: “A pessoa fica fazendo mimimi, mas mora nos EUA, na Alemanha, na Austrália…”. Eu reli umas duas vezes pra ver se não era coisa da minha imaginação. Infelizmente, era a realidade, e os comentários que se seguiram foram ainda piores.

Só porque uma pessoa não mora mais no seu país de origem, não significa que ela é menos cidadã, que tem menos direitos e que não pode expressar a sua opinião sobre um assunto que afeta a vida dela direta ou indiretamente.

Eu moro nos Estados Unidos sim, mas continuo pagando impostos no Brasil, justificando meu voto e fazendo declaração do imposto de renda. Eu não moro mais no Brasil, mas toda minha família e meus amigos seguem lá e eu me preocupo com o futuro deles. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileira, falo português todos os dias, mantenho minhas tradições e tenho muito orgulho disso. Eu não moro no Brasil, mas a maioria dos meus melhores amigos em San Diego são brasileiros e eles também carregam toda essa bagagem com eles. Eu não moro no Brasil, mas acompanho todos os dias as notícias do país pra saber o que está acontecendo. Eu não moro no Brasil, mas sigo defendendo o meu país e tentando explicar para as pessoas de outras nacionalidades como temos muito mais coisas para oferecer do que apenas Carnaval e caipirinha. Eu não moro no Brasil, mas torço todos os dias para que as coisas melhorem. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileira e sei exatamente o que está se passando e o sentimento que tudo isso causa. Eu não moro no Brasil, mas vivi 27 anos da minha vida nesse país repleto de encantos mil e, ao mesmo tempo, cheio de desigualdades sociais. Eu não moro no Brasil, mas posso voltar a qualquer momento, porque se tudo der errado, é lá que eu sempre serei acolhida, é lá que o meu sotaque não faz a mínima diferença, é lá que as minhas experiências profissionais valem de verdade, é lá que eu conquistei um monte de coisas boas que pra sempre vou me orgulhar.

E eu poderia não fazer nada disso. Poderia apenas ignorar a existência do Brasil e seguir com a minha vida aqui, e mesmo assim eu ainda teria o direito de opinar sobre o cenário político e econômico do meu país. Eu não abandonei o Brasil, eu não fugi, eu não mandei tudo para o espaço por causa do cenário atual. Eu mudei, porque tive uma grande oportunidade na minha vida e agradeço todos os dias por ela ter acontecido. E mesmo se tivesse abandonado tudo por não aguentar mais, ainda assim teria o direito de opinar.

Acredite, não é porque você mora em outro continente que não sofre junto, que não torce junto, que não entende o que está se passando, que só serve pra falar mal do seu país de origem e exaltar o seu local de moradia atual. Eu sempre vou estar presente, mesmo de longe, em cada mudança que acontecer. Eu mando mensagem pra minha família e pros amigos mais próximos quando vejo que tem um temporal na cidade, então me diz como eu não vou me preocupar e estar por dentro de um processo de mudança política? Eu sei que olhar de fora não é a mesma coisa que estar experienciando na pele o que está acontecendo. Mas isso não diminiu o meu direito de ser brasileira seja onde for.

Eu sonho com o dia em que todas as pessoas tenham a oportunidade de conseguir olhar para os outros sem preconceito, inveja, intolerância e pré-julgamentos. Eu sonho com o dia em que o ódio das pessoas seja transformado em sentiments bons e que gerem ações que façam a vida de alguém melhor. Já falei isto aqui uma vez e vou repetir. Você não precisa mudar de cidade, estado, país ou continente para enxergar o mundo de outra forma e respeitar a opinião do outro. Enquanto isso, sigo acreditando e torcendo pelo meu país e excluindo todos aqueles que não conseguem entender o que isso significa.

 

“Porque que eu sou apenas movimento. Sou do mundo, sou do vento. Nômade”

Devido aos últimos acontecimentos políticos e econômicos do Brasil, somados aos velhos problemas de falta de investimento em educação, saúde, segurança, empregos, etc., alguns amigos vêm falar comigo sobre o que é preciso para mudar de país e, consequentemente, de vida.

A resposta parece ser complexa, afinal você está deixando tudo para trás, então só pode ser algo muito difícil de ser feito. Mas na realidade a resporta é muito mais simples do que parece. Para ajudar nessa reflexão, sugiro que você assista ao vídeo que uma grande amiga fez contando como ela mudou de país com o marido e as duas filhas pequenas. Já adianto que concordo com 100% dos seus argumentos e faço este post com o objetivo de complementar suas ideias.

A minha casa está onde está o meu coração
Ele muda, minha casa não
No campo, em minas, terras gerais ou qualquer lugar
Onde estou, a minha casa está

Porque que eu sou apenas movimento
Sou do mundo, sou do vento
Nômade

Sei que muita gente não tem o sonho de morar em outro lugar e nem se imagina fora da sua cidade, do seu estado (então que dirá do Brasil!). Outros, já nascem com o chip que diz que eles são cidadões do mundo e gostariam de desbravar as oportunidades que podem aparecer. Eu, por exemplo, nunca tive o sonho de morar fora, sempre quis conhecer outro lugares, mas nunca me imaginei longe do meu país. Porém, os acontecimentos muitas vezes fazem com que você reveja seus conceitos e comece a cogitar uma vida melhor para si, para o seu companheiro ou para seus filhos.

Hoje, infelizmente, eu não consigo mais me imaginar no Brasil construindo uma família. Só de pensar que meus filhos não terão diversos espaços públicos para brincar, escolas públicas de qualidade, várias opções de apartamentos/condomínios com espaços para crianças sem ter que pagar o dobro do preço por isso, incentivo à prática de algum esporte ou o aprendizado de algum instrumento, empresas que oferecem empregos flexíveis para as mães e, principalmente, segurança em qualquer lugar que ele for com os amigos, eu já desisto da ideia de um dia poder começar uma família. Sei que estou sendo radical e tenho várias amigas com filhos no Brasil, porém eu acompanho a aflição delas de estarem o tempo todo com medo.

Como já disse em outros momentos, nem tudo são flores. Os Estados Unidos, assim como todos os países, tem seus problemas, algumas coisas que funcionam bem no Brasil não funcionam aqui, mas poder sair de casa sem medo de ser assaltado, machucado ou morto na rua é um tópico que supera todas as dificuldades.

Porque quando paro sou ninguém
Não declaro onde ou quem
Nômade

Meu endereço é o sítio estrelado de norte a sul
Ele muda a cada estação
Na boca do sertão, na varanda do seu olhar
Onde estou, a minha casa está

Então, o primeiro passo a ser dado é fazer o seu sonho/ideia virar realidade. É preciso ter planejamento financeiro, pesquisar bastante sobre o lugar, falar com amigos ou conhecidos que moram ou visitaram esse lugar, procurar um lugar para morar e alternativas de como se manter. Tem gente que guarda dinheiro e tira meio ano ou um ano sabático; outros vêm com visto de estudante, se matriculam em um curso e trabalham durante o tempo que estão fora da escola; outros vêm com visto de tursista e continuam tocando seus negócios no Brasil à distância; e assim por diante.

Planejamento racional de todas as necessidades que você irá ter é essencial, mas a vontade de querer mudar, de estar disposto a encarar o desafio, faz parte dos outros 50% do objetivo. E dentro da vontade está a prática do desapego e estar aberto ao novo estilo de vida que você irá levar. Não é porque você estará na Califórnia, na Tailândia ou em Sidney que nenhum problema irá acontecer e que será tudo lindo. Lembre-se que a cultura, a língua, a comida, o jeito de pensar e agir são totalmente diferentes do seu país.

Eu abri mão da minha carreira e ainda sigo na busca de um emprego na área. San Diego não é a melhor cidade dos Estados Unidos para eu me recolocar no mercado de tecnologia (nesta área o melhor seria morar em San Francisco ou Los Angeles), contudo sigo tentando. Enquanto isso, trabalho em uma loja de departamento e faço freelas. Confesso que foi difícil no início tirar da cabeça que eu estava rebaixando toda a minha escolaridade e minhas experiências profissionais. Hoje, eu vejo que estou aprendendo muita coisa nova e já consigo olhar de forma diferente para a minha carreira. Conheci pessoas, histórias de vida, aprendi novas coisas e até uma nova língua (estou cada dia melhor no espanhol). Então, mudar muitas vezes significa dar passos para frente, mesmo que eles sejam de formiguinha.

Porque quando passo sou alguém
Sou do espaço, sou do bem
Nômade

A minha carne é feita de tudo que vai e vem
Tempo, nuvem, aflição também
Encontro e perda ao mesmo tempo, eu não vou parar
Onde estou, a minha casa está

O problema de mudar é que só de pensar no esforço que será preciso empregar para colocar em prática a ideia, já faz com que muita gente desista. Mas mudar de país é algo realmente simples de ser feito, sério mesmo! Não é preciso anos de planejamento, no nosso caso levamos um ano entre a ideia e a materialização. Claro que cada caso é um caso, porém as dificuldades não podem fazer com que você se acomode. Assim como a maioria dos amigos que conheço aqui planejou sua mudança, outros vieram na cara e na coragem, só com a roupa do corpo. Sim, é muito mais difícil recomeçar assim, mas eles não ficaram sentados no sofá criando desculpas e sofrendo por antecipação sobre as coisas que iriam ter que enfrentar.

Abra sua visão, converse com amigos, vizinhos, pessoas no ônibus, no café. Faça uma lista de tudo que você irá precisar para mudar de país, assim como faça uma lista de tudo que você quer fazer nesse lugar (lugares para visitar, restaurantes, esportes…) e todos os dias ao levantar, olhe para as listas e siga sua meta. Leia livros e blogs sobre pessoas que mudaram de país e começaram uma nova vida. Entre nas comunidades no Facebook de brasileiros que vivem nesse lugar e faça perguntas, interaja, já vá se familiarizando com a realidade do lugar. Faça tudo que for possível para se sentir mais seguro sobre a sua escolha. Se der, visite esse lugar antes de fazer sua mudança definitiva, veja se ele realmente é aquilo que você imagina e que vai te fazer feliz.

É muito difícil sair da zona de conformo, mas eu garanto que depois que você faz isso uma vez, vai ficar constantemente se perguntando por que demorou tanto.

“There’s a battle outside. And it is ragin. It’ll soon shake your windows. And rattle your walls. For the times they are a-changin”

Em 1964 Bob Dylan gravou “The Times They Are A-Changin”, mas parece que a cada ano a letra se torna mais atual. Essa música ganhou um significado maior para mim quando assisti o filme “Watchmen”. A abertura é feita com cenas de super-heróis, políticos e policiais milimetricamente casadas com cada verso de Dylan. Assim como o filme, a canção traz uma mensagem de protesto apresentando as mudanças que estavam acontecendo na sociedade da época, os valores que estavam sendo deixados para trás, o novo que estava por vir e quem foram os que relutaram em aceitar tais mudanças. Tudo isso expresso através da inversão na ordem das ações, mostrando aos jovens que os novos tempos estavam chegando e que as pessoas deveriam se preparar para isso.

Come gather ‘round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You’ll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin’
Then you better start swimmin’
Or you’ll sink like a stone
For the times they are a-changin’.

E é exatamente sobre o tema “mudança” que quero falar neste post. Neste último mês alterei totalmente minha rotina por conta dos cursos que comecei a fazer. Já não tenho tempo livre na agenda e isto faz de mim a pessoa mais feliz do mundo, pois quando não sobra tempo para muitas distrações, o foco nos objetivos é maior e os maus pensamentos são afastados.

Quando vi, já era a semana do meu aniversário, a primeira comemoração de um novo ano de vida em San Diego. Sempre amei comemorar meu aniversário e fazer alguma festa. Porém, este ano o sentimento era muito mais de gratidão por tudo que havia acontecido no último ano, do que de dar às boas-vindas a uma nova fase. Eu queria ir apenas em um lugar bacana com as pessoas que realmente importam para mim aqui em San Diego. E foi exatamente isso que aconteceu.

Come mothers and fathers
Throughout the land
And don’t criticize
What you can’t understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin(g)’.
Please get out of the new one
If you can’t lend your hand
For the times they are a-changin’.

Pela primeira vez senti que o peso da idade começou a fazer sentido. Além de aparecerem os primeiros cabelos brancos, agora sinto, mais do que nunca, que realmente comecei a amadurecer e a perceber o que realmente tem valor. Experiência de vida tem muito mais a ver com o tamanho das pedras no caminho que você precisa desviar, do que com o número de velas que você apaga na hora do parabéns. Por tudo isso, sou extremamente grata pelos 28 anos terem me mostrado o real significado das palavras coragem e serenidade.

Se não fossem por elas, não teria passado pelo momento mais difícil da minha jornada aqui em San Diego com a maturidade necessária. Ontem, acompanhei meu marido ao hospital achando que ele estava com dor de estômago, quando na verdade era apendicite. Para quem imaginava sair de lá 2h depois com uma lista de remédios e acabou recebendo um saco plástico para guardar todos os pertences pessoais dele antes de vê-lo entrar em uma sala de cirurgia, a probabilidade de surtar era bem grande.

Confesso que não fui forte o suficiente e tremi de medo na primeira hora. Mas a vida é cheia de anjos chamados amigos e foram eles os responsáveis por me darem a força que eu precisava. Depois de toda a energia enviada do Brasil e daqui, no fim tudo acabou dando certo. Passado o susto, fica mais fácil analisar todo o cenário e refletir sobre as lições aprendidas (mania de Gerente de Projetos).

Se tremi de medo, foi porque eu era a única responsável naquele momento pela vida de uma das pessoas que mais amo neste mundo. Eu sei que posso contar com toda nossa família e todos os nossos amigos, porém essa foi a primeira prova que tivemos que passar aqui como marido e mulher tendo que tomar uma decisão sozinhos, provando que um é responsável pelo outro e que não existe mais ninguém que possa fazer isto por nós. O peso da responsabilidade caiu sobre os meus ombros, mas ao vê-lo na sala de recuperação com o melhor diagnóstico possível, o alívio e o sentimento de dever cumprido vieram na hora. A decisão tomada realmente tinha sido a mais sensata.

The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin’.
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin’.

Então, meu amigos, a idade vai chegado e toda a bagagem que você adquiriu ao longo da vida passa do status “peso/dor” para “respostas/coragem”. Aquele momento de sofrimento lá no passado será a coragem que você construiu para conseguir suportar outra tsunami lá no futuro. O aprendizado de ontem será a resposta que alguém que você ama precisará amanhã. E assim a montanha russa da vida vai seguindo com seus altos e baixos e você segue segurando firme em um dos carrinhos. Afinal, de que adianta viver se não para sentir todas as emoções que a vida pode proporcionar?

Os 28 anos de gratidão finalmente chegaram. Agradeço a cada pessoa que caminhou ao meu lado, que me segurou no colo, que me derrubou, que me empurrou para frente ou para trás. Foi através de todo esse sacolejo que criei a minha bagagem e agora estou usufruindo da melhor forma possível de todos as suas ferramentas.

“Eu não tenho data pra comemorar. Às vezes os meus dias são de par em par. Procurando agulha num palheiro.”

Andei afastada do blog, mas não foi por falta de tempo para escrever, e sim porque precisava resolver questões comigo mesma antes de externar minhas opinões e meus sentimentos. Nesse tempo, estudei, trabalhei bastante no voluntariado (agora são novamente duas vezes fixas por semana), fiz novos amigos e viajei. No próximo post vou relatar minha primeira trip pela Califa e trazer uma visão diferente sobre os lugares pelos quais passei. Porém, este post é para falar de um recomeço.

Recomeçar significa reencontrar ideias, projetos e uma pessoa que você havia perdido pelo caminho há algum tempo: você mesmo. Aquela pessoa que tinha sido engolida pelo stress da rotina maluca e pela zona de conforto. Ao reencontrar você mesmo, acontece um choque de mundos, quase um Big Bang. O “você antigo”, cheio de cicatrizes, manias e medos, descobre o “você novo”, completamente entusiasmado, cheio de planos e coragem. No primeiro momento, eles se estranham e até ficam emburrados um com o outro. Mas depois, eles descobrem que podem ser grandes amigos e ensinar um ao outro tudo o que sabem, criando um “você melhor”.

Acredito que uma boa viagem faz você alçar novos voos, descobrir novos horizontes, conhecer novas pessoas, aprender mais sobre o mundo e sobre si mesmo. Essa viagem não precisa ser para outro país, como foi meu caso, pode ser para a cidade vizinha, para a casa de paia de um amigo ou para o bairro mais bacana da sua cidade.

Viajar é ir além do seu portão. É dar passos para fora daquelas quatro paredes que tanto protegem e escondem você. Viajar é mais que pegar um carro ou um avião. Viajar é olhar para os lados e ver cores, amores e emoções. É sentir cheiros e sabores. É escutar barulhos, sorrisos, choros, lamentos e sonhos. Viajar é desenvolver cada um dos seus sentidos e descobrir que todos eles podem ir muito mais além. Viajar é fechar a porta e não olha para trás, é ter a coragem de um adulto e a alegria de uma criança. Viajar é descobrir o sabor da liberdade, entender o significado de responsabilidade e sentir na pele o significado da palavra experiência.

As músicas do Cazuza sempre me fizerem, de certa forma, viajar. Em “O tempo não para” é possível identificar um turbilhão de sentimentos, experiências e aprendizados. Dá para viajar apenas aumentando o volume e fechando os olhos.

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Já comentei por aqui que o sentimento inicial de um imigrante é ser só mais um na multidão, “só mais um cara”. Durante muitos dias que passam, você acredita que “está correndo na direção contrária” e sabe que isso não vai te levar a lugar algum. Não terá “pódio ou beijo de namorada” esperando na chegada. Você terá muitas pessoas perguntando por que você está triste ou nem sempre está feliz, se tem uma oportunidade de ouro nas mãos.

Muita gente tem a ilusão de que mudar de país irá resolver todos os problemas da vida, inclusive os de relacionamento. Só que você encontra muito mais espinhos nas flores pelas quais sonhava encontrar e é difícil aceitar e aprender a desviar deles. Não adianta escapar, em algum momento você irá espetar o seu dedo e isso irá doer. E mais uma coisa: os seus defeitos acabam se exaltando em momentos de grande mudança. Isso significa que você entrará em um número de conflitos maior consigo mesmo e com as pessoas mais próximas.

Claro que existem pessoas que encaram as mudanças da vida com mais facilidade. Infelizmente – ou felizmente – eu sou diferente. Toda mudança sempre foi difícil pra mim. Sofro demasiadamente por tudo. Sou ansiosa, sou apegada à pessoas e lugares, sinto saudade de tudo.

Começar do zero em um novo país é desafiador e também um pouco frustrante. Se você não sabe falar a nova língua fluentemente, você não é nada. E aí você precisa fazer novos cursos, aprender mais do mesmo (só que no novo idioma), aceitar que é preciso voltar a fazer estágio ou voluntariado, pois não têm experiência na sua área dentro da nova cultura.

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Contudo, você descobre que é muito mais forte do que pensa. Apesar de se sentir como uma criança aprendendo a falar um novo idioma e como um adolescente tentando ser aceito em um novo grupo de colegas/amigos, você descobre que é adulto e maduro, e prova para si mesmo que consegue encarar erros, desafios e possibilidades. “Você não está derrotado enquanto os dados ainda estiverem rolando”.

O grande degrau para se sentir aceito em uma nova cultura é não ter medo de errar. Não ter medo de escorregar na pronúncia, não ter medo de se perder pelas ruas, não ter medo de tentar conseguir um voluntariado ou um emprego, não ter medo de falar com as pessoas, não ter medo de pedir algum prato diferente no restaurante só porque você não entende quais são os ingredientes. Aí você vai aprendendo a sobreviver, por mais que alguns arranhões vão aparecendo no seu corpo. Machucar-se faz parte do processo.

Aprendi a assumir para as pessoas o que eu não sei. Quando alguém fala alguma coisa que eu não entendo, digo: “por favor, pode repetir?” e se ainda assim não entendo, digo “por favor, você pode me explicar? Estou aprendendo a falar inglês e em alguns momentos não entendo o que é dito”.

Aprendi a pedir ajuda. Peço para meus colegas de aula, para meus amigos, meu marido, meus clientes e meu chefe corrigirem minha pronúncia e a me ensinarem novas palavras. Não tenho mais vergonha de falar, pois a necessidade de expressar minha opinião é muito maior que a cobrança perfeccionista que existe dentro de mim. Não tenho vergonha de assumir que meus melhores amigos aqui são: o Google Maps, o Google Translater e minha bike.

Tomei vergonha na cara e comecei a cuidar mais da minha saúde. Há dois meses mudei minha alimentação, estou tentando ser mais natureba, consumir mais frutas e verduras, menos carne vermelha, farinha branca e glúten. Aprendi a fazer pão vegano, cookies integrais, a cozinhar diferentes receitas e a usar mais temperos naturais.

Fiz as pazes com os exercícios físicos e passei a correr. Imaginem que eu corria no máximo três minutos na esteira da academia e quase morria. Agora, já consigo correr 30 minutos sem parar ao ar livre. Claro que corro bem devagarinho, em um ritmo de iniciante, porém é preciso começar de algum lugar, não? Ao menos três vezes por semana eu dedico uma hora por dia ao exercício, seja correndo, andando de bike ou caminhando. E assim eu aprendi a dormir melhor, a me sentir mais disposta e descobri uma nova melhor amiga: a atividade física.

Não existe mágica. Viajar não irá mudar a sua vida, a não ser que você vá com a cabeça e o coração abertos. O primeiro passo é aceitar que mudar é errar, só a partir daí você irá começar a acertar. O tempo nunca para, então siga com ele.

O tempo não para
Não para, não, não pára

“Vida louca vida, vida breve. Já que eu não posso te levar, quero que você me leve.”

A vida é louca por si só ou será que nós fazemos dela uma loucura? Será que ela não desejaria ser menos louca? Ou será que ela quer ser louca mesmo? Por que a vida é tão breve? Será que a loucura não a faz ser breve? Ou será que devemos fazer dela uma loucura por ser tão breve? Será que não podemos levar a vida ao nosso jeito? Ou será que nos acomodamos e esperamos ela nos levar para algum lugar? Será que ela foi feita para nos levar ou nós que devemos levá-la? Tantas perguntas curtas para tantas respostas complexas. Cazuza sempre nos fez refletir sobre a loucura que é viver em suas letras tão sinceras.

Algumas pessoas dizem que estou tendo sorte por aqui neste primeiro mês. A verdade é que não é sorte, é atitude e um pouco de loucura. Acredito na teoria de que as coisas não acontecem na sua vida do nada, você, de alguma forma, criou uma situação ou gerou uma ação que resultou naquele fato. Claro que não é nada fácil ter coragem e agir, isso exige um esforço gigante. Mas se você ficar parado, a vida passa.

Por exemplo, há duas semanas atrás conheci dois árabes, da Arábia Saudita, na Starbucks que tem perto da biblioteca em que faço trabalho voluntário. Estava lá fazendo minhas planilhas de comparação de preços dos itens que precisaria comprar para a casa nova e, no meio disso, acabei falando no Skype com meus dois melhores amigos. Como não tinha fone de ouvido na mochila, acabei pedindo emprestado para um dos árabes e depois, ao devolvê-lo, comecei a puxar papo. No fim, acabei conversando com Aymin e Mohammed por quase duas horas.

Conversa vai e conversa vem, um deles comentou que outro colega, Salim, estava de mudança para Chicago e precisava vender todas as suas coisas da casa. Devido à urgência, estava liquidando tudo. Disse que tinha interesse e liguei para o meu marido. Ele veio até nós e combinou uma visita à casa de Salim naquela mesma noite. Fomos até lá e adoramos! Todos os móveis tinham menos de um ano de uso e estavam muito bem cuidados. Fechamos negócio e na semana seguinte fomos lá buscar todas as coisas. Salim não quis nem conferir o dinheiro que combinamos e colocamos dentro de um envelope, pois disse que confiava em nós.

Conto esta história, pois ela me fez pensar em muitas coisas. Os árabes são, muitas vezes, discriminados e taxados de terroristas, quando na verdade existe sim um grupo de muçulmanos fanáticos que espalham terror pelo mundo com seus atentados bárbaros, mas, ao mesmo tempo, a grande maioria deles são pessoas do bem, apegadas a seus valores e sua família, e que também estão estudando e trabalhando para conquistar um lugar ao sol. Julgar o próximo é uma eterna falta de ter o que falar. É falta de respeito com o outro e consigo mesmo.

Tô cansado de tanta babaquice, tanta caretice
Desta eterna falta do que falar

Depois de tudo, mandei mensagem para Mohammed agradecendo a indicação e dizendo que havíamos fechado negócio. Ele se colocou à disposição para ajudar no que mais fosse preciso para nossa mudança. Aymin mandou mensagem perguntando como estavam as coisas para mim e para o meu marido. E assim conhecemos três pessoas que nos ajudaram a facilitar nossa instalação em San Diego e viraram nossas amigas.

Se eu tivesse me deixado levar pelo preconceito e pelo medo, certamente não teria pedido o fone emprestado à Aymin, pois antes disso tudo já tinha visto qual era sua origem ao ouví-lo falar ao telefone com alguém. Tampouco teria iniciado uma conversa com ele. Simplesmente poderia ter ido para casa. Não foi sorte conhecer os dois, foi ter a mente e o coração abertos para aceitar o outro do jeito que ele é.

Se ninguém olha quando você passa
Você logo acha que a vida voltou ao normal
Aquela vida sem sentido, volta sem perigo
É a mesma vida sempre igual

Se não tivéssemos sido um pouco loucos e ido até a casa de uma pessoa estranha, teríamos gastado o triplo do valor para mobiliarmos nossa casa, além de ter perdido muito tempo com isso. Se não tivéssemos sido um pouco loucos, não teríamos vindo morar em San Diego. Se não tivéssemos sido um pouco loucos, não teríamos saído da casa de nossos pais. Se não tivéssemos sido um pouco loucos, não teríamos conquistado nada na vida.

Todos somos iguais, independente do cargo que ocupamos, do sobrenome da nossa família, do quanto dinheiro temos, de onde viemos e para onde vamos. No fundo, todos temos medos, angústias, erros, vergonhas e esperanças. No fundo, somos todos loucos.

E a vida precisa ser louca, pois ela não espera você enxugar suas lágrimas ou curar os seus machucados. A vida precisa ser louca, pois ela corre todos os dias uma maratona e não nos espera nem para tomar um gole de água. A vida precisa ser louca, porque estamos tendo uma oportunidade de dar um sentido a ela. A vida precisa ser louca, para que possamos ser felizes. A vida precisa ser louca, para que tenhamos coragem de acompanhá-la até o fim.