“Eu tenho tanto pra lhe falar. Mas com palavras não sei dizer. Como é grande o meu amor por você”

No dia 2 de novembro fez dois anos que meu avô Lino faleceu. Ele foi o avô com quem eu tive mais contato, foi um dos meus maiores exemplos e um dos meus melhores amigos. Por coincidência do destino ou não, ele partiu um mês antes da minha mudança. Naquela época, as emoções se misturaram muito e em alguns momentos eu até pensei em desistir de sair do Brasil, pois sabia que seria muito difícil lidar com situações como essa à distância.

Mas quando meu avô ainda estava no hospital, ele disse que estava muito feliz por mim e que eu deveria aproveitar esta oportunidade única da vida. Ao mesmo tempo, meu pai dizia que não podemos mudar o percurso da vida das pessoas que a gente ama, nem mesmo estando perto delas. E foi com essa força passada pelos dois, que eu consegui enfrentar os primeiros meses de distância da minha família.

Há um ano atrás, eu escrevi o texto que segue abaixo, mas só agora tive coragem de publicá-lo. A dor da saudade ainda segue muito grande, e provavelmente nunca irá passar, mas hoje já consigo lidar melhor com ela. Então, se você está pensando em morar em outro lugar (seja outra cidade, estado ou país), tente se preparar emocionalmente para todas as possibilidades que podem acontecer. Sinto dizer, mas você enfrentará muitas perdas.

E quando digo muitas, estou me referindo também a não participação de eventos felizes, como casamentos, aniversários, festas, encontros de família e dos amigos, nascimentos dos filhos dos amigos ou de algum afilhado, festas de final de ano, etc. E claro, você também irá sentir por estar longe quando um amigo seu precisar de ajuda ou de um abraço, ou quando algum familiar estiver doente e você não puder estar presente para fazer o que for preciso, ou ainda quando alguém partir. Em alguns desses momentos você certamente irá se perguntar se realmente está valendo a pena estar tão longe.

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Eu tenho tanto pra lhe falar….

Acredito que a palavra saudade traz consigo um sentimento tão forte, que é quase impossível não compará-la com a equivalência da força da palavra amor. Sempre usei com frequência essa palavra, pois sinto falta de muitas pessoas e momentos. Mas foi no dia 01 de novembro de 2014 que eu realmente pude entender – e sentir – o tamanho da sua magnitude.

Naquela semana, eu estava em São Paulo à trabalho.  Como era final de semana, resolvi conhecer o Museu da Língua Portuguesa com dois colegas. Eu não queria sair, pois meu coração estava apertado de dor. Porém, meus colegas insistiram e eu fui lá realizar um sonho, já que há muito tempo queria conhecer o museu. Eu estava totalmente encantada com toda aquela poesia ao meu redor. Ao final daquele momento mágico, a ligação chegou. Meu avô tão querido tinha partido. Guardo até hoje as palavras do meu pai “o vozinho descansou”.

O desespero tomou conta de mim. Eu não sabia o que fazer, para onde correr. Já tínhamos nos despedido naquela semana no hospital, porém é incrível como o ser humano sempre carrega consigo a esperança de que um milagre aconteça (ainda bem que somos assim, pois é a esperança que nos move). E foi com a música “Como é grande o meu amor por você”, do Roberto Carlos, que eu disse o meu adeus pra ele. Foi essa a música que eu cantei no último momeno que estivemos juntos. Confesso que até hoje não consigo mais cantá-lá ou escutá-la. É como se um nó se formasse na minha garganta e, ao mesmo tempo, um turbilhão de lembranças toma conta da minha mente.

Antes da chegada daquela notícia, eu já tinha sofrido e chorado muito, pois a hora dele estava chegando, era algo inevitável. Contudo, a minha maior dor naquele dia foi estar longe da minha família, dos meus tios, da minha avó, dos meus primos e, principalmente, do meu pai.

O amor que sinto pelos meus pais ultrapassa qualquer palavra que tenha significado de grandeza. Mas meu pai é meu herói, meu exemplo, meu melhor amigo e um grande parceiro. E ele sentia exatamente isso pelo meu avô. Eles sempre estavam juntos fazendo todo tipo de indiada: construindo um galinheiro ou um galpão, podando uma árvore, indo ao supermercado, pescando, passeando, jogando carta…

Naquele dia, ele estava perdendo o seu pai e o seu melhor amigo, e eu não estava lá. E eu estava perdendo meu avô mais querido, meu xodó, e eu não estava lá. Foi a partir desses acontecimentos que eu pude entender a mistura de sentimentos entre dor e saudade.

Dói chegar na casa dele e não ver a sua moto estacionada na garagem. Dói sentar no sofá da área e não encontrar ele no lugar cativo servindo o chimarrão para toda a família. Dói não poder abraçá-lo e dançar alguns passos de música gauchesca, o cumprimento que sempre fazíamos. Dói não escutar as risadas dele e sentir aquelas mãos ásperas fazendo carinho no meu braço. Dói não escutar pela centésima vez as histórias de antigamente e rir como se fosse a primeira vez que elas estivessem sendo retidas do baú. Dói não ganhar de presente umas folhas de couve ou alface, ou um saco de bergamotas ou jabuticabas. Dói olhar para os passarinhos que sempre estão na árvore em frente ao sofá da área e não escutar as artes que eles aprontaram naquela semana.

Dói olhar para o fogão a lenha que ele fez e não ver fogo, pinhão, quentão ou mocotó. Dói olhar para a churrasqueira e não ver ele ali com o avental do Internacional e um sorriso largo no rosto. Dói entrar na sua marcenaria e encontrar apenas um vazio gigantesco. Dói olhar para as fotos que estão na cristaleira e ver todos os momentos que ele passou ao lado da família, e saber que a partir de agora ele não estará mais nos novos acontecimentos. Dói entrar no quarto e não encontrar ele lá tirando um cochilo depois do almoço. Dói olhar para uma vara de pesca e saber que não faremos mais nenhuma competição de quem pega o maior peixe do dia. Dói fazer qualquer evento na casa da vó e não ter ele por perto sendo o centro da organização da festa e da bagunça. Dói olhar para o balde de milho das galinhas e saber que ele não vai mais dizer para eu não atirar comida escondida para elas. Dói olhar para a minha vó e não ver ele chamando ela dos mais doces apelidos e correndo para agradá-la. Dói não ver os dois expressando todo aquele amor na frente de todos, mesmo depois de 60 anos de casados.

Acredito que o maior legado que ele deixou foi ser um exemplo para toda família e mostrar que podemos mudar a vida dos outros apenas sendo nós mesmos. Ele nunca teve muito dinheiro, mas nem por isso negava ajuda. Ele sempre mostrou que existem outras formas de fazer uma pessoa seguir em frente. Ele escutava, dava conselhos, incentivava. Não teve uma vez que não perguntou como estava o meu trabalho e, enquanto eu respondia, ele já dizia que eu seria um sucesso. Ele fazia isso com todo mundo.

Ele nunca deixava de contar uma história, uma piada, de dar uma risada, de abraçar, de olhar no olho, mostrar o quanto se importava e o quanto estava feliz por nos ver. Ele era um ser tão iluminado, que quando partiu, deixou um vazio do tamanho de uma cratera em vários corações. Ainda é impossível acreditar que ele não está mais entre nós, pois a sua presença continua sendo constante. Ele fez o bem pra tanta gente, que esta onda de coisas boas continua a se propagar. Até na cama do hospital, quando ele ainda estava lúcido, não deixou de fazer planos. Continuou elogiando, cantando, contando piadas.

Ele foi enterrado no dia que completaria 84 anos. Não por coincidência, seu aniversário era no Dia dos Finados, dia no qual o cemitério sempre está cheio de gente e de novas flores. Ele escolheu partir num dia de festa. Ele era uma festa em pessoa. Uma festa de amor, de compaixão, de amizade e de carinho.

Dói tanto lembrar, mas doeria mais ainda se não tivéssemos vivido tantos momentos juntos. Ainda nos encontramos nos meus sonhos e isso ajuda a matar um pouco da saudade. Serei eternamente grata por ele ter me ensinado o significado da palavra saudade e por saber o quanto ela pode ser intensamente sentida a cada dia.

Saudade é o amor que fica. E o amor por ti, vô Lino, será eterno ❤

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“Todos os dias é um vai e vem. A vida se repete na estação.”

Nesta semana, completarei cinco meses de vida nova em San Diego. Ontem, jantando com um casal de amigos brasileiros, contei histórias de vida das quais tomei conhecimento desde que passei a fazer parte da comunidade de imigrantes deste novo mundo. O ditado costuma diz que “sonhar não custa nada”, porém para algumas pessoas sonhar pode custar a liberdade e o próprio sonho. E foi com esse pensamento que acordei hoje de manhã e passei a sentir ainda mais intensamente a constante rotina de chegadas e partidas que presencio. A rotina da qual também passei a fazer parte.

Maria Rita descreve em frases curtas a relação entre “Encontros e Despedidas”, mas a simplicidade dos versos, na verdade, carrega uma imensidão de sentimentos que acontece a cada ida e vinda.

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

Na escola que estudo, todos os dias chega um novo aluno, e todos os dias alguém também se despede. Hoje, foi a vez de um brasileiro, que passou seis meses em San Diego com a esposa e os dois filhos, dizer até logo. Ele vai com a certeza de que no próximo ano retorna para ficar de vez. Já ontem, uma menina do Cazaquistão passou a integrar a turma. Faz uma semana que ela mora em San Diego. Antes, vivia em Los Angeles com o namorado português, porém decidiu largar tudo para viver perto dos amigos, também cazaques, que moram aqui.

Nunca fui boa em despedias e desapegos. Contudo, tive que aprender, mesmo sem querer, a dizer adeus, assim como dar as boas-vindas. Ainda não consigo controlar a explosão de sentimentos que sinto quando penso na minha família que está no Brasil ou o aperto que dá no coração quando lembro daqueles que partiram para sempre, como meu avô Lino e minha avó Ana. Constantemente meus sonhos são com todos aqueles que há muito não vejo. O inconsciente saber ser poderoso e cruel. Constantemente, ele busca em nossa memória histórias e rostos para nos lembrar do mundo que existe para além da cegueira que vivemos ao tentar buscar o segredo da felicidade e da vida estável.

Há um mês, tive que me despedir da primeira grande amizade (sem ser brasileira) que fiz por aqui. A Jara voltou para Minorca, uma ilha da Espanha, pois precisa começar a faculdade e construir sua carreira. Uma menina de 19 anos, com a maturidade de uma mulher de 30, que deixou uma saudade enorme e um ensinamento gigante: “lute por aquilo que você acredita”. Ela não entendia como eu dava conta de tudo e eu até hoje busco entender de onde ela tirou coragem para ficar seis meses longe da sua família, vir para um país completamente sozinha para aprender inglês e buscar respostas para o seu futuro. Segundo ela, seus pais sempre a incentivaram a criar novos laços, a nunca ficar só na comodidade do ninho que eles construíram com tanto amor para ela. Compartilhamos livros, risadas, confidências, almoços, jantares e fotos. Aprendemos sobre amizade, distância e saudade.

Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir

Não é fácil resumir o que aprendi sobre o significado de chegar e partir nesses 150 dias, mas tentarei, assim como Maria Rita, simplificar as grandes escolhas que muitas pessoas fizeram. A simplicidade é proposital para que seja possível enxergar todo o peso das decisões tomadas que estão implícitas nas entrelinhas.

Teve gente que chegou para ficar e que: vendeu sua casa e veio com o filho adolescente com medo da violência na Polônia; vendeu seu carro, o único bem que tinha no Brasil, para tentar uma nova vida com sua namorada, mesmo que isso tenha significado passar a entregar pizza; continuou com seus negócios no México e veio com o marido e os dois filhos adolescentes para abrir novas franquias em San Diego; deixou a Itália para acompanhar a esposa, que recebeu uma oportunidade de trabalho em San Diego, e enquanto ele aguarda seu Green Card, trabalha como voluntário em um aquário na cidade; está há 15 anos morando na Califórnia e volta uma vez por ano para a China como visitante; veio da Argélia para acompanhar o marido e só vai voltar ao seu país de origem no próximo ano para realizar a cerimônia religiosa do casamento; é filipino, mas já morou na Arábia Saudita por um tempo e agora está há muitos anos em San Diego com toda a família desfrutando a poesia da vida; deixou o Iraque e está vivendo feliz há 25 anos nos Estados Unidos.

Tem gente que vem e quer voltar e que: está há 14 anos vivendo em San Diego com o marido e o filho de oito anos, mas todos os dias quer voltar para a Colômbia; está há dois meses na cidade, mas louca de vontade de voltar para o Brasil em julho, pois a vida não está sendo fácil por aqui; teve que deixar a filha de menos de um ano na Arábia Saudita para seus pais a criarem dentro das tradições, enquanto termina o mestrado nos Estados Unidos; veio estudar inglês e fazer festa por alguns meses e voltou para a França.

Tem gente que veio só olhar e que: saiu da Suíça para ficar um ano e meio em San Diego com o marido, o qual trabalha em uma empresa americana, mas como ela não consegue emprego na sua área devido ao visto, está ganhando um dinheiro extra como nanny; partiu da Guatemala há dois anos e está morando com uma tia em San Diego, mas não sabe o que fará no futuro; trabalhou durante um tempo no Brasil e resolveu tirar alguns meses sabáticos para surfar na Califórnia; está morando há um mês na casa de uma família e na metade do ano volta para a Espanha; veio do Equador, frequentou a aula durante um mês e nunca mais voltou; deixou a Síria para estudar e trabalhar em San Diego e está decidindo o que fará no próximo ano; veio da Rússia com o marido, tem medo de se relacionar com estranhos e comparece apenas a cada 15 dias na aula.

São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida

“Caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento. No sol de quase dezembro, eu vou.”

Dois meses passaram, mas parece que foram doze. Todos os dias a vida é tão cheia de descobertas, que você aproveita muito mais cada minuto e tenta absorver ao máximo a experiência, pois sabe que ela passa rápido e escorre pelas mãos. Ah quem dera poder viver para sempre assim!

Ao mesmo tempo, você despende mais energia por pensar potencialmente em tudo, em cada escolha e em cada saudade. Os sentimentos ficam muito intensos. Por vezes você está muito feliz, como se fosse a pessoa mais abençoada do mundo. Por vezes você está tão triste, que as lágrimas chegam sem avisar, molham o rosto e lavam a alma.

Você caminha sentindo-se nu, como diria Caetano: “sem lenço e sem documento”. Você não consegue esconder aquilo que está estampado no seu rosto. Você está sedento por amor e por carinho. Você está sentido-se o ser mais frágil do mundo. Contudo, você está sozinho e precisa ser forte. O sol e a lua são seus mais fiéis companheiros. Quem muito caminha por aí sabe do que estou falando.

Quando você está longe, por mais que esteja cercado de pessoas, sente-se só. Mas você precisa ter em sua vida um momentos para ser só, pois é assim que se consegue crescer e sobreviver ao novo. Você está longe, mas queria estar perto e também queria estar onde está. Será que a vida é assim tão bipolar? Ou será que você faz dela este caos?

Mesmo longe, você não deixa de acompanhar as notícias e saber sobre tudo que está acontecendo por lá, por mais que não possa fazer muita coisa daqui. A maioria das notícias se repetem todos os dias: violência, corrupção, futilidades, milagres e curiosidades. O mundo vai seguindo, as pessoas vão sobrevivendo, fazendo suas festas, comemorando suas conquistas, chorando suas decepções, mas você não está lá. Você não pode fazer nada além de mandar uma mensagem ou dizer algumas palavras. Você não pode dar um abraço ou simplesmente mostrar que se importa através do brilho do olhar.  Mas você sente, você sofre, você torce, você se preocupa e você se orgulha.

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou

As fotos enviadas pelos entes queridos acalmam o coração e mostram que eles seguem vivendo um dia por vez, assim como você. Eles continuam enchendo a vida de cores, de amores, de sabores e de canções. E você segue buscando ser forte e criando a sua nova rotina, conhecendo novas personalidades e espaços. As pessoas seguem casando e acreditando no amor. As pessoas seguem estudando e acreditando na sabedoria. As pessoas seguem trabalhando e acreditando que podem fazer alguma diferença no mundo. E você segue acreditando que está, de alguma forma, presente.

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não

Descobri que praticar hiking é uma forma de estar perto da natureza e ao mesmo tempo em contato com o seu eu. Caminhar por trilhas desconhecidas sem saber onde se vai chegar dá medo sim. Ao mesmo tempo, você sabe que alguém já passou por ali, pois vê as pegadas, e isso dá segurança e esperança de que pode seguir. San Diego oferece paisagens cheias de montanhas, pedras, plantas rasteiras, muito sol e algum vento. Todo final de semana você pode escolher uma nova trilha, pois a cidade é abençoada com muita natureza a ser desbravada.

Você sente que cada passo trilhado é um a menos e que cada metro de subida é uma vitória. A recompensa está logo ali, mas parece nunca chegar. Porém, você não desiste. Por mais que as pedras façam você tropeçar ou resvalar, por mais que a boca fique seca e implore por mais água, por mais que suas pernas digam chega, você segue, pois sabe que seus olhos precisam daquela recompensa. E quando você chega ao cume, seu coração se enche de alegria. Você sente como nunca que quer seguir vivendo para ver mais, aprender mais e aproveitar mais.

Momentos como esses são inesquecíveis. Durante todo o tempo de caminhada você vai pensando em tudo e em nada. Você fala consigo mesmo e, por vezes, até com um ser superior. Você incentiva a si mesmo, você precisa acreditar em si mesmo. Corpo e mente trabalham juntos, já que um depende do outro, um dá força para o outro. E assim, passo a passo, você vai chegando ao seu destino final.

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou

A volta é bem mais tranquila, você já conhece o caminho e os obstáculos, e então passa a apreciar com calma a paisagem e tenta gravar os detalhes em sua memória. O ponto de chegada, aquele mesmo da partida que causava tanto entusiamo e incertezas no início, agora é a mais pura sensação de dever cumprido e relaxamento.

A ida sempre é mais difícil, ela é incerta, ela prega armadilhas, ela é, por vezes, traiçoeira. Mas a volta traz outro vigor. Os calos nos pés podem doer mais, mas mesmo assim você sabe que está no caminho certo e que a chegada reserva a recompensa que faz você querer repetir a dose.

Claro que nem todo caminho que você traça tem o mesmo trajeto na volta. Ainda não sei se a vida aqui será permanente, se traçaremos novas trilhas ou voltaremos para o início. Por enquanto só sei que eu vou vivendo passo a passo, minuto a minuto, dia a dia, sem nenhum lenço e com apenas um documento. Estou aproveitando cada brisa. Não me importo com os grãos de areia que ficam dentro do sapato, tampouco com os outros que vão passando correndo por mim. Cada um tem o seu ritmo. Cada um tem o seu objetivo de vida. Cada um tem o seu limite.

Por enquanto eu sigo contra o vento e assim eu vou.

“Por isso hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado. De bater na porta do vizinho e desejar bom dia.”

Quando você está na sua cidade natal, passa o dia sendo inundado por paisagens conhecidas e acolhedoras, de afeto dos mais próximos, pelos sabores que tanto gosta, pela música local que faz seu coração bater mais forte e por cheiros que remetem à lembranças boas. Infelizmente, por muitas vezes, nem percebe o quanto isso é acolhedor. Mas quando você está longe, qualquer som, odor ou gesto que lembrem a sua origem, viram quase um evento. Zeca Baleiro compara muito bem a tristeza e a solidão com os personagens do nosso cotidiano na música “Telegrama”, o que faz a saudade bater ainda mais forte.

Eu tava triste, tristinho
Mais sem graça que a top-model magrela
Na passarela
Eu tava só, sozinho!
Mais solitário que um paulistano
Que um canastrão na hora que cai o pano

Para compensar esses sentimentos, muitas vezes escuto músicas de artistas brasileiros, faço comidas que minha mãe me ensinou e, claro, leio livros em português. É incrível como em alguns momentos você sente uma vontade louca de entrar num restaurante que sirva uma “à lá minuta” com feijão ou de escutar um artista de rua cantando Roberto Carlos. Mas por aqui tudo é diferente e você precisa adaptar suas vontades ao que a cidade oferece.

Mas ontem eu recebi um telegrama
Era você de Aracaju ou do Alabama
Dizendo: Nêgo, sinta-se feliz
Porque no mundo tem alguém que diz
Que muito te ama!
Que tanto te ama!
Que muito, muito te ama
Que tanto te ama!

Contudo, esses dias recebi um presente. Fui a um restaurante que, no meio de sua playlist, tocou um samba. Apesar dos hamburgers, dos papos em alto e bom som em inglês que estavam rolando nas mesas ao lado e da bandeira americana tremulando na porta, por três minutos me senti em casa e fiquei realizada. Confesso que até deu vontade de levantar da mesa e começar a dançar de alegria, mas me contive e apenas expressei a gratidão através de um sorriso.

Por isso hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria

Dia 28 de janeiro comecei a estudar inglês na San Diego Continuing Education – SDCE, localizada em Point Loma. Tenho aula todos os dias pela manhã com mais de 30 colegas de diferentes nacionalidades. É muito interessante escutar suas histórias, pois você conhece pessoas que estão na mesma situação que a sua e, mesmo sendo de uma cultura totalmente diferente, sentem as mesmas coisas: as mesmas saudades e guardam as mesmas lembranças da sua terra na memória.

Apesar das pequenas alegrias que é possível encontrar aqui através de uma feijoada típica brasileira ou de um jogo de futebol, quando você abre espaço para conhecer pessoas novas e deixa elas fazerem parte da sua vida, este sentimento de pertença fora do seu país começa a se construir.

Na última sexta-feira resolvi abrir mais meu coração durante o trabalho voluntário e vejam só o que aconteceu: aprendi a dançar salsa com uma cliente, assisti o pôr do sol com outra, aprendi mais sobre história da arte com um professor aposentado e ajudei duas crianças a escolherem seus livros. Sai de lá no final do dia com vontade de sorrir para o mundo, de bater na porta do vizinho e dizer “good night!” e de cantar rap com o atendente da 7-Eleven. Tudo isso e muito mais apenas por deixar cair todas as barreiras da insegurança e ser apenas eu mesma. Foi tão recompensador, que agora quero exercitar isso sempre.

“Leste oeste norte e sul, onde um homem se situa. Quando o sol sobre o azul ou quando no mar a lua.”

Adriana Calcanhoto colocou muito bem em “Maresia” a posição a qual pertence o homem no mundo: todo lugar. Em uma aula na faculdade, lembro de ter lido um texto sobre o sentido de pertencimento a um lugar. Existem pessoas que já nascem entendendo que são cidadãs do mundo, diria que marinheiras. Já outras, sofrem por deixar suas raízes e demoram muito, ou às vezes nunca conseguem, sentir-se pertencente a um novo lugar, a uma nova cultura.

Ah, se eu fosse marinheiro
Seria doce meu lar
Não só o Rio de Janeiro
A imensidão e o mar

Quando você é uma dessas pessoas que precisa colocar tijolo por tijolo na construção da consciência de que pertence ao mundão velho de meu Deus, passa a perceber que tudo fica mais fácil ao se criar um ambiente acolhedor. Por isso, a primeira coisa que comprei quando cheguei em San Diego foi uma planta. Quer dizer, não e uma simples planta, é o Axl, o nosso bonsai. Confesso que não sei a qual família de bonsais ele pertence, só sei explicar que suas raízes são bem gordinhas e suas folhas também. Sempre quisemos ter um, mas não imaginava comprá-lo assim, por impulso.

Acho que estava com tanto medo de me sentir sozinha durante o dia, que quando olhei pra ele ali na prateleira das folhagens, pedindo para sair daquele agito e ganhar um lar, compreendi que faríamos companhia um para o outro durante as nossas horas de silêncio. Hoje ele faz parte da minha rotina e ajuda a criar o sentimento de que existe outro ser vivo por perto quando estou sozinha em casa. Sei que isso parece loucura, mas a distância faz dessas com as pessoas.

Não foi  fácil passar pelas festas de final de ano aqui. Natal e Ano Novo são sinônimos de família e amigos reunidos, festejando, comendo, rezando, abraçando e trocando sorrisos. Nós aqui improvisamos as datas e conseguimos passá-las sem nos sentirmos tão sozinhos, seja um acolhendo o outro, seja os amigos brasileiros e americanos que fizemos por aqui nos recebendo em suas casa.

A grande questão é que, quando você já é um marinheiro, seu coração não parte tão facilmente com os rompimentos impostos pela vida. Ele já está calejado pelas andanças mar afora (ou adentro).

Ah, se eu fosse marinheiro
Era eu quem tinha partido
Mas meu coração ligeiro
Não se teria partido

Ou se partisse colava
Com cola de maresia
Eu amava e desamava
Sem peso e com poesia

Mas o marinheiro só é forte assim, porque ele tem maturidade. Ele sabe que uma vez amado jamais será esquecido, por maior que seja a distância ou o tempo. Ele sabe que o mar nem sempre é calmo e existem muitas tempestades no caminho. Ele sabe que é preciso ter coragem para enfrentar ondas gigantes. Ele sabe que é preciso ter paciência para chegar até o seu destino. Ele sabe que existe uma rota a ser traçada e que nem sempre ela será a melhor ou a mais certeira. Ele sabe que a solidão é sua companheira. Ele sabe que nem sempre o mar dará para ele aquilo que ele quer.

Porém, ele também sabe que em cada porto poderá descobrir novos amores. Que depois de toda tempestade o céu oferece uma paisagem sem igual e que o mar poderá surpreendê-lo com muito mais do que ele planejava encontrar. Ele sabe que pode contar com seu conhecimento e seu coração para chegar onde quer. Que o mar pode dar felicidade em abundância, sustento e aprendizado. Ele sabe que com o tempo ele se tornará um marinheiro melhor e poderá ensinar outros homens a seguirem pelo mesmo caminho.

Não buscaria conforto
Nem juntaria dinheiro
Um amor em cada porto
Ah, se eu fosse marinheiro.

Com o passar do tempo você começa a descobrir as melhores rotas, conhecer seus novos companheiros de viagem, escutar novas histórias e ver nossos lugares. Nesse primeiro mês mantivemos nossa agenda bem cheia e já fizemos alguns bons amigos. Na próxima semana vamos nos mudar em definitivo para nosso apartamento e aí sim começaremos a fixar nossas raízes. Por enquanto, posso dizer que vamos jogar a âncora, mas sem ter nenhuma certeza de quanto tempo ela ficará parada.

Enquanto isso, seguimos velejando com cautela, desviando já de longe de qualquer pedra que possa aparecer no horizonte, aprendendo a confiar em nossos novos guias. Ficamos parados quando sentimos que o mar pode trazer perigo, esperamos a onda passar sem acelerar e contemplamos o horizonte esperançosos.

Enquanto não somos marinheiros, seguimos apenas uma direção, aquela que parece ser a mais segura. Enquanto não somos marinheiros, seguimos desbravando o mar sem muita ousadia. Enquanto não somos marinheiros, seguimos chorando na calada da noite com as fotografias dos nossos amores escondidas embaixo do travesseiro.

“De uma América a outra consigo passar num segundo. Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo.”

Quem nunca viajou nas asas da imaginação ao escutar a música Aquarela do Toquinho? Cada estrofe resume as fases da vida de forma muito doce, seus momentos bons e ruins, e exemplifica como a felicidade realmente está nas pequenas descobertas. Basta imaginar, sonhar e usar todos os lápis de cor a nossa disposição para tornar a aquarela uma realidade. Também podemos aprender com a canção, que existirão momentos preto e branco, que as pessoas que amamos vão se ir com os navios da vida para descolorir em outro lugar e que, por mais longa e dura que a nossa estrada seja, precisamos aprender a passar por eles para encontrar a passarela da felicidade outra vez.

Um menino caminha e caminhando chega no muro E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar Sem pedir licença muda nossa vida Depois convida a rir ou chorar

Antes de vir para San Diego perdi duas pessoas amadas, entre elas o meu avô Lino, foi quando o futuro me convidou a chorar. Meu avô sempre foi um contador de histórias. Minha primeira lembrança de vida é estar ao seu lado, no meu aniversário de dois ou três anos, tocando um piano de brinquedo. Enquanto batia de forma descoordenada naquelas teclas coloridas e de som estridente, ele sorria e cantava alegremente. E ele foi assim durante toda sua vida. Cada conquista, mesmo que pequena, ele comemorava e contava uma história sobre um fato parecido para exemplificar como as coisas eram possíveis.

Tive o privilégio de escrever sobre sua profissão em um trabalho da faculdade. Passei um dia em sua marcenaria, localizada no porão da sua casa, e pude ver quanta paixão, cuidado e perfeccionismo ele empregava em cada objeto que criava. Na última vez que fui visitar minha avó, antes de viajar, decidi ir até a oficina. Foi muito dolorido reencontrar seu guardapó pendurado ao lado da porta, os pregos e o martelo ainda sobre a mesa. Tudo disposto de forma como se ele só estivesse saído por alguns instantes para tomar um café.

No hospital, disse que estava muito feliz com a minha mudança e meu casamento. Até fizemos planos de criar um site para vender suas peças de madeira e seus licores de jabuticaba. Como eu teria mais tempo, poderia ajudá-lo nessa empreitada. Infelizmente não conseguimos começar a pintar esse novo quadro. Mas a astronave do futuro, depois de quase cair, ergue-se e leva você para as estrales, para um lugar mais bonito e cheio de paz.

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo E se a gente quiser ele vai pousar

Foi então que um avião branco surgiu e me trouxe um novo mundo de possibilidades. Seguindo o conselho do meu avô, escutei meu coração e vim atrás da felicidade. Acabei pousando na Biblioteca Pública de Mission Valley sem querer, em uma das minhas caminhadas de desbravamento do bairro. Foi amor à primeira vista!

A biblioteca é pequena, porém muita bonita. Nesse primeiro encontro sentei em um dos sofás e comecei a ler um livro. A partir desse dia passei a ir, pelo menos duas vezes por semana, estudar inglês nesse lugar tão inspirador. Acabei fazendo amizade com um senhor que estuda árabe e com um guarda. E foi através da amizade com o guarda que descobri a oportunidade de ser voluntária aos finais de semana.

Então, o pingo de tinta que caiu no papel virou uma gaivota e voou para encontrar seu bando. Meu primeiro dia de trabalho foi nesse domingo. Estava muito empolgada! No ensino fundamental trabalhei como voluntária na biblioteca da escola durante um ano e desde então passei a amar bibliotecas, pequenas ou grandes. Na faculdade foran muitos dias estudando e trabalhando naquela que é considerada uma das maiores da América Latina. Sempre que viajo, tento conhecer a biblioteca do lugar. Sem sombra de dúvidas a Biblioteca di Ateneo, localizada dentro de um antigo teatro em Buenos Aires, foi a mais linda que conheci até agora.

Trabalhar em uma biblioteca é ter a possibilidade de conhecer muitas histórias, de fazer amizades, de ajudar as pessoas a mergulharem ainda mais nesse mundo cheio de personagens, aventuras e lições de vida e, claro, falar inglês. Estou ajudando a vender livros antigos para a aquisição de novos. Confesso que ganhei muito mais do que doei até agora. Meu chefe, o Bob, é um senhor de mais de sessenta anos que há cinco é voluntário. Muito metódico, foi um ótimo instrutor e ficou muito feliz com a ajuda. A partir de agora, estarei todos os domingos na biblioteca construindo um pedaço da minha passarela e ajudando a colorir e a encher de palavras a vida de todos aqueles que por ali passarem.

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar Vamos todos numa linda passarela De uma aquarela que um dia enfim Descolorirá

Certamente não sabemos onde a estrada da nossa vida irá chegar. Mas não é parado em casa que vamos fazer com que os passos ao longo do seu caminho sejam menos doloridos. Nem sempre é fácil fechar a porta de casa e desbravar o mundo, mas muitas vezes ele pode ser recompensador. Agradeço todos os dias por estar feliz em viver aqui e de ter essa disposição enorme em sair e não deixar o quadro da vida descolorir tão rápido.

“Não aprendi a dizer adeus, mas tenho que aceitar, que amores vêm e vão.”

Leandro & Leonardo transformaram em música a dor do adeus e ensinaram que não é fácil acostumar-se com a distância que nos separa de quem amamos.

Foram através das palavras abaixo, as quais escolhi carinhosamente para me despedir da família, dos colegas e dos amigos que ficaram no Brasil, que coloquei um ponto e vírgula na vida que levava por lá e me encorajei a começar com letra maiúscula uma nova história por aqui em San Diego.

Começo estes registros retomando o “até logo” por assim dizer, para mostrar o quão difícil é fazer escolhas na vida, principalmente quando elas implicam em inúmeras e doloridas renúncias. Ao mesmo tempo, gostaria de tornar pública esta experiência, pois sei que muitas pessoas passaram, passam e passarão pelo mesmo processo. Afinal, compartilhar é comunicar, ajudar, conhecer e crescer.

Há três meses uma notícia mudou meus planos e, consequentemente, a minha vida: a oportunidade de morar em San Diego. Se existe um tempo certo para organizar uma mudança dessas eu não sei, só sei que durante esse tempo eu corri como louca, chorei como criança, fui no Brasco e na volta casei, descobri a insônia, misturei sentimentos, aprendi o que significa desapego e burocracia, aproveitei ao máximo a companhia das pessoas que amo e refleti em looping, dia e noite, sobre como seria partir e recomeçar. O misto de felicidade, saudade, insegurança, medo e esperança dominaram as 24h do meu dia.

E no meio de toda essa mudança não planejada, acabei perdendo meu padrinho Paulo e meu avô Lino. Foi aí que revivi o significado da saudade, da tristeza, da impotência, da dor e da união. Ao mesmo tempo, minha prima Vanessa casou e trouxe o brilho da felicidade para a família. Nunca estamos preparados para nos despedir, ainda mais quando é pra sempre, mas depois da tempestade sempre vem o sol…

Diante de tantas mudanças que 2014 me proporcionou, posso dizer que a principal delas foi o amadurecimento. Durante toda minha vida sempre quis ter tudo sob controle, inclusive meus sonhos, mas agora descobri que se é muito mais feliz quando simplesmente deixamos a vida acontecer e aceitamos as oportunidades que ela nos dá.

Muitas pessoas perguntaram “É aí, o que você vai fazer lá?” e a verdade é que eu vou descobrir agora. Por enquanto posso dizer que vou estudar, construir um lar e apoiar o meu marido na sua nova jornada de trabalho. Decidi viver um dia de cada vez e aproveitar ao máximo o tempo que ainda tinha aqui no Brasil antes de começar a fazer novos planos.

Nos últimos 10 anos trabalhei direto e muito, pois amo o que faço, mas tirei poucas férias e não tive tempo de tocar projetos paralelos. Agora ganhei de presente do destino a oportunidade de poder parar por pelo menos três meses (enquanto meu visto de trabalho não vem) e descobrir um mundo novo de oportunidades.

Dói muito dizer adeus para tanta gente que amo, para o meu trabalho, para a minha rotina, mas quando uma mudança é para melhor, tudo ganha outro significado. Se a saudade é o amor que fica, eu sou puro amor, pois estou carregando dentro do meu coração todos que fizerem de mim uma pessoa melhor.

Obrigada ao amigos, colegas e familiares pelo apoio.