“A vida vem em ondas como um mar. Num indo e vindo infinito.”

Planejar. Esse verbo por muito tempo guiou os meus dias. Todas as manhãs, levantava da cama sabendo exatamente o que faria, em qual horário e com quem. Perdi muitas noites de sono repassando os fatos do dia, culpando-me por ter esquecido de fazer alguma tarefa no trabalho (não respondi o e-mail x, preciso ligar para fulano, tenho que cobrar ciclano…) e tentando dizer para mim mesma que precisava priorizar alguns compromissos pessoais (esqueci de marcar minha mão pela terceira vez na semana, não mandei mensagem para a fulana, preciso confirmar presença no aniversário do ciclano…). E assim os dias passavam e eu naquela roda gigante maluca que não saia do lugar, e que cada vez mais consumia meu sono e minha saúde.

Saber planejar é crucial para a sua carreira, ainda mais quando você trabalha como gerente de projetos. Planejar é essencial para você aprender a priorizar o que realmente é importante. O problema é quando você quer planejar e controlar tudo que acontece ao seu redor.

Este novo momento da vida está me ensinando a não fazer muitos planos para o meu dia. Confesso que no início é extremamente complicado, mas com o tempo você descobre que pode ter um dia maravilho que não teria se tivesse planejado.

Esta semana era “Spring Breack” na minha escola. Semana passada estava preocupada pensando que teria minha rotina interrompida, mais uma vez. Aproveitei as manhãs para estudar, mas na quarta-feira decidi ir à biblioteca do meu bairro, afinal é sempre bom mudar de ares. No fim, ela estava fechada devido a um feriado específico. Decidi mandar mensagem para um colega que mora ali perto e fomos tomar banho de piscina, jantar e ele acabou aqui em casa à noite tomando um drink comigo e com o meu marido. Em outra tarde, decidi que me dedicaria a fazer novas receitas e passei o dia em função de pães e geléias.

Como Lulu Santos muito bem disse, a vida é como uma onda. Cada momento é composto por uma onda específica. Por vezes, ela é grande, bonita e perfeita, e você consegue surfar sobre ela; já em outros momentos, ela é traiçoeira e arrasta você para o fundo do mar, mas você precisa ter coragem para vencê-la e recomeçar tudo outra vez; por outras, ela é tão tranquila que você mal a percebe. Mas não importa a sua intensidade, cada momento está ali, acontecendo e convidando você para desfrutá-lo. Mas se você perder uma dessas ondas, não adianta chorar, pois ela não voltará. O mar não vai parar para você recuperá-la. É preciso erguer a cabeça e seguir adiante, buscando novas oportunidades, novas ondas que poderão trazer aquilo que você espera.

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará

A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito

Tenho uma lista de tarefas que preciso fazer toda semana e em dias específicos, mas como tenho tempo livre nesses espaços, procuro deixa a vida levar. Os finais de semana são os mais incríveis. Dificilmente marcamos compromissos, os eventos vão acontecendo com o desenrolar do dia. Sábado passado começamos o dia na praia, encontramos alguns amigos, fomos parar numa raive, depois pegamos uma jacuzzi na casa de um casal de amigos e terminamos a noite comendo o melhor hambúrguer das redondezas em um restaurante muito bacana. Resumindo, conhecemos pessoas novas, degustamos novos sabores, demos muitas risadas, aproveitamos cada minuto do dia e tudo isso sem fazer nenhum planejamento prévio.

Sempre me cobrei muito para que cada coisa fosse feita com perfeição. E, quando dava errado, senti-me a pessoa mais frustrada do mundo. Porém, nunca me dei tempo para melhorar. Agora, e com ajuda da terapia feita no ano passado, passei a entender que todos os acontecimentos intensos da nossa vida precisam de maturação, assim com um bom vinho.

Após passar por um momento triste, como a perda de uma pessoa querida, por exemplo, você precisa se dar um tempo para chora e sofrer. Depois, você precisa refletir sobre esse luto e entender o quanto ele significa na sua vida, retirando todos os pontos que possam ajudá-lo a ser uma pessoa melhor. Só depois disso você segue adiante. O mesmo ciclo acontece com as coisas boas, como uma promoção no trabalho, por exemplo. Você deve ter o tempo de comemorar e de sorrir, mas depois deve processar a novidade, entender o que fez chegar até ali e como esses pontos positivos podem ser aplicados em outros aspectos da sua vida.

Estamos mudando o tempo todo, o mundo muda o tempo todo. Nunca vamos conseguir acompanhar tudo na mesma velocidade, mas precisamos desacelerar para poder conseguir seguir na maratona com a cabeça e o coração em ordem. Quando os dois estão em conflito, a vida vira um caos!

Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo

Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre

Como uma onda no mar

Mas não se engane, não é fácil. Todo processo de mudança e amadurecimento é doloroso, muito doloroso. Tem momentos que você tem vontade de sair correndo para o colo da sua mãe como uma criança assustada e desprotegida. Contudo, você não pode. Sua mãe mora longe, ou está viajando, ou infelizmente ela já não está mais aqui.

Claro que você pode se dar a esse luxo de vez em quando, mas não sempre. Você é um adulto e precisa aprender a controlar suas birras internas, seu conflitos, seus momentos de decepção, de perdas, de erros. Ser adulto exige tomadas de decisões, escolhas que nem sempre serão as certas, mas quando são podem abrir um novo mundo para você. Porém, o mais importante de tudo é saber que: ser adulto é aprender a entender a emoções e senti-las, desfrutando a sua intensidade. Esconder sentimentos é para os fracos, os verdadeiros corajosos são aqueles que admitem sentir.

A vida vai e vem como uma onda no mar. Aproveite a brisa, a areia, o sal, a água e tudo mais que ela pode lhe dar, assim como o mar. Faça planos, mas não exagere. Nunca sabemos se o dia de amanhã chegará para perdermos tempo levando uma vida tão certinha e regrada. Toda pitada de loucura faz bem para a alma.

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“Leste oeste norte e sul, onde um homem se situa. Quando o sol sobre o azul ou quando no mar a lua.”

Adriana Calcanhoto colocou muito bem em “Maresia” a posição a qual pertence o homem no mundo: todo lugar. Em uma aula na faculdade, lembro de ter lido um texto sobre o sentido de pertencimento a um lugar. Existem pessoas que já nascem entendendo que são cidadãs do mundo, diria que marinheiras. Já outras, sofrem por deixar suas raízes e demoram muito, ou às vezes nunca conseguem, sentir-se pertencente a um novo lugar, a uma nova cultura.

Ah, se eu fosse marinheiro
Seria doce meu lar
Não só o Rio de Janeiro
A imensidão e o mar

Quando você é uma dessas pessoas que precisa colocar tijolo por tijolo na construção da consciência de que pertence ao mundão velho de meu Deus, passa a perceber que tudo fica mais fácil ao se criar um ambiente acolhedor. Por isso, a primeira coisa que comprei quando cheguei em San Diego foi uma planta. Quer dizer, não e uma simples planta, é o Axl, o nosso bonsai. Confesso que não sei a qual família de bonsais ele pertence, só sei explicar que suas raízes são bem gordinhas e suas folhas também. Sempre quisemos ter um, mas não imaginava comprá-lo assim, por impulso.

Acho que estava com tanto medo de me sentir sozinha durante o dia, que quando olhei pra ele ali na prateleira das folhagens, pedindo para sair daquele agito e ganhar um lar, compreendi que faríamos companhia um para o outro durante as nossas horas de silêncio. Hoje ele faz parte da minha rotina e ajuda a criar o sentimento de que existe outro ser vivo por perto quando estou sozinha em casa. Sei que isso parece loucura, mas a distância faz dessas com as pessoas.

Não foi  fácil passar pelas festas de final de ano aqui. Natal e Ano Novo são sinônimos de família e amigos reunidos, festejando, comendo, rezando, abraçando e trocando sorrisos. Nós aqui improvisamos as datas e conseguimos passá-las sem nos sentirmos tão sozinhos, seja um acolhendo o outro, seja os amigos brasileiros e americanos que fizemos por aqui nos recebendo em suas casa.

A grande questão é que, quando você já é um marinheiro, seu coração não parte tão facilmente com os rompimentos impostos pela vida. Ele já está calejado pelas andanças mar afora (ou adentro).

Ah, se eu fosse marinheiro
Era eu quem tinha partido
Mas meu coração ligeiro
Não se teria partido

Ou se partisse colava
Com cola de maresia
Eu amava e desamava
Sem peso e com poesia

Mas o marinheiro só é forte assim, porque ele tem maturidade. Ele sabe que uma vez amado jamais será esquecido, por maior que seja a distância ou o tempo. Ele sabe que o mar nem sempre é calmo e existem muitas tempestades no caminho. Ele sabe que é preciso ter coragem para enfrentar ondas gigantes. Ele sabe que é preciso ter paciência para chegar até o seu destino. Ele sabe que existe uma rota a ser traçada e que nem sempre ela será a melhor ou a mais certeira. Ele sabe que a solidão é sua companheira. Ele sabe que nem sempre o mar dará para ele aquilo que ele quer.

Porém, ele também sabe que em cada porto poderá descobrir novos amores. Que depois de toda tempestade o céu oferece uma paisagem sem igual e que o mar poderá surpreendê-lo com muito mais do que ele planejava encontrar. Ele sabe que pode contar com seu conhecimento e seu coração para chegar onde quer. Que o mar pode dar felicidade em abundância, sustento e aprendizado. Ele sabe que com o tempo ele se tornará um marinheiro melhor e poderá ensinar outros homens a seguirem pelo mesmo caminho.

Não buscaria conforto
Nem juntaria dinheiro
Um amor em cada porto
Ah, se eu fosse marinheiro.

Com o passar do tempo você começa a descobrir as melhores rotas, conhecer seus novos companheiros de viagem, escutar novas histórias e ver nossos lugares. Nesse primeiro mês mantivemos nossa agenda bem cheia e já fizemos alguns bons amigos. Na próxima semana vamos nos mudar em definitivo para nosso apartamento e aí sim começaremos a fixar nossas raízes. Por enquanto, posso dizer que vamos jogar a âncora, mas sem ter nenhuma certeza de quanto tempo ela ficará parada.

Enquanto isso, seguimos velejando com cautela, desviando já de longe de qualquer pedra que possa aparecer no horizonte, aprendendo a confiar em nossos novos guias. Ficamos parados quando sentimos que o mar pode trazer perigo, esperamos a onda passar sem acelerar e contemplamos o horizonte esperançosos.

Enquanto não somos marinheiros, seguimos apenas uma direção, aquela que parece ser a mais segura. Enquanto não somos marinheiros, seguimos desbravando o mar sem muita ousadia. Enquanto não somos marinheiros, seguimos chorando na calada da noite com as fotografias dos nossos amores escondidas embaixo do travesseiro.