“É dia de feira quarta-feira, sexta-feira, não importa a feira.”

Dois anos se passaram desde que chegamos. E o que dá para dizer desse tempo? Que ele é muito longo quando pensamos na distância daqueles que ficaram, e muito curto para realizar todos os planos que foram colocados no papel. Mas dizem que o tempo é o nosso melhor amigo. Ele ensina, ameniza, cura e reconstrói. E isso é a mais pura verdade!

Em 2016, recebi diversos e-mails de brasileiros que estão planejando sair do Brasil ou que chegaram há poucos meses nos Estados Unidos e gostariam de algumas dicas, principalmente em relação ao custo de vida. Admiro muito a coragem de cada um. Eles estão saindo do seu porto seguro para arriscar, errar, acertar, aprender e evoluir. Assim como nós temos feito todos os dias desde que chegamos.

Então, resolvi listar e responder aqui as perguntas mais frequentes para tentar ajudar outras pessoas que também estão passando pelo mesmo processo de mudança. Muitas dessas perguntas já foram respondidas ou abordadas de forma mais profunda em outros posts, mas agora elas estão organizadas em um único lugar.

Vale lembrar que este é o meu ponto de vista. Sempre recomendo pesquisar muito e falar com outras pessoas para que você tire suas próprias conclusões e faça o planejamento de mudança mais adequado a sua realidade.

Nível de inglês

Se você não fala inglês e vai passar um tempo aqui, minha sugestão é começar a aprender a nova língua o quanto antes. A melhor opção é encontrar uma boa escola de idiomas ou ter aulas particulares. Nas horas vagas, é importante seguir estudando. Recomendo o aplicativo Duolingo, que é gratuito e muito didático, para aprender gramática. Além disso, sugiro escutar rádios como a KPBS (rádio pública de San Diego) e podcasts (como os diversos oferecidos gratuitamente no Google Play e no Spotify). Eu escuto diariamente podcasts de notícias e entretenimento, e posso garantr que eles ajudam muito.

Em San Diego, eu fiz um curso de inglês em uma das escolas da rede San Diego Continuing Education. As escolas são ótimas, possuem ótimos professores e oferecem diversos cursos técnicos gratuitos. A escola não pede nenhuma informação sobre o seu visto! Porém, ela não fornece nenhum tipo de visto, como acontece nas escolas pagas. Então, é um plus nos estudos. No site da escola tem todas as informações sobre agendamento de testes de nivelamento e a lista de cursos de cada unidade.

Aluguel

O valor do aluguel vai depender muito da região que você quer morar. Quanto mais perto da praia, mais caro. Muitos estudantes brasileiros moram em Pacific Beach, que é umas das praias mais bonitas e “mais badaladas” da cidade, com diversas opções de bares e festas. Porém, o aluguel é mais caro que outras regiões. Por isso, muita gente acaba dividindo o apartamento/quarto com outros estudantes.

Muitos estudantes e famílias também acabam optando por La Jolla, que é uma região mais cara justamente por ser uma área nobre e por ser a praia mais famosa de San Diego. Em La Jolla ficam as melhores escolas para as crianças e está localizada também a melhor universidade da cidade, que é a UCSD. Se você vem com sua família, recomendo seguir a página Família nos EUA. Ela possui diversas informações relevantes sobre todos os assuntos que envolvem a mudança de uma família com crianças pequenas para os Estados Unidos.

Se você for dividir apartamento, a média do aluguel varia de $350 a $1300, dependendo da localização, dos serviços que o condomínio oferece, se o quarto será dividido com alguém ou será privado, se as contas serão ou ou não inclusas, etc. Neste grupo de brasileiros no Facebook sempre são divulgandas vagas de moradia, especialmente para estudantes. Se você não for dividir apartamento, o aluguel começa em $1200.

As opções de bairros que são próximos à praia e um pouco mais baratos que os citados acima são: Point Loma, North Park e Hillcrest. Se você não se importa em ficar longe da praia, os bairros mais baratos são El Cajon, Miramar, Mira Mesa, Chula Vista, etc.

Você também consegue saber mais detalhes sobre os valores dos aluguéis pesquisando em sites como:

https://sandiego.craigslist.org/

Caso você decida não dividir o apartamento com alguém que já está aqui, um ponto importante a ser levando em consideração é que você precisa comprovar renda e ter social security (o CPF daqui) na hora da aplicação para a vaga. Alguns locais aceitam fechar negócio caso você apresente um sponsor (fiador), que precisa morar aqui, comprovar renda e ter o social security.

Você também pode tentar morar na casa de alguma família america (e isto certamente fará uma grande diferença no seu inglês!).

Comida

Sobre o valor da alimentação, aqui a comida não é muito cara. Quer dizer, depende do tipo de comida. Fast food e comidas industrializadas em geral são bem baratas. Mas têm vários supermercados com preços bons para comprar frutas, verduras e carnes.

Eu geralmente vou em três supermercados fazer as compras da semana, pois cada lugar oferece um preço bem diferente para cada tipo de coisa. Em média, se gasta entre $50 e $70 por semana para cada pessoa. Já falei com outros amigos e esse valor pode ser um pouco maior, dependendo do quanto você come, do quanto você cozinha em casa e do tipo de comida que você compra (orgânica, sem antibióticos, sem lactose, sem glúten…).

Os supermercados mais em conta são: Food4Less, Smart&Final, Walmart, Grocery Outlet e Costco (é preciso ser sócio para comprar). Fique atento ao encartes que são entregues semanalmente no seu correio e também aos sites e aplicativos desses supermercados. A maioria oferece cupons de desconto.

Lavanderia

Acrescente no seu orçamento uma média de $2,50 a $10 de lavanderia por semana (obviamente o valor aumenta dependendo de quanta roupa você for lavar). A maioria dos apartamentos têm lavanderia coletiva e você precisa pagar por cada lavada/secada de roupa. A média é de $1,5o por cada ciclo na máquina de lavar e $1,00 por cada ciclo para secar. Existem também diversas lavanderias fora dos condomínios, mas geralmente elas são mais caras.

Carro/Transporte público

O transporte público de San Diego é bastante limitado. Geralmente é preciso pegar mais de um ônibus para chegar ao destino final. O passe mensal de ônibus/trem é $72 ou $5 a passagem por dia para usar quantas vezes quiser cada um (isso se você já tiver o cartão, que custa $2 e vale por mais de um ano). No site da MTS você encontra todas as informações sobre intinerários e valores.

Devido a essa limitacão, muitas pessoas acabam comprando um carro para se locomover pela cidade. Você consegue achar carros usados no mesmo grupo de brasileiros no Facebook que citei acima, no Craigslist https://sandiego.craigslist.org/ e em diversos outros sites listados no Google.

Caso você não tenha o social security e não pode comprovar renda por ser estudante, não conseguirá comprar um carro parcelado nas revendas. Por isso, terá que optar por comprar o carro à vista. Então, já se planeje para esse gasto.

Trabalho

Como já disse em outros posts, eu tenho a sorte de ter permissão de trabalho. Em geral, estudantes não podem trabalhar, a não ser que tenham algum documento ou façam um curso que permita. Contudo, muitos precisam se manter por aqui e acabam trabalhando como babá de criança; cuidador de cachorro/gato; garçon/garçonete/cozinheiro/lavador de prato/barista, etc., em restaurantes, bares, cafés e lancherias; com limpeza de casas; como entregador de comida, etc.

Mas atenção! Leve em consideração que se você for estudante e optar por trabalhar sem ter nenhum documento que o permita fazer isso, você estará trabalhando na ilegalidade e poderá ser penalizado se for pego!

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Espero ter ajudado!Caso você tenha alguma dúvida, envie um e-mail para derepentesandiego@gmail.com. Prometo responder assim que possível 😉

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“Ô pacato cidadão, te chamei a atenção não foi à toa, não”

É fato que trabalho é trabalho em qualquer lugar do mundo. Contudo, cada país tem suas prórpias leis e regras que devem ser respeitadas e seguidas.

Nos Estados Unidos, a United States Labor Law regula os direitos e deveres dos empregados e uniões, porém existem leis trabalhistas específicas para cada estado, assim como salários, taxas e regras de trânsito, por exemplo. Por isso, antes de procurar emprego, sempre é bom saber quais são os seus direitos e deveres naquele lugar específico.

E tracei a vida inteira planos tão incríveis
Tramo à luz do sol
Apoiado em poesia e em tecnologia
Agora à luz do sol

A maioria dos pontos que vou citar aqui, eu vivenciei na época que trabalhava na loja. Como ela pertence a uma rede grande e possui milhares de funcionários em todo país, eu via muitos desses casos acontecendo com os meus colegas diariamente.

  • O valor mínimo pago por hora de trabalho na Califórnia é $10. Geralmente, esse é o valor pago pela maioria dos estabelecimentos comerciais. Funcionários de bares e restaurantes podem receber um valor por hora menor, pois ganham 20% em gorgeta, mas alguns lugares pagam o valor mínimo de $10 + gorgetas. Para cada profissão também existe uma média de valor anual (aqui nos EUA o salário sempre é dito em valor anual e não mensal como no Brasil) e é importante fazer esta pesquisa antes de aceitar qualquer proposta.
  • Não existe 13o salário. Porém, muitas empresas (especialmente as grandes) fazem avaliação do funcionário no final do ano e, se ele se destacou e atingiu as metas estabelecidas, pode ganhar bônus e aumento de salário.
  • Muitas empresas pagam os funcionários a cada 15 dias. Funcionários de bares e restaurantes costumam receber semanalmente.
  • A licença maternidade não é remunerada e a mulher pode ficar afastada até 12 semanas. Já soube de casos em que as mães optaram por voltar antes desse tempo, porque precisavam do dinheiro e também porque tinham medo de perder o seu cargo.
  • Cada empresa também define o número de dias que o funcionário pode se ausentar por motivos de doença, o chamado “call sick”. Claro que, se a doença for grave, aí entram outras leis, mas se passar dos dias acordados, o funcionário fica sem receber durante o período que estiver ausente. De forma geral, você tem tantos dias por ano (na maioria das empresas são 8 dias por ano no primeiro ano de trabalho e depois vai aumentando) para ficar doente e não ter desconto no salário.
  • Cada empresa determina quantos dias de férias os seus funcionários terão direito. Esse tempo pode variar de 10 a 20 dias após um ano de trabalho. Empresas maiores podem usar a seguinte regra: a cada ano completado na empresa, o funcionário passa a ganhar 1 dia a mais de férias por ano. As férias podem ou não ser pagas e isso é definido no acordo que o funcionário fez com a empresa.
  • Nos Estados Unidos não existem tantos feriados como no Brasil e os americanos não dão muita importância pra eles. Por isso, é bem comum as pessoas trabalharem durante os feriados e isso significa ganhar a mesma coisa do que nos outros dias. Os feriados em que as pessoas realmente param são o Dia da Independência, Acão de Graças e Natal.
  • As taxas mensais descontadas do salário são de 6.2%, que é retido para o Social Security (aposentadoria), e 1.45%, que vai para o Medicare (saúde). O valor descontado do imposto de renda depede do valor que você ganha, quantos dependentes tem, estado civil, possíveis deduções, isenções e créditos.
  • O total de horas semanais trabalhadas varia conforme a área, pois é possível fazer meio turno de 20h ou turno integral de 40h. O pagamento das horas extras também depende da empresa, que escolhe se vai ser em dinheiro ou folga. Diferente do Brasil, aqui não existe adicional por trabalho realizado durante o final de semana. Ou seja, se você trabalha sábado e domingo, continua ganhando o valor hora acordado por hora e ponto. Porém, quando o empregado trabalha mais que as horas do seu turno parcial ou integral, a empresa precisa pagar 1.5 vezes o valor da hora do empregado.
  • O horário de almoço varia entre 30 minutos e 1 hora, e os intervalos de 15 minutos geralmente acontecem a cada 4 horas de trabalho (era assim na loja). Na empresa onde trabalho agora, o almoço tem duração de 30 minutos e a cada hora eu tenho direto a alguns minutos de pausa. No fim, o que acaba acontecendo na maioria dos escritórios, é que as pessoas levam sua própria comida para não perderem tempo de locomoção até um restaurante. Eu levo todos os dias o meu almoço, pois não tenho muitas opções de restaurantes ao redor da empresa. Ou seja, marmita é algo comum por aqui e ninguém tem vergonha de tirar seu pote da bolsa e colocar na geladeira/microondas. Mas almoçar na frente do computador significa para todos os seus colegas que você está trabalhando. Então, não estranhe se eles vierem falar de trabalho enquanto você está comendo. Já tive que esquentar a marmita várias vezes por causa disso 😉
  • Aqui, não existe recisão como no Brasil. Se você sai da empresa por vontade própria, irá receber o que está sendo devido de horas trabalhadas e era isso. Mas você deve avisar sobre a sua saída com pelo menos duas semanas de antecedência, assim a empresa consegue achar outra pessoa ou realocar alguém para cobrir o seu lugar. É tipo um acordo de cavalheiros. Alguns estados adotam o sistema empregatício “at will”, onde empregadores podem demitir sem justa causa e sem necessidade de aviso prévio. Em caso de demissão em massa (mais de 50 empregados), as leis empregatícias exigem que o anúncio seja dado com 60 dias de antecedência e os empregados devem ser pagos no próximo dia de pagamento seguinte à data oficial da demissão.

Pacato cidadão
Ô pacato da civilização
Pacato cidadão
Ô pacato da civilização

No início, a gente acha que não tem direito nenhum, mas depois se dá conta que nem o empregado e nem o empregador pagam tantos impostos, e que a flexibilidade das regras permite com que a relação entre ambas as partes seja muito melhor. Eu não sou especialista em leis trabalhistas. Por isso, se você tem dúvidas, vale dar uma pesquisada na internet ou falar com um advogado 😉

“Sem trabalho eu não sou nada. Não tenho dignidade. Não sinto o meu valor. Não tenho identidade”

Depois de um ano e quatro meses morando em San Diego, finalmente, posso dizer: consegui um emprego na minha área! Mas para chegar até aqui foram muitos os passos dados, dezenas de tentativas e vários momentos de frustração. Ao mesmo tempo, foi um período de intenso aprendizado, autoconhecimento e determinação.

Algumas pessoas que acompanham o blog conhecem um pouco da minha saga, então vou tentar resumir o processo todo em um parágrafo. Levei seis meses para ter em mãos a permissão de trabalho (concedida para vistos específicos), um mês e meio para conseguir emprego na parte de serviços (que é o forte de San Diego) e oito meses para conquistar um emprego na minha área.

Confesso que durante os dois primeiros meses que eu entrei na loja, dei um tempo para as buscas, pois queria me focar no novo trabalho, lidar com a nova rotina e aprender todos os processos da empresa para conseguir manter o meu cargo e o meu salário. Depois do período de adaptação, voltei aos meus objetivos pessoais.

Muita gente tem a ilusão de que com a permissão de trabalho tudo é muito mais fácil, mas não é bem assim. O documento abre mais portas para você conseguir emprego na parte de serviços, com toda certeza, porém para vagas especializadas, é tão difícil quanto. Além disso, o documento não interfere no salário. O valor mínimo pago na Califórnia é $10 por hora e esse é o padrão da maioria das lojas, supermercados, bares, restaurantes e serviços em geral. Quem trabalha em restaurante ou bar consegue ganhar mais, pois recebe gorjetas. Quem é babá geralmente consegue fazer entre $12 e $15 por hora.

Sem trabalho eu não sou nada
Não tenho dignidade
Não sinto o meu valor
Não tenho identidade

Então, se você vem de um histórico no Brasil com um bom cargo, salário, férias e todas as regalias das leis trabalhistas, pode começar a praticar o desapego e a paciência, caso você venha sem emprego na sua área previamente acertado por aqui.

Quero alertar que este não é um post para desanimar ninguém, muito pelo contrário. Quero é mostrar a realidade americana e a importância de se planejar e ter persistência. O sonho de morar em outro país e fazer dinheiro é algo que exige muito empenho. O mundo todo passa por uma crise, então realmente não está fácil conseguir emprego, agora imagine para quem não tem documentos.

Acredito seja mais fácil conseguir emprego em outros estados americanos ou países não tão turísticos, contudo a Califórnia recebe todos os anos milhares de imigrantes do mundo todo que estão tentando, assim como nós, uma vida melhor e isso faz com que a disputa por um cargo seja maior e, consequentemente, o valor por hora baixe. Sei de pessoas que trabalham com “bicos” por aqui e recebem muito menos dinheiro hoje do que há 5 anos atrás. Ser babá por aqui pagava muito bem tempos atrás. Hoje, vejo anúncio oferecendo $10, $12 e, em poucos casos, $15 a hora. E ainda tem gente que trabalha por menos, porque realmente precisa.

Ainda considero os EUA como um lugar cheio de oportunidades, mas aqui, assim como em qualquer lugar do mundo, você precisa ter referências, experiência, inglês fluente (isso varia de acordo com a função), carro próprio (varia também) e provar que é dedicado, comprometido e bom naquilo que faz para conquistar a confiança.

Eu tenho o meu ofício
Tem gente que não tem nada
E outros que tem mais do que precisam
Tem gente que não quer saber de trabalhar

Os americanos são bem exigentes em termos de pontualidade, produtividade e rapidez. E, como isso é cultural, eles sempre desconfiam de quem vem de outros países, outras culturas, pois muitas vezes não sabem como é a cobrança e a entrega do trabalho por lá. Por sorte, viemos de um país onde a maioria das pessoas trabalha muito, então pra nós é normal já chegar, fazer acontecer e entregar mais que o esperado. Por isso, o brasileiro, na maioria das vezes, tem um crédito grande por aqui.

Eu tentei indicação (obrigada ao sócios da W3Haus por serem tão queridos e continuarem ajudando os ex-funcionários com tanto carinho e empenho) e consegui uma entrevista. Infelizmente, não deu e eu não consegui descobrir o motivo para poder melhorar nas próximas oportunidades.

Depois disso, só consegui fazer mais uma entrevista presencial em um cargo próximo à área, mas como era muito técnico e eu não sou formada em Análise de Sistemas, não deu também. Daí em diante fiz mais uma entrevista por telefone para um cargo semelhante e não consegui mais nada.

Dedicada de uma a duas tardes ou manhãs por semana, dependendo do meu horário na loja, para enviar currículos. Foram quase duzentas tentativas. Fui em duas agências de emprego pra ver se conseguia ajuda ( e aqui agradeço de coração aos sócios da Brivia e da 3yz pelo envio de referências, vocês continuam fazendo a diferença na minha carreira e na minha vida <3). Porém, até hoje não recebi uma vaga deles.

Mas quando chega o fim do dia
Eu só penso em descansar
E voltar pra casa pros teus braços
Quem sabe esquecer um pouco
De todo o meu cansaço
Nossa vida não é boa
E nem podemos reclamar

Quando as minhas alternativas já estavam se esgotando e eu estava até pensando em começar a procurar emprego em outras cidades e, com isso, ter que me mudar, apareceu uma vaga em um dos sites que eu sempre buscava. Apliquei, fui chamada para uma entrevista, depois para uma segunda e então veio a tão sonhada resposta: sim, você está contratada!

Passado quase um mês, ainda não acredito que é verdade. Nas duas primeiras semanas, achei melhor não contar pra quase ninguém (vai saber se ia dar certo). Hoje, digo com todo orgulho que consegui e, por mais que pensasse em desistir em alguns momentos, eu continuei.

Acredito muito que quem faz o bem, recebe o bem, e uma hora ou outra chega a sua vez de brilhar na vida. Eu só não sabia que demorava tanto! Mas a Califórnia tem me ajudado todos os dias a aprender o significado de PACIÊNCIA e PERSEVERANÇA.

Obs.: vou contar mais detalhes sobre o processo de busca por emprego por aqui na página da Família nos Estados Unidos. Curtam lá 😉

“Garota, eu vou pra Califórnia. Viver a vida sobre as ondas. Vou ser artista de cinema. O meu destino é ser star”

Três meses e meio passaram-se desde o último post. Um longo intervalo para quem tinha se comprometido a escrever semanalmente suas experiências. Mas a vida é imprevisível e acabamos nos perdendo no turbilhão de atividades diárias e descontinuando aquilo que seria uma prioridade.

Foram tantas coisas que aconteceram nesse tempo, que serão necessários vários posts para colocar as experiências em dia. Pensei muito no post de “retomada”, porém, antes de falar sobre as três semanas que passei no Brasil, as novas trips feitas, as visitas recebidas e os novos cursos, vou falar de algo que tem ocupado boa parte do meu tempo e tem sido meu grande objetivo atual: conseguir um emprego. Acredito também que este tópico pode ajudar muitas pessoas que estão na mesma situação.

Eu dou a volta, pulo o muro
Mergulho no escuro
Sarto de banda
Na Califórnia é diferente, irmão
É muito mais do que um sonho

Sim, a Califórnia é um sonho de lugar, contudo nenhum recomeço é simples, ainda mais quando se trata de se recolocar no mercado de trabalho em outro país. Desde que voltei do Brasil, há um mês, tenho procurado um emprego na minha área. Antes da viagem, já deixei meu currículo e minha carta de apresentação prontos e validados pelo conselheiro da escola de inglês.

Aqui, todo tipo de informação pessoal é proibida de ser passada para o empregador, tanto no currículo, quanto na entrevista. Claro que existem meios do recrutador conseguir algumas informações pessoais suas, mas é algo que cabe muito mais ao entrevistado se sentir a vontade para falar enquanto se apresenta. Um site que me ajudou muito a criar o currículo e a carta foi o da escola de inglês, o qual possui vários modelos para fazer download.

A primeira coisa que fiz após ter o currículo pronto foi criar um perfil em inglês no LinkedIn. Depois, comecei a procura pelo ponto mais óbvio: Google. Listei todas as agências digitais da cidade e entrei nos seus respectivos sites verificando se havia vaga na minha área. As que tinham, entrava em contato. Como não obtive retorno de nenhuma (a não ser um e-mail automático de retorno), comecei a enviar meu currículo também para as agências que não possuíam vagas abertas. Paralelo a isso, me cadastrei em alguns sites como Monster, IndeedSimply Hired, entre outros, para procurar e receber news de vagas não só de agências, mas também de empresas privadas.

A vida passa lentamente
E a gente vai tão de repente
Tão de repente que não sente
Saudades do que já passou

Eu dou a volta, pulo o muro
Mergulho no escuro
Sarto de banda
Na minha vida ninguém manda não
Eu vou além desse sonho

É tanta coisa nova todos os dias acontecendo por aqui que realmente às vezes fica difícil sentir saudades do que passou desde que chegamos. Cada passo é um mergulho no escuro. E a coragem? Desde que comecei esta jornada de retorno a minha carreira, acabei desviando do meu caminho e enviando alguns currículos para trabalhar no comércio. Por mais que não seja minha área, é uma experiência que pode agregar conhecimento, experiência e, claro, dinheiro enquanto não consigo o meu emprego dos sonhos. Aproveitei que agora algumas empresas estão com vagas temporárias para as grandes festas de final de ano (Dia de Ação de Graças e Natal) e tentei arriscar. Acabei conseguindo duas entrevistas.

Em uma das entrevistas o processo foi feito em grupo. Imagina você sendo entrevistado em outro idioma, com outros três “concorrentes”, sendo o único estrangeiro e sem experiência nenhuma no varejo? O medo bateu logo que cheguei. Respirei fundo antes de entrar na sala e resolvi confiar no meu taco. Pensei “Mais que um não eu não recebo”e “Já ganhei pontos só por ter sido chamada e estar aqui”.

Assim como o currículo é diferente, as entrevistas também são. O foco aqui é totalmente profissional, sem perguntas pessoais, e o recrutador testa sua experiência através de perguntas em que você deve dizer o que faria se acontecesse uma situação x na empresa. Ou quando você fala das suas características, ele pede para citar exemplos disso no seu último trabalho. Na escola recebemos uma lista de perguntas padrões para nos preparamos antes de uma entrevista. Seguem abaixo:

“Please tell me about yourself”: aqui não é pra falar da sua vida pessoal, mas sim para se vender, dizer no que você é bom, quais são suas principais características e descrever resumidamente as funções exercidas nos últimos anos.

“Where do you see yourself in five years?”: dizer qual o cargo que quer alcançar na empresa, mas não esquecer de falar que é através do cargo que você está se candidatando que vai conseguir a experiência necessária para chegar no seu objetivo final.

“Why do you want to work here?”: uma das principais perguntas feitas por aqui. Por isso, é importante dar uma boa pesquisada sobre a empresa antes da entrevista e ter os dados na ponta da língua, mostrando o seu conhecimento sobre ela.

“What are your weaknesses?”: quando for falar de um ponto fraco, já diga o que está fazendo para melhorá-lo. No meu caso, falo do inglês, que ainda não é perfeito, mas que continuo fazendo aulas todos os dias para aprimorar.

“Do you have any questions for me?”: aqui você sempre tem que ter pelo menos umas duas perguntas prontas para fazer e elas não podem ser sobre benefícios e valores, mas sim sobre a rotina de trabalho, quais são os próximos passos do processo, quais as oportunidades de crescimento, etc. Seguem algumas sugestões: “Does this job usually lead to other positions?”, “What are the opportunities for advancement?”, “How would you describe a typical day for this position?”, “How are employees evaluated in your company?”, “If I were offered a job, how soon would you like me to begin?”, “What is the next step in the interview process?”.

Outras perguntas que podem surgir: “Tell me about a difficult situation you had to handle”, “How would your peers or co-workers describe you?”,  “What are your strengths?”, “How are your English skills?”, “Are you available to work nights and weekends?”.

Garota, eu vou pra Califórnia
Viver a vida sobre as ondas
Vou ser artista de cinema
O meu destino é ser star

O saldo final até agora para a minha área foi só uma entrevista por telefone. Assim como no Brasil, tudo é muito mais fácil quando se tem um amigo ou conhecido que possa recomendar você para a vaga. Por isso, o processo de entrar em contato por conta própria com as empresas é muito mais lento.

Nesse meio tempo, acabei participando de um evento de Project Manager na escola onde faço o curso na mesma temática para fazer alguns contatos. Paralelo a isso, tenho feito alguns amigos nos cursos de marketing. Quando as pessoas são da minha área ou possuem uma rede grande de contatos, pergunto se posso adicioná-las no LinkedIn. No LinkedIn também estou buscando profissionais de RH da minha área e enviando e-mail me apresentando e perguntando se eles sabem de alguma vaga que se encaixe no meu perfil.

Sei que a descrição do processo parece simples, mas não é. Alguns sites pedem para você fazer um cadastro completo (que incluiu toda sua experiência profissional, educação, cursos, 90 perguntas de múltipla escolha sobre situações que podem acontecer no dia a dia da empresa, etc.) e você acaba perdendo uma hora só para se candidatar a uma vaga. E, para cada e-mail enviado, é preciso mudar algumas características do currículo e reescrever a carta de apresentação. O processo é lento e exige muita paciência.

Já bateu o pensamento de que é meio frustrante dar vários passos atrás para recomeçar. De cada 20 currículos que você envia, somente um dá retorno. Às vezes, nenhum. Você até tem chance sim de ser star na Califórnia, mas precisa lutar muito para ter seu lugar de destaque ao sol. Ninguém disse que seria tão difícil recomeçar. Porém, também ninguém falou que seria possível fazer melhor quando se tem uma segunda chance, e que nunca é tarde pra aprender a ser mais humilde e otimista.