“Garota, eu vou pra Califórnia. Viver a vida sobre as ondas. Vou ser artista de cinema. O meu destino é ser star”

Três meses e meio passaram-se desde o último post. Um longo intervalo para quem tinha se comprometido a escrever semanalmente suas experiências. Mas a vida é imprevisível e acabamos nos perdendo no turbilhão de atividades diárias e descontinuando aquilo que seria uma prioridade.

Foram tantas coisas que aconteceram nesse tempo, que serão necessários vários posts para colocar as experiências em dia. Pensei muito no post de “retomada”, porém, antes de falar sobre as três semanas que passei no Brasil, as novas trips feitas, as visitas recebidas e os novos cursos, vou falar de algo que tem ocupado boa parte do meu tempo e tem sido meu grande objetivo atual: conseguir um emprego. Acredito também que este tópico pode ajudar muitas pessoas que estão na mesma situação.

Eu dou a volta, pulo o muro
Mergulho no escuro
Sarto de banda
Na Califórnia é diferente, irmão
É muito mais do que um sonho

Sim, a Califórnia é um sonho de lugar, contudo nenhum recomeço é simples, ainda mais quando se trata de se recolocar no mercado de trabalho em outro país. Desde que voltei do Brasil, há um mês, tenho procurado um emprego na minha área. Antes da viagem, já deixei meu currículo e minha carta de apresentação prontos e validados pelo conselheiro da escola de inglês.

Aqui, todo tipo de informação pessoal é proibida de ser passada para o empregador, tanto no currículo, quanto na entrevista. Claro que existem meios do recrutador conseguir algumas informações pessoais suas, mas é algo que cabe muito mais ao entrevistado se sentir a vontade para falar enquanto se apresenta. Um site que me ajudou muito a criar o currículo e a carta foi o da escola de inglês, o qual possui vários modelos para fazer download.

A primeira coisa que fiz após ter o currículo pronto foi criar um perfil em inglês no LinkedIn. Depois, comecei a procura pelo ponto mais óbvio: Google. Listei todas as agências digitais da cidade e entrei nos seus respectivos sites verificando se havia vaga na minha área. As que tinham, entrava em contato. Como não obtive retorno de nenhuma (a não ser um e-mail automático de retorno), comecei a enviar meu currículo também para as agências que não possuíam vagas abertas. Paralelo a isso, me cadastrei em alguns sites como Monster, IndeedSimply Hired, entre outros, para procurar e receber news de vagas não só de agências, mas também de empresas privadas.

A vida passa lentamente
E a gente vai tão de repente
Tão de repente que não sente
Saudades do que já passou

Eu dou a volta, pulo o muro
Mergulho no escuro
Sarto de banda
Na minha vida ninguém manda não
Eu vou além desse sonho

É tanta coisa nova todos os dias acontecendo por aqui que realmente às vezes fica difícil sentir saudades do que passou desde que chegamos. Cada passo é um mergulho no escuro. E a coragem? Desde que comecei esta jornada de retorno a minha carreira, acabei desviando do meu caminho e enviando alguns currículos para trabalhar no comércio. Por mais que não seja minha área, é uma experiência que pode agregar conhecimento, experiência e, claro, dinheiro enquanto não consigo o meu emprego dos sonhos. Aproveitei que agora algumas empresas estão com vagas temporárias para as grandes festas de final de ano (Dia de Ação de Graças e Natal) e tentei arriscar. Acabei conseguindo duas entrevistas.

Em uma das entrevistas o processo foi feito em grupo. Imagina você sendo entrevistado em outro idioma, com outros três “concorrentes”, sendo o único estrangeiro e sem experiência nenhuma no varejo? O medo bateu logo que cheguei. Respirei fundo antes de entrar na sala e resolvi confiar no meu taco. Pensei “Mais que um não eu não recebo”e “Já ganhei pontos só por ter sido chamada e estar aqui”.

Assim como o currículo é diferente, as entrevistas também são. O foco aqui é totalmente profissional, sem perguntas pessoais, e o recrutador testa sua experiência através de perguntas em que você deve dizer o que faria se acontecesse uma situação x na empresa. Ou quando você fala das suas características, ele pede para citar exemplos disso no seu último trabalho. Na escola recebemos uma lista de perguntas padrões para nos preparamos antes de uma entrevista. Seguem abaixo:

“Please tell me about yourself”: aqui não é pra falar da sua vida pessoal, mas sim para se vender, dizer no que você é bom, quais são suas principais características e descrever resumidamente as funções exercidas nos últimos anos.

“Where do you see yourself in five years?”: dizer qual o cargo que quer alcançar na empresa, mas não esquecer de falar que é através do cargo que você está se candidatando que vai conseguir a experiência necessária para chegar no seu objetivo final.

“Why do you want to work here?”: uma das principais perguntas feitas por aqui. Por isso, é importante dar uma boa pesquisada sobre a empresa antes da entrevista e ter os dados na ponta da língua, mostrando o seu conhecimento sobre ela.

“What are your weaknesses?”: quando for falar de um ponto fraco, já diga o que está fazendo para melhorá-lo. No meu caso, falo do inglês, que ainda não é perfeito, mas que continuo fazendo aulas todos os dias para aprimorar.

“Do you have any questions for me?”: aqui você sempre tem que ter pelo menos umas duas perguntas prontas para fazer e elas não podem ser sobre benefícios e valores, mas sim sobre a rotina de trabalho, quais são os próximos passos do processo, quais as oportunidades de crescimento, etc. Seguem algumas sugestões: “Does this job usually lead to other positions?”, “What are the opportunities for advancement?”, “How would you describe a typical day for this position?”, “How are employees evaluated in your company?”, “If I were offered a job, how soon would you like me to begin?”, “What is the next step in the interview process?”.

Outras perguntas que podem surgir: “Tell me about a difficult situation you had to handle”, “How would your peers or co-workers describe you?”,  “What are your strengths?”, “How are your English skills?”, “Are you available to work nights and weekends?”.

Garota, eu vou pra Califórnia
Viver a vida sobre as ondas
Vou ser artista de cinema
O meu destino é ser star

O saldo final até agora para a minha área foi só uma entrevista por telefone. Assim como no Brasil, tudo é muito mais fácil quando se tem um amigo ou conhecido que possa recomendar você para a vaga. Por isso, o processo de entrar em contato por conta própria com as empresas é muito mais lento.

Nesse meio tempo, acabei participando de um evento de Project Manager na escola onde faço o curso na mesma temática para fazer alguns contatos. Paralelo a isso, tenho feito alguns amigos nos cursos de marketing. Quando as pessoas são da minha área ou possuem uma rede grande de contatos, pergunto se posso adicioná-las no LinkedIn. No LinkedIn também estou buscando profissionais de RH da minha área e enviando e-mail me apresentando e perguntando se eles sabem de alguma vaga que se encaixe no meu perfil.

Sei que a descrição do processo parece simples, mas não é. Alguns sites pedem para você fazer um cadastro completo (que incluiu toda sua experiência profissional, educação, cursos, 90 perguntas de múltipla escolha sobre situações que podem acontecer no dia a dia da empresa, etc.) e você acaba perdendo uma hora só para se candidatar a uma vaga. E, para cada e-mail enviado, é preciso mudar algumas características do currículo e reescrever a carta de apresentação. O processo é lento e exige muita paciência.

Já bateu o pensamento de que é meio frustrante dar vários passos atrás para recomeçar. De cada 20 currículos que você envia, somente um dá retorno. Às vezes, nenhum. Você até tem chance sim de ser star na Califórnia, mas precisa lutar muito para ter seu lugar de destaque ao sol. Ninguém disse que seria tão difícil recomeçar. Porém, também ninguém falou que seria possível fazer melhor quando se tem uma segunda chance, e que nunca é tarde pra aprender a ser mais humilde e otimista.

“Eu não tenho data pra comemorar. Às vezes os meus dias são de par em par. Procurando agulha num palheiro.”

Andei afastada do blog, mas não foi por falta de tempo para escrever, e sim porque precisava resolver questões comigo mesma antes de externar minhas opinões e meus sentimentos. Nesse tempo, estudei, trabalhei bastante no voluntariado (agora são novamente duas vezes fixas por semana), fiz novos amigos e viajei. No próximo post vou relatar minha primeira trip pela Califa e trazer uma visão diferente sobre os lugares pelos quais passei. Porém, este post é para falar de um recomeço.

Recomeçar significa reencontrar ideias, projetos e uma pessoa que você havia perdido pelo caminho há algum tempo: você mesmo. Aquela pessoa que tinha sido engolida pelo stress da rotina maluca e pela zona de conforto. Ao reencontrar você mesmo, acontece um choque de mundos, quase um Big Bang. O “você antigo”, cheio de cicatrizes, manias e medos, descobre o “você novo”, completamente entusiasmado, cheio de planos e coragem. No primeiro momento, eles se estranham e até ficam emburrados um com o outro. Mas depois, eles descobrem que podem ser grandes amigos e ensinar um ao outro tudo o que sabem, criando um “você melhor”.

Acredito que uma boa viagem faz você alçar novos voos, descobrir novos horizontes, conhecer novas pessoas, aprender mais sobre o mundo e sobre si mesmo. Essa viagem não precisa ser para outro país, como foi meu caso, pode ser para a cidade vizinha, para a casa de paia de um amigo ou para o bairro mais bacana da sua cidade.

Viajar é ir além do seu portão. É dar passos para fora daquelas quatro paredes que tanto protegem e escondem você. Viajar é mais que pegar um carro ou um avião. Viajar é olhar para os lados e ver cores, amores e emoções. É sentir cheiros e sabores. É escutar barulhos, sorrisos, choros, lamentos e sonhos. Viajar é desenvolver cada um dos seus sentidos e descobrir que todos eles podem ir muito mais além. Viajar é fechar a porta e não olha para trás, é ter a coragem de um adulto e a alegria de uma criança. Viajar é descobrir o sabor da liberdade, entender o significado de responsabilidade e sentir na pele o significado da palavra experiência.

As músicas do Cazuza sempre me fizerem, de certa forma, viajar. Em “O tempo não para” é possível identificar um turbilhão de sentimentos, experiências e aprendizados. Dá para viajar apenas aumentando o volume e fechando os olhos.

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Já comentei por aqui que o sentimento inicial de um imigrante é ser só mais um na multidão, “só mais um cara”. Durante muitos dias que passam, você acredita que “está correndo na direção contrária” e sabe que isso não vai te levar a lugar algum. Não terá “pódio ou beijo de namorada” esperando na chegada. Você terá muitas pessoas perguntando por que você está triste ou nem sempre está feliz, se tem uma oportunidade de ouro nas mãos.

Muita gente tem a ilusão de que mudar de país irá resolver todos os problemas da vida, inclusive os de relacionamento. Só que você encontra muito mais espinhos nas flores pelas quais sonhava encontrar e é difícil aceitar e aprender a desviar deles. Não adianta escapar, em algum momento você irá espetar o seu dedo e isso irá doer. E mais uma coisa: os seus defeitos acabam se exaltando em momentos de grande mudança. Isso significa que você entrará em um número de conflitos maior consigo mesmo e com as pessoas mais próximas.

Claro que existem pessoas que encaram as mudanças da vida com mais facilidade. Infelizmente – ou felizmente – eu sou diferente. Toda mudança sempre foi difícil pra mim. Sofro demasiadamente por tudo. Sou ansiosa, sou apegada à pessoas e lugares, sinto saudade de tudo.

Começar do zero em um novo país é desafiador e também um pouco frustrante. Se você não sabe falar a nova língua fluentemente, você não é nada. E aí você precisa fazer novos cursos, aprender mais do mesmo (só que no novo idioma), aceitar que é preciso voltar a fazer estágio ou voluntariado, pois não têm experiência na sua área dentro da nova cultura.

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Contudo, você descobre que é muito mais forte do que pensa. Apesar de se sentir como uma criança aprendendo a falar um novo idioma e como um adolescente tentando ser aceito em um novo grupo de colegas/amigos, você descobre que é adulto e maduro, e prova para si mesmo que consegue encarar erros, desafios e possibilidades. “Você não está derrotado enquanto os dados ainda estiverem rolando”.

O grande degrau para se sentir aceito em uma nova cultura é não ter medo de errar. Não ter medo de escorregar na pronúncia, não ter medo de se perder pelas ruas, não ter medo de tentar conseguir um voluntariado ou um emprego, não ter medo de falar com as pessoas, não ter medo de pedir algum prato diferente no restaurante só porque você não entende quais são os ingredientes. Aí você vai aprendendo a sobreviver, por mais que alguns arranhões vão aparecendo no seu corpo. Machucar-se faz parte do processo.

Aprendi a assumir para as pessoas o que eu não sei. Quando alguém fala alguma coisa que eu não entendo, digo: “por favor, pode repetir?” e se ainda assim não entendo, digo “por favor, você pode me explicar? Estou aprendendo a falar inglês e em alguns momentos não entendo o que é dito”.

Aprendi a pedir ajuda. Peço para meus colegas de aula, para meus amigos, meu marido, meus clientes e meu chefe corrigirem minha pronúncia e a me ensinarem novas palavras. Não tenho mais vergonha de falar, pois a necessidade de expressar minha opinião é muito maior que a cobrança perfeccionista que existe dentro de mim. Não tenho vergonha de assumir que meus melhores amigos aqui são: o Google Maps, o Google Translater e minha bike.

Tomei vergonha na cara e comecei a cuidar mais da minha saúde. Há dois meses mudei minha alimentação, estou tentando ser mais natureba, consumir mais frutas e verduras, menos carne vermelha, farinha branca e glúten. Aprendi a fazer pão vegano, cookies integrais, a cozinhar diferentes receitas e a usar mais temperos naturais.

Fiz as pazes com os exercícios físicos e passei a correr. Imaginem que eu corria no máximo três minutos na esteira da academia e quase morria. Agora, já consigo correr 30 minutos sem parar ao ar livre. Claro que corro bem devagarinho, em um ritmo de iniciante, porém é preciso começar de algum lugar, não? Ao menos três vezes por semana eu dedico uma hora por dia ao exercício, seja correndo, andando de bike ou caminhando. E assim eu aprendi a dormir melhor, a me sentir mais disposta e descobri uma nova melhor amiga: a atividade física.

Não existe mágica. Viajar não irá mudar a sua vida, a não ser que você vá com a cabeça e o coração abertos. O primeiro passo é aceitar que mudar é errar, só a partir daí você irá começar a acertar. O tempo nunca para, então siga com ele.

O tempo não para
Não para, não, não pára